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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Fora da Doutrina Não Há Orientação Segura


Fora da Doutrina
não há orientação segura

Tibúrcio Barreto / Indalício Mendes
Reformador (FEB) Abril 1955

            Nota-se, com pesar, a multiplicação de "centros", "cabanas" e outros grupamentos ditos espíritas, onde se tem a impressão de ambiente nitidamente católico; em virtude das imagens espalhadas liberalmente em altares e de práticas que, longe de serem espíritas, pois o Espiritismo não as endossa, são evidentemente da liturgia romana. Além disto, pessoas sem suficiente educação doutrinária de Espiritismo, trazem para este preconceitos e hábitos católicos e de outras origens, assim como já estão levando para o perigoso setor das festividades sociais o nosso credo, deturpando-o pelo enxerto que realizam abusivamente. Assim, tal como há missas de formatura, batizados e casamentos, também já estão sendo feitas (!), em determinados agrupamentos ditos espíritas, "preces" de casamentos, batizados e formaturas...

            Mais do que nunca há necessidade de uma união muito íntima e permanente em torno dos princípios pregados e defendidos pela Federação Espírita Brasileira, sustentáculo da Doutrina firmada através dos livros de Allan Kardec. A facilidade com que são criados e improvisados 'centros" espíritas, por pessoas sem idoneidade doutrinária, muitas vezes sem o esclarecimento dispensável para assumir a enormíssima responsabilidade de direção de uma casa dessa natureza. Daí essa invasão de preceitos e procedimentos que se antagonizam com a Doutrina Espírita, que não aceita nem admite imagens, não cultiva a idolatria e não se prende a disciplinas litúrgicas, consoante os ensinamentos deixados por Allan Kardec. Tudo isso acontece porque muitos "centros" são dirigidos por quem não reúne qualidades para tanto. Um diretor de casa espírita, para desincumbir-se satisfatoriamente de sua função, deve estar atento aos preceitos doutrinários e não permitir que de modo algum a Doutrina seja desrespeitada e enfraquecida pela introdução de normas exóticas, trazidas de outras religiões, principalmente daquelas que se interessam pelo debilitação do Espiritismo como Religião racional, Ciência progressiva e Filosofia da Alma na dupla ambiência do material e do imaterial.

            Todos os esforços dos bons espíritas deve, pois, convergir para o estudo e para a difusão da Doutrina. Preliminarmente, ninguém deve ignorar que não são práticas normais nem admissíveis no Espiritismo as realizações de casamentos, batizados, batizados de animais (!), missas, bênçãos de espadas, de automóveis, de casas comerciais, de campos esportivos, preces de ação de graças por formaturas, etc., etc., etc. Os que assim procedem ou aceitam essas coisas demonstram não se haverem libertado ainda dos hábitos católicos, tanto que trazem para o Espiritismo as práticas que colidem frontalmente com a nossa Doutrina. Desse modo, estão favorecendo a intenção dos padres, que querem a corrupção do Espiritismo, de seus princípios doutrinários e de suas práticas simples, para que eles mesmos possam oportunamente encontrar pretextos para o combate à nossa crença.

            Eis porque importa muito estudar a Doutrina e propagá-la com tenacidade. Ninguém pode fazer-se espírita verdadeiro de um dia para outro, só porque aceitou sem maior estudo certas manifestações fenomênicas ou porque teve também o "seu caso positivo", que o fez voltar-se para o Espiritismo. Ninguém pode dizer-se realmente espírita apenas por ser médium, visto como este dom pode ser de qualquer um, espírita ou não, crente ou descrente. O que torna alguém espírita, no seu sentido mais puro, é o conhecimento e a exemplificação da Doutrina, sua conduta moral em face desta e do Evangelho. Já o dissera Allan Kardec: "Anos são precisos para formar-se um médico medíocre e três quartas partes da vida para chegar-se a ser um sábio. Como pretender-se em algumas horas adquirir a ciência do infinito? Ninguém, pois, se iluda: o estudo do Espiritismo é imenso; interessa a todas as questões da metafísica e da ordem social; é um mundo que se abre diante de nós. Será de admirar que o efetuá-lo demande tempo, muito tempo mesmo?" (Allan Kardec, "O Livro dos Espíritos" - "Introdução ao estudo da Doutrina Espírita".)

            Em suma, o que vem sendo feito para imitar a Igreja católica representa gravíssimo erro, digno de ser vigorosamente combatido. Aqueles que estão transformando casas chamadas de espíritas em capelas cheias de santos e velas, trazendo para os centros rituais próprios do Catolicismo e de outras religiões, estão contribuindo para o fortalecimento dos adversários do Espiritismo e para o enfraquecimento do movimento espírita. Não podem, portanto, estar bem orientados. Já o fato de alguns adotarem como denominação oficial de seus centros ou "cabanas" o nome de espíritos, sem dúvida iluminados, precedidos dos adjetivos "São", "Santo" e "Santa", revelam não se encontrarem ainda desvencilhados da influência católica, tanto que consideram imprescindível titular os patronos de suas casas como o faz a Igreja.

            Mais do que nunca, os espíritas esclarecidos devem cerrar fileiras em torno da Doutrina que nos legou Allan Kardec. Trabalhar por ela, difundi-la, popularizar cada vez mais seus princípios essenciais, pelo menos, a fim de que se possa, numa campanha de reeducação e de elucidação, impedir que o erro se propague e se consolide.


            Compreendam todos aqueles que se encontram a serviço da causa espírita: fora da Doutrina não há orientação segura.


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