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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A Palingenesia

A Palingenesia
Dr. Gustave Geley
Reformador (FEB) Maio 1971
           
            “Ainda que a Doutrina Espírita fosse apenas uma ilusão (o que não creio), é demasiado original e demasiado bela para chamar a atenção dos pensadores e merecer séria discussão.

            A moral palingenésica é demasiadamente conhecida, para que necessite aqui de exposição pormenorizada.

            Baseia-se na célebre fórmula da justiça imanente, que é o resultado do movimento normal e regular da vida terrestre.

            Se, no decurso da sua evolução, na série das suas vidas sucessivas, o "ser" é o produto de suas próprias ações e reações, segue-se que a sua inteligência, o seu caráter, as suas faculdades, os seus bons ou maus instintos são obra sua e cujas consequências, terá de sofrer, infalivelmente.

            Todos os seus atos, trabalhos, esforços, angústias, alegrias e sofrimentos, erros e culpas, têm repercussão fatal e reação inevitável, numa ou noutra de suas existências.

            Assim, não há qualquer necessidade de julgamento divino, nem de sanções sobrenaturais.

            A sanção natural da palingenesia não é somente individual, mas também coletiva. Estende-se aos povos, às raças, às famílias, etc., porque íntima solidariedade liga, necessariamente, grupos de seres unidos, numa ou em muitas existências. Em geral, a justiça imanente começa a manifestar-se no próprio lapso duma existência terrestre, tomada isoladamente; mas, nesse caso, é muito raro que ela seja verdadeiramente equitativa; encarada de forma tão restrita, parece quase sempre falível e verdadeiramente desproporcionada.

            Pelo contrário, numa série suficientemente grande de encarnações, torna-se perfeita, matematicamente perfeita, visto que as contingências felizes ou infelizes são compensadas e apenas resta, como resultado indubitável, o produto do nosso comportamento.

            Como se vê, a moral palingenésica assenta numa base admirável de clareza e simplicidade.

            Há muito que se conhecia a importância do subconsciente nas manifestações intelectuais mais elevadas. Conhecia-se também a existência da criptomnésia e sabia-se que numerosas recordações, aparentemente olvidadas, não estavam perdidas e podiam reaparecer bruscamente, sob influências diversas, tais como, a emoção, o perigo, a doença, etc. Mas as últimas descobertas psíquicas provam que a importância do subconsciente e da criptomnésia era infinitamente maior do que se julgava. As investigações relativas ao mecanismo do gênio e o estado dos casos de personalidades múltiplas no mesmo indivíduo, puseram em relevo a espantosa complexidade do inconsciente.

            Depois, o estudo do hipnotismo e do sonambulismo, e, principalmente, dos fenômenos mediúnicos, estabeleceu a sua função predominante na psicologia anormal e supranormal.

            Hoje, está demonstrado que uma parte essencial do ser pensante, a qual se apresentava cada vez mais vasta e complicada, escapa grandemente, na vida normal, à consciência e à vontade, e permanece latente e oculta.

            Desde então, cai por si própria a principal objeção que se opunha, antigamente, à palingenesia: a objeção do esquecimento. Que a criptomnésia se estenda para lá da existência atual, é hoje coisa fácil de compreender, pois não há nada mais lógico e racional do que este subconsciente, tão misterioso e tão profundo, conter em si a recordação e as aquisições das vidas passadas.

            Nas experiências de De Rochas há, pelo menos, uma demonstração precisa a deduzir: é a unanimidade dos passivos, quanto à afirmação da palingenesia. Todos eles, seja qual for a sua origem, a sua educação, o seu nível intelectual ou os seus próprios princípios religiosos, declaram espontaneamente que tiveram outras vidas. Em torno destes dados, engendram muitas vezes romances vários, quase sempre de impossível verificação; mas a unanimidade e a espontaneidade das suas afirmações relativas à pluralidade das suas existências não é coisa de somenos importância. Quanto mais não seja, prova a realidade dum instinto profundo, duma intuição que repousa, sem dúvida, em base séria. Além das experiências de regressão da memória, têm-se publicado recentemente algumas observações tendentes a provar a reencarnação. Os leitores das revistas metapsíquicas conhecem-nas bem e algumas são verdadeiramente impressionantes, embora, pelo seu escasso número, não consigam convencer.

            É compreensível, natural e humano, que os psicólogos oficiais não admitam, entusiasticamente, a teoria palingenésica, tão revolucionária, apesar da sua luminosa simplicidade, e que se mantenham em expectativa; mas o que não pode admitir-se de forma alguma é que eles a desprezem sistematicamente e se recusem a discuti-la, mesmo como hipótese de estudo, não obstante os trabalhos conscienciosos feitos a tal respeito e o monte de provas estabelecidas. Dentro de pouco tempo, terão de mudar de atitude, visto que, segundo uma frase célebre, a verdade está em marcha e nada poderá detê-la.

            A história desta doutrina resume-se assim nas suas linhas gerais: dos documentos que possuímos, infere-se que a ideia reencarnacionista foi geral nos primórdios da evolução humana e é a doutrina natural na infância das humanidades. Mas dentro em pouco a ideia se obscurece e perde e poucos indivíduos a conservam. Só mais tarde reaparece e predomina nas humanidades supinamente evolucionadas. Mais uma vez se verifica a teoria dos "extremos".

            Este ciclo evolutivo é muito fácil de compreender:

            A admissão da ideia reencarnacionista, mais ou menos exata ou mais ou menos deformada por superstições diversas, na infância da humanidade (e até nos povos selvagens da nossa época), é a consequência dum instinto que responde à realidade,
de reminiscências ainda alheias a concepções teológicas ou filosóficas.

            Após o início das investigações metapsíquicas, o número de partidários desta doutrina cresceu continuamente (dispenso-me de citar nomes que toda a gente conhece). Podemos dizer, com efeito, que estamos na aurora da terceira fase evolutiva, ou seja a fase da filosofia científica.

            Com seu cortejo de consequências metapsíquicas, morais e sociais, a palingenesia repousará, no futuro, em bases sólidas, para sempre inabaláveis.


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