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domingo, 16 de abril de 2017

Nótulas Espiritualistas XVIII


Nótulas Espiritualistas - XVIII
Dr. Antônio J. Freire
in Reformador (FEB) Julho  1956


            O Espiritismo - uma das mais fecundas e promissoras conquistas do pensamento contemporâneo no estudo experimental da alma humana - só pode ser devidamente compreendido e apreciado quando analisado no conjunto e interdependência das suas leis fundamentais.  Este critério tanto é aplicável à sua parte doutrinária, como à mediunidade, tal é a harmonia de lógica solidariedade e recíproca cooperação da sua orgânica e estruturas. Se o Espiritismo vale muito pelo seu estudo analítico e experimental, vale incomparavelmente mais no seu estudo sintético, na sua conclusiva filosofia inerente ao destino humano, base do seu comportamento individual, coletivo e sociológico.

            Até agora, sistema algum científico ou filosófico penetrou, mais íntima e profundamente nos mistérios da alma humana do que o Espiritismo, embora reconhecendo que existem ainda nesta transcendência e novel "ciência da alma humana" algumas equações a resolver e profundos mistérios a desvendar.

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            A análise é sempre superficial, perdendo-se numa infinidade de pormenores, decompondo e deformando o objetivo do conhecimento; enquanto que a síntese ganha em profundidade e em generalização.  É precisamente uma das características diferenciais entre a Ciência contemporânea, essencialmente analítica e por este motivo materialista e agnóstica, e a Sabedoria antiga, fundamentalmente sintética, orientada numa alta e nobre espiritualidade, conduzindo ao apogeu da glória as velhas civilizações orientais, desde as criptas do Himalaia aos hipogeus egípcios e oráculos gregos, assombros da moderna civilização, onde sábios, filósofos e artistas vão inspirar-se para novos cometimentos e inovações dentro da ciência e da filosofia mas obliterando o seu significado espiritual.

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            A nova falsa Civilização, sejam quais forem as maravilhosas descobertas e assombrosas inovações que tenha no seu ativo, dominando, talvez, a força mais portentosa do Universo, expressa na desintegração do átomo, não pode subsistir por carência espiritual.

            A nossa Humanidade atravessa a mais pavorosa crise moral que a História nos aponta.

            O materialismo, altar onde pontificam ciências, filosofias e literaturas - com raras exceções - com o seu perverso e satânico cortejo de vícios e paixões dissolutas, sem o mais leve respeito pelo decoro e dignidade humana, vai impelindo a desvairada Humanidade para um cataclismo abissal que tragará brutalmente a nossa Civilização cristã, duas vezes milenária.

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            Depois da falência imperdoável das Religiões sacrificando, de longa data, o espiritual ao temporal, devemos reconhecer que só o Neo-espiritualismo poderá opor rigoroso dique à derrocada e ao descalabro moral que invadem todas as classes sociais, quer no Ocidente, quer no Oriente.

            Só o Neo-espiritualismo poderá salvar a Humanidade oferecendo-lhe uma norma espiritual que lhe esclareça o entendimento, seu sentido científico e experimental, e santifique o sentimento pela fraternidade cristã, comprovando-lhe que todos temos a mesma origem e finalidade divinas.

            À mentalidade satânica e descrente que domina e perverte a Humanidade através dos seus refalsados e astuciosos mentores, desde os materialistas aos comunistas, devem os neo-espiritualistas fazer convergir todas as suas forças para que se restabeleça com a devida Luz e Verdade, em toda a parte, uma  mentalidade neo-espiritualista, demonstrando a unidade pela fraternidade,  tecida de Amor, Perdão e Caridade - a luminosa trilogia cristã - e fazendo salientar o alto significado das Leis básicas do Espiritismo - Evolução, Reencarnacionismo e Carma - para a compreensão do destino humano, e daí deduzirem o melhor comportamento individual e coletivo, baseado no finalismo humano, ultrapassando  espaço e o tempo.

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            Dentro das estruturas do Espiritismo, um dos fatores determinante da regeneração social é, com toda a evidência,  o pleno conhecimento do mecanismo da grandiosa, magnânima e providencial Lei da Evolução (morfológica e espiritual), emanando da Vida infinita e eterna, "alma-mater" de todos os progressos, no seu sentido mais lato, pela dinamização, devido ao nosso esforço próprio, das virtualidades divinas potencializadas na alma humana.

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            A Ciência, na sua miopia espiritual, que tão prejudicial tem sido para a Humanidade, só estuda a parte mais grosseira e material da evolução - a parte morfológica; o Espiritismo estuda a Lei da evolução no seu ponto de vista espiritual, e no seu transcendente mecanismo, tendo por lei de apoio - a Lei reencarnacionista ou das vidas sucessivas - e por lei diretriz - a Lei Cármica. O Carma é o idealíssimo executor da Justiça lmanente: - "pagarás até o último ceitil". É uma lei digna de profundas e repetidas meditações no seu transcendente mecanismo e complexidade. O seu conhecimento evitará muitos desânimos e revoltas.

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            Como dissemos,  a Evolução no seu significado integral apresenta um duplo aspecto: espiritual e morfológico, abrangendo a parte material da forma.

            No seu primeiro aspecto - o espiritual -, a Evolução atua numa linha continua e progressiva através da alma, desafiando o infinito e a eternidade; enquanto que a Evolução, no seu segundo aspecto - morfológico e material - atua numa linha descontinua, limitada à forma e à transformação das espécies, efêmeras e transitórias, limitadas no tempo e no espaço.

            A primeira, de essência espiritual, penetra no Absoluto; a segunda mergulha na matéria. Por este motivo, a primeira age no infinito do espaço e na eternidade do tempo; enquanto que a segunda é limitada no espaço e no tempo, ainda que subsidiária da primeira, seu instrumento de trabalho, para os Mundos terrestres e materiais.

            Neste formidável e incoercível rotativismo evolucionante, alternando de Mundo para Mundo, abrangendo Universos e Humanidades, a matéria tende a eterizar-se ao impulso providencial do espírito, como comprova a radioatividade.

            No ponto de vista humano, tanto o espírito como a matéria são solidários no seu evolucionismo, e a matéria subsistirá até que a alma humana atinja a divindade,  como é o seu destino último pela sua origem e finalidade expressas na mônada divina.

            O Homem é um deus em potência. Todas as dores e sofrimentos se diluem neste fim glorioso e triunfante.


            Mas o homem tem de conquistar a sua Divindade pelo seu esforço próprio, dinamizando, pela inteligência e pelo Amor, pelo sacrifício e pela renúncia os germes divinos contidos no seu Cristo interior. 

Lisboa 1955

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