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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Péssimos Sermões



Será que a carapuça se encaixa em alguns de nossos palestrantes?


Péssimos sermões
Direção
Reformador (FEB) Junho 1961

            O que se vai ler não é nosso. É uma grande parte do artigo publicado, no "Jornal do Comércio" de Recife, edição de 20-3-61, pelo Prof. Dr. Olívio Montenegro, católico praticante de grande projeção em todo aquele Estado.

            Porque as suas observações - com tristeza o dizemos - se ajustam a muitos oradores espíritas, é que nos dispomos a transcreve-las nestas colunas.

            "Deus me perdoe se digo uma heresia; mas hoje para se entrar indiferentemente numa igreja e cumprir aos domingos e dias santos o mandamento da santa missa, é preciso uma alma perfeita, experimentada já em longos e penosos exercícios de penitência.

            Digo assim por causa do sermão que o bom e desprevenido filho de Deus se arrisca a ouvir de padres de muitas dessas igrejas. Padres excelentes, de um fundo cristão admirável, sempre em dia com os seus deveres religiosos, mas que uma vez no púlpito se transfiguram; o demônio da vaidade toma conta deles e ficam então só no verbo, um verbo difuso, confuso, exclamatório, que ora parece feito todo de vento, ora todo de fumaça, e dando não raro a impressão assustadora, terrível, de que não vão acabar mais, como se o orador se tivesse emaranhado e perdido nas suas palavras, sem poder sair delas.

            O primeiro impulso é acudir, socorrer o padre, tirá-lo do púlpito como se tira do mar um náufrago.

            Não compreendo bem porque, sob o pretexto de explicar os santos e simples Evangelhos, padres a quem falta todo o dom da palavra se alastram em sermões enormes e de que tão pouco ou absolutamente nada vai ficar no espírito dos seus ouvintes que lembre a sabedoria do Divino Mestre.

            E o mais grave é que eles não se contentam com a palavra somente, a palavra e mais nada, a palavra nua e crua caindo como solitários pingos de sebo sobre a muda paciência dos seus ouvintes. O sermão, assim descarnado e seco, seria uma modéstia, mas a vaidade não pode ser modesta. Dai esses sermões se acompanharem de mil gestos e trejeitos, e outras vezes são os olhos do pregador que só faltam pular das órbitas de dramaticamente abertos como um apelo de possesso ao aplauso e à admiração dos piedosos e calados fiéis.

            É toda uma mímica de teatro que se surpreende em certos desses sermonistas, como se dentro deles estivesse não o anjo de que fala S. Bernardo, mas o próprio demo; o espírito do Maligno, não o Espírito divino. Porque, falando a verdade, esses oradores sacros chegam a ser enfáticos, não apenas com a voz, mas com todo o corpo, e se deixam por vezes ficar na ponta dos pés, como se somente eles devessem aparecer, e quisessem encobrir Deus.

            Outros há que não apenas arregalam os olhos mas piscam mesmo os olhos para os fiéis, quando intercalam uma graça no seu discurso, quando se dão ao humorismo ou ao sarcasmo. E ainda os há que abrem desmesuradamente os braços como se fossem voar, provocando assim uma esperança feliz nos assistentes. Mas nunca voam.

            Isto sem falar nos frades barbilongos, de uma aparência venerável, cuja presença no púlpito parece uma cópia dos antigos profetas, mas, logo que começam a falar, sente-se que o profeta foge dele e fica só o frade sonoro.

            Assisti um dia destes à falação de um desses frades cheios de longa barba e de longos sermões. Começou manso, num tom morno, quase de surdina, quando, de repente, se desgarra a sua voz em exclamações de um patético de teatro. Exclamações do tamanho de um grito. A própria face do bom frade pareceu transfigurar-se; a sua longa barba eriçou-se toda como um feixe de espinhos, espinhos talvez para uma nova coroa de martírio de Nosso Senhor Jesus Cristo.

            Vêm de longe, é preciso que se diga, esses espetáculos de vaidade. Desde a Idade Média. No seu famoso livro "De Humilitate", já S. Bernardo, que é uma autoridade insuspeita, a mais insuspeita de todas, alude a esses monges que "têm fome e sede de um auditório diante do qual possam exibir todos os tesouros da sua vaidade e fazer bem apreciar o seu valor, mostrar o que são". Em seguida a outras considerações do mesmo teor, ainda diz S. Bernardo: "ouvindo-se a esses monges, dir-se-ia que a sua boca é um rio de vaidade".

            O padre Antônio Vieira é um pouco mais rude.

            Ele diz no seu sermão da Sexagésima: "Uma das felicidades que se contava, entre as do tempo presente, era acabarem-se as comédias em Portugal; mas não foi assim. Não se acabaram; mudaram-se; passaram-se do teatro ao púlpito." E mais adiante: "Muitos sermões há que não são comédia, são farsa. Sobe talvez ao púlpito um pregador, dos que professam ser mortos para o mundo, vestido ou amortalhado em um hábito de penitência (que todos, mais ou menos ásperos, são penitência; e todos, desde o dia que professamos, mortalhas), a vista é de horror, o nome de reverência, a matéria de compunção, a dignidade de oráculo, o lugar e a expectação de silêncio; e, quando este se rompeu, que é que se ouve?" Comédia e farsa, responde o mesmo Padre Vieira.

            Consola-nos que nem todos fazem comédia e farsa. Há os padres simples e de uma inteligência que vai direto ao que mais importa saber dos fatos do Cristianismo, que não especulam enfaticamente com o antigo e o novo Testamento. Aqui mesmo, numa ou noutra paróquia, assim os vemos."




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