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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

1. É tempo de recordar Guillon Ribeiro

1.  É tempo de recordar Guillon Ribeiro...



Fonte:  ‘Instruções Psicofônicas’ (FEB) 7ª Ed 1995-FEB

                        “...em nossa reunião da noite de 26 de maio de 1955, a transfiguração do médium era mais sensível. A breves momentos, soou, reconfortante e bem timbrada, a palavra do mentor que nos visitava. Esse amigo era o Dr. Gulllon Ribeiro, aquele digno orientador de nossa Causa, no Brasil, que, por muitos anos, foi o venerável Presidente da Federação Espirita Brasileira, e cujo devotamento à nossa Doutrina prescinde das nossas referências. Sua palavra, na rápida passagem por nosso recinto, constitui elevada exortação ao desempenho dos deveres cristãos que nos cabem no Espiritismo, compelindo-nos a pensar mais detidamente na extensão de nossos compromissos. Esclarecemos que esta é a primeira comunicação do Dr. Gulllon Ribeiro, quer psicográfica ou psicofonicamente, através das faculdades do médium Xavier. Grande foi, portanto, a nossa alegria em lhe recebendo a mensagem direta e agradecemos reconhecidamente a Jesus semelhante contato.”


                        Do Blog: Lembrem-nos que o ‘tradutor’ Guillon Ribeiro foi presidente da FEB por cerca de 15 anos. Seu segundo mandato iniciou-se em 1930 e durou 13 anos. Junto com Manuel Quintão recepcionou o jovem Chico Xavier e encaminhou sua trajetória. Quando, com a saúde já muito debilitada, deixa a presidência da FEB, Chico já tinha apresentado o melhor de sua obra apesar das enormes dificuldades materiais encontradas pela FEB convivendo num ambiente já convulsionado pela conflito armado em escala mundial, gerador de quase insuperável escassez de matérias primas consumidas no esforço de guerra.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A Doutrina é Tudo

A Doutrina é tudo

Percival Antunes/ 
(Indalício Mendes)


Reformador (FEB) Junho 1962

            O Espiritismo, tal como o definem os Espíritos na codificação kardequiana, não será ja
mais uma religião sacerdotal e muito menos profissional, dotada de templos suntuosos e subordinada a encenações litúrgicas, incompatíveis com a humildade evangélica encontrável nos princípios do primitivo Cristianismo.

            Desse modo, o Espiritismo é o refúgio de todos os que se sentem desamparados de justiça, de todos os que sofrem, de todos os que percebem a necessidade de orientar a vida terrena com as luzes da Espiritualidade. Os sofredores, os humildes, os injustiçados, os preteridos, os esquecidos, encontram no Espiritismo o lenitivo de que precisam para vencer as suas dificuldades morais e os seus problemas espirituais.

            Todavia, aqueles que concorrem para o desequilíbrio social, os maus ricos e os poderosos que subestimam os fracos, também costumam buscar no Espiritismo, quando atingidos pela lei correcional do Carma, a paz que deles se afasta. Então podem aprender que não são melhores que os seus semelhantes. Se aproveitam as lições e procuram reparar os males causados por seu comportamento terreno, conseguem salvar parte da experiência encarnacionista.

            Em suma, o Espiritismo mostra a nova forma do verdadeiro Cristianismo, do Cristianismo do Cristo, e pode continuar cumprindo sua missão educativa e corretiva no seio da Humanidade, levando luz onde houver treva, água onde houver sede, pão onde a fome predominar, e paz onde a dissidência estiver em ação.

            Para que o Espiritismo possa cumprir, como até hoje, sua alta missão, seus adeptos terão que repelir tudo quanto seja capaz de deturpar ou comprometer a Doutrina dos Espíritos, a fim de que ele não venha a sofrer no futuro o que sofreu o Cristianismo do Cristo, cujos princípios foram falseados e não chegaram a influir positivamente na formação moral dos homens.

            Há na criatura humana a tendência natural para inovar ou para acomodar-se a conveniências, ainda que à custa da desnaturação de ideais, doutrinas e programas. Alguns querem correr demais, outros não querem correr mais. Numa doutrina, como a espírita, não há necessidade de inovações nem de estagnação. Tudo está perfeitamente determinado e previsto. Basta que a doutrina seja exemplificada como é preciso, para que tudo corra bem.

            A Doutrina Espírita não é obra humana. Diz o Codificador na “Introdução” de “O Livro dos Espíritos: “A Doutrina dos Espíritos não é de concepção humana. Foi ditada pelas próprias Inteligências que se manifestaram, quando ninguém disso cogitava, quando até a opinião geral a repelia.”

            O Espiritismo expande-se pelo mundo e, para alegria nossa, o Brasil constitui o bastião do movimento espírita mundial. É que a Doutrina dos Espíritos não necessita de adaptações, pois a Humanidade é uma só, em qualquer parte da Terra. Além disso, é da própria natureza da Doutrina o possuir enorme elasticidade e capacidade de adaptação, sem perigo de serem constringidos ou feridos os princípios essenciais em que ela está erigida.

            Importa, porém, que todos os espíritas compreendam, aceitem e prestigiem essa maravilhosa maleabilidade que assegura a eternidade dinâmica da nossa Doutrina.

            Nosso dever é pensar e agir de modo a evitar se instalem no Espiritismo os preconceitos sectários, o fanatismo, o farisaísmo, o misticismo mórbido, a passividade suicida, a aquisição de hábitos e práticas trazidos de outros credos, o intelectualismo fofo e estéril, além do personalismo e da presunção de onisciência. Precisamos ser cada vez mais humildes, cada vez mais convencidos de que nada somos, nada sabemos e nada poderemos alcançar sem que estejamos sendo fiéis, assim na teoria que na prática, às determinações da Doutrina.


            O espírita só o é mesmo quando conhece e exemplifica a Doutrina, mantendo-se humilde, fraterno, prestativo, sereno, tolerante, ativo e trabalhador, mais apto a perdoar do que a punir.

Reencarnação - Verdade Eterna

Reencarnação 
- Verdade Eterna
Boanerges da Rocha 
/ (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Fevereiro 1971

            A  pouco e pouco a ideia da reencarnação vai conquistando o mundo, não obstante a reação dos céticos e materialistas. Vamos alinhar alguns testemunhos interessantes, colhidos entre figuras de realce no antigo mundo da religião. Ver-se-á que a reencarnação, recusada mais por orgulho e preconceito do que por convicção alicerçada na lógica, está bem enraizada na alma das criaturas humanas.

            Santo Agostinho, em “Confissões” (i:6), pergunta: “Não terei vivido em outro corpo, ou em alguma parte, antes de entrar no ventre de minha mãe?” São Justino, o Mártir, disse explicitamente que a alma do homem ocupa o corpo humano em mais de uma ocasião e que o homem tem dificuldade de lembrar-se de suas vidas pregressas.

            Segundo Rufino, há uma carta escrita por Santo Anastácio, na qual este declara sua firme crença na preexistência e aceita a reencarnação. São Gregório de Nissa, por sua vez, assim se expressou acerca das vidas sucessivas: “É absolutamente necessário que a alma seja curada e purificada) e se isso não ocorre durante sua vida na Terra, deve acontecer nas vidas futuras”.

            Devemos acrescentar que, antigamente, era muito comum a aceitação da metempsicose, mesmo da parte de religiosos de destaque. Hoje, a ideia da metempsicose está afastada. O Espiritismo a esclarece perfeitamente nas obras subscritas por Allan Kardec. Os Espíritos superiores já deixaram claro que o homem não pode encarnar em animais, e que nem o contrário é admissível.

            Continuemos, porém. Arnóbio, o Numídio, apologista do Cristianismo, escreveu: “Nós morremos muitas vezes e muitas vezes ressurgimos da morte”. Clemente de Alexandria declarou que a reencarnação é uma verdade transmitida pela tradição e autorizada pelo próprio São Paulo.

            Tomás Campanella, o famoso monge dominicano, foi exilado em virtude de sua crença na reencarnação. Dizia ele que a alma voltava repetidamente à Terra. A reencarnação, nos velhos tempos, teve inúmeros advogados dentro da Igreja Católica esclarece Palmer Hall, na obra “Reincarnation”, e menciona São Francisco de Assis, o monge João Escoto Erígene, São Boaventura, e outros.

            O famoso Cardeal Mercier, que teve tanto renome por seu comportamento durante a invasão da Bélgica pelas alemães, em 1914, afirmou não ver nenhum conflito entre a doutrina da reencarnação e o dogma católico, opinião essa que também foi perfilhada, anteriormente, pelo Arcebispo L. Puecher Passavalli.

            Outro monge célebre, o filósofo Giordano Bruno, queimado vivo pela Inquisição, afirmou que “nada se perde no Universo e que todas as coisas mudam e se transformam: A alma transmigra e,  assimilando em torno de si os átomos necessários,  reconstrói um novo corpo para seu uso futuro”.

            O reverendo William Alger, que em 1860 era adversário intransigente da reencarnação, publicou um livro, em 1878 - “Crítica Histórica da Vida Futura” - modificando sua opinião e esclarecendo que cada encarnação é determinada pelos méritos e deméritos da alma em cada uma de suas vidas precedentes. Aí está, clara, a aceitação da Lei de Causa e Efeito, a Lei cármica, que rege a vida humana no planeta em que vivemos.

            Hoje, as coisas estão muito mudadas. A liberdade de pensamento facilitou o esclarecimento da humanidade, de modo que cresce sem cessar o número daqueles que, embora filiados a credos anti-reencarnacionistas, aceitam a doutrina das vidas sucessivas, compreendem a influência decisiva dos atos e pensamentos de cada um em sua futura existência. Sua mente, liberta do demônio já aposentado, e seu corpo livre das torturas e das chamas inquisitoriais, lhes oferecem campo amplo para adquirir o conhecimento da Verdade, durante séculos obscurecida pelo transmontanismo.

            O dia em que toda a humanidade se libertar de velhos preconceitos e absurdas superstições, a Terra se iluminará de felicidade, porque, já então, cada criatura humana, ciente das suas responsabilidades em face da Lei cármica, pautará seu comportamento pelas normas puras do Evangelho de Jesus, que é o roteiro seguro e infalível para a conquista da paz.




domingo, 18 de janeiro de 2015

Liberdade de Crença

Liberdade de Crença
Geraldo Rocha
Reformador (FEB) Setembro 1955

            Em obediência a instruções recebidas do Sumo Pontífice, os prelados sul-americanos se acham reunidos no Rio de Janeiro, a fim de, aproveitando-se do prestígio resultante do Congresso Eucarístico, conseguirem que os países deste continente involuam de mais de um século, regressando ao regime inquisitorial. O Papa considera como inimigos da Igreja Católica os espíritas, os protestantes e os comunistas, cuja extinção deseja para o completo triunfo da organização internacional de que é Chefe absoluto.

            Os protestantes e os espíritas exercem, no Brasil, missão mais benfazeja e desinteressada de que os padres católicos. Milhares de colégios protestantes funcionam em todos os Estados, cobrando taxas às vezes inferiores de 50% sobre o vigorante nos estabelecimentos de ensino dirigidos pelos padres. Todos os colégios e fundações católicas são, em geral, subvencionados pelos cofres públicos, em compensação dos auxílios que distribuem. Em todo o interior do nosso país se encontram missões protestantes, as quais fornecem gratuitamente remédios e socorros de toda a espécie às populações flageladas, sem outra recompensa além da consciência do cumprimento de um dever de fraternidade humana, peculiar às almas bem formadas. Centenas de médicos, advogados e professores têm conseguido educação graças ao auxílio desinteressado dos pastores protestantes, que selecionam em nossos sertões inteligências de elite que surgem entre as selvas adustas e abandonadas. As seitas espíritas também são agremiações benfazejas, que exercem o seu mister entre os que, carecedores de elementos de fortuna, procuram um lenitivo na outra vida, para melhor suportar as injustiças reinantes entre os homens. Entre estes crentes surgem abnegados, que inspiram respeito a todos os que os observam. Fred Figner foi um destes apóstolos, dignos da admiração de seus semelhantes. Um de meus colegas de imprensa narrou-me, emocionado, uma cena que se passou em sua residência. Sua velha genitora, sofrendo de um ataque cardíaco, estava apavorada com a ideia de um próximo falecimento. Pediu, então, a veneranda senhora ao seu filho, que solicitasse a Fred Figner que a fosse visitar. O jornalista não conhecia Figner e ignorava, também, o assunto sobre o qual versaria a conferência tão desejada por sua genitora. Dirigiu-se, então, ao estabelecimento comercial de Figner e lhe expôs o desejo manifestado por sua mãe. Figner não hesitou um instante, vestindo o paletó e pondo-se a caminho em companhia do jornalista, no rumo da casa onde residia o meu colega. Lá, Figner entrou para o quarto da enferma, o filho deixando os dois sem testemunhas. Uma hora e meia depois, Figner, despedindo-se, foi conduzido à sua casa comercial e o jornalista, volvendo à residência, encontrou a enferma encarando a morte com a máxima serenidade e indiferença, transformação que o meu colega só podia atribuir à obra de Figner, pelas ideias que conseguira inculcar no espírito da moribunda.

            A obra benfazeja dos protestantes e dos espíritas é absolutamente gratuita e abnegada e, se retrogradarmos impedindo a ação benéfica desses filantrópicos cidadãos, quem os substituirá no papel que desempenham? Os benefícios distribuídos pela Igreja Católica são todos oriundos dos cofres públicos, provindo das subvenções largas que distribuem os poderes federais, estaduais e municipais. O tesouro de São Pedro, que se eleva, ao que dizem, a treze biliões de dólares depositado nos bancos protestantes, não se mobiliza para proteger os infelizes em todos os pontos cruciais da Terra. As subscrições feitas pelo clero e as subvenções conseguidas devem bastar para atender às necessidades da pompa local, devendo ficar ainda um saldo para atender à subsistência da pompa do Vaticano. Não podemos retrogradar, como o desejam os prelados. Queremos a liberdade de crenças, sem a qual a Democracia não poderá viver.


Editorial de "O Mundo Ilustrado", de 10/08/1955

O Cardeal Arcoverde encerra a sessão

O Cardeal Arcoverde
encerra a sessão
Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB) Setembro 1955

            As sessões de doutrinação em Pedro Leopoldo (Minas Gerais) são feitas de portas fechadas, como recomendava Allan Kardec, e repetem hoje os nossos Guias. Nelas só tomam parte os membros do grupo, os médiuns e doutrinadores.

            Por uma graça especial dos Guias, foi-nos permitido assistir a uma dessas sessões, em 21 de Julho de 1955, quando no Rio de Janeiro se realizava o 36º Congresso Eucarístico Internacional. Foi muito penoso para todos nós entrarmos em contato com os grandes sofredores desencarnados, ouvirmos histórias horríveis de grandes faltas e suas tremendas consequências.

            Seria uma impiedade expor tão sangrentas chagas diante do público. Delas não trataremos aqui. Muitos sofredores dão seu nome, mesmo sem serem interrogados, e contam suas tristes histórias. Apenas vamos registar que os doutrinadores trabalham com muito amor e inteligência, ajudando os sofredores.

            A prece de encerramento foi a única comunicação da noite que se gravou em fita para ser mais tarde datilografada. Fê-la com muito sentimento o luminoso Espírito do Cardeal Joaquim Arcoverde que, ao terminar sua oração, disse algumas palavras de saudação e declinou o seu nome.

            Eis a prece, obtida psicofonicamente, por incorporação no médium Francisco Cândido Xavier:

            Jesus!
            Senhor e Mestre!

            Nesta hora em que a Igreja Católica Romana, de que temos sido modesto servidor, se engalana, no Brasil, com os júbilos do Trigésimo Sexto Congresso Internacional das Forças que a representam, derrama sobre nós a bênção do teu olhar.
            Ensina-nos que a tua causa é aquela do amor que exemplificaste e que, por isso, não há cristãos separados, mas, sim, ovelhas dispersas de teu aprisco, a se dividirem provisoriamente nos templos da fé viva, em que a tua Doutrina é venerada.
            Tu que desceste da glória à manjedoura para servir-nos, induze-nos à humildade para que te não injuriemos o nome com a mentirosa soberbia do ouro terrestre.
            Tu que estendeste a abnegação aos próprios verdugos, inclina-nos à bondade e à tolerância, a fim de que sejamos verdadeiros e fiéis irmãos uns dos outros.
            Tu que nos recomendaste a oração pelos que nos perseguem e caluniam, expulsa de nossa vida o ódio e a crueldade, a discórdia e o fanatismo, que tantas vezes nos envenenam os corações.
            Tu que te detiveste, entre cegos e estropiados, enfermos e paralíticos, distribuindo o socorro e a esperança, impele-nos a deixar nossa velha torre de egoísmo e isolamento, a fim de consagrarmo-nos contigo à exaltação do bem.
            Tu que não possuíste uma pedra onde repousar a cabeça, guia-nos ao desprendimento e à caridade, para que a embriaguez da efêmera posse humana nos não imponha a loucura.
            Senhor, nós, os religiosos da tua revelação, abusando do poder da fortuna, temos nossos deveres para com o mundo que, engodado pela inteligência transviada nas trevas, ainda agora se dirige para a deflagração de pavorosa carnificina.
            Divino Pastor, compadece-te do rebanho desgarrado nos espinheirais da ilusão e da sombra! Perdoa-nos e ajuda-nos.
            Mestre, faze que os sacerdotes retos, que já atravessaram as cinzas do túmulo, voltem de novo à Terra, em auxílio de seus irmãos que ainda se mergulham no nevoeiro da carne!..
            E que todos nós, acordados para a justiça, possamos retornar ao teu Evangelho de amor puro e simples, louvando-te o apostolado de luz, para sempre.

            Infelizmente, a escrita não pode reproduzir a beleza da voz com que foram ditas estas palavras, em tom pausado, emocionante, solene, majestoso, que nos tocou profundamente os corações ao ouvi-las.


O Anátema Papal


            A resposta abaixo foi formulada após o 36º Congresso Eucarístico (evento católico) realizado no Rio de Janeiro em 1955. Temos outras respostas. Vamos tentar coloca-las juntas...

O Anátema Papal
Túlio Tupinambá / Indalício Mendes
Reformador (FEB) Setembro 1955

            As palavras do Papa Pio XII, incluindo o Espiritismo entre os inimigos do Catolicismo, embora constituam dolorosa inverdade, que jamais deveriam ter partido dos lábios de um sacerdote de alta hierarquia em seu credo e ao qual se atribui o título de Santidade, revelam, por outro lado, eloquente confissão do estado de terror e pânico que tomou conta da Igreja. Só o fato de o Papa se referir diretamente ao Espiritismo é uma demonstração do grande desenvolvimento que alcançou no mundo, e principalmente no Brasil, a Terceira Revelação, a ponto de justificar uma advertência frontal do Chefe da Igreja Católica. Ainda que habituados já aos agravos oriundos do Catolicismo, que nos ataca e ofende, sem atentar para a nossa humílima condição de meros obreiros do Cristo, não deixamos de ficar surpreendidos com as palavras do Papa Pio XII. Que fazemos nós para ser considerados "inimigos astutos do Catolicismo"? Não seguimos sua doutrina nem aceitamos seus atos litúrgicos, obedientes ao exemplo de Jesus, que não adorou ídolos nem imagens. Pregamos, porém, a pureza do Evangelho interpretado em Espírito e Verdade. Procuramos acender no coração das criaturas o amor pelos semelhantes, consoante os ensinamentos do Nazareno. Buscamos realizar obras de caridade e de assistência aos que sofrem de males do corpo e da alma, sem a estipulação de obrigações de nenhuma ordem. Não mantemos sacerdotes profissionais nem desfrutamos de privilégios humanos. Nosso caminho é o mesmo que foi trilhado por Jesus e seus primeiros discípulos. Cuidamos da nossa Doutrina com carinho e nos exercitamos da melhor maneira possível na prática do
bem, em suas diferentes formas. Nossas casas de caridade servem a todos indistintamente, sem discriminação de credos. Qualquer ser humano, seja católico, protestante, muçulmano, judeu, mórmon ou ateu, vale para nós a mesma coisa que o espírita, quando necessita de ajuda. Jesus não distinguiu ninguém e a todos acolheu com a mesma solicitude e a mesma boa-vontade. E ainda fez sentir que não são os sãos que precisam de socorro, mas os enfermos. O espírita já conhece o caminho da Verdade e colabora sempre, em qualquer circunstância, para o bem do próximo. Não faz o bem apenas a outros espíritas, porque, se assim fosse, estaria fugindo das lições de Jesus.

            Em que podemos ser inimigos do Catolicismo ou de outro qualquer credo, se apenas nos preocupamos com o nosso para melhor servirmos ao mundo? Foi isto o que Jesus pregou e diligenciamos, tanto quanto nossas inferioridades o permitem, "amar os nossos inimigos", "fazer o bem aos que nos odeiam" e "orar pelos que nos perseguem e caluniam". Não somos inimigos de quem quer que seja e nossas obras atestam nossas palavras. Leiam os livros espíritas, os elevadíssimos conceitos das obras divulgadas pela Federação Espírita Brasileira, através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier e de ou devotados servidores do Mestre.

            Àqueles que nos consideram seus inimigos, como a Igreja, pela palavra do Papa Pio XII, por exemplo, o Espiritismo responde com preces ungidas de amor! Porque somos agredidos, insultados, subestimados e perseguidos pelos que não mais se lembram, se é que alguma vez as aprenderam, destas palavras de Jesus: "Em verdade vos digo que quantas vezes o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mateus - XXV:40).  Às objurgatórias iradas contra nós, porque progredimos no coração do povo, respondemos com o Evangelho, nossa defesa, nosso amparo, nossa luz, nosso abrigo! Que Deus se compadeça dos que falharam em sua missão terrena, desertando do serviço real do Cristo Jesus! Que o Pai se apiade daqueles que persistem nas trevas a que o ódio conduz, em vez de se iluminarem no amor que tudo redime!

            Grande é a responsabilidade do Papa Pio XII e suas palavras contra cristãos, como nós que nada mais fazem do que alimentar-se no celeiro do Evangelho, pregando a doutrina cristã, exemplificando os ensinamentos de Jesus, sem prevenções nem malquerenças, mas, antes, com o profundo desejo de conciliar e fraternizar, porque, afinal de contas, todos somos filhos de um único Pai e todos irmãos do Cristo de Deus!

Em defesa da Doutrina dos Espíritos


Em defesa da
Doutrina dos Espíritos
por Lúcio dos Anjos
Reformador (FEB) Agosto 1955

            O grande mal de todo aquele que combate o Espiritismo é tentar fazê-lo sem o haver estudado ainda que superficialmente. Daí a série de erros e equívocos em que caem, tal como ocorreu com o nosso ilustre irmão, Sr. A.... Bem se vê, por seus alvitres -pobres alvitres-  que jamais se deu ao trabalho de compulsar uma obra espírita. Disso temos certeza. Se não, vejamos:

            Tem o nosso amigo a doutrina de Kardec “o lobo em pele de ovelhas",  o que não  passa de tolo engano. Não encontrará o nosso irmão uma obra espírita sequer da qual se possa depreender, ainda que levemente, algum objetivo mau. Quais as vantagens de se esconderem os espiritistas durante a vida toda por detrás da pele da ovelha? Quando, afinal, demonstramos nossas más intenções? Sim, porque desde que Allan Kardec coordenou importantes mensagens mediúnicas, as lições que se têm publicado sobre o Espiritismo são as mais puras e benéficas. O lobo, ao que parece, não se revelou ainda e podemos garantir ao nosso amigo que não se revelará jamais.

            A seguir, diz o ilustre leitor A... que o Espiritismo é "intimamente anticristão”, negando as verdades mais importantes e vitais de nossa fé". Não é bem isto que se passa. Procuramos demonstrar, é bem verdade, que a fé das criaturas em dogmas e  fórmulas religiosas incompatíveis com a razão de nada podem valer aos olhos de Deus, porquanto muitas vezes exigem a aceitação cega e passiva de  afirmativas que não encontram apoio na lógica. Quanto à "nossa" característica de "anticristãos", há injustiça e falsidade. Tome-se tudo que se tem dito e escrito sobre o Espiritismo e se terá certeza de que ele surgiu  para cumprir a missão na qual outras religiões já fracassaram, como bem o disse um grande espiritista de nossos dias. Surgiu para restaurar o Cristianismo do Cristo, para restabelecer a verdade deturpada pelos homens, explicar em espírito e verdade a letra dos Evangelhos de jesus Cristo.

            Alega o Sr. A... que são puro engodo nossas pregações em torno do nome de Jesus, porque negamos a Sua divindade. Nós, que propalamos os mais duros castigos aos Espíritos que simplesmente falam em nome de um outro sem estarem autorizados para tanto, como  poderíamos falar em nome do Salvador com objetivos impuros ou condenáveis? É muita maldade de sua parte,  Sr. A... Esqueceu-se o senhor de que falamos em nome de Jesus para chamar alguém ao caminho do bem; nunca, para acirrar ânimos, benzer armas bélicas, prometer o paraíso, inocentar os pecadores que porventura nos venham confessar seus erros... Relativamente à divindade atribuída a Jesus, nós a negamos, sim, mas no sentido de que o Messias seja o próprio Deus ou, por outra, no de que ambos sejam um só. Podemos dizê-lo divino; mas pela Sua pureza, pela Sua elevação espiritual, pela Sua sabedoria imensa, pela Sua força magnética suprema, pelo fato de nunca haver falido na sua jornada espiritística até chegar onde se encontra - ao lado do Criador. Negamos, todavia, seja Ele o próprio Criador. Deus é muito mais do tudo que se possa imaginar. Deus é o infinito, e está acima de todos e de tudo, tal como nos revelou o apóstolo Paulo, inspirado pelos Espíritos do Senhor:

            “Não há outro Deus senão um só. Um só Deus e pai de todos, que é sobre todos e por  todos e em todos. Tudo vem dele, tudo existe  por ele, tudo está nele. O Rei dos Reis, o Senhor dos senhores; o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo.”  

            Portanto, o Salvador também é criação de Deus. Aliás, Jesus não foi capaz de negá-lo uma única vez durante a Sua peregrinação pela Terra. Ao contrário, falou repetidas vezes em: "meu Pai que está nos Céus", "o reino de meu Pai", "Perdoai-lhes, Pai, não sabem o que fazem", "recebe-me em Teu seio", etc...

            Mas, prossigamos em nossas explicações.

            Não citamos trechos da Bíblia para enganar. Não! Citamo-los porque sabemos que as Sagradas Escrituras são o verdadeiro caminho para se chegar ao Pai. Apenas, ao citá-los, advertimos de que não basta ouvi-los, ou interpretá-los, ou repeti-los . É necessário, antes de tudo, cumpri-los! Esta é a missão do Espiritismo.

            Fala o Sr. A... em "santos católicos", ignorante de que os espiritistas aceitam também tais criaturas (que não são exclusivas da Igreja, está claro), porém, como sendo unicamente boníssimos Espíritos, de grande elevação, que peregrinaram pelo orbe terráqueo. Seus nomes, portanto, podem perfeitamente identificar um Centro Espírita. Apenas não aceitamos - pelo absurdo que o fato encerra - estarem esses santos no Céu, em carne e osso. Isso é ridículo. No mais, não queremos com isso (dando aos Centros nomes de santos) atrair nenhum católico incauto, pois está escrito que devemos apenas ensinar e pregar aos de boa-vontade. Não é preocupação precípua do Espiritismo converter os católicos, buscando-os à custa de engodos dentro das Igrejas. Não há necessidade disto, pois muitos deles já nos buscam e frequentam nossos Centros...

            A seguir, mente o Sr. A..., quando diz que o Espiritismo faz guerra à Igreja.
Pelo contrário: a Igreja é que faz guerra ao Espiritismo. Quando o amigo viu a Federação Espírita Brasileira condenando ao inferno ou excomungando os que não a vão procurar? Onde leu alguma obra escrita com a única e exclusiva finalidade de combater a Igreja? Em lugar nenhum, estamos certos; em época alguma. No entanto, quanto se tem dito, escrito e pregado contra a doutrina dos Espíritos através de folhetos, jornais, livros e conclaves católicos... Não obstante, para desespero dos nossos acusadores, o Espiritismo medra cada novo dia, exatamente porque não é uma religião, mas a Religião.

            Não condenamos nenhum sacerdócio. Procuramos esclarecer e guiar o mau homem, seja espiritista, católico ou protestante, pois a maldade é apenas uma evidência de retardamento espiritual.

            Finalmente, depois de tanto falar das "mazelas" do Espiritismo, termina o nosso amigo fazendo-nos a mais violenta das ameaças: somos hereges, excomungados e expulsos da comunhão dos fiéis. Em outras palavras: promete-nos o irmão o Inferno, o sofrimento eterno e tudo o que de pior possa existir depois da morte da matéria. Vejam o contra senso! Promessas tão cruéis nos são feitas em nome de Deus que é infinitamente bom, e nós é que somos maus quando falamos em nome do Cristo para lembrar simplesmente que todos devemos fazer somente o bem, inclusive perdoar aos nossos inimigos, ajudar os nossos vingadores, aliviar as dores dos nossos algozes... Quanta carência de bom-senso religioso e filosófico! Pois nós, ao contrário, asseguramos que todo católico, protestante, islamita, ou seja de que seita for, desde que pratique o bem e somente o bem, estará muito mais perto de Deus do que aqueles que se dizem tanto e vivem tirando vinganças, amaldiçoando o próximo, "excomungando" o irmão em carne, anatematizando os filhos e a esposa."

                                   (Ext. do "Diário Carioca", de 1/6/55, seção “A opinião do leitor".

            Do Blog: Omitimos o nome do personagem citado neste artigo. Ele, certamente, já desencarnou e não merece ter suas opiniões equivocadas mais uma vez destacadas. Os conceitos doutrinários, estes sim,  permanecem bem atuais.


Perdoai-lhes Pai!


Perdoai-lhes Pai!
Vinélius Di Marco / (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Agosto 1955

            Abrimos o Evangelho e começamos a ler o capítulo 10 e respectivos versículos, de João. E repetimos os versículos: "11 - Eu sou o bom pastor, O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. 12 - O que é mercenário, e não pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as arrebata e dispersa. 13 - O mercenário foge, porque é mercenário, e não se importa com as ovelhas. 14 - Eu sou o bom pastor, conheço as minhas ovelhas, e as que são minhas me conhecem a mim. 15 - assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. 16 - Tenho também outras ovelhas que não são deste aprisco, estas também é necessário que eu as traga; elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um pastor", etc.

            Meditamos sobre a significação dessas palavras de Jesus, enquanto nossa vista pousava melancolicamente sobre uma foto publicada em "O Globo”, desta Capital, na primeira página do segundo caderno da edição de 9 de Junho último. Sob o título "A freira instrutora militar", o clichê mostra grupo de menores uniformizados, de armas ao ombro, em marcha militar, tendo ao lado uma irmã de...  caridade, sua instrutora na arte de matar o próximo., Como legenda, lê-se: "A Irmã Joan Marie diretora do curso primário da Academia Militar de Bishop Quarter em Oak Park, Illinois, Estados Unidos, além de ensinar as matérias do curso aos seus alunos, ainda ajuda na instrução militar, como se vê na fotografia, embora não fosse preparada especialmente para isso, (Foto U. P. especial para O GLOBO)."

            Temos visto sacerdotes, imponentes em suas vestes talares, abençoar instrumentos de guerra, aspergindo água benta em espadas destinadas a  derramar sangue humano, Temos visto também, em festas militares, as manifestações de regozijo de autoridades eclesiásticas quando se comemoram fastos bélicos, numa indisfarçável concordância com os atos de guerra que determinaram a vitória sangrenta de determinados grupos humanos sobre outros. E nos lembramos, então, daquelas palavras inolvidáveis de Jesus: "Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos"... Em face da religião, todos os homens, independentemente de sua nacionalidade e de sua raça, são, antes de tudo, e apesar de tudo, seres humanos, filhos de Deus.

            Uma irmã, dita de caridade, instilando no coração da juventude o pendor para a guerra! Abandonando sua missão religiosa, de unir as criaturas pelo amor, dentro da paz e pela paz, para ajudar na instrução militar! E sempre a repercutir em nossos ouvidos as palavras do meigo Nazareno: " Bem-aventurados os misericordiosos" , " E quando lemos coisas como essa que vimos de transcrever ou quando vemos pretensos representantes de Deus na Terra e pseudo seguidores da trilha de Jesus abençoarem armas de guerra, não compreendemos como, depois de tantos e tantos séculos, o Sermão da Montanha ainda não encontrou acesso no coração dos que falam em nome do Mestre e que trazem sempre Deus nos lábios, mas longe do coração! "Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Esta a Lei que Jesus considerou base, fundamento, alicerce da sua Doutrina.

            Ó Espíritas de todo o Brasil, de todo o mundo! Elevai os vossos corações banhados na justa compreensão do Evangelho de Jesus e orai por esses irmãos nossos, desviados da verdadeira senda cristã! Pedi a Deus para que eles sejam iluminados pela razão e retrocedam para o reencontro do caminho justo traçado pelo Cristo! A Doutrina de Jesus é de amor e de caridade, é de paz e fraternidade! Ela tem por fim unir todas as criaturas num único sentimento de afeto, para glória do sacrifício inenarrável de Jesus! Se o Mestre preferiu sacrificar-se, a fim de deixar aos pósteros o exemplo do amor, da dedicação, da renúncia, como é que pregadores de seu credo, que se inculcam os únicos representantes das verdades cristãs na Terra, insistem em subverter seus belos e edificantes exemplos.

            Ó Jesus amado! Pedi a Deus, como o fizestes no alto do Gólgota:


            - Perdoai-lhes, Pai! Eles não sabem o que fazem!

Vigilãncia Permanente



Vigilância Permanente
por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Maio 1955

            Quanto mais observamos a vida e buscamos compreendê-la através dos ensinamentos evangélicos, mais nos capacitamos do atraso em que se encontra nosso espírito. A exemplificação do Evangelho nos dá uma ideia da distância infinita que nos separa da perfeição e isto nos traz positiva evidência da sabedoria da lei da reencarnação, porquanto, a não ser assim, estaríamos diante de um destino cheio de injustiça para a maioria das criaturas humanas. Muitas vezes nosso espírito se alegra ante a comprovação de que pudemos vencer bem determinada prova evangélica, mas logo, ainda sob o entusiasmo do triunfo alcançado, experimentamos a decepção de nova derrota, por havermos deixado de cumprir ou de observar este ou aquele preceito do Evangelho. Em vez de desanimarmos, porém, precisamos erguer a cabeça corajosamente e seguir na luta contra as nossas deficiências morais. O revés deve ser encarado como advertência para que não deixemos um só instante a vigilância que nos cumpre guardar no itinerário humano. Orar e vigiar não é um a “slogan" para decorar artigos ou discursos: é um conselho de grande importância, mas ao qual nem sempre se dá o valor devido.

            Orar é um ato que nos pode pôr em contato com as forças espirituais invisíveis se houver sinceridade na prece e alma limpa de quem ora. Vigiar é uma atitude de atenção para que não sejamos surpreendidos pelos inimigos que se encastelaram nos hábitos maus que adquirimos e mantemos, malgrado o esforço despendido para nos libertarmos deles. Portanto, orar é uma posição defensiva, pois, por meio da prece fortalecemos nossa situação espiritual, predispondo-nos à resistência contra as acometidas das trevas e iluminando a rota que seguimos, com o fito de alcançar, passo a passo, a melhoria do panorama cármico. Vigiar é também uma atitude defensiva, que devemos, sustentar sempre contra os inimigos do nosso progresso moral. Quem são esses inimigos? Nós mesmos. Eles estão ocultos em nossa defeituosa educação, nos impulsos que não sabemos jugular, nos hábitos que insensivelmente vamos adquirindo, por imitação ou por tendência natural do nosso espírito.

            Justamente quando tentamos realizar um programa evangélico, as dificuldades se amontoam, perturbando-nos o espírito. Às vezes, tantos são os obstáculos que o desânimo nos acomete. Se não nos forrarmos de forte decisão, cedo abandonaremos a luta. Então, as dificuldades crescerão espantosamente, se tentarmos recuperar o terreno perdido. Mesmo assim, será demonstração de fé não desistir da luta, sempre mais gloriosa na vitória, quanto maiores foram os óbices vencidos. Certa vez, um confrade nos disse:

            - Estudo o Evangelho e procuro, na medida do possível, seguir lhe os ensinamentos. Tenho, entretanto, um vício irresistível. Por mais que, tenha feito, não consigo dominá-lo... Acho que os Espíritos obsessores não o permitem...

            Malgrado a desvalia da nossa opinião, contraditamos suas palavras, esclarecendo que, se sua determinação fosse realmente forte, o vício estaria já superado. Às vezes, somos nós os nossos próprios obsessores, porque não cultivamos a força de vontade e, à menor tentativa de correção, cedemos e caímos no ritmo censurável. Sempre que um pensamento mau nos assalta, devemos procurar alguma atividade que nos distraia o espírito e nos facilite evadir-nos da tentação. Se esta nos persegue insistentemente é porque o “diabo" está dentro de nós: são os nossos hábitos, as fraquezas do nosso espírito, ainda não educado evangelicamente para permanecer imune ou insensível às solicitações do instinto e às seduções que a vida material multiplica. Esses são os “diabos" que realmente existem...

            Nenhum de nós - dizemo-lo tomando-nos por exemplo primário - é infalível na exemplificação do Evangelho. Todos procuramos acertar, errando frequentemente, mas tentando sempre errar cada vez menos. E isto é mais difícil do que parece. Basta uma observação cuidadosa, quotidiana, das vezes que logramos vencer e das vezes em que somente nos lembramos das determinações evangélicas após haver falido. “Procura e acharás; trabalha e produzirás. Desta maneira serás filho das tuas obras, terás delas o mérito e serás recompensado de acordo com o que hajas feito." (O Evangelho segundo o Espiritismo", cap, XXV, 3, “in fine") Temos de ser filhos de nossas obras. Supor-se que poderemos ficar livre de canseiras e preocupações, com a ajuda dos Espíritos, é ilusão. “Os Espíritos não vêm isentar o homem da lei do trabalho; vêm unicamente mostrar-lhe a meta que lhe cumpre atingir e o caminho que a ela conduz, dizendo--lhe: Anda e chegarás. Toparás com pedras; 'Olha e afasta-as tu mesmo." (O Livro dos Médiuns, cap. XXVI, 291) Entretanto, qualquer esforço bem intencionado que façamos, será bem ajudado pelo Espíritos, mas essa ajuda se manifesta de forma diversa da que geralmente se pensa: eles nos animam, dão-nos coragem, emprestam-nos forças, alertam-nos, pela intuição, para a conveniência de não nos entregarmos ao desânimo. Que ajuda! Ela constitui a alavanca com que poderemos, baseados na fé e no trabalho, deslocar imensos blocos de pedra!

            Geralmente somos mais ajudados do que percebemos. Sem o amparo dos Espíritos generosos e prestativos, nem sempre levaríamos a bom termo nossos deveres espirituais. Conhecedores disto, mais do que nunca devemos compreender que orar e vigiar não é uma frase feita, de efeito decorativo. Ela encerra um conselho valiosíssimo e é uma advertência de que não devemos jamais esquecer. Vigilantes, para que as nossas fraquezas não nos atraiçoem quando as combatemos, podemos encontrar na prece a arma poderosa que nos tornará fortes um dia, tão fortes que nos será possível socorrer, como agora somos socorridos, aqueles que precisarem da nossa ajuda eficiente. Se pretendemos ser úteis, aprimoremos mais e mais as nossas virtudes e expunjamos de nossa alma os defeitos e vícios que ainda a debilitam.

            O espírita deve estar permanentemente em vigilância, mais severo em sitiar seus defeitos do que em perseguir os de seus semelhantes. Fácil é criticar e pormenorizar faltas alheias. Tarefa bem mais séria possuem os que se abrigaram no Espiritismo: a reforma íntima de cada um. Há sempre um “homem velho" dentro daqueles que ainda não alcançaram a compreensão doutrinária pela exemplificação constante. Esse “homem velho" precisa de ser exilado de nossa alma. A prece é uma forma de vigilância, um como que toque de sentido! que devemos executar diariamente. A medida que formos derrotando o “homem velho", irá surgindo o “homem novo", que nos fará mais unido ao ideal espírita, porque mais intimamente ligado ao Cristo Jesus, Mestre dos mestres do Espiritismo, que é o Cristianismo primitivo ressurgido, o Cristianismo dos tempos novos!


Um fato vale mais que todas as teorias


Um fato vale mais
que todas as teorias
Reformador (FEB) Janeiro 1946

            Havendo lido em Reformador o artigo do Dr. Carlos Imbassahy sobre "As Ressurreições na Guerra", no qual se comenta um artigo do Sr. Raul de Polillo que teria dito não se lembrarem nunca os ressuscitados de coisa alguma da vida espiritual, o Prof. Francisco Valdomiro Lorenz nos escreve apresentando um fato contra aquela teoria. Assistiu ele ao seguinte caso:

            Uma senhora de sua amizade teve um parto infeliz e faleceu apesar dos esforços de dois ilustres médicos assistentes. Um destes propôs aplicar-lhe certa injeção no coração, para faze-la voltar à vida. Os resultados foram excelentes. A morta ressuscitou, mas protestou energicamente contra a intromissão da Ciência que a fizera voltar involuntariamente para este mundo de dores, quando se achava ela muito feliz no "céu", para onde queria voltar. Repreendeu aos médicos, deu muitos conselhos de grande sabedoria ao marido e aos filhos, palestrou ativamente durante catorze horas, mas sempre insistindo que queria e voltaria para o "céu". Ao cabo de catorze horas, morreu de fato.

            Aí fica um fato que vale mais do que todas as teorias e todos os fazedores de teorias. E mais um vamos juntar de nosso conhecimento.

            Quando Cairbar Schutel se achava agonizante, em certo momento pareceu morto. As senhoras que se achavam com o moribundo, suas filhas adotivas, perderam toda a calma e agarraram-se aos pés e ao corpo do cadáver em verdadeiro desalento, clamando pela sua volta.

            Realmente ele voltou para repreende-las severamente: "- Eu já estava livre, fora da raia das dores, e vocês me forçaram a voltar inutilmente a este corpo arruinado!"

            Passado algum tempo, faleceu de novo e para sempre.

            Quem nos relatou este fato foi uma das filhas adotivas de Cairbar Schutel, Dna. Antônia Perche da Silveira Campelo, pessoa digna da máxima confiança e conhecidíssima do mundo espírita brasileiro pela sua atuação em ‘O Clarim’.


            Há fatos e muitos fatos para demolir as teorias apressadas dos negadores. 

sábado, 17 de janeiro de 2015

As minhas palavras não passarão


“As minhas palavras não passarão”
Francisco Thiesen
Reformador (FEB) Fev 1971

            “Com todo o nosso respeito pela filosofia que indaga e pela ciência que esclarece, reconheceremos sempre no Espiritismo o Evangelho do Senhor, redivivo e atuante, para instalar com Jesus a Religião Cósmica do Amor Universal e da Divina Sabedoria sobre a Terra. (Emmanuel - “Fonte Viva” , por F. C. Xavier).

            “A fé raciocinada é um passo para a fé absoluta, assim como a filantropia é a primeira porta que se abre para a caridade:" (Ismael - “Elucidações Evangélicas” , Antônio L. Sayão 3ª edição)

            No 1º século das ásperas lutas pela implantação do Evangelho no coração das criaturas terrenas, apóstolos e discípulos, adeptos e servidores do Cristianismo tiveram, confiada pelo Divino Mestre, "tarefa diferente na forma, mas idêntica no fundo”. Simão Pedro foi o "chefe legítimo do colégio apostólico, por seu espírito superior afinado com o pensamento do Cristo”. Tiago, filho de Alfeu, abraçou a "tarefa da harmonização da igreja com os judeus”. Levi, o coletor de impostos, um dos doze apóstolos, elaborou as primeiras anotações e tornou-se evangelista, conhecido como Mateus.

            E assim por diante, segundo uma hierarquia evolutiva e vocacional a que os espíritos se subordinam e atendidas as exigências especialíssimas dos serviços mais importantes de todos os tempos - os do estabelecimento do Reino de Jesus-Cristo no planeta.

            Ao convertido de Damasco, o valoroso Paulo de Tarso, coube tarefa multifária, nela avultando a coordenação e organização dos trabalhos da fé no âmbito da gentilidade.

            Em Antioquia, cuja igreja notabilizara-se pela harmonia dos cooperadores e por expressiva soma de realizações espirituais, propiciando valioso intercâmbio das Altas Esferas com seus colaboradores humanos, através do profetismo, inclusive mediante os raros fenômenos de "vozes diretas", Paulo de Tarso, em palestra com Barnabé, discípulo de Simão Pedro, teve a inspiração vinda de mais alto, sobre "a necessidade de buscar os gentios onde quer que se encontrem", asseverando que "só assim reintegrar-se-á o movimento em função de universalidade". Após historiar a difícil situação criada ante a absorção dos esforços apostólicos pelo judaísmo, considerou necessário "sacudir o marasmo da instituição de Jerusalém" para prevenir que em poucos anos a figura do Cristo fosse apagada ou confundida, e que depois da desencarnação de Pedro as Anotações de Levi fossem deturpadas. Para tanto seria "necessário levar a notícia de Jesus a outras gentes, ligar as zonas de entendimento cristão, abrir estradas novas".

            Prosseguindo na sua exposição a Barnabé, o ex doutor de Tarso concluiu: -
"Façamos anotações do que sabemos de Jesus e de sua divina exemplificação. Outros discípulos, por exemplo, poderiam escrever o que viram e ouviram, pois, com a prática, vou reconhecendo que Levi não anotou mais amplamente o que se sabe do Mestre. Há situações e fatos que não foram por ele registrados. Não conviria que Pedro e João anotassem suas observações mais íntimas? Não hesito em afirmar que os pósteros hão de rebuscar muitas vezes a tarefa que nos foi confiada”.

            Daí em diante e até às vésperas de sua última encarceração em Roma, no monte Esquilino, donde sairia para o derradeiro testemunho, - dificilmente algo de relevante se decidiria ou realizaria sem a participação, colaboração, discussão, intercessão ou iniciativa de Paulo de Tarso no grupamento apostólico, face à ascendência de sua natureza sensível, percuciente, realizadora, perseverante, humilde e desassombrada, de absoluta fidelidade ao Senhor e de fé inquebrantável no êxito do empreendimento cristão. Ao médico Lucas, que Paulo e Barnabé conheceram em Antioquia, se deve a denominação de cristãos aos adeptos e de Cristianismo à doutrina de Jesus, então denominados "caminheiros" e "Caminho", respectivamente. Mais tarde, em Troade, recebera Lucas o convite de Paulo para dedicar-se exclusivamente ao Evangelho, e aceitando-o transformou-se em companheiro de inúmeras jornadas da Fé, sendo instruído pelo ex-doutor da Lei sobre como escrever os Atos dos Apóstolos e, ainda, o Evangelho baseado nas narrações pessoais da Maria Santíssima, especialmente ouvidas em Êfeso. Outro evangelista surgiria da abnegação de Paulo de Tarso: Marcos. Era sobrinho de Barnabé, jovem inexperiente que a bondade e a energia do apóstolo encaminhariam à dedicação consciente ao trabalho, inclusive com advertências assim: - "Não te esqueças de que a marcha para o Cristo é feita igualmente por fileiras. Todos devemos chegar bem; entretanto, os que se desgarram tem de chegar bem por conta própria".  João escreveria bem mais tarde o Evangelho que Bittencourt Sampaio denominou "Divina Epopeia", além das Epístolas e do Apocalipse.

            Após a surpresa de Silas, quando em Delfos Paulo fez calar um espírito que se
manifestara por popular pitonisa - saudando-o e aos companheiros como "anjos do
Altíssimo", visando a estimular-lhes a vaidade, - o apóstolo esclareceu: “O Cristianismo sem o profetismo (o mediunismo dos nossos dias) seria um corpo sem alma. Se fecharmos a porta de comunicação com a esfera ao Mestre como receber seus ensinos? Já pensaste em Cristo sem ressurreição e sem intercâmbio com os discípulos.  Ele sabia distinguir o joio do trigo. Não pretendemos, nestas linhas, apresentando um punhado apenas de episódios ligados à organização cristã e à dedicação de Paulo ao Messias Divino, senão encaminhar os estudiosos que ainda a desconhecem à obra de Emmanuel, "Paulo e Estêvão", recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier, na qual estão historiados minuciosamente os fatos reais pertinentes à atividade do colégio apostólico. A leitura de "Paulo e Estevão" dá-nos a compreensão da ilimitada amplitude da Religião do Amor e da Sabedoria, fixando-nos indelevelmente no espírito a verdade revelada de que os textos dos 4 Evangelhos, dos Atos, das Epístolas e do Apocalipse foram grafados em meio a lutas e lágrimas, com endereço aos Espíritos Eternos na Universalidade da Vida, inexistindo, por isso, em sua tessitura, palavras ou pensamentos que não careçam de estudo, meditação e vivência, em espírito e verdade, nos estágios evolutivos que formos alcançando na busca da perfeição.


Anotação Simples



Anotação Simples
Irmão X
por Chico Xavier
‘Brasil Espírita’ Ano XXII Fev 1971
Suplemento do “Reformador” (FEB) Fev 1971

            Você, meu amigo, se declara desalentado e assevera em desconsolo: Estou positivamente vencido, sem estímulo para trabalhar. Sonhei a realização de tarefas sublimes e vejo tudo acabando em frustração. Depositei confiança e carinho em companheiros que me abandonaram, amigos: outros me iludiram, largando-me em penosas experiências. Vivo sitiado pela incompreensão, batido no pó da dificuldade... Que fazer para revigorar-me, sobreviver?”

            Não dispomos, caro irmão, de específico mais adequado para a cura do esmorecimento que a aplicação do Evangelho de Jesus, pois não foi ele mesmo; o Divino Mestre, quem nos advertiu: “Tende bom ânimo! Eu venci o mundo...”?

            Ainda assim, para nossa reflexão, recordaremos uma fábula antiga que já ouvi de fontes diversas e que se nos adapta, proveitosamente, ao assunto.

            Conta-se que o Espírito das Trevas, certa feita, deliberou efetuar uma liquidação na loja de sua propriedade, colocando à venda as ferramentas de sua atividade usual. No balcão, desse modo, jaziam expostas muitas delas com os rótulos que as definiam: “ódio”, “maledicência’, “desespero”, “inveja”, “crime”... Em meio de todas, uma, porém, se sobressaía, em dourado, na forma de cunha, com o nome “desânimo”. Semelhante utensílio mostrava enorme desgaste; entretanto era marcado como sendo o mais caro de todos. E, quando alguém indagou, quanto ao motivo de preço tão alto, o Espírito da Sombra" respondeu simplesmente: “Esta ferramenta é a que uso com mais facilidade e a que me serve muito mais que as outras, porque pouca gente sabe que ela me pertence. É por isso que abro com ela milhares de corações que não consigo descerrar com as outras. E, uma vez que me vejo no íntimo dessa ou daquela pessoa, posso manejar todas as demais, à vontade, conseguindo alcançar a realização de todos os meus intentos”.


            Como vê, meu caro, estudemos esta fábula simples e procuremos pensar.