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quarta-feira, 11 de junho de 2014

20. A palavra de Camille Flammarion



pgs. 85/86/87 de
Sonhos Estelares’ de Camille Flammarion
(Edição FEB - 1941)
-com tradução de Arnaldo S. Thiago-


            Dentro de cem milhões de anos, a Terra em que nos achamos não existirá mais, ou, se ainda restar alguma ruína, não será mais do que um fúnebre deserto; os diversos mundos do sistema solar terão terminado seu ciclo vital; extintas achar-se-ão há muito as histórias das várias humanidades que se tenham neles sucedido; o nosso próprio Sol sem dúvida, terá perdido sua luz e rolará, como um globo de trevas, na imensidade noturna. Mais uma vez lançado, talvez, pelas leis do destino, nos crisóis da metamorfose perpétua, reunido em um choque supremo a qualquer velho sol morto, como ele projetado através da vida eterna, terá ressuscitado, radiante Fênix, de suas cinzas reacendidas pela transformação do movimento em calor.

            Mas, então como hoje, as nebulosas terão dado à luz novos sóis, então, como hoje, o espaço imenso será povoado de astros sem número, gravitando na harmonia de suas atrações recíprocas, balançar-se-ão terras na luz de seus respectivos sóis, manhãs e tardes suceder-se-ão, céus azuis se desdobrarão, nuvens flutuarão no encantamento dos crepúsculos, atmosferas perfumadas soprarão sobre os bosques e sobre os vales, misteriosos silêncios suspenderão o canto do pássaro que gorjeia, e o eterno amor arrebatará os novos adolescentes no arrojo divino das aspirações insaciáveis. Ascensão maravilhosa da vida, a natureza cantará como hoje o hino da juventude e da felicidade, e a imperecível primavera lançará sempre flores neste universo imenso, em que o historiador do passado não vê mais do que túmulos!

            Se não há limites ao espaço; se, qualquer que seja o ponto do céu para o qual se volte o nosso pensamento, pode ele voar sempre sem que jamais coisa alguma o detenha, qualquer que seja a rapidez do seu vôo e qualquer que seja a duração do seu infatigável transporte, se, em uma palavra, o espaço é infinito em todos os sentidos, o mesmo pode-se afirmar com relação à eternidade; nada, tampouco, poderia limitá-la, e qualquer que seja a pausa que imaginemos a duração, qualquer que seja a hora, o minuto em que pretendêssemos dar-lhe um fim, nosso pensamento salta imediatamente além dessa pretensa barreira e continua seu caminho. O espaço infinito é atualmente povoado de mundos nascentes, de mundos chegados à idade viril, de mundos em decadência, de mundos mortos, disseminados em todas as regiões da imensidade sem limites, nebulosas gasosas, sóis de hidrogênio, astros oxidados, planetas em formação, satélites gelados, cometas desagregados... as forças da natureza mostram-se por toda parte em atividade, a energia da criação permanece constante, não podendo ser aumentada nem diminuída, e todas as ciências estão de acordo em testemunhar que o que chamamos destruição, aniquilamento não é mais que transformação. Astronomia revela-nos o tempo, como nos revelou o espaço; mostra-nos que a nossa época atual nada tem de particular na historia da natureza, do mesmo modo que o nosso lugar atual, e convida-nos a reconhecer a duração tanto quanto o espaço, estas duas formas da realidade, contemplando em uma mesma síntese os grandes aspectos do desenvolvimento do Universo.



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