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sábado, 29 de abril de 2017

Vigilância Evangélica


Vigilância Evangélica
Indalício Mendes
Reformador (FEB) Março 1954

Depois de duas guerras tremendas, forgicadas (fraldadas) pela má política internacional, sofre hoje a Humanidade às tristes consequências da falta de educação evangélica daqueles que galgaram as posições do poder, movidos por ambições pessoais e impulsionados pelo egoísmo fratricida. Povos amigos e pacíficos foram iludidos, envenenados pela intriga e deixados ao abandono nos vendavais do ódio. Manejados por minorias políticas viciadas em práticas incompatíveis com os deveres cristãos, tais povos se afogaram em sangue, viram seus lares destruídos, suas famílias dizimadas e as nações, outrora alegres e felizes, caíram prisioneiras da miséria, escravas da dor, envoltas no negrume do ceticismo que corrói as almas e as induz a novas e duras provações.

A Humanidade está pagando pesadíssimo tributo por suas convicções materialistas. Quanto mais divorciada do Evangelho do Cristo, mais sofrerá, porque ninguém pode colher senão o resultado do que semeia. Quem semear amor, colherá amor; quem semear paz, colherá paz, quem semear entendimento, só entendimento poderá colher. Entretanto, aquele que semeia ventos, colhe tempestades, A "pena de talião" é uma ordem que nenhum ser humano pode alterar, de vez que ela significa simplesmente que a lei de causa e de efeito se encontra em plena ação. Se todos procurassem dar boa-vontade e consciente tolerância aos seus semelhantes, acabariam por estar rodeados também de boa-vontade e tolerância. Infelizmente, o revide substitui a ponderação; o orgulho ferido não se compadece com a necessidade da indulgência bem conduzida; a humildade sem vileza nem sempre encontra corações onde repousar. E assim vão os homens, assim vai a Humanidade, lutando e sofrendo, desesperada, procurando soluções erradas para resolver conflitos que poderiam ser amenizados e eliminados com a só compreensão dos princípios evangélicos. Não há fé, não há caridade, não há esperança, na maioria dos seres humanos. Todos querem gozar os prazeres que a vida oferece, sem pensar na necessidade de dar ao espírito a tranquilidade que ele pode encontrar na vida simples, devotada à esposa e aos filhos, em plena comunhão fraterna com os semelhantes. O imediatismo, filho natural do materialismo sórdido que domina o mundo, reflete as condições mentais e a pobreza moral em que tantos seres humanos se debatem. O pudor mingua cada vez mais. Consequentemente, a sociedade se dilui, corrompendo o sentido tradicional da família; as relações entre as criaturas se fazem sem as indispensáveis fronteiras do respeito e do cavalheirismo. A desintegração das coletividades se opera rapidamente, pelo desaprimoramento dos costumes, pelo descaso com o idioma pátrio, pelo desamor às tradições. Hoje, a mocidade se desenvolve sem o freio salutar da disciplina, desde o lar que nem sempre os pais resguardam convenientemente. Os compromissos morais se afrouxam e se vai formando, num ritmo exacerbado, a mentalidade volúvel de homens e mulheres que nem sequer se preocupam com as pesadas responsabilidades do futuro.
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Muito se sofre nos dias que correm. Mais se sofrerá ainda, porquanto a incredulidade se expande sob a capa de pseudo-esclarecimento científico e o intelectualismo frívolo se refocila(reforça) no cinismo das atitudes artificiais. Falar em Jesus é tão vergonhoso quanto crer em Deus. É falta de virilidade o confessar espírito religioso. Escudar-se na prece é ganhar fama e pusilânime... Evidentemente, a beatice é perigosa, porque vizinha da hipocrisia e do fanatismo. Para assegurar a graça divina, nada melhor que a exemplificação das verdades evangélicas. Exemplificar é o caminho mais curto, embora o mais difícil. Em nossa peregrinação terrena atual, realizamos esforços para seguir as pegadas daqueles que, melhor do que nós e com maior propriedade, já se assenhorearam dos princípios evangélicos. Nossas quedas são muitas, porque o nosso espírito ainda está sobrecarregado de defeitos e fraquezas. Somas dos últimos, na caravana dos que buscam iluminar-se nas refulgências(no brilho) do Espiritismo cristão, bem o sabemos. Todavia, ainda que convencidos da nossa insignificância, ainda que a nossa desvalia seja fardo incômodo em nossa consciência,
tivemos a felicidade de encontrar a trilha da Verdade. Algum dia haveremos de alcançá-la, se não nos faltar, como estamos certos de que não nos faltará jamais, a misericórdia do Alto. ÀS vezes, em solilóquios breves, perguntamos a nós mesmos: para ande iremos? para onde se encaminha a Humanidade contemporânea, empolgada pela concupiscência, seduzida pelos gozos fáceis e impuros, traída pela ambição de fortuna rápida e de qualquer origem? Consultemos a História, perlustremos o passado, investiguemos os dias da nossa meninice, ainda vivos na memória, e estabeleçamos sincero e mesmo benévolo confronto com o que foi e com o que é. Encontraremos a desoladora resposta acerca do futuro que espera a Humanidade destes dias atribulados. Ainda se respira o odor de sangue de duas guerras pavorosas e já se sente o cheiro de pólvora dos conflitos que se armam nos gabinetes secretos. Mal refeita ainda da experiência assustadora das bombas atômicas que destruíram Hiroshima e Nagasaki, vivem as populações do mundo intranquilas, sob a ameaça de outros meios de destruição, como as bombas de hidrogênio, porque a ciência, que tanto tem trabalhado pelo bem da Humanidade, mostra igualmente duas faces: uma, benéfica, abençoada, porque positiva; outra, maléfica, apavorante, porque negativa. A insegurança do mundo gerou a intranquilidade. Se os povos tivessem fé, confiança nos desígnios do Mestre, as vicissitudes passariam sem deixar marcas indeléveis na formação moral dos homens. Mas, infelizmente, o ceticismo ganhou forças, alimentando-se nos erros daqueles que, no passado, se inculcaram herdeiros do Cristo, sem, no entanto, salvaguardarem devidamente os tesouros portentosos do Evangelho, através da exemplificação fiel. Estamos sofrendo hoje os desvios de ontem, como a Humanidade de amanhã virá a sofrer as consequências da má orientação contemporânea.

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Não se mitiga a fome com arengas filosóficas ou religiosas, porque são diferentes as necessidades do corpo e as necessidades do espírito. Todavia, é preciso, quando se atende a umas não se deixar sejam as outras esquecidas. Entretanto, quando se está espiritualmente preparado para a vida terrena, nunca se abandona a esperança de salvamento. O Espiritismo cristão esclarece o homem sobre a sua legítima posição na vida terrena. Muitas vezes, as provações de hoje nada mais são do que o resultado de débitos contraídos em vidas anteriores. Isto demonstra que há necessidade de calma e resignação, porque não há causa sem efeito, assim como não há efeito sem causa. A preparação espírita do homem lhe dá uma sensação de segurança extraordinária. Ele se sente com forças para suportar os contratempos da vida, porque confia em Jesus e a fé lhe nutre o espírito. Mais do que nunca as palavras do admirável apóstolo Paulo, na sua Epístola aos Coríntios (4:8-10), devem ser lembradas e retidas: "Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre, por toda parte, a mortificação do Senhor Jesus em nosso corpo, para que a sua gloriosa vida se manifeste igualmente em nós."

Mas, convenhamos, é bem amargo o cálice do sacrifício. É preciso que o espírito esteja imerso na fé sincera, para compreender e exemplificar as lições contidas nas palavras de Paulo. Nessas horas, sentimo-nos menos que pigmeus diante da grandeza sem par do Evangelho. Quem somos nós, Senhor, para resistir galhardamente às solicitações da covardia espiritual? Enriquece-nos com a Tua misericórdia, para que a nossa miserabilidade moral possa adquirir um muito pouco que seja das virtudes evangélicas! Que o quase nada que já beneficia o nosso espirito possa quebrar as resistências da nossa imperfeição, para que melhor sintamos os efeitos renovadores da palavra de Jesus e das mensagens psíquicas de seus operosos e beneméritos mensageiros! Que saibamos sempre compreender a função educativa e regeneradora do sofrimento, aceitando-o de ânimo forte e resignação ativa. Que nunca nos falte a capacidade da reação moral, porque ao Mestre não agrada a passividade negativa e estéril. O homem foi feito para lutar e é pela luta que seu espírito se engrandece. A resignação consciente não deixa de ser uma forma de luta, porque se escuda na fé. Ela representa uma atitude de resistência contra o desânimo e a descrença, assim como pode constituir o ponto de partida para a reconstrução que glorifica os esforços do espírito! A resignação negativa é como uma morte aparente, enquanto que a resignação ativa revitaliza o espírito, dá-lhe ânimo para resistir contra o desespero e oferece-lhe oportunidades magníficas para se reerguer moralmente, justificando o prêmio da ascensão na escala evolutiva. De certo modo, somos os obreiros do nosso destino, porque de nossa conduta atual dependerá o rumo que seguiremos no futuro, nesta ou na próxima peregrinação terrena.

Em face da confusão que domina o mundo, os espíritas temos todos um programa a seguir. Esse programa não foi traçado pelos homens: está no Evangelho. Sem ele, todos os esforços resultarão nulos, todas as tentativas de salvação moral estarão condenadas ao malogro. O homem precisa compreender que, embora com deveres importantes na vida material, seu destino é espiritual. Através do Evangelho, encontrará a tranquilidade interior de que necessita na hora atribulada em que vivemos. Exemplificando quanto possa na obediência ao itinerário evangélico estará, simultaneamente, trabalhando para si e para o próximo, porque não se pode conceber, dentro do Espiritismo cristão, nenhuma obra com objetivos egoísticos. Servir é o dever que a todos nos assiste, sem, no entanto, esperarmos retribuição. Nosso salário não se perderá jamais, porque, consoante a lei de causa e de efeito, cada qual colherá o fruto correspondente à semente que plantou. Em outras palavras, conforme o Cristo: “a cada um, segundo suas obras".


            O recurso da prece nunca foi tão oportuno quanto nestes dias incertos. Jamais foi tão necessária a vigilância em torno dos nossos pensamentos e dos nossos atos, como nas horas agitadas do mundo hodierno. Preocupemo-nos mais em vigiar a nós mesmos, do que aos nossos semelhantes e sentiremos, ao fim de cada tarefa, a consciência repousada na confiança de que cumprimos o nosso dever perante Deus, perante Jesus, perante os homens.

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