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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Fraternidade, Fraternidade!


Fraternidade, Fraternidade!  
Léon Denis
por Divaldo Franco
Reformador (FEB) Julho 1971

            No momento em que o homem terreno realiza uma pausa na corrida armamentista para sondar os espaços infinitos; no instante em que as experiências espaciais coletam dados antes imensuráveis e informações preciosas; na hora em que a Terra experimenta, sofregamente, a dissolução dos costumes e uma dor angustiante se espalha por todos os quadrantes, conclamando as personalidades esquizóides ao suicídio e a posições inomináveis no campo da personalidade; no período em que as guerras calamitosas abrem as fauces hiantes, dilacerando as estruturas sociais da Civilização e exaurindo as inesgotáveis fontes de confiança do espírito humano; quando a Ciência atinge as mais elevadas manifestações do conhecimento tecnológico e o homem, simultaneamente, caminha obumbrado pelos corredores da amargura, retido ainda nos bastiões da ignorância e da loucura, merece que façamos uma análise dos acontecimentos da História Universal e fazendo-a, recordemos as epopeias que se desenrolaram às margens dos rios que foram matrizes das nobres culturas da antiguidade oriental: o Nilo, o Tigre, o Eufrates, que prosseguem no ritmo multimilenário das suas águas, lambendo os alicerces das cidades do passado, que pareciam fadadas à Eternidade e sucumbiram, seguindo modorrentas, lavando as pedras que se desconjuntaram das grandes construções ou que mergulharam no hoje fantástico açude, em Assuan, quase não mais evocando a memória semimorta dos povos pretéritos que, então, retornam à nossa mente indagadora: assírios e babilônios, os que viveram na opulência de Nínive ou na grandeza da Média, da Pérsia, como nos colossos do Egito, com suas cidades faustosas, sejam Alexandria ou Menfis, caracterizadas pelo poder e pela abundância, transformadas em metrópoles que pareciam desafiar a posteridade dos tempos e o suceder dos espaços...

            E com elas lembramos os construtores de impérios e os vencedores de exércitos que comandaram tropas sanguinárias, para serem vitimados logo após pela própria irracionalidade de propósitos, como sucedeu a Dario I e Assurbanipal, a Salmanazar e a Baltazar, a Nabucodonosor e Hamurabi, aos dois Sargãos e aos gloriosos dominadores das semi-eternas dinastias egípcias, que duraram um dia, mas de cuja glória somente as pedras talhadas guardam descoloridas impressões, refletidas nas gastas efígies que o passar ininterrupto dos tempos, em vendavais contínuos, como o atritar incessante das areias em convulsões no intérmino das eras modificaram profundamente.         

*

            Recordamos as glórias dos seus estados títeres e depois o desertar dos povos que os abandonaram, transformando-os em cidades mortas, - advertências graves à história do futuro nos seus fundamentos inabordáveis e raramente aproveitados! - Atingimos, pelo pensamento, as civilizações mediterrâneas da Europa, alcançamos o Egeu e evocamos a grandeza da Hélade, para logo após revermos Roma diante do Tirreno, recém-saída do Lácio, e sentir lhe as conquistas fabulosas que da Península Itálica à Ibérica se transformaram em matrizes de novas culturas dando origem a cidades que se converteram em amontoados tristes, com as vidas fanadas sejam originadas nas imensas e longínquas estepes nevadas ou hajam descido das cordilheiras quase inacessíveis, como consequência dos exércitos de Alexandre, o macedônio, ou. remanescentes de Cambises, o persa, ou hajam surgido com os grandes conquistadores mongóis e bárbaros, rastreadas de sangue, cobertas de cinzas, sepultadas em lama ou afogadas pelos rios das lágrimas, vítimas dos Impulsos, sob cujo guante caíram, no furor das loucuras dominadoras de um momento, passando a intérminas aflições de muitas gerações.

            Rememoramos, também, o esforço da Cultura, tentando libertar-se da ignorância medieval, para estabelecer o empirismo indagador, a espocar, logo depois, no renascimento das ideias e das artes abrindo à História novos fastos e novas glórias que culminaram na Revolução da França, quando se pretendeu estabelecer os “direitos do homem” e proclamar os ideais consubstanciados na liberdade, que é a lei da Vida, na igualdade, que é a materialização daqueles Direitos humanos, e na fraternidade, que é o corifeu das duas outras, a fim de sentir o eclodir das paixões que gritavam nas turbas vitoriosas de Napoleão e foram desmoralizadas pelo Carbonário, mais tarde ao trair os ideais da República através do restabelecimento da decaída Monarquia ...

            Relembramos os colossos e aflições das lutas intérminas pela hegemonia dos Estados Italianos, pela reorganização da Prússia, pelas ambições dos Estados Latinos e Anglo-Saxônicos, para, nesta atualidade, rever a Humanidade dividida novamente em 3 grandes blocos, decorrentes do egoísmo dominador: subdesenvolvida, desenvolvida e terceiro mundo, na vã quão louca correria da dominação totalitária para estabelecer na Terra o estágio da posse bélica, tão transitória quanto as expressões da vaidade que perpassa como quadra primaveril e morre entanguido da realidade do Tempo.

            Somos, então, impelidos a recordar Jesus, o Esteta da Fraternidade legítima, sulcando o solo dos corações e plantando na terra do amor os pilotis do santuário da compreensão humana, instaurando de logo o Reino da Tolerância, tendo como alicerce a Manjedoura de humildade e como ápice os braços rasgados de uma cruz de infâmia, formando todo um cendal de estrelas para aqueles que aspiram à imortalidade e à vida.

            Ainda aí, todavia, evocamos mil disputas humanas, as “guerras de Religião” que ocultavam, nas suas manifestações intestinas, as ambições cruéis da política ultramontana dos homens, sempre ávidos pelas posições de destaque e do relevo mentiroso que se esfumam e convertem em cinzas da ilusão, como resultado do fogo desaparecido, ora reminiscências amargas...

            Despertamos hoje, porém, em pleno fastígio do Espiritismo cristianizante, que recoloca as balizas do período da fraternidade ideal no mundo de angústias, dando início à era do amor precioso para a elaboração verdadeira da felicidade no país desconhecido dos corações.

            Diante das conquistas inabordáveis do homem, homem que já se fez hóspede inusitado do satélite pardo-acinzentado da Terra, somos constrangidos a reconhecer a vitória do engenho humano sobre as barreiras antes intransponíveis do seu habitat e simultaneamente verificamos a inexequibilidade das suas conquistas face às ambições desvairadas que o governam e as pretensões de transformar, talvez, Selene dantes sonhadora em base míssil, para atacar os países ditos adversários, que se anteponham às ambições totalitárias dos governos arbitrários e loucos que sempre sonham com Estados Moloques, cujas rédeas desejam reter nas mãos inábeis e nos espíritos furiosos.

            Repetimos: Fraternidade, Fraternidade!

            Disputavam antes o teu nome qirondinos  jacobinos e proclamavam-te Robespierre e Danton, Marat e Condorcet, nos dias da loucura e do Terror; fazendo que silenciasses a voz sob o caudal de sangue que corria da arma de José Guilhotin. Sobreviveste, porém, e cantas aos ouvidos do mundo a epopeia idealista dos dias de amanhã. Quando, cansado e sofrido, o espírito humano compreender que é necessário amar, que a evolução depende do conhecimento mas também de ti, então voltarás triunfalmente à Terra de todos, para abraçares os homens numa só família. Nessa hora, o Rei Apoteótico e Singular, vencedor da sepultura vazia e da morte, cantará aos ouvidos do mundo a melodia do gozo decorrente da paz em pleno milênio de luz, que já agora amanhece, não obstante o crepúsculo profundo que experimentamos através de dores ásperas.

            ...E para que não tardem as primeiras claridades do empreendimento sublime e do entendimento entre os homens, demo-nos as mãos como elos preciosos da corrente da vida, onde quer que estejamos, vivendo a Fraternidade de agora: na célula da família ou no organismo da sociedade onde mourejamos, para que ela possa agigantar-se por toda a Terra partindo de nós, os cristãos novos que, acreditando na Imortalidade, vivemo-la desde hoje, mediante o intercâmbio puro e santo entre as duas esferas da vida, bendizendo o nome - Fraternidade, Fraternidade! - e esparzindo amor.
 Léon Denis




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