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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Geley: apóstolo da ciência cristã


Geley:
apóstolo da ciência cristã

Gilberto Campista Guarino
Reformador (FEB) Juho 1974

            Ideias novas constituem testes avançados para quem quer que ouse esposá-las. Em todos os tempos, em todas as regiões, houve dúvidas quanto à veracidade dos fatos; o raciocínio foi e continuará sempre a ser o grande  trunfo do espírito chegado ao reino humano. Mas, difícil faz-se de compreender que o homem se utilize desse raciocínio, atarrachando a própria consciência à baliza da negativa infundada. É atitude que contraria a própria essência da faculdade de discernimento. É profundamente estranha a verificação da atividade consciencial "lutando" por menos entender todas as coisas, por perder progressivamente a noção da própria vida. Felizmente, essa não é regra geral, embora digam que a exceção confirma a regra. Dentro da Ciência, preocupada com o esclarecimento da vida, do Universo, houve sempre e sempre haverá o legítimo cientista, isto é, aquele que, lançando mão dos métodos científicos, prossegue na pesquisa sem espírito prevenido, sem a má vontade dos falsos pesquisadores e com a lúcida atenção do cérebro e do coração.
           
            A antiga Metapsíquica que, na classificação de Charles Robert Richet - o genial descobridor da anafilaxia, pacifista emérito, estudioso do calor animal -, ocupa lugar de destaque no desenvolvimento do Século XIX, é, no seu conceito, "a ciência que tem por objeto os fenômenos físicos ou psicológícos devidos a forças que parecem inteligentes, ou a faculdades desconhecidas do espírito". Esse o Richet ainda não convicto da realidade do Espírito imortal, da sobrevivência do ser. Eis agora o mesmo cientista depois das pacientes pesquisas efetuadas na companhia de inúmeros estudiosos de grande mérito: "O mundo oculto existe. Correndo o risco de ser olhado por meus contemporâneos como um insensato, creio que existem fantasmas." ("Revue Spirite" de setembro de 1937, pág, 396.)

            Ora, o enunciador do conceito de metapsíquica, se não endossava a hipótese espírita, naquela época, não deixava de afirmar a existência de um espírito desconhecido, reconhecendo-lhe faculdades também desconhecidas. Atualmente, os seres que pareciam inteligentes já dão mostras de raros conhecimentos e, também, de "conhecimentos raros", e são eles mesmos que nos recordam sempre a importância das vidas desses primeiros pesquisadores, dedicadas inteiramente à tarefa do aclaramento da inteligência humana.

            Como introdução, cabe apenas citar os nomes de, por exemplo, Myers, Podmore, Hodgson, Aksakof, Bernheim, René Sudre, Ochorowsky, Delanne, Schrenck-Notzing e outros investigadores célebres, todos adeptos da Metapsíquica, alguns concluindo a favor da hipótese espírita, como Aksakof, Bozzano - o refutador de René Sudre e de Morselli -, e outros pugnando pela inverdade do Espiritismo, como o próprio René Sudre, autor de "Introdução à Metapsíquica Humana", obra de tristes raciocínios ditos científicos, mas de inusitado valor informático e histórico. Nessa pequenina lista de celebridades deixamos de incluir um dos mais famosos nomes, justamente pelo fato de ser ele a figura central do nosso estudo, e cujo cinquentenário de desencarnação se comemora este mês. Trata-se do Dr. Gustave Geley, antigo interno dos hospitais de Lyon, laureado pela Faculdade de Medicina da mesma cidade graças à sua obra "Des applications périphériques de certains alcaloïdes ou glucosides".

            Pelo que nos informa a "Revue Spirite", de 1924, o Dr. Geley reencarnou em 1868, em Montceau-Ies-Mines, França. Cursou a Faculdade de Medicina de Lyon, estabelecendo-se, posteriormente, em Annecy, já com farta bagagem de realizações, inclusive a precitada tese premiada.

            A vida de Geley era moldada pela mais absoluta integridade moral, sendo, inclusive, criatura profundamente estimada por seus amigos e conhecidos. Foi sempre um homem assaz acatado. Positivista, reencarnado em pleno século em que fervilhavam as asserções de Auguste Comte, Gustave Geley extraiu do Positivismo tudo quanto lhe poderia este conceder. Soube separar o joio do trigo, discernindo entre o que servia e o que não era de grande utilidade, os exageros distinguindo da realidade clara. É fato sabido, no Espiritismo, que - em nossa atual posição - o imperativo do mal é a válvula de libertação para a grande ala do bem; é por aquele que alcançaremos a paz interior. Pois, soube o Dr. Geley retirar do Positivismo tudo o que de bom lhe poderia ele conferir. Seu raciocínio moldou-se de forma altamente científica, jamais - aceitando o que pesquisado e provado não fosse. Isso foi a preparação de um trabalho importantíssimo, a ser futuramente desenvolvido com tanta propriedade e argúcia. E, já que falamos levemente em Positivismo, não será demais recordar, em favor das concepções espiritistas, que o próprio Comte pontilhou seus últimos momentos na terra de uma espiritualidade contundente.

            Em 1918, funda-se o Instituto de Metapsíquica Internacional, sendo Geley seu presidente até o ano de 1924, quando desencarnou em desastre aviatório. Os rumos que tomaria esse famoso Instituto nos levam a crer que Geley, de fato, precisaria de mais esse estágio a fim de compreender os posicionamentos de certos "cientistas" que, para desmascarar a "pantomima" espírita, não hesitaram em promover polêmicas acerbas e as mais chulas celeumas. Aqui, ainda uma vez, relembramos as diatribes de Morselli ao parecer espírita, diatribes essas tão veementemente bem destroçadas pela impressionante lógica de Ernesto Bozzano.

            Quando se examina a obra de René Sudre "Introduction à Ia Métapsychique humaine", Paris, Payot, 1926, bem se observa o espírito prevenido contra o que Geley apelidava de "hípothéses nouvelles" (hipóteses novas); dentre elas, situavam-se a exteriorização e a subconsciência. A primeira foi fartamente tratada pelo coronel Conde Albert de Rochas d' Aiglun. Da segunda, Geley e Myers retiraram todas as ilações compatíveis com as possibilidades da época, indo mesmo adiante. O que diferencia os dois sábios (que como tal não se consideravam) era, basicamente, a diferença de raciocínios: Geley é preciso ao extremo, de razões mais cristalinas que água sobre cristais de rocha. Myers não é tão acessível, às vezes apresentando suas opiniões de modo bastante prolixo. Diga-se, não podemos considerar tal coisa como propriamente um defeito. Além disso, é agradavelmente interessante notarmos o método de Geley, no qual há muito de intuição (contrariando até mesmo os ditames do Positivismo) , mas no qual essa intuição não é lúdida, e sim obediente aos caminhos da prudência, porque lhe são meio e não fim.

            Nessa Metapsíquica, que primou pela contestação gratuita e infantil - como no caso do próprio René Sudre, inteligente e perspicaz, porém apaixonado, mas que também encontrou a própria defesa e justificativa na aquilina visão de Charles Richet -, Geley desponta como figura de primeiro plano.

            Interessou-se especialmente pela MetapsíquIca Física. Nesse campo, examinou as produções do engenheiro polonês Ossowiecki, junto de Richet e de Sudre. Este último narramos extraordinária experiência a que assistiu com o médium. Sudre colocou dentro de um vidro opaco um bilhete no qual escreveu a seguinte frase de Pascal:

            "O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza; mas um caniço que pensa." Concentrando-se sobre o papel escrito, eis o que disse o médium:

            - "Isso concerne à humanidade... ao homem, melhor dizendo. .. :É uma criatura, a mais tola. .. :É algo do homem... Tenho a intuição da tolice. .. :É um provérbio. .. São ideias de um dos mais importantes homens do passado ... Pascal, eu diria.    O homem é fraco ... um caniço fraco ... mas ...fraqueza ... e também o mais pensativo dos caniços."

            No Congresso de Varsóvia, onde estavam Geley e René Sudre, Ossowiecki decifrou diante de numerosas pessoas um documento que havia sido preparado na Inglaterra, pelo investigador da Sociedade de Pesquisas Psíquicas inglesa, nessa época Mr. Dingwall.

            Geley, na sábia e quieta observação, deixava aos menos avisados a fúria do palavrório inútil. E prosseguia, ainda não satisfeito.

            Mais adiante, junto a Schrenck-Notzing, esquadrinhou os fenômenos de levitação de Willy, principalmente da última vez em que esteve em Viena, experiências essas levadas a efeito na casa do Dr. Holub, metapsiquista igualmente. As fotografias desses fenômenos podem ser encontradas no hoje raríssimo e ultra precioso livro de Schrenck-Notzing "Os Fenômenos Físicos da Mediunidade". Quando terminaram suas experiências com Willy, Geley estava convicto da autenticidade do ocorrido. As práticas eram realizadas sob a leve claridade de uma lâmpada vermelha, estando o médium vestido com uma roupa coberta de pontos fosforescentes, de modo que seu corpo permanecia totalmente visível nessa penumbra. Levitava horizontalmente e, como afirma René Sudre, "parecia carregado por uma nuvem invisível". Continuava levitando, até que atingisse o teto, lá permanecendo por volta de cinco minutos, a agitar as pernas atadas uma a outra. A descida, pelas narrativas que coligimos, era na igual velocidade da subida: ambas verificavam-se de modo relativamente brusco. Como vemos, não havia possibilidade de fraude.

            Em outra época, acompanhado de Charles Richet, presenciou os raros fenômenos de formações ectoplásmicas de animais, com o médium Guzik, também polonês. Geley narra por diversas vezes - inclusive nos anais do Instituto que dirigia - o estranho contato que lembrava o roçar da cauda de um cachorro no tecido de seus costumes, além da presença de outras formas de animais que exalavam o odor de fava.

            Nessa mesma etapa de sua vida, realizou e presenciou experiências de fluido mumificador, mumificando animais por meio de passes. A respeito, pronunciou profunda preleção, afirmando que mesmo os animais maiores conservavam-se tão bem quanto se houvessem sido empalhados. Além disso, notou que os parasitas microscópicos eram destruídos por essa ação fluídica, o que o levou a concluir que a ação fluídica do médium era microbicida indireta; indireta porque se processava graças ao reforço que emprestava aos tecidos. Foi assim que Geley ligou o fenômeno ao campo da Metapsíquica Curativa, o que é hoje amplamente difundido no Espiritismo Experimental. Nesse particular, os frescos egípcios demonstram a realidade do aproveitamento das forças magnéticas humanas na mumificação, onde, dentre outros componentes, eram aproveitadas a energia solar e a polaridade natural. Recentemente, nos Estados Unidos, hão sido realizadas experiências desse teor, com a conservação de pedaços de carne animal por muitos dias consecutivos, apenas com base na imposição das mãos.

            De 1922 a 1923, Geley conduziu sessões no Instituto de Metapsíquica Internacional, com Guzik e com Franeck Kluski. Essas sessões eram desenvolvidas sob as mais rigorosas condições: os médiuns estavam vestidos com roupa especial, amarrados nos pulsos e nas pernas e ligados aos assistentes por fios resistentes. Nessa empresa foram vistas súbitas luzes entre cortadas, voando numa certa altura, formando, depois, dois belos olhos. Ao lado desses olhos, esboçavam-se posteriormente traços luminosos, a formar um rosto; depois, surgia, perfeitamente visível, a cabeça. De repente, uma "voz rouca indefinível" (palavras de Geley) pronunciou em alemão "Guten Morgen". Nessas mesmas reuniões, luzes estranhas esvoaçavam sobre o piano do salão, fechado a chave, furtando-lhe quatro ou cinco sons subsequentes.

            Com Kluski, realizou também experiências de materializações de formas de animais, tendo visto a presença de enorme águia pousada sobre os ombros desse médium. Esse estranho animal, produzido também em sessão onde se achavam Richet e Geley, foi por eles chamado de Pitecantropo. Observaram ainda a materialização de um homem barbado, com voz rouca, que tocava o rosto dos presentes. Analisando a ocorrência, Geley chegou à conclusão de que esse homem não passava de criação do médium, a partir da exteriorização de ectoplasma (teleplasma, para Schrenck-Notzing; eflúvios ódicos, para Reichembach), uma vez que tal ser obedecia sempre aos pensamentos do sensitivo, não apresentando autonomia de vontade.

            Geley não se satisfazia com pouco, até que obteve os célebres moldes, também com Kluski, além das impressões na parafina, prenúncios da datiloscopia efetuada com as materializações obtidas com Anna Prado, no Pará. Nesses casos, mais uma vez entrou em cena a prudência. Colocava-se um balde repleto de água bastante quente ao lado de outro, pleno de parafina em fusão. A forma mergulhava - em geral braços ou pés - dentro de um e de outro, fazendo com que endurecesse a parafina. Depois desmaterializava o membro, sem partir a substância. Geley, já plenamente certificado da impossibilidade de qualquer fraude (as reuniões eram realizadas sob austeríssimas condições), resolveu adicionar ao banho de parafina determinada quantidade de colesterina, gordura que existe no sangue. Ao final do empreendimento, foi achada essa mesma substância nos moldes deixados.

            Nas primeiras sessões do Instituto de Metapsíquica, foram obtidos nove moldes, dos quais sete eram de mãos, um de pés e outro de queixos e lábios. O tamanho destes últimos era perfeitamente normal, estando os demais reduzidos de um quarto, se bem que apresentassem sempre as características de membros adultos. Geley observava, dentre outros aspectos, os pormenores da pele, idênticos aos de um membro "vivo".

            As mãos entrelaçadas e ligadas Geley só as obteve nas sessões de 1921 e 1922. Essas moldagens foram, quando examinadas por cinco peritos em moldes, consideradas não como sobremoldagens, mas "como moldes originais". Os peritos ficaram atônitos com a finura das paredes de parafina, jamais ultrapassando a espessura de um milímetro, perante o que afirmaram que apenas uma mão viva poderia ter servido de molde. Todos os artistas declararam-se impotentes para reproduzir ao que chamaram de obra de arte.

            Foi, no entanto, com Marthe Béraud (Eva Carrière) que Geley realizou o maior número de experimentações. Sua obra "Do Inconsciente ao Consciente" baseia-se em maior parte nos fenômenos observados com a sensitiva, que produzia materializações diminutas de rostos, mãos e cabeças inteiras. Eva Carrière submeteu-se a todas as exigências de Geley, em proveito da Ciência, razão pela qual o eminente cientista lhe dirigiu tocante agradecimento, apresentando-lhe o "muito obrigado" da parte dessa mesma Ciência. A médium era despida e vestida, a seguir, com um gabão negro, tendo essa roupa sido investigada por senhoras da confiança do Dr. Geley. Depois disso, era amarrada à cadeira, amordaçada e totalmente cerceada em seus movimentos, tendo a mão segura por Geley. O ambiente era iluminado por suave luz vermelha.

            Também experimentou a fotografia, com Kluski, tendo surpreendido um oficial, completamente fardado, que passou a insistir sobre as peculiaridades do barrete, dos botões do uniforme, dos cordões das botas, etc. Mesmo assim Geley afirmou peremptoriamente que "muito tinha ainda a aprender sobre esse assunto" ("Revista de Metapsíquica", 1925, pág. 30).

            Pelo pequenino resumo que efetuamos da experiência científica de nosso personagem, há alguns pontos que ressaltam a olhos vistos:

            - Geley era investigador intransigente;
            - buscava os resultados através de diversos sensitivos;
            - desse conjunto de fatos, partia em direção a uma possível resposta;
            - para atingir essa resposta, examinava todas as teorias já formuladas sobre o assunto; analisava-as, aceitando-as ou não;
            - escolhia as que primassem pela lógica;
            - com elas, à luz delas, enfocava o ocorrido,  concluindo - num segundo exame - sobre sua real procedência;
            - confrontava-as com o seu parecer;
            - tirava a "média" entre eles, procurando mostrar sempre os prós e os contras;
            - concluía.

            Só poderia agir desse modo um indivíduo cujo raciocínio e intuição funcionassem em obediência a determinado esquema evolutivo superior. Geley, por tudo isso, trouxe ao nosso conhecimento colaboração de difícil estimativa, contribuindo para a decisiva descoberta científica do espírito humano, com a final corroboração dos princípios espiritistas.

            Tendo pesquisado muito, até exaustivamente, formulou teorias necessárias ao entendimento da matéria, de modo a apresentar todas as contradições aparentes e possíveis, para depois destruí-las pela razão esclareci da. Resumiremos seu ponto de vista:

            A unidade da substância orgânica preocupou-o de modo assaz perceptível. Para Geley, o ectoplasma -- termo de eleição de Richet, não nos esqueçamos - é, em sua essência, um prolongamento fisiológico do médium. É a substância íntima, viva, componente do ser humano, extremamente sensível, úmida, coleante, viscosa, levemente acinzentada (atualmente, sabemos que a alvura dessa matéria é instável, dependendo quase sempre da condição evolutiva da entidade); em linguagem moderna, é o plasma biológico que compõe a criatura. Sua tessitura, para nós, varia de acordo com a evolução do ser, evolução essa que, para Geley, se faz através da gradativa expansão do ser, desde o estado de inconsciência até ao da consciência plena e abrangente, quando o Espírito passa a ser "um só com Deus". Nesse ponto - o da expansão consciencial progressiva -, recomendamos aos interessados o estudo das teorias de Myers, na obra "Human Personality", bem como a obra de André Luiz "Evolução em Dois Mundos". Ainda será interessante e altamente proveitosa a análise da obra de Gabriel Delanne, principalmente os brilhantes estudos a respeito do perispírito, suas propriedades funcionais adquiridas, seu amplíssimo desempenho na vida do Espírito, até que - purificado (ou puro desde o início) -, não precise ele de perispírito, no dizer de Max (Bezerra de Menezes), no excelente artigo "O Corpo Fluídico de Jesus", inserido em "Reformador" de março último. O ectoplasma, em outras palavras, é o próprio médium parcialmente exteriorizado. Mas, observou o cientista que essa substância é indiferenciada: não é nem tecido nervoso, nem tecido muscular, nem tecido conjuntivo; não é nem mesmo um amálgama celular. Ê substância única, que obedece a comandos de organização e de desorganização do ser subconsciente, podendo tomar todas as formas da vida, trazendo em si mesma o movimento da própria vida.

            Desejando estudá-Ia, Geley precisou estabelecer os campos limitados da Fisiologia, da Psicologia normal e da Psicologia anormal. Quanto a isso, enviamos o leitor à obra "O Ser Subconsciente". Do exame dessa tripla caracterização científica, ele começa por recordar que a Biologia normal nos demonstra que todo ser organizado provém de uma célula. De fato, teríamos a ordem normal estudada pela ciência. Mas - raciocinava --, em certos casos, observa-se o surgimento de uma borboleta, por exemplo, a partir de uma aparente desorganização: é a crisálida que se reduz a um amontoado de substância, com o desaparecimento de qualquer "figuração celular", em sua própria linguagem. Dessa massa aparece um outro animal, de novas características físicas e psíquicas. Era o estudo do cientista aplicando o método já exposto, inclusive a analogia, e mostrando no campo da própria natureza animal a base dos fenômenos ditos paranormais. Atualmente é a histólise do inseto (sucessão de destruições transformativas que levam a um outro estado natural), consistindo em verdadeira materialização, na qual o médium será a crisálida donde sai o "fantasma" (como se costumava dizer), que é a borboleta. O casulo representa o gabinete, destinado a proteger a operação complexa das formas materializadas.

            Assim raciocinando, Geley observou a importância prática do estudo da Fisiologia normal e anormal, explicando o conjunto de fatos ocorridos, bem como a Psicologia, também normal e anormal, lançando luzes sobre o aspecto psíquico do mesmo conjunto de fatos. Prosseguindo, viu que se toda essa gama notável de ocorrências obedecia a um sistema organizador ou desorganizador, que manipulava uma substância primordial única, dando origem a representações, não mais haveria razão para bipartir o campo científico: haveria apenas uma Fisiologia, a superior;  uma Psicologia, a de igual modo superior, cada uma delas atuando em seu campo, Era a chegada do homem aos sistemas de compreensão da unidade do próprio Universo. Novidade? Não. Geley dava exemplo da própria teoria: a penetração e expansão consciencial do Espírito no todo universal. Nós vivemos em meio a representações que estampam determinados estados, estados esses que obedecem às necessidades íntimas da evolução, abrindo ao homem imenso campo de atividade Intelecto-moral-espiritual. E é nesse próprio campo que a analogia nos apresenta a possibilidade de compreensão da riqueza de possibilidades, tanto do fenômeno humano quanto do sobre-humano, se assim nos podemos expressar. É preciso admitir a necessidade de um dinamismo superior que organiza, centraliza e dirige essa substância, para que se entenda a variedade impressionante produzida pela substância primordial, causa única, simples, e seus efeitos variados, de grande riqueza.

            Que força diretora será essa? Para Geley ela representa o ponto de união, precisamente aquele que justifica a unidade da ciência superior, englobando os aspectos menores: é a faculdade organizadora e desorganizadora do ser subconsciente, de Geley, e a ideia diretriz, de Claude Bernard. No entanto, a superioridade daquela lança sombras de esquecimento sobre a segunda. O ser subconsciente, liberado em determinados estados de exteriorização total, penetrando o mundo invisível, adquire amplo espectro de ação, não sendo efeito, mas causa. Destarte, a ideia diretriz seria elucubração do ser subconsciente, assim como a mente tem a norteá-la a emissão do Espírito consciente. É o mais englobando o menos.

            Aqui cabe citar outra peculiaridade do método geleyano: o mais pode o mais, atua sobre o menos. Assim, o Doutor pesquisa o fato complexo, onde se encontra subentendido e englobado o menos complexo: só se atém a este último no caso de ser imprescindível esse proceder. Como vemos, eis o papel da intuição, aliada à razão de que inicialmente falamos: encontrar, do melhor modo possível, o MAIS. Isso não é empírico: é produto de larga experiência científica, de observação arguta e percuciente, bem característica dos integrantes da grei dos defensores do esclarecimento humano.

            Em todo esse processo construtor há reparadores responsáveis pela manutenção da integridade do modelo. É precisamente a propriedade da substância una, movimentada pela faculdade organizadora da vontade. É esse ectoplasma a substância vital, "mantenedora e reparadora", no dizer de Gabriel Delanne. Chegamos, então, ao resultado: o ser humano é Espírito momentaneamente revestido de um corpo de carne, tendo como elo, entre Espírito e corpo carnal, o corpo perispiritual, que maneja - segundo a vontade  (a ideia do ser-Espirito) - a substância reparadora e mantenedora, que organiza ou desorganiza.  É  a ação do Espírito humano. Será isso o mediunismo? Não.

            Gustave Geley relembra que se essa faculdade é inerente ao Espírito humano presente na matéria da Terra, deverá também ser própria do Espírito humano momentaneamente liberto dessa matéria, em estado de erraticidade. O mediunismo seria, então, todo esse processo magnífico de apresentação de vida, com a movimentação dos recônditos do Espírito. e a utilização do fluido vital, através do períspirito (ele é o molde, não nos esqueçamos), segundo a vontade espiritual, tudo isso, dizíamos nós, elevado a campo muito mais amplo : o -- segundo. suas palavras, corroborando as de Myers - dos seres em presente evolução extraterrestre. Será isso, portanto, de um lado o animismo, ainda que no efeito físico, e, de outro, a mediunidade, isto é, a franca intervenção de um ser diverso do próprio médium, atuando sobre ele na criação física ou psíquica, não importa.

            Como vemos, isso significa programação de adesão e defesa dos princípios espíritas. Mas, como dissemos no Início, as ideias novas constituem-se em testes avançados para quem quer que ouse esposá-las. Veio a Fisiologia clássica explicando que o sono, um dos meios de exteriorização do ser, não passa de repouso dos centros nervosos. Mas, pergunta Geley: deixando de lado a intensidade emotiva de certos sonhos alegres ou tristes, que dizer das importantes manifestações do trabalho subconsciente? Isso é o suficiente para que se entenda que o repouso dos centros nervosos não explica nem mesmo os fenômenos anímicos, psicológica ou fisicamente. O trabalho do Espírito permanece autêntico, mais livre e amplo. Não se conseguiu, portanto, destruir a hipótese espírita.

            E sobre o mediunismo, Geley não mais se estendeu sobre as pesquisas Incomensuráveis levadas a efeito por toda parte, e - de acordo com suas próprias palavras -- "de modo conclusivo e irrefutável". Recordava, principalmente, "que somente as criaturas que não conhecem o tema (o mediunismo), nem teórica nem experimentalmente, continuam a negar os fenômenos dessa ordem; que esses fenômenos investem-se de uma objetividade facilmente demonstrável e não somente explicável pela fraude, pela ilusão ou pela alucinação; que nada têm de sobrenatural, podendo ser interpretados de modo perfeitamente racional e satisfatório".

            Como vemos, fraude, ilusão e alucinação (coletiva ou não) de há muito são desculpas esfarrapadas, instrumentos anacrônicos de refutação caprichosa da verdade.

            E o animismo (a exteriorização e a subconsciência) seria a explicação de todo o fenômeno mediúnico? Já por si só o animismo prova o Espiritismo: naquele estão em jogo forças espirituais, que não obedecem às secreções cerebrais ou aos humores glandulares, isto é, que não têm sua sede na matéria, embora possam por esta ser influenciadas. Além disso, só seria possível a total explicação se passássemos por cima de uma série infinita de pormenores. Em primeiro lugar, os fenômenos de exteriorização e de subconsciência -- para que explicassem o mediunismo – teriam de ter  impressionante desenvolvimento, não podendo estar (como dissemos) submetidos à constrição da matéria bruta; seria necessário que eles estivessem fora dela, com o que seriam Espíritos. Mas, admitamos que assim aconteça. Vejamos o que diz Geley em "O Ser Subconsciente":

            "Todos os fenômenos físicos podem ser explicados pela exteriorização, desde que se admita a complexa exteriorização de sensibilidade, força, matéria e inteligência, bem como de uma potente faculdade de organização e de desorganização sobre a matéria."

            Ora, raciocinamos nós, isso é impossível, dadas as limitações impostas ao Espírito pela matéria. Mas, prossigamos, admitindo que assim seja. Vejamos ainda Geley:

            "A subconsciência pode explicar a influência diretora dos fenômenos e todas as manifestações intelectuais, desde que se admita uma subconsciência superior bastante complexa, muito diferente da subconsciência clássica (recairemos na hipótese espirita), ainda mais diferente da consciência normal, por suas faculdades e por seus conhecimentos com frequência muito mais importantes e vastos, englobando completas personalidades múltiplas, ignoradas pela personalidade normal." (O parêntesis é nosso.)

            Haverá os que, em desespero, dirão: E as vidas passadas?

            Voltamos ao contexto espírita, mas, ainda assim, como explicar que alguém que, comprovadamente, não teve vivência no campo da Química ou da Física, consiga, em estado de transe, elaborar fórmulas inteiras, dissertando sobre elas? Ah - dirão -, pela conscientização progressiva!

            Mas, diremos nós, então estaremos no caminho da evolução, da evolução do Espírito, e não da matéria, porque a consciência é Espírito!

            Ouçamos Geley, mais uma vez:

            "Finalmente, sob a condição de atribuir à subconsciência superior extensas faculdades de leitura de pensamento e de clarividência (fenômenos que estão contidos na e explicados pela hipótese espírita), não logram explicar o conhecimento de tudo o que concerne aos Espíritos, cuja manifestação simula." (O parênteses é nosso.) "Relativamente à origem dos fenômenos, é necessário admitir-se um erro voluntário ou involuntário da subconsciência, uma vez que atribui aos Espíritos o que na realidade dela mesma promana."

            Ai está: Geley raciocinou dentro da Ciência e contribuiu com um verdadeiro conceito científico sobre o homem, o único que o Espiritismo pode apoiar: de qualquer lado por que se "ataque", topa-se com o Espírito, que vive e sobrevive, porque é imperecível, e, por ser imperecível, vive sempre. Mas, viverá sempre na contemplação beatifica, no ócio desesperador? Se trabalha na Terra, será o espaço lugar onde não exercerá suas faculdades? E se, mesmo trabalhando na Terra, não logra deixar de ser por agora imperfeito, só se pode concluir que viverá muitas vezes, aperfeiçoando-se moral, intelectual e espiritualmente, cada vez mais, em expansões da consciência, até que, no estado de puro Espírito, compreenda o Universo e o Criador.

* * *

            Para examinarmos a posição de Geley face à reencarnação, é necessário recorrermos à preciosa obra "O Ser Subconsciente".

            Na segunda parte do livro, iniciada a páginas 151, da terceira edição francesa, 1911, Paris, F. Alcan, o autor propõe um "esboço de filosofia idealista baseada nas novas noções". Há quem critique a apresentação do tema, achando que a posição poderia ser mais clara. Discordamos inteiramente desse parecer, que reflete a precipitação imperdoável ao homem de ciência. Quem quer que, atentamente leia (e estude) a abordagem do assunto - que encerra o livro com chave de ouro -, ali encontrará subsídios infindáveis para as mais diversas lucubrações, todas elas corroboradoras dos princípios contidos na codificação kardequiana. Geley foi de tocante clareza, e o tratamento que emprestou à teoria, confessamos, conduziu- -nos às lágrimas de emoção. Explicamos: não se trata de água com açúcar, nem - muito menos - que Geley tenha buscado as palavras de grande efeito, descambando para o terreno da banalidade. Muito pelo contrário - e o achará quem ler o
prefalado trecho -, foram precisamente a simplicidade e a concisão as responsáveis pela comunicação emotiva que, cremos nós, todos experimentarão.

            Seguindo fielmente seu método, obedecendo à progressividade do estudo, o escritor principia por estabelecer com nitidez as pontes entre o estudo anterior da Psicologia normal e anormal, de um modo geral, e a filosofia que pretende apresentar. De imediato, faz questão de lembrar que não é dogmático e que deixa ao tempo o julgamento de suas obras, mas que o dever de consciência lhe impõe a exposição e a conclusão a que chegou, após anos de minuciosas investigações. Evoca, em primeiro lugar, a presença no ser de princípios dinâmicos e psíquicos, todos independentes do funcionamento orgânico. Do mesmo modo, se esses princípios se separam desse organismo já durante a vida terrena, operando à revelia da matéria bruta, evidente que - na sobrevivência, que responde pela grandiosidade da própria Criação - tais princípios continuarão a existir, preexistindo também. Deixa bem claro, depois, que aceita a dupla evolução, terrestre e extraterrestre, a que se acha submetido o ser humano. Essa é, aliás, como já recordamos, a posição de Myers, em "Human Personality".

            Explica, a seguir, sua teoria da expansão do ser, do inconsciente ao consciente, a qual também responde à lógica criacionista, pois somente pela evolução constante, demorada e progressiva poderá o Espírito atingir o estado de felicidade. Para Geley, incontestavelmente, esse estado é certeza absoluta; e essa certeza, desde já, impõe à criatura o dever de zelar pela sua própria vida e pela dos semelhantes; pela sua própria honra e pela dos semelhantes; pelo seu próprio bem-estar e pelo do próximo; enfim, é uma verdade inegável, que impõe à humanidade inteira a noção de respeito mútuo.

            Surge, então, o problema do mal de modo inusitado: por um lado, importa a sua prática em atraso na marcha evolutiva e no consequente alcance da felicidade a que nos referíamos.
           
            Mas, por outro lado, desanuvia-se em muito o ambiente que cerca a vida humana, pela nitidez da concepção da transitoriedade desse mal, vestido - agora - do caráter ilusório e efêmero que é a sua realidade. "O mal - diz Gustave Geley - perde grande parte de sua pretensa importância, na filosofia da palingenesia." Será sempre reparável, tendo seus efeitos constantemente atenuados.

            Belíssima ilação de cunho eminentemente espiritista! A atenuação dos efeitos desse mal obedece aos imperativos da própria lei do bem. Quem não está recordado do conto em que um trabalhador de engenho tem um dedo decepado por complicada engrenagem e, chegando à reunião espírita que frequentava, ouve do mentor espiritual a declaração de que sua pena havia sido aliviada, em vista da reta conduta que havia sempre mantido, dedicando-se ao bem do próximo? ... Mas, que tivesse sempre em mente o fato de que justa era a ocorrência, vez que, em existência pretérita, colocara propositadamente o braço de subordinado nas engrenagens de outro engenho, obedecendo ao seu instinto de dominação, como desumano feitor! Além disso, quem esquece a resposta que os Espíritos dão a Allan Kardec, quando respondem a respeito da intenção de quem obra: "Deus vê mais a intenção." Aí mesmo reside a relatividade do mal, relatividade essa que só poderia ser resolvida pelo absoluto, porque este a ela subtrai qualquer manobra mais hábil com vistas a eternizar-se. Por isso justamente que, ainda que o quisesse, o homem não estacionaria, mas caminharia sempre. No campo científico, Geley - e muitos outros, como dissemos - incumbiu-se de proclamar tal verdade, comprovando-a quantas vezes foram necessárias.

            Ora, da transitoriedade e da relatividade do mal, eminentemente superável e destrutível pela construção do bem, o Doutor chega à conclusão de que:

            1. O mal é a medida da inferioridade dos mundos e dos seres.

            Isso, em outras palavras, acompanha o que proclamaram os Espíritos ao Codificador, quando com ele estudaram a evolução dos Espíritos e a escala evolucionista dos mundos, assunto também magistralmente tratado na obra "Os Quatro Evangelhos", de J.-B. Roustaing. O mal é consequência da imperfeição do Espírito, sendo a medida de seu estado íntimo, como Espírito.

            2. O mal é a condição que favorece a evolução.

            Nada de precipitações. Para o relativo (que somos e no qual vivemos), do qual faz parte a imperfeição maior ou menor (ver item anterior), o mal é consequência dos atos praticados. Se o erro é o mal, a partir da falência estamos no erro, e só pela vitória sobre ele conseguiremos a libertação final. É, em outras palavras, o que Léon Denis também assegura, quando confere à dor o papel de "reveladora sublime" e "grande libertadora". Quanto maior o erro mais amargo deverá ser o remédio; quem nega semelhante fato não aceita a lei de causa e efeito. Ora, dizemos nós, se o mal é medida da inferioridade dos mundos e dos seres, ele o será nos seres e nos mundos onde exista imperfeição. É o que "O Livro dos Espíritos" afirma. Se, aduzimos nós, não existir mal no Espírito, esse Espírito estará livre das imperfeições e a lei de causa e efeito será, para ele, muito mais suave, posto que em seus arquivos nada guardará que o possa incriminar. Isso posto, deduzimos que todos os Espíritos passam pelo estado de ignorância e de inocência, mas nem todos engrossam as fileiras do mal. Quanto a isso, enviamos os leitores à pergunta de número 120, de "O Livro dos Espíritos":

            120. "Todos os Espíritos passam pela fieira do mal para chegar ao bem?"

            R. "Pela fieira do mal, não; pela fieira da ignorância. "

            Aliás, é a única forma de compreendermos a justiça divina e, só assim, não há de fato privilégio. Sim, porque o livre arbítrio passa a ser inerente ao Espírito que deixou os reinos inferiores da Criação, tendo já penetrado o estado consciencial pleno. Essa a razão por que a resposta que os Espíritos deram a Kardec vem vazada nos seguintes termos:

            121. "Por que é que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros o do mal?"

            R. "Não têm eles o livre arbítrio? Deus não os criou maus; criou-os simples e ignorantes, isto é, tendo tanta aptidão para o bem quanto para o mal. Os que são maus, assim se tornaram por vontade própria."

            E esse o motivo por que o mal haverá sempre de ser opção, constituindo-se em escolha pura e simples que o Espírito realiza, depois que se ache investido do raciocínio, "precioso e perigoso dom", no dizer dos evangelistas em "Os Quatro Evangelhos".

            Eis aí o porquê da possibilidade da descida de Jesus ao nosso planeta. Sendo ele um só com o Pai, haurindo na fonte absoluta a mais perfeita integração com essa divindade una e única, só ele poderia, de acordo com sua pureza imaculada e com as leis que regem as esferas que assiste, trazer o exemplo do absoluto bem e do mais incontestado amor. Jesus, não nos esqueçamos, é um eleito, como bem o diz Emmanuel, em "O Consolador", resposta à pergunta de número 277: "é aquele que percorreu toda a escala evolutiva em linha reta, o que se elevou para Deus em linha reta, sem as quedas que nos são comuns, sendo justo afirmar que o orbe terrestre só viu um eleito, que é Jesus-Cristo".

            Daí Geley dizer que o mal é a medida da inferioridade dos mundos e dos seres: só haverá mal onde houver imperfeição; só existirá imperfeição nos seres falidos.

            Mais adiante, fala ele de um determinismo atuante em todo campo superior, onde cessa o livre arbítrio, o que - "prima facies" - poderá parecer estranho. Observemos, contudo, que todos os seres alcançam a perfeição, o estado de puros Espíritos. Ora, se todos o alcançam ele será um fim comum a qualquer um. É o determinismo do bem, a partir do momento em que o Espírito se decide pelo reto proceder, em que compreende integralmente o destino do Universo. Ele luta por integrar-se nessa realidade: se raciocina, parte rumo ao entendimento, e só ao entendimento. Logo - prova-o suficientemente o douto cientista -, existe um fim único, fatal por assim dizer, coroado da mais pura lógica, objetivo do Espírito humano, condição para que a essência espiritual caminhe sob a tutela dos Espíritos prepostos, enfim, razão por que brilha o sol e por que desabrocham as flores e chilreiam os passarinhos.

            Palingenesia! ... Que importam as palavras se tão imenso é o trabalho a realizar, se tão vastos os horizontes descortinados e se tão avassaladora é ainda a estupidez humana?!... Quem haverá de entender o espírito que fala das coisas do Alto, que mostra a verdadeira grandiosidade da ciência legítima, da ciência que deixa a pomposa cátedra universitária e desce ao nível da ignorância - em subida concessão -, por serem justamente os que estão no alto que podem descer ao nível das misérias humanas, sem contaminar-se irremediavelmente? O Dr. Geley entendeu a humanidade porque não compactuou com as estranhezas em que ela vegeta, e porque a compreendeu acima de tudo como indigente de pão de sabedoria e como mendiga da nobreza que caracteriza os espíritos sábios!

            Para isso, basta recorramos à sua síntese de consequências morais e sociais da filosofia da palingenesia; basta que isso se faça para que percebamos quem foi Gustave Geley. Diz ele, em arroubo de bondade:

            "Essas consequências se resumem em algumas prescrições: trabalhar, amar cada um ao próximo, auxiliar-se mutuamente. Rejeitar todos os sentimentos baixos e inferiores, tais como o egoísmo, o ciúme e sobretudo o ódio e o espírito de vingança.            

            Evitar tudo o que a outrem possa prejudicar. Não desprezar ninguém, não ver nos imbecis, nos iníquos e nos criminosos senão seres inferiores, toda vez que não sejam doentes; ser, por conseguinte, profundamente indulgente para com as faltas de outrem, e - na medida do possível - abster-se de os julgar; enfim, estender nossa piedade e nossa ajuda até aos animais, aos quais - no máximo possível - evitaremos o sofrimento e aos quais apenas em caso extremo daremos a morte. Os homens, quando compreenderem a infinita evolução, saberão conciliar os princípios da liberdade individual e da solidariedade social. Compreenderão que têm o direito ao livre desenvolvimento, mas que são rigorosamente solidários - nesse seu livre desenvolvimento - não só de seus semelhantes, mas de tudo o que pensa, de tudo o que vive, de tudo o que existe. As quimeras de hoje serão as esplêndidas realidades de amanhã."

            Aí, nesse pequenino trecho, está resumida toda a ideia de Geley a respeito da vida, do homem e da harmonia universal. O estudioso da Doutrina dos Espíritos não pode deixar de enxergar nesse manifesto pacifista o libelo contra as erupções de violência que povoam o mundo, espargindo sobre ele as nuvens venenosas da desconfiança e do ódio. A mensagem contida nas expressões edificantes dizem do ponto de vista do Doutor face às necessidades que povoam o íntimo da criatura, correspondendo às reais imperiosidades do espírito torturado pela inconsequência do mal. Geley foi apóstolo do bem na ciência rude que o homem criou. Ele respondeu ao ceticismo do negador gratuito com a imagem do equilíbrio que a moralidade elaborou e guardou no coração de cada um.

* * *

            Estamos diante de um missionário, de um homem que apreciava mais as ideias, a elas submetendo os fatos. A ideia palingenésica é "de soberana beleza e de radiante verdade". Contra ela nada podem os fatos miseráveis. Era ele um idealista puro, um intransigente defensor do homem. Não era místico, sempre dando preferência às ideias precisas e insofismáveis, mas sempre cuidando de procurar, em toda nova noção que surgisse, a marca da possibilidade, ainda que remota. Pode dizer-se, recordando a beleza da tese do Dr. Alexis Carrel, a respeito da oração, que Geley era adepto de Descartes, muito embora jamais houvesse conseguido esquecer Pascal.  A fé que possuía era absoluta, constantemente a serviço do raciocínio "rápido como flecha" (expressão de René Sudre) e preciso a toda prova.

            Enquanto, de um lado, aceita plenamente o monismo e concebe a evolução como "o passo de um dínamo-psiquismo potencial e inconsciente para um dínamo-psiquismo realizado e consciente", procura, por outro lado, humanizar a teoria pura e simples, apresentando seus resultados, com toda a beleza e grandiosidade que a causa guarda. Geley é um demolidor de estruturas vazias e obnóxias, mas um demolidor que, imediatamente, comparece ao campo da luta com o plano e com a proposta de paz e de reconstrução.

Extremamente preocupado com os transcendentes fatos da Psicologia normal e anormal, logrou obter pleno e justificado êxito em suas pesquisas, propondo novas concepções científicas da vida em sua ampla significação, tendo asseverado que "sob a claridade dessas noções tão simples (a palingenesia, a sobrevivência, a comunicação dos Espíritos, etc.) desaparecem todas as obscuridades da Psicologia normal e anormal". Considerava a sua teoria "idealista" como dotada de uma originalidade: a noção que expunha era científica e racional. Procurava entender sempre as necessidades da razão sob o prisma das imperiosidades do coração, porque considerava sempre (ainda que intuitivamente) que o homem era principalmente Espírito eterno. Essa a razão velada por que sua principal motivação dentro dos estudos que estendeu foi sempre a EVOLUÇÃO.  O raciocínio do cientista, insistentemente levando em consideração os apelos do sentimento puro (não confundamos com sentimentalismo), não poderia desprezar o móvel da bondade e o desejo de bem e de paz que dimana das elucubrações do indivíduo bem intencionado. Não podia conceber explicações puramente físicas para problemas que sabia pertencerem à estreita faixa da moral e da espiritualidade. Era um racionalista-intuitivo, bom senso autêntico e servidor fiel da seara científico-moral.

            O que se observa nessa pequena análise da época, da vida e da obra do Dr. Gustave Geley constitui a necessária resposta àqueles que se escudam por detrás de brasões de augusta sabedoria, repetindo jargões anacrônicos, adotando atitudes de superioridade só por não compreenderem o sentido imensurável do que os cerca. Esses estão ainda perdidos na própria pequenez, nadando na massa de água revolta do próprio espírito. São os negadores de Deus, os que pretendem encontrar no vazio do próprio ser as respostas que transcendem os conceitos mesquinhos que a ortodoxia negativista proclama. Outros, quiçá mais infelizes, postos em contato com a realidade passam a desempenhar o papel de cegos voluntários e voluntariosos, dizendo, quase em desespero: "Vejo, mas não posso crer!" Esses, por sua vez, perdem-se no ritualismo inútil e nas fórmulas ditas sacramentais, passam a ditar normas de salvação ou de desgraça irremissível, quando não adotam a ciência distorcida, ciência que responda às próprias distorções intimas. Oremos por eles todos, indiscriminadamente, e oremos também por nós, para que não venhamos a cair sob os golpes da ignorância, deixando naufragar o imenso navio cheio, não de ilusões, mas navegando no mar ilusionista da Terra, carregando a preciosa valise onde residem as esperanças humanas: concórdia e progresso.

            Os que refutam Allan Kardec não percebem que renegam toda a base do bem-estar espiritual do homem; os que combatem os seguidores de Kardec, esses também não tomam conhecimento de que destroem a própria segurança, embasada na certeza do progresso incessante.

            O estudo da obra de Geley conduz-nos à certeza de que o Espiritismo tem a verdade e de que essa verdade precisa encontrar campo dentro de cada espírita, para que venha à luz, alcançando os covis enegrecidos do mundo.

            Estudemos a obra de Geley com o espírito livre dos preconceitos e da má vontade e, talvez espantados, como aconteceu a René Sudre, venhamos a concluir: "Não é que ele é espírita?!"

            Apenas para arrematar: cremos que o próprio René Sudre, homem inteligentíssimo e cultíssimo, mas de espírito prevenido em relação aos estudos espíritas, talvez já tenha encontrado a oportunidade almejada para dar o seu testemunho em favor da verdade da sobrevivência da alma, na reencarnação de trabalho ininterrupto, onde alcançará o equilíbrio que perdeu na negativa odiosa da verdade.

***

            Quando, aos 14 de julho de 1924, tombava no desastre aviatório o corpo físico de Geley, junto desse mesmo corpo erguia-se vitorioso o Espírito imortal, que deu provas de entendimento ao mundo inteiro, não se envergonhando de pugnar pela verdade que foi o móvel da própria vida que viveu na Terra. Esse mesmo Espírito, das felizes regiões que habita, permanece derramando sobre os estudiosos do mundo as intuições edificantes, auxiliando, assim, na difusão da ciência cristã, da qual foi um inesquecível apóstolo. Enquanto no século XVIII a Bastilha tombava irremissivelmente, no século XIX e no início do século XX tombava a fortaleza do obscurantismo imediatista sob o sol da paz que o missionário cria. Aos 14 de julho, repetimos, tombava a Bastilha da carne, entoando o cântico de libertação: e o apóstolo da ciência, vindo em carne ao chão, alçava vôo, em Espírito, evoluindo, evoluindo, qual fora sua preocupação eterna!



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