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domingo, 8 de junho de 2014

18. A palavra de Camille Flammarion


pgs. 73/74/75 de
Sonhos Estelares’ de Camille Flammarion
(Edição FEB - 1941)
-com tradução de Arnaldo S. Thiago-


            “Entre os últimos mundos em plena vitalidade que visitei nesta viagem através dos universos longínquos, há um que me pareceu particularmente notável pelo estado de perfeição de seu progresso social. Ainda que esse mundo seja o mais afastado de todos os que têm sido adivinhados nas profundezas do espaço, a humanidade, entretanto, que o habita não é muito diferente da nossa sob o ponto de vista físico; é dividida também entre dois sexos e as formas orgânicas parecem-se um pouco as da nossa raça. Mas o estado social é sensivelmente superior ao nosso.

            Uma harmonia perpétua reina entre todos membros dessa vasta família. Simples e modesto, cada um desses seres não tem mais alta ambição do que a de se elevar gradualmente no conhecimento das coisas e na perfeição moral.

            A atmosfera não é inteiramente nutritiva e ali todos são, como somos aqui, obrigados a comer para viver. Mas lá nutrem-se exclusivamente de frutos e de vegetais e não se mata nenhum ser animado.

            As funções da vida material, não tomando mais do que uma parte mínima do tempo, vive-se lá sobretudo intelectualmente. Em lugar das rivalidades pessoais de interesses, pequenos ou grandes, e das ambições diversas que agitam a vida inteira dos homens e das mulheres de nossa medíocre pátria terrestre, ninguém lá se preocupa senão com estudos e divertimentos.

            Não se inventou o dinheiro. Não há ricos nem pobres. Os frutos necessários à nutrição podem ser colhidos por toda a parte, muito além de todas as necessidades. O verão é ali perpétuo e ninguém se preocupa tão pouco com qualquer espécie de vestimenta, por isso que as formas corpóreas conservam sempre sua beleza e a coqueteria nada teria a dissimular.

            Não se envelhece naquele mundo. Quando a idade madura é atingida, o Indivíduo adormece e o corpo se desagrega, como uma nuvem que se torna invisível pela mudança de estado de suas moléculas.

            Lei alguma instituiu ali os vínculos matrimoniais. Como seria impossível contrair uma união por interesse, pois que não existem nem castas nem fortunas, somente o amor determina as escolhas. É raro que o passar dos anos faça descobrir qualquer divergência de caráter, suficiente para conduzir ao desejo de uma outra escolha; quando, porém, essa divergência se manifesta, cadeia alguma prende os esposos. Aliás, estes permanecem amantes, jamais tornando-se esposos. O desejo da mudança, da variedade, da curiosidade, pouco intervém, porquanto os seres que livremente fazem a sua escolha, amam-se mutuamente mais do que a todos os outros e a sua escolha baseia-se no conhecimento reciproco.

            Os amigos são verdadeiros e fiéis e não há exemplo de traição ditada por um vil sentimento de inveja.

            Ao contrário do que se passa sobre a Terra, todo homem cuja vida fosse dirigida pelo sentimento do interesse pessoal ou da ambição, seria considerado como um monstro inexplicável e altamente desprezível. Lá não se encontram, como se nós, desses homens que se tornam constantemente desgraçados pelo desejo de abarcar todos os lugares sem estarem jamais satisfeitos com a sua sorte e que, arrivistas infatigáveis, de tudo se apoderam, em seu egoísmo insaciável e morrem desgostosos, cumulados de honras e de vaidades.

            Não existem fronteiras nesse mundo. A humanidade forma uma única raça, uma única família. As comunicações são estabelecidas sobre o globo inteiro por uma espécie de palavra que voa com a velocidade do relâmpago.

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            A ciência, dita oficial, de forma alguma foi lá instituída. Nenhuma Sorbonne condenou ali a teoria do movimento da Terra. Nenhuma Academia condenou a doutrina da perpétua paz. Lá não se nos deparam títulos ou condecorações; só o valor pessoal, intelectual e moral é apreciado.

            A palavra infalibilidade não existe na linguagem daquele povo. 

            Em sua religião natural jamais pronunciaram o nome de Deus, nem ousaram jamais entregar-se a culto algum, compreendendo que uma tal puerilidade ou um tal orgulho seriam indignos de seu espírito. Consiste a sua religião em crer na imortalidade pelo próprio conhecimento da natureza íntima dos seres, em preparar-se para a vida futura, tornando-se melhores e mais perfeitos pelo estudo continuo da criação, e em amarem-se uns aos outros com um sentimento esclarecido da justiça e da equidade."




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