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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Roteiro dos Médiuns


Roteiro dos Médiuns
Indalício Mendes
Reformador (FEB) Janeiro 1956

Ninguém é realmente espírita se não observa rigorosamente os princípios doutrinários do espiritismo. Aceitar as manifestações fenomênicas, frequentar sessões, tomar passes mediúnicos, consultar irmãos desencarnados, não confere condição espírita a quem quer que seja. Falar e escrever sobre assuntos espíritas, comentando trechos do Evangelho segundo o Espiritismo sem, no entanto, a imprescindível exemplificação, é dar falsa aparência de autoridade. O legítimo doutrinador dá os exemplos de observância da Doutrina e do Evangelho, haurindo  de sua conduta os elementos para as dissertações e os artigos. Bem difícil se torna seguir o caminho reto, mas íngreme, da exemplificação. Mas nele é que está o verdadeiro mérito do doutrinador. O “faz o que eu digo e não o que eu faço” é divisa dos acomodadores imersos nas trevas do farisaísmo. O espírita prega o Espiritismo principalmente pelo exemplo.

Isto posto, observemos a enorme, a imensa responsabilidade dos médiuns. Não se julgue que a mediunidade seja um ornato espiritual. É, antes, uma sobrecarga, um compromisso muito sério. Para uns, ela não tem o caráter de missão; para outros, é um encargo que dirá, no futuro, da verdadeira personalidade do médium. Missão ou encargo, de qualquer modo significa responsabilidade. Portanto, o médium que se exime do trabalho mediúnico, falseando deveres que deve cumprir, assume uma posição muito grave em face de Deus. A nenhum deles é lícito esquivar-se ao trabalho, pois as responsabilidades se multiplicam, acarretando-lhes, não raro, embaraços suscetíveis de lhes causarem perturbações em toda uma existência. Quase todo médium possui uma constituição nervosa muito delicada e sensível. O trabalho mediúnico bem orientado e metódico lhe favorece o equilíbrio da economia nervosa, o que se torna benéfico à sua saúde e também ao seu futuro espiritual. Fugir às obrigações decorrentes da mediunidade representa um erro de consequências muitas vezes lamentáveis. Ninguém é médium por acaso. O dom lhe é conferido pelo Alto para ser exercido na Terra. Essa incumbência, se gera benefícios, produz também responsabilidade. Há médiuns que ligam pouca ou nenhuma importância ao mediunismo. Preferem os passatempos agradáveis, os prazeres mundanos, ao trabalho fatigante e benemérito numa sala de desenvolvimento mediúnico ou no trabalho de assistência aos semelhantes. Se quisessem meditar um pouco e pensar acerca dos obstáculos que essa atitude imprevidente poderá criar-lhes no futuro, certamente prefeririam a boa luta de todos os dias, em vez de o enganador descanso das tarefas mediúnicas e a perniciosa perda de tempo em conversas fúteis ou em encontros nada edificantes.

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Mediunidade é trabalho. Mediunidade é responsabilidade. Mediunidade é um meio de aferir a verdadeira estatura moral do Espírito que, encarnado, se deixa iludir pela volubilidade dos sentidos materiais, renunciando a compromissos de honra assumidos no Além. Muitos casos de distúrbios nervosos, ante os quais a Medicina se confessa impotente, se originam do abandono do exercício da mediunidade. O acúmulo de energia nervosa provoca perturbações graves pois o indivíduo não encontra meios de dar vasão a essa força sustada pelos fenômenos da “retenção de mediunidade”. Se se entregar ao exercício da faculdade mediúnica, sob orientação segura e metódica, a pouco e pouco poderá restabelecer o equilíbrio nervoso e readquirir, desta forma, a normalidade psíquica afetada justamente pela sobrecarga mediúnica.

Se todo médium se dispusesse a seguir, com inflexível rigor, o rumo certo, tomando como exemplo a vida limpa de Francisco Cândido Xavier, o trabalho mediúnico seria de tal modo enriquecido que belas revelações viriam juntar--se às que já nos chegam através do devotado irmão de Pedro Leopoldo e de outros médiuns sinceramente dedicados ao Espiritismo. A humildade é a primeira qualidade do espírita, principalmente do médium. A pontualidade no cumprimento de seus deveres, assim como a elevação do espírito a climas morais progressivamente mais altos, são pontos de indiscutível vantagem para o aprimoramento de sua personalidade mediúnica. O médium que estuda e vai para o campo de serviço com a mente adequadamente esclarecida, terá maior franquia espiritual do que aquele que se mostra indiferente ao estudo e desassizado. Entre um lavrador que não procura adaptar-se às necessidades de sua época, utilizando meios mais práticos e inteligentes de trabalho, e outro que busca estudar o problema da fertilização da terra, da adubagem conveniente a cada natureza de plantação, recorrendo também aos processos científicos de lavrar o terreno, não há dúvida de que este último obterá resultados muito mais vantajosos, não só porque os processos por ele empregados são mais seguros e econômicos, como porque lhe será possível fazer cálculos de produção mais amplos e garantidos do que os do lavrador apegado a princípios empíricos. O médium estudioso e fiel observador da Doutrina é um lavrador progressista. Quer ir para a frente, desenvolvendo sua capacidade produtiva. O outro, mais lento, menos senhor de si, porque não se liberta dos hábitos adquiridos, poderá ter safras satisfatórias, mas estará mais sujeito a desastres, por não saber como defender-se da intempérie, das pragas, etc.

Quanto melhores forem os médiuns, tanto mais elevado será o nível doutrinário do Espiritismo, que deve assentar-se em duas pilastras mestras: Doutrina e Evangelho. A elevação moral dos médiuns terá de amparar-se nas lições evangélicas de Jesus e nos ensinamentos doutrinários contidos nos livros de Kardec, complementados pela obra de Roustaing - Nos ‘Os Quatro Evangelhos’, e pela de Sayão - "Elucidações Evangélicas" assim como de EmmanueI e André Luiz, para somente mencionar as principais.

Humildade, estudo, trabalho, devotamente, renúncia e, sobretudo, fidelidade aos princípios espíritas, eis o roteiro aconselhável aos médiuns.


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