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sábado, 7 de fevereiro de 2015

O Duplo dos Vivos

O Duplo dos Vivos
Reformador (FEB) Julho 1955

            (Artigo extraído do Boletim trimestral da "Fédération Spirite Internationale"
de Julho de 1954; foi escrito por M. Horace Leaf,
espirita distinto e editor do Boletim acima citado.)

            Há alguns anos, o Strand Magazine publicou uma fotografia, tomada por um sábio alemão, da aparição de um homem de pé, atrás de um grupo de ióguis mergulhados em silenciosa meditação. Era a fotografia de um homem vivo, iógui também, mas residente a alguns quilômetros dali.

            Os espíritas ou psiquistas iniciados não foram surpreendidos por essa imagem, pois uma de suas crenças mais comuns é a de que o homem, a mulher ou, mesmo, uma criança possuem um corpo etéreo, duplo de seu corpo físico. Nada há de novo nesta crença. Reportando-nos, pois, às práticas religiosas das raças primitivas, deduz-se que esta ideia é ao certo, tão antiga quanto a Humanidade.

            Existem numerosos testemunhos deste fenômeno da separação do duplo, na religião cristã, e a Igreja já aceitou esta crença sob o nome de "bilocação”. Conta-se que numerosos santos experimentaram e praticaram esta faculdade, dentre os quais podem citar S. Severo de Ravena, Santo Ambrósio e Santo Antônio de Pádua. Conta-se que este último deixou realmente o púlpito de S. Pedro de Queyroix, onde estava a pregar, e seu corpo etéreo apareceu e falou perante uma assembleia de monges em um convento do outro extremo da cidade.

            Conta-se, também, que, lembrando-se de que devia assistir a um serviço divino neste mosteiro, justamente no momento em que se encontrava no púlpito da igreja, ajoelhou-se deliberadamente perante os fiéis, puxou o capuz para a fronte, e assim ficou durante alguns minutos, no decurso dos quais os fiéis esperaram com todo o respeito. Comparecendo perante os monges e tendo assim cumprido sua promessa, tomou novamente seu corpo físico e reencetou sua pregação na igreja.

            Não é necessário multiplicar as citações, visto que possuímos numerosos exemplos contemporâneos, autenticados por testemunhos certos. Talvez não seja fora de propósito citar um caso pessoal sobre este assunto tão raramente tratado. Pessoalmente, estou consciente de ter deixado meu corpo físico e, assim fazendo, ele se pôs a falar-me.  Aquele esforço fez que eu tornasse a tomar meu corpo; ouvi-o- claramente pronunciar as palavras por ele formuladas. Em minhas viagens pelo mundo, tenho ficado admirado do grande número de pessoas, algumas das quais sem nenhum conhecimento do Espiritismo e nem das pesquisas psíquicas, que me têm declarado haverem feito tal experiência.

            A prova experimental completa desta forma de Psiquismo é rara; mas, há mais ou menos 70 anos, certo número de homens altamente qualificados chegaram a ponto de dar um testemunho positivo deste fenômeno supranormal.

            O primeiro que o testemunhou foi o Coronel Eugênio de Rochas. Seu método consistiu em magnetizar a pessoa, obtendo, por meio da sugestão e de ordens, a separação do "duplo". Revelam algumas das suas fotografias uma separação completa. A forma etérea era, na maior parte do tempo, porosa, mas completamente idêntica à forma humana. Descobriu De Rochas, além de tudo, certo número de traços interessantes concernentes a esta forma vaporosa, demonstrando que ela corresponde ao controle mental do indivíduo a que ela pertence. Ela pode, por exemplo, diluir-se ao atravessar corpos sólidos e, o que é igualmente característico, torna-se a sede das sensações, fato muito significativo, dado que toda sensação parte do domínio mental.

            O Dr. Durville, que vem, em seguida, como experimentador, utilizou-se também de diversos indivíduos; ele conseguiu, com êxito, obter a separação do duplo por meio de passes magnéticos. "O "duplo", disse ele, tem o aspecto do médium, torna-se mais ou menos luminoso e acha-se ligado ao corpo do médium por um tênue fio que parte do umbigo."

            Nestas experiências, igualmente os órgãos das sensações se situam no "duplo" separado do corpo físico. Assim, uma das características mais notáveis do fantasma é que, por vezes, ele se torna meio sólido e húmido, quando o tocamos.

            As experimentações ulteriores demonstraram que o corpo etéreo tem peso e que ele se pode dilatar e contrair à vontade. Seu peso seria aproximadamente de duas onças e meia (mais ou menos, 70 gramas).

            A confirmação disso foi obtida pelo Dr. Duncan Mac Dougall, de Haverfield (Massachusets, U.S.A.), que pesou agonizantes e observou, em seis casos, que o defunto havia perdido entre 2 onças e 2 onças e meia.

            A fotografia psíquica tem oferecido grande número de provas da separação do "duplo" psíquico. Assim, a primeira fotografia obtida por Mumber, o primeiro fotógrafo deste gênero, era a de uma pessoa viva. Posteriormente, no momento em que Mumber fotografava um de seus clientes, este cai em transe e a placa respectiva revela uma representação perfeita dele próprio, de pé, atrás de seu corpo! É desnecessário acrescentar que estes fatos deram origem à teoria de que todos os Espíritos, vistos pelos videntes, não seriam nada mais do que os "duplos" psíquicos de pessoas vivas! Esta teoria, como é fácil deduzir, de forma alguma seria contrária à hipótese da sobrevivência da alma, pois, se se pode afirmar que o espírito humano pode existir fora de seu organismo físico durante a vida, não haveria razão para que o não pudesse após a morte. Só um prejulgamento estúpido poderia diminuir a força desta argumentação.

            Outros psiquistas realizaram experiências análogas e, dentre eles, Frederico Hudson, o primeiro fotógrafo espírita inglês. Certa vez, ele obteve a fotografia do "duplo" de Frank Herne, então famoso médium de efeitos físicos, em estado de transe.

            Eis uma prova evidente de que o desenvolvimento da mediunidade se acha intimamente ligado ao desdobramento etérico, na maior parte das vezes parcial, mas, em certos casos, total. Em razão da sutileza do "duplo" etéreo, é ele raramente visível, e não se devem tirar conclusões senão depois dos testemunhos daqueles que por experiência podem falar da separação do "duplo". A maior parte dos testemunhos se refere a separações parciais, mesmo porque a separação completa divide de forma tão radical os dois corpos que, em geral, o cérebro se torna incapaz de registar as reações mentais que se produzem quando o espírito funciona no "duplo" psíquico. Todavia, é possível, para um indivíduo experimentado, registrar, por seu cérebro, quando houve uma separação completa. Em tais casos, somos autorizados a concluir que existe uma conexão muito ativa entre os dois corpos. Porque isto se dá em determinados casos e não em ontros, ignoramos.

            O exemplo seguinte demonstra quão real pode ser um desdobramento para o organizador, mas não para o sujet: Uma de minhas amigas, que sofria de insônia crônica, havia perdido uma joia de valor. Veio procurar-me com o desejo de poder reencontrar o objeto, e eu pude informá-la de que a joia se achava em sua própria casa, além de lhe indicar o local a que deveria dirigir as suas buscas. Dando-lhe essas informações, eu me aventurei a lhe afirmar que, depois de se ter deitado essa noite, ela pegaria no sono dentro de um quarto de hora e acordaria na manhã seguinte, completamente refeita.

            No dia seguinte ela me veio ver, tomada de viva emoção, e me comunicou que havia recuperado a joia como eu lhe havia dito, após o que, tinha ido deitar-se. De repente, ela me viu passeando no quarto. Logo exclamou: "Oh, Sr. Leaf, encontrei o anel!" E eu lhe respondi: "Agora, durma!"

            Alguns minutos depois, ela caiu em profundo sono, que durou oito horas. Mas eu não possuía a menor ideia deste acontecimento! Também não posso duvidar dele. Foi o primeiro, e, que eu saiba, o único exemplo de haver eu realizado tal experiência.

            Este fato se parece muito, em princípio, com aquele que foi relatado pelo Rev. Stainton Moses e publicado em Phantasms of the Living ("Fantasmas dos Vivos"). Ele resolveu aparecer, durante o sono, a um amigo que residia a alguns quilômetros de sua casa, sem informá-lo previamente de sua intenção. Em seguida, deitou-se, e acordou no outro dia, sem possuir a menor ideia de que alguma coisa tivesse acontecido. Entretanto, seu amigo o viu sentado em uma cadeira que ele próprio acabava de deixar. Para se certificar de que não estava dormindo, ele abriu um jornal e colocou-o diante de sua face; ao baixá-lo, viu a aparição sempre na cadeira. Nenhuma palavra foi pronunciada pela visão, que logo desapareceu.

            Muldom tem provavelmente toda a razão quando diz que a projeção inconsciente do "duplo" se produz, quase sempre, no estado de sonho. Há entretanto numerosas provas de que ela se faz também no momento em que os indivíduos estão em vigília e em estado consciente. A melhor forma de explicar o aspecto de sonho da questão, é analisar os sonhos imediatamente após o despertar. Concluir-se-á, então, que há grande percentagem de formas simbólicas nas experiências de desprendimento do corpo físico. Por uma razão inexplicável, o cérebro etéreo não regista a experiência da mesma maneira como o faz o cérebro físico. Este último recorre ao simbolismo, no esforço de simplificar o fenômeno.

            A questão do desdobramento é bastante complicada para a nossa condição. Por experiência pessoal eu sei que ele se pode produzir de diferentes maneiras, e que mais de um corpo super físico se poderá formar. O verdadeiro corpo etéreo pertence, de certa forma, ao nosso mundo físico, mas não é certamente constituído da mesma matéria, ou de matéria semelhante à de nosso organismo físico comum. Neste ponto de vista, os teósofos têm mais ou menos razão quando afirmam com insistência que, enquanto o corpo físico comporta quatro graus de matéria densa, o corpo etéreo consiste em três, porém mais sutis.

            Pode-se adotar esta teoria de graduação apenas como ilustração; entretanto, ela representa mais do que simples conjectura. Segundo os teósofos, o corpo etéreo desaparece, desde que morre o corpo físico. É esta a indicação que deve existir na íntima relação entre os dois corpos, e pode-se, por isso, esperar que sejam encontradas ainda outras relações fisiológicas com referência ao assunto.

            O que se chama "cordão umbilical" é caso provado. Dele se encontram testemunhos na Bíblia. Pretende-se que os dois corpos sejam ligados por um cordão vital, da existência do qual depende a continuidade da aliança deles. Se ele se rompe, a volta do corpo etéreo ao corpo físico não é mais possível, e o resultado é a morte deste último. Não possuímos provas evidentes deste cordão e não se conhece muita coisa a seu respeito. Entretanto, deve existir uma relação vital entre os dois corpos, e ela existe provavelmente graças àquela espécie de cordão umbilical.

            Experimentei, por muitas vezes e de diferente maneiras, o desdobramento, mas não tenho o menor conhecimento da existência de tal cordão. Pode ser que a causa disto resida no fato de minha atenção estar sempre dirigida para outros elementos. Sou fervoroso partidário da introspecção e, invariavelmente, nessas experiências, minha atenção se prende às reações mentais e emocionais. Elas foram tão atraentes, que eu poderia, perfeitamente, omitir certos fatos salientes, dentre os quais, o cordão psíquico.

            "Este cordão ou cabo", declara o Dr. Nad Fodor, que estudou atentamente este assunto, "de semelhança impressionante com o corpo físico de um recém-nascido e seu cordão umbilical, está ligado à medula cervical em certas partes do crânio e, segundo alguns pesquisadores, ao plexo solar”. Esta contradição na localização corresponde perfeitamente às diversas maneiras pelas quais se procede às experiências do desdobramento. Parece não haver leis que regulem esta matéria, mas apenas uma regra geral. Por exemplo, certos indivíduos desdobram-se imediatamente e por completo; outros, escapam-se pela cabeça; outros, pelos pés, enquanto que alguns pretendem que se dissolvem e tornam a formar-se acima do organismo físico. E é por diversas formas que se efetua o retorno ao corpo físico.

            De minha parte, sei que volto sempre pela cabeça, quando retomo gradativamente o controle de meu corpo físico, o que se processa lentamente para baixo, como se o corpo etéreo se fixasse, com lentidão, no corpo físico. Certa vez, mesmo, foram-me necessárias duas horas para realizar o retorno completo, e eu me encontrava inteiramente consciente do fenômeno durante toda a sua duração.

            O Dr. Fodor declara que o cordão umbilical não é um simples tecido de teia de aranha, mas que se distende mais longe, sendo, como se supõe, mais denso, desde que não se alongue muito. "É de cor branco-acinzentada (prateada) e elástico até uma extensão incrível", como se pode imaginar, desde que se considere a enorme distância que o corpo etéreo pode percorrer para aparecer fora de sua outra parte, física. É ele o condutor da corrente vital que permite ao Espírito ou à alma fazer a coordenação com o corpo físico, o que parece impossível sem o seu concurso. Sua separação completa significa a morte imediata.

            A primeira experiência de desdobramento pode ser bastante perturbadora. Em mim, aconteceu que me acordei antes de ter obtido pleno controle de meu corpo físico. Imaginai uma pessoa completamente despertada, mas incapaz de mover seu corpo da maneira mais insignificante! Sentimo-nos como um prisioneiro dentro da mais ínfima das células, sem auxílio e fazendo esforços para se tornar senhor de seu próprio corpo! Depois eu me certifiquei, depressa, de que, mantendo-me em estado perfeitamente calmo e deitado, a volta se efetuaria normal e agradavelmente. A utilização da vontade não somente retarda o controle, mas também nos conduz ao temor.

            No momento atual, a questão do duplo etéreo e suas possibilidades representa ainda um mistério em vários pontos, e ninguém possui competência bastante para poder falar com autoridade absoluta. Da mesma forma que outros fatores naturais, concernentes à vida, é assunto totalmente particular e pode-se dizer que, talvez no futuro, se descobrirá que o assunto encerra faces multiformes. Jamais chegaremos, nesta matéria, a estabelecer uma ciência exata, da mesma maneira como não poderemos, jamais, formar uma ciência exata no campo da Psicologia.

            O que poderá ser ainda mais embaraçoso, é o caso de vermos o nosso próprio "duplo"! Entretanto, isto parece ser um fato averiguado. Por outro lado o "duplo" psíquico pode agir a distância, desde que o paciente o ignore por completo e viva, por todo esse tempo, sua vida normal.

            Certo número de pessoas têm feito experiência com este fenômeno e, dentre elas, Maupassant, de Vigny, Musset, Shelley, e o poeta alemão, Goethe.

            Goethe descreveu fielmente o fenômeno. Assim, conta que, viajando a cavalo, ficou surpreso de ver a si próprio vindo a seu encontro e vestido com roupas que jamais havia usado! Oito anos depois, encontrava-se na mesma estrada e com os mesmos trajes da visão anterior. Foram essas as próprias palavras: "Isto não aconteceu por minha vontade, mas por acaso."

            O exame minucioso de todos estes casos conduz-nos à conclusão de que existem exemplos de previsão do futuro. Entretanto, a dificuldade repousa na incrível realidade do "duplo". Um dos exemplos mais significativos deste fenômeno foi-me  dado por um senhor que se encontrava em Exeter, no Devonshire, na Inglaterra, e que o aterrou. Ele teve ordem da casa que representava de procurar certo cliente em determinado lugar, às onze da manhã seguinte. Com grande surpresa o cliente apresentou-se uma hora mais cedo, trazendo pequena valise. Apertaram as mãos, discutiram em pormenores o assunto comercial e se separaram. Uma hora após, o mesmo fato se repetiu: todos os gestos e palavras foram renovados e, contudo, tem-se a prova de que o cliente não se encontrava em Exeter na ocasião do primeiro enconntro!

            Certas pessoas, em diferentes épocas, têm-me  declarado que elas próprias me haviam visto e ouvido falar. Entretanto, na maioria dos casos, eu pude provar que me encontrava muito longe da cena, cuidando normalmente do meu trabalho ou atividade de sempre.             

            Assim, foi-me possível provar a um eminente membro da Sociedade Americana de Pesquisa Psíquicas que o Espírito ou alma é capaz de viver independentemente, mesmo a grandes distâncias, fora do organismo físico. A prova mais convincente  da existência do "duplo" etéreo se revela no fato de poder ser visto simultaneamente por diversas pessoas. O professor Charles Richet cita vários exemplos no seu livro –‘ Trinta Anos de Pesquisas Psíquicas’. Existem além disso outros testemunhos.

            Um dos argumentos preferidos pelos negativistas da hipótese espírita, no que concerne às materializações é este: não é outra coisa senão o ‘duplo etéreo’ do médium, modificado para ser ser semelhante a alguma outra pessoa. Entretanto, os  moldes de parafina apresentam a prova objetiva de são formados por Espíritos materializados. O próprio físico inglês, Sir William Crookes, confirma  que realizou tais experiências.

            Posso testemunhar, sem hesitação, a possibilidade de uma pessoa, residente a mais de 500 quilômetros, manifestar-se sob uma forma sólida e sustentar comigo uma palestra prolongada e inteligente, enquanto eu segurava sua mão, parcialmente materializada. E, para confirmar que realmente se achava presente, antes de se desmaterializar, ela confiou um segredo, cuja veracidade, mais tarde, pude verificar. Isto a convenceu de que foi a manifestação do seu "eu" etéreo, se bem que ela tivesse a menor lembrança do que aconteceu.

            Pouco se conhece sobre a melhor forma de efetuar- se conscientemente um desdobramento etéreo. A maior parte daqueles com os quais tenho discutido o assunto, sentiram espontaneamente o fenômeno, e isto com grande admiração. Entretanto, encontrei diversas pessoas que me declararam serem capazes de se desdobrar à vontade. Uma delas é um engenheiro que prestava serviços técnicos a uma usina elétrica do sul da Inglaterra. Ele, no fim, suspendeu estas experiências por temer que, algum dia, não pudesse mais retomar seu corpo físico. Era chefe de pequena família e acreditava em que o risco seria muito grande. Ele não era espírita.

            O estudo aprofundado das circunstâncias referentes ao desdobramento, mesmo o espontâneo, revela um esforço bem organizado e um objetivo bem definido. Isto poderia produzir-se abaixo dos limites da consciência. Não há razão alguma para se fazer esta sugestão, pelo motivo de que a pessoa normalmente ignorava o fim visado. Sabe-se perfeitamente que a consciência normal não é mais do que uma parte especializada do Espírito e que ela se acha bastante limitada quanto ao conhecimento das demais possibilidades do Espírito. Os recalques e a hipnose o provam.

            Nas regiões inferiores do Espírito há muitos comportamentos dos quais nada conhecemos; certamente é aí que vivemos a maior parte de nossa vida mental.

            Se os recalques podem causar - como nós sabemos - uma forma de histeria, e reagir inesperadamente sobre o corpo físico, há poucas razões para negar que, existindo outros elementos estranhos ao corpo físico, possam produzir-se muitas coisas no domínio do etéreo, a respeito das quais ainda devemos permanecer na ignorância. Isto naturalmente deve ser considerado como especulação, mas não uma especulação sem finalidade justificada.

            Devem existir explicações de aparições fora do corpo físico, e não há, desse assunto, melhor explicação a não ser aquela que se oferece com a saída do corpo etéreo.

            Se um dia a ciência oficial puder explicar este fenômeno, ter-se-á realizado grande progresso concernente à natureza do homem, e poder-se-ão, também, descobrir novas condições de existência. Isto implica em novas concepções do tempo e do espaço, pois o mundo etéreo não será, talvez, inteiramente físico. Então, nós nos convenceremos de que o homem poderá encontrar-se ao mesmo tempo em dois lugares diferentes e duas vezes no mesmo lugar, como no caso de Goethe. ( * )

(Ext. de "Survie" nº 238.)


(Traduzido por Max Kohleisen)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Espiritismo e Ciência



Espiritismo e Ciência
Túlio Tupinambá / (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Abril 1956

            O cepticismo de pretensos cientistas tem sido mais nocivo do que benéfico à Humanidade. A verdadeira característica do sábio é a humildade honesta, isto é, a humildade que se manifesta espontaneamente, com o propósito de evitar algo capaz de escandalizar a outrem. O sábio estuda, analisa, pesquisa, observa, compara e conclui. Não realiza afirmativas apriorísticas, mesmo quando em face do que possa parecer, à ciência oficial, absurdo ou paradoxo.

            Infelizmente, porém, não é numerosa essa nobre estirpe de sábios, à qual pertenceram e pertencem homens de absoluto equilíbrio moral e intelectual, dotados de uma independência admirável e refratários a influências de caráter religioso, político ou dogmático.

            Quando o Espiritismo, no século passado e nos primeiros anos do presente século, atraiu as atenções do mundo científico, numerosos foram os homens de ciência que se puseram a fazer experiências, a fim de descobrirem o que havia de verdadeiro na velhíssima novidade. Alguns, indiferentes aos preconceitos, se entregaram de corpo e alma ao trabalho, objetivando encontrar a verdade que haviam vislumbrado. Outros, entretanto, preferiram adotar atitudes espaventosas, agradáveis aos impenitentes negadores de todas as épocas e aos servidores do ultramontanismo absorvente e dominador. Por isto, sábios como William Crookes, para mencionarmos apenas um, sofreram insultos e humilhações. Repetira-se com ele o que já sucedera com outros legítimos homens de ciência, incumbidos pelo Alto de romper os liames da tradição balofa, que a vaidade e o orgulho amparavam. César Lombroso, enquanto negou a realidade espírita, era apontado como gênio. Depois que, tocado pela revelação, pode observar, graças à médium Eusápia Paladino, fenômenos incontestáveis, tendo a bela coragem de confessar a verdade, renunciando aos pontos de vista que anteriormente professava, passou a ser achincalhado por aqueles mesmos que o incensavam. Agora, já era um velho senil, que não possuía suficiente equilíbrio para discernir entre a verdade e o erro. Não obstante, sua famosa obra póstuma – “Richerche sui fenomeni ipnotici e spiritici” - é um monumento que engrandece o Espiritismo, porque ele, não apenas reconhece a realidade espírita, mas desenvolve considerações impressionantes, com a autoridade moral e científica que possuía. Em “Cristianismo e Espiritismo”, obra de Léon Denis, que deve ser lida atentamente por todo aquele que almeja adquirir cultura espírita, há um histórico magnífico acerca da evolução do Espiritismo, além de estudar a origem dos Evangelhos, sua autenticidade e seu sentido oculto; as alterações sofridas pelo Cristianismo e sua decadência, precedendo a Nova Revelação, isto é, o Espiritismo, que é o Cristianismo redivivo, em sua forma simples e pura.

            Há, entretanto, necessidade que os cientistas se dediquem mais seriamente aos problema que o Espiritismo oferece à sua argúcia. Não desejamos nós, prosélitos de Allan Kardec, que eles adotem previamente uma postura simpática em relação ao Espiritismo. O que desejamos é que sejam absolutamente despidos de “parti-pris” no exame e estudo dos fenômenos espíritas, e se forrem de beneditina paciência para levar a termo tão árduo quão benemérito trabalho. Mais cedo ou mais tarde, Espiritismo e Ciência estarão de mãos dadas, porque a Ciência há de alcançar resultados que a possibilitem a afirmar a veracidade dos postulados espiritistas. E então, se isto não for para os nossos dias, porque ainda há muito preconceito e muito dogmatismo, se-lo-á para o próximo milênio pois o Espiritismo não se baseia em milagres, não se escora em fantasias nem em episódios alucinantes. Em seu tríplice aspecto – religioso, filosófico e científico – há de afirmar-se a Humanidade inteira, como já se afirmou a milhões de criaturas despojadas de orgulho e isentas de vaidade.

            O Espiritismo salva, enquanto o cepticismo, filho dileto do materialismo, conduz os homem ao desespero. O legítimo sábio não aprova nem desaprova, não afirma nem nega previamente. Estuda, observa, pesquisa, examina, analisa compara e conclui. Só emite opinião definitiva quando julga esgotadas todas as fontes de esclarecimento e todos os recursos investigatórios.

            Se são lentos e penosos os avanços conseguidos na Física, na Química e em outras ciências, digamos da matéria, como pretenderem que sejam rápidos e fáceis os trabalhos realizados no domínios do Espiritismo, mesmo no que diz respeito às manifestações físicas? É lamentável que poucos tenham sido os homens de ciência devotados a tão úteis, embora dificílimos, estudos. A maioria, utilitarista e imediatista, quer que os “fatos” se repitam matematicamente como se os Espíritos não tivessem vontade própria e pudessem estar equiparados a fenômenos invariáveis, sujeitos a fórmulas fixas. Por isso essa maioria de sábios sorri superiormente, escarnece e nega os fenômenos espíritas, sem se dar ao trabalho de verificar se são mesmo sábios ou se apenas aparentam sê-lo. A verdade é monopolizada por eles e também pela Igreja.

            O que não estiver de acordo com os cânones consagrados pela ciência oficial ou conforme as exigências da Igreja, é repelido.

            O Espiritismo continua serenamente seu caminho e não tem pressa, porque sabe que a Humanidade evolui muito lentamente. Quanto mais se demorar o homem a iluminar-se pelo conhecimento da verdade espírita, maiores serão os obstáculos que terá de transpor. O homem macerado por sucessivas reencarnações, um dia curvará a cerviz à verdade e, então, verá que o Espiritismo jamais esteve ou estará em antagonismo com a Ciência, uma vez que ele é, a um só tempo: Religião, Ciência e Filosofia. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

No Mundo


No Mundo

Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador  (FEB) Novembro 1956


            A pretexto de exaltar nossa fé, não podemos fugir do mundo, como se o mundo não fosse a nossa escola de aperfeiçoamento e renovação.

            Se o próprio Jesus veio pessoalmente ao mundo convocar os homens que o povoam a cooperar com Ele na construção do Reino de Deus, na Terra, é que o Senhor confia nas almas que se encontram no mundo, falecendo-nos, assim, qualquer autoridade para condenar os que ainda se vestem de carne, em busca da santificação que lhes é necessária.

            O Evangelho não improvisa heróis e nem relega aos anjos tarefas que devem estar vitoriosas em nossas mãos.

            Retirar-se o cristão do mundo para consagrar-se ao êxtase adorativo, ao redor do Mestre, seria o contra senso de o soldado afastar-se do combate, mascarando a própria ociosidade com falaciosa lisonja, em torno do general que o dirige.

            É indispensável saibamos aceitar a nossa posição, dentro do mundo tal qual é.
Se o erro foi o nosso clima de ação até ontem, saibamos suportar, desde agora, as consequências de nossa invigilância, reajustando-nos para a verdade e para o bem. Se jazíamos cristalizados em deploráveis enganos, toleremos as lições amargas que a ignorância nos impôs e avancemos, de consciência reerguida, para a luz de nossa própria ressurreição moral.

            Não nos esqueçamos de que todos os vultos veneráveis do apostolado de Jesus saíram do mundo. Todos os gênios da bondade e da abnegação que com Ele plantaram a bandeira do amor universal na Terra eram discípulos da experiência humana, diplomados pela bênção divina, no educandário do mundo.

            E, qual acontecia ontem, a oportunidade de sublimação, hoje, é inalterável.
Vivamos no mundo, melhorando a qualidade de nossa vida dentro dele, sirvamo-lo sem apego, recebamos, de ânimo firme, os ensinamentos que nos reserva, cada dia, e assim, respirando em seus caminhos, sem a ele pertencermos, cooperaremos com o Celeste Orientador de nossos destinos a edificar para o mundo e com o mundo o Bem-aventurado e Divino Amanhã.



sábado, 31 de janeiro de 2015

Auxílio aos que partem


Auxílio 
aos que partem
Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Novembro 1956

            Não observes a criatura, cuja palavra a morte emudeceu,  como alguém que se aniquilou.

            Corpo gasto é apenas veste rota.

            Se ainda ontem oferecias devotamento aos que atravessam as barreiras da sepultura, por que motivo transformarás, agora, as flores do teu amor em espinhos de desespero?
 
            Quem parte, quase, sempre transporta consigo aflições e problemas que, não consegues imaginar...

            Muitos daqueles que de ti receberam entendimento e carinho abandonam a Terra,  conduzindo consigo as paixões que lhes devastavam o ser, os dissabores em que se cristalizaram; as angústias da separação e as chagas do remorso que adquiriram...

            Não lhes atires fogo à alma inquieta, através do pranto inconsiderado.

            Ajuda-os com a prece amiga e faze algo que lhes garanta a libertação, fortalecendo lhes a esperança ou socorrendo a viuvez e a orfandade que lhes recordam o nome,  atenuando o sofrimento e a treva que deixaram na retaguarda.

            Comentando lhes a passagem no mundo, destaca-lhes os anseios e as qualidades nobres, reportando-te aos elevados desejos que não puderam realizar.
           
            Não salientes o mal de que foram vítimas, nem te refiras aos enganos a que se acolheram, porque teu pensamento e teu verbo atingem o Mais Além com endereço infalível.

            Não provoques o pranto de quem já chorou em demasia, à frente da verdade, nem apagues a chama da fé viva que brilha em favor daqueles que se tresmalham nos labirintos do ódio.

             Auxilia-os como puderes e acende o lume da oração junto deles para que se restaurem com segurança.

            Não olvides que amanhã serás o indeciso viajante das sombras, supostamente morto para os que ficam, e, somente por teu incessante auxílio aos outros, é que dos outros receberás o auxílio de amor, luz e paz.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Mestre e Aprendiz



Mestre e Aprendiz

Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Novembro 1955

            ...E respondendo ao discípulo que lhe pedira ensinasse a orar, disse o Mestre generoso.
            Quando rogares amor, não abandones o próximo ao frio da indiferença.
            Quando suplicares o dom da fé não relegues teu irmão à descrença ou à tortura mental.
            Quando pedires luz, não condenes teu companheiro à perturbação nas trevas.
            Quando solicitares a bênção da esperança não espalhes o fel da desilusão.
            Quando implorares socorro, não olvides assistência que deves aos mais necessitados.
            Quando rogares consolação, não veicules desespero à margem do caminho.
            Quando pedires perdão, desculpa os que te ofendem.
            Quando suplicares justiça, em favor da própria segurança, não te descuides da harmonia de todos que precisas assegurar ao preço de tua renunciação e de tua humildade, a benefício dos que te cercam.
            Se reclamas pela claridade da paz, não estendas a sombra da discórdia; se pedes compreensão, não critiques; se aguardas concurso do Céu, não menosprezes a colaboração que o mundo te pede à boa vontade.
            Assim como fizeres aos outros, assim será feito a ti mesmo.
            Segundo plantares, colherás.
            Não olvides, assim, que a Vontade do Senhor é também a Lei Eterna e que tudo te responderá na vida, conforme os teus próprios apelos.
            Vai, pois, e, orando, perdoa e ajuda sem sempre! ...
            Foi então que o aprendiz, reconhecendo que não basta simplesmente pedir para receber a felicidade, passou a construí-la através do serviço à felicidade dos outros, compreendendo, por fim, que somente pelo trabalho incessante no bem poderia orar em perfeita comunhão com a Bondade de Deus.
           


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O Kardec Brasileiro

O Kardec
Brasileiro
por Indalício Mendes


Reformador (FEB) Agosto 1955

            A veneranda figura do Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, muito justamente cognominado o “Kardec brasileiro”, tem constituído motivo para magníficos escritos e excelentes palestras, tantos os exemplos nobres de sua passagem pela Terra onde deixou traços inapagados de seu adamantino caráter e de sua obra doutrinária, eminentemente espírita. Cearense de nascimento tendo iniciado sua reencarnação em Riacho do Sangue, a 29 de Agosto de 1831, o Dr. Bezerra de Menezes proveio de família católica,  de esmerada educação e muito fiel ao rumo religioso que adotara. Veio para o Rio de Janeiro aos vinte anos, decidido a estudar Medicina, o que fez sem auxílio de nenhuma ordem, arrostando enormes sacrifícios, até se formar em 1856. Conquanto boníssimos, seus pais não lhe puderam ajudar nos estudos, circunstância que serviu para por a prova a têmpera moral desse homem eminente, que foi um patriota exemplar, na devida acepção da palavra.

            Esteve na política, exercendo o mandato de vereador por duas vezes e, mais tarde, duas vezes deputado federal. Sua atuação como político foi meritória, jamais se afastando dos deveres assumidos e sempre defendendo as causas que de perto tocavam nos mais delicados interesses do povo. Em virtude do seu espírito independente, inamoldável a transigências incompatíveis com a sua formação moral, Bezerra de Menezes encontrou forte oposição da parte do Governo, de chefes de partidos e de adversários ferrenhos. Foi em 1861 que se elegeu vereador pela primeira vez, mas sua eleição foi impugnada por Um chefe conservador, sob a alegação de ser Bezerra de Menezes médico militar. Para não sacrificar seu partido, Bezerra imediatamente se demitiu do lugar de assistente-mor, sendo, então, empossado no cargo de vereador. Que exemplo! Que magnífica demonstração de escrúpulo e de lealdade ao partido a que se encontrava ligado! Foi deputado geral em 1867, pelo distrito da Corte, mas, em 1868, com a dissolução da Câmara Federal, retornou às suas atividades particulares, seriamente comprometidas pelo devotamento que tivera com os encargos políticos. Pode dizer-se que Bezerra, de um momento para outro teve de começar vida nova. As dificuldades em que se encontrou, visto que lhe era pesada a a responsabilidade familial, não o desanimaram. Trabalhando com afinco, criou a Estrada de Ferro Macaé e Campos e se meteu em outros empreendimentos de valor. Em 1876-1880 foi novamente vereador, exercendo a presidência da Câmara, voltando mais tarde a ser deputado geral pela Corte e província do Rio de Janeiro, o que demonstra o prestígio que desfrutava no seio do povo.

            Esse aspecto da vida do Dr. Adolfo Bezerra de Menezes põe em relevo sua dedicação ao bem público. Entretanto, vejamos o outro lado do homem, aquele lado em que ele haveria de se revelar também uma personalidade forte e atraente, afirmando sua elevada estatura de doutrinador, pregando a Doutrina Espírita, pela palavra e pelo exemplo, mais por este do que por aquela. Era amado dos pobres, pois, como médico competentíssimo e cristão de fino lavor, Adolfo Bezerra de Menezes espontaneamente se punha ao serviço de seus semelhantes, sem atentar sequer para as suas conveniências. Esse pormenor de seu belo caráter fixa o perfil desse homem extraordinário.

            Há pequeno e valioso livro na Livraria da Federação Espírita Brasileira – “Uma carta de Bezerra de Menezes”, que faz ressaltar a beleza moral desse grande espírita. Em 1886, recebeu ele, então já integrado no Espiritismo, uma carta de um seu irmão germano, de nome Soares, que o considerava apóstata, por haver renunciado ao Catolicismo. Bezerra de Menezes, sem perder a serenidade, antes com o estilo suave de sua linguagem cristã, deu inesquecível lição doutrinária. Essa a carta que figura no livro referido, digna de ser meditada por quantos se interessam pela verdade exposta sem acrimônia, mas com absoluta tranquilidade. A certa altura de sua explanação ao amigo Soares, Bezerra de Menezes ponderou: “Afirmo-lhe que V. fala assim porque nunca estudou o Espiritismo a fundo. Faz-se com essa doutrina o que se faz com  a Maçonaria, que, no Brasil pelo menos, é o mais estrênuo propulsor do culto de nossa religião. Pois eu lhe digo, embora V. sinta em minhas palavras cheiro de enxofre: Nunca apreciei tão perfeitamente, para admirar e adorar, o sublime ensino de Jesus-Cristo, como depois de ter estudado a Doutrina Espírita.”

            Sob o pseudônimo de Max, Adolfo Bezerra de Menezes escreveu inspiradas páginas de propaganda do Espiritismo, de difusão dos princípios que todos defendemos sob a égide da Federação Espírita Brasileira, fundamentado no Evangelho. Pregou a caridade, porém, praticou-a muito mais, porque entendia que o espírita deve ser mais prático do que teórico, mais objetivo na interpretação da Doutrina do que subjetivo. Espiritismo é serviço, renúncia, dedicação, trabalho, fraternidade, tolerância e amor ao próximo.

            Sendo médico alopata, adotava a homeopatia para seu tratamento e de sua família, na Assistência aos Necessitados da Federação Espírita Brasileira. Um dia, diz um de seus biógrafos, Bezerra de Menezes confessou que não mais tinha o direito de exercer a medicina, pois que preferia a homeopatia em lugar da medicina oficial, em que era formado. Bittencourt Sampaio,
outro grande e nobre espírito, sugeriu-lhe que, então, se tornasse médico homeopata, ao que ele retrucou que não usava a dos médicos, mas a dos Espíritos. Foi quando se manifestou o Espírito Agostinho, por intermédio do famoso médium Frederico Júnior, e
                                 animou-o a seguir a sugestão de Bittencourt, afirmando que o ajudariam os Espíritos a serviço da causa de Jesus. Seguiu o conselho, estudou a ciência homeopática e cumpriu como ninguém seu apostolado.


            Se Adolfo Bezerra de Menezes foi grande por sua cultura, pela nobreza de seu caráter, pela dedicação com que defendeu o Espiritismo em diversas oportunidades sérias, por seu admirável espírito de renúncia, a que se aliava digna humildade, foi maior, bem maior por seu acendrado espírito evangélico, sempre presente nas suas obras de caridade, exercidas com verdadeiro espírito cristão: cotidianamente, sem conhecer horas de repouso, sempre que havia um enfermo a tratar, um aflito a consolar, uma dor a mitigar. A mesma energia que demonstrava na política, no exercício da função pública, evidenciava no Espiritismo, no desempenho da missão evangélica. Certa feita, apreciando os altibaixos da política municipal, exclamou, o coração de sincero patriota ferido pelos desenganos que sofrera: “Tu, meu querido Brasil, tens andado sem leme e sem bússola precisamente porque nunca tiveste, e tão cedo não terás, em sua verdadeira base, a municipalidade. Cumpri meu dever, mas era cedo ainda.” Desfraldava, assim, a bandeira do municipalismo, em que via o caminho mais seguro para a felicidade do país. Sua alma vivia embebida de amor pelo Brasil e de amor pela Humanidade. Deixando a política, Bezerra de Menezes se viu conduzido ao ambiente que mais convinha à sua alma cheia de claridades. Parecia que lhe cantavam aos ouvidos a frase impressionantemente verdadeira do anjo Ismael, em comunicação lapidar: “A missão dos espíritas no Brasil é divulgar o Evangelho em espírito e verdade. Os que quiserem bem cumprir o dever a que se obrigaram antes de nascer, deverão, pois, reunir-se debaixo deste pálio trinitário: “Deus, Cristo e Caridade”. Onde estiver essa bandeira, aí estarei eu, Ismael”.

*

            Desencarnando com 69 anos incompletos, Adolfo Bezerra de Menezes deixou na história do Espiritismo brasileiro uma grande história. Sim, a história de um Espírito luminoso, baixado para realizar grande e profícuo trabalho de cristianização dos homens. Pregou eloquência invulgar, mas foi inexcedível na prática da caridade. Mesmo desencarnado, até hoje Adolfo Bezerra de Menezes está pontualmente ao lado dos que dele precisam, espalhando fluidos benéficos e iluminando almas inquietas pela provação.

            Várias obras espíritas deixou esse grande expoente do Espiritismo brasileiro, entre as quais “A Loucura sob Novo Prisma”, “A Casa Assombrada”, “A Doutrina Espírita como Filosofia Teogônica” (que é a carta a que acima nos ferimos), “Estudos Filosóficos”, em 3 volumes, esta sob o pseudônimo de Max, etc.


            Esta a eminente personalidade que os espíritas brasileiros muito justamente reverenciam como o "Kardec do Brasil". Foi presidente da Federação Espírita Brasileira duas vezes: a primeira, em 1889; a segunda, de 1895 até 11 de Abril de 1900, data em que desencarnou. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A Igreja católica



        “Da simplicidade da religião do Cristo, já nada mais resta. Os andores, procissões e imagens do Paganismo, a indumentária multicolor, os templos suntuosos, o sacerdócio organizado das religiões do Oriente, e mil e uma coisas, quer materiais, quer espirituais ‘roubadas’ de inúmeras religiões espalhadas pelo Mundo, tudo isso deturpou de tal forma o Cristianismo nascente, que dele nada mais ficaria de lembrança se não fora o Protestantismo e, posteriormente, de 1857 para cá, a ação do Espiritismo, o Consolador prometido pelo Mestre da Galileia, que veio restaurar o velho edifício construído da Palestina, escoimando-o de um amontoado de roubos, de dogmas absurdos, de rituais extravagantes e de erros e impurezas sem número.”


            Trecho de artigo sob título ‘O Cristo monopolizado’ – Reformador (FEB) Maio 1955


3-3 Vigilância Evangélica




Vigilância Evangélica - 3
por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Dezembro 1955

             Todas as vezes que nos distraímos, surpreendem-nos deficiências que supúnhamos já haver superado há muito tempo. A disciplina evangélica, adquirida através de O Evangelho segundo o Espiritismo, é a bússula de que todos precisamos. Esse livro benemérito, que tem construído a felicidade de milhares e milhares de criaturas de Deus, contém a palavra de Jesus interpretada em Espírito e verdade. Constitui, juntamente com o O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec e Os Quatro Evangelhos, de J.B. Roustaing, a base sólida do conhecimento espírita. Todavia, é o Evangelho segundo o Espiritismo o bálsamo de todos os corações, fermento admirável da Doutrina Espírita. Jesus nos deu o prometido no Evangelho: aí está o Espiritismo, o Paracleto por Ele anunciado, que os fariseus dos velhos tempos não entenderam  nem o entendem ainda os fariseus dos tempos novos!

2-3 Vigilância Evangélica

Vigilância Evangélica - 2
por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Dezembro 1955

           
            De que precisamos? De disciplina evangélica, exercida ininterruptamente, quer nos pensamentos e nos atos, quer na palavra falada e escrita. É muito fácil aparentar sabedoria e dizer ou escrever coisas belas e edificantes. O difícil, porque é o que realmente vale, é exemplificar e só a exemplificação pode conferir-nos a condição de espírita. Muitas vezes julgamos estar firmando os passos no terreno e logo este foge sob nossos pés, porquanto
nos deixamos escorregar na invigilância. Orar e vigiar não é uma frase banal, mas uma regra de conduta, uma advertência importante, nem sempre bem interpretada. Se tivermos o mérito da tenacidade em busca do aperfeiçoamento moral e espiritual, nosso esforço não terá sido em vão. Temos de vigiar, constantemente, apoiando-nos na serenidade e na fé. Desesperar seria pior ainda que a fraqueza de propósitos que estivermos revelando no transcurso da jornada. A disciplina evangélica concede ao Espírito os recursos de que ele carece para se manter no rumo certo. A vigilância, portanto, é um aspecto dessa disciplina, tão útil ao fortalecimento moral. Muitas vezes, supomos andar com segurança e ao primeiro ensejo nos apercebemos trilhando atalhos que desejaríamos evitar! Entretanto, abençoamos os irmãos que compreendem o nosso desvio e nos advertem da mudança de rumo. Isto constitui também uma forma de caridade, de caridade muito fraterna, porque interessa intimamente ao nosso futuro espiritual. 

1-3 Vigilância Evangélica

Vigilância Evangélica - 1
por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Dezembro 1955

            Sempre que realizamos o autoexame das nossas ações, verificamos, melancolicamente, o atraso em que ainda nos encontramos em face dos princípios evangélicos. Nossa condição humana, marcada por deficiências que ainda não puderam ser erradicadas, nos faz demorar na caminhada, embora reconheçamos a necessidade imprescindível da exemplificação cotidiana, único meio de permitir ao Espírito o almejado progresso. Nossos escritos são lições que recebemos, e que divulgamos apenas porque poderão também ser úteis a outros caminheiros, como nós retardados no avanço para o Mestre Jesus. Pela repetição frequente, acabaremos, sem dúvida, por assimilar o aprendizado diário, embora falhemos a cada instante e a cada instante tentemos penitenciar-nos da infidelidade aos elevados conceitos evangélicos. Como é difícil ser espírita! 

Amor pela Dor

Amor pela Dor
Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Junho 1955

            Em nome do amor, há quem abandone o santuário doméstico, relegando os vínculos da sua redenção a temporário esquecimento...

            Em nome do amor, há quem se confie a tragédias passionais, investindo contra o objeto da própria devoção afetiva, através da delinquência e da morte...

            Em nome do amor, há quem provoque separação e desespero, portas a dentro do lar, convertendo-o em inferno de lágrimas a quatro paredes.

            Em nome do amor, há quem menospreze o próprio corpo, arrojando-se a despenhadeiros de remorso e sofrimento, pelo desvão do suicídio...

            Em nome do amor, há crianças desamparadas, velhinhos sem teto, doentes sitiados em rudes privações e almas feridas, entre pesadelos e aflições irremediáveis...

            Entretanto, semelhantes delitos, em nome da luz que equilibra o Universo, são perpetrados pela violência e pelo ciúme, pela cegueira e pela incompreensão do egoísmo - o apego desvairado a nós mesmos -, em cuja concha de trevas habitualmente nos ocultamos, fugindo à excelsitude do amor genuíno pelo temor de sofrer.

            Aceitemos a luta por instrutora de nossa existência, como quem sabe que nada existe sem preço.

            Adquiramos o tesouro do amor pelo aproveitamento da dor.


            Recebamos as lições da renúncia e o próprio sacrifício por jorros de claridade celeste, nas sombras de nosso "eu", e, aprendendo que mais vale dar que receber, o amor transformará a face de nossos destinos, porque tomará nosso coração por trono de sua glória e, ensinando-nos a entender e ajudar a todos, fará de nossa vida o santuário resplendente e sublime da Vontade Justa e Misericordiosa de Deus.