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terça-feira, 25 de julho de 2017

Saibamos ser Espíritas


Saibamos ser espíritas
Djalma de Matos
Reformador (FEB) Fevereiro 1942

Procurar conhecer-se a si mesmo, com a preocupação constante, quotidiana, de corrigir os próprios defeitos, constitui o dever precípuo de todo verdadeiro espirita.

De que serve ao crente conhecer a fundo a doutrina e observar teórica e exteriormente os seus ensinamentos, se, no que diz respeito a alma, ao próprio eu, não faz esforço por melhorar-se, para dar a demonstração de que o Espiritismo não é como a figueira estéril do Evangelho, mas, sim, árvore fecunda e frondosa, que dá bom fruto e acolhedora sombra?

Não pretenda ninguém ser perfeito, sob pena de se lhe turvar a visão - porque a perfeição, neste mundo, como o motu-contínuo e a pedra filosofal, ainda não houve quem a alcançasse. Pela terra, um único Espírito perfeito já passou: o de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Muito já faz quem mantiver o propósito sincero e diuturno de melhorar-se, observando e corrigindo as próprias imperfeições, perdoando, fazendo por esquecer as faltas que provêm das imperfeições alheias. E. para não fraquejarmos, não nos sujeitarmos a falir, neste meritório intento, devemos apelar sempre para a humildade, sem jamais esquecermos a sábia e salutar recomendação do Mestre: - Orai e vigiai para não cairdes em tentação!

Se, quando o procedimento alheio nos causasse ofensa ou prejuízo, quer direta, quer indiretamente, antes de irrogarmos ao nosso irmão censuras e recriminações, de levantarmos a voz para o acusar, nos detivéssemos um momento a raciocinar e, atentando nas imperfeições do nosso ser, nos puséssemos um momento na posição do que cometeu a falta, no mesmo grau de adiantamento moral ou intelectual em que ele se encontra, haveríamos de ver que, na maioria dos casos, a revolta se transformaria em compaixão e a acusação nos inspiraria uma prece em benefício daquele que faliu por ignorância ou por fraqueza.

Se este é o critério aconselhável no cultivo das relações mundanas, muito mais será de observar-se nas coisas que dizem respeito propriamente ao Espiritismo.

Não podemos, por isso, concordar com alguns confrades que, animados, aliás, de boas intenções, entendem que se deve hostilizar a todos aqueles que praticam as diversas modalidades do baixo, ou, melhor, do falso espiritismo, vigiando-os e denunciando-os à polícia, sob à alegação de que desacreditam o verdadeiro Espiritismo. Discordamos deste modo de pensar, porque temos como certo que a missão dos espíritas não é acusar, nem delatar, mas aconselhar e moralizar pela exemplificação dos preceitos evangélicos, sem jamais recorrer aos métodos coercitivos da violência e do escândalo.

Não julgueis para não serdes julgados - disse Jesus.

E qual será o mais culpado - aquele que por ignorante (que outro qualificativo se não pode dar) pratica a feitiçaria, a macumba, etc., sob o rótulo de Espiritismo, ou o que, tendo-se por conhecedor da verdadeira doutrina e da moral evangélica, não faz o que nelas se ensina, isto é, perdoar para ser perdoado, não fazer ao próximo o que não quereria que lhe fizessem?

A resposta não é difícil... Mais censurável é aquele que, tendo o caminho iluminado à sua frente, dele se desvia, do que o que pouco enxerga e se precipita no lodaçal.

Encarada assim a questão, sob o justo critério da relatividade, cuidemos em que não nos caiba a increpação de Jesus aos fariseus, que viam o argueiro no olho do vizinho e não percebiam a trave no próprio olho.

Não há, a nosso ver, o menor perigo para o Espiritismo legitimo - que não é obra dos homens, e sim dos invisíveis mensageiros do Senhor - de ser prejudicado pelo falso espiritismo porque a verdade jamais se podem confundir com a impostura, assim como o azeite se não contunde com o vinagre. Bem saberão extremar um do outro as pessoas sensatas, esclarecidas e criteriosas, cujo juízo tão somente nos deve preocupar - porque o das de má fé, das de cérebro entenebrecido pelas teias de aranha dos prejuízos e preconceitos, não devemos recear, nem dele cogitar.

O nosso pensamento sobre o assunto é este: - Tenha cada espírita o firme e constante propósito de corrigir as próprias imperfeições, procurando ser bom e justo, para combater, pelo conselho e pelo exemplo, o erro e a ignorância, dentro do âmbito arejado da caridade e da tolerância, sem julgar necessário recorrer aos meios compulsórios da repressão oficial.

Foi recorrendo a esses meios que começaram aqueles que chegaram, na Idade Média, a criar, de conivência com os poderes temporais, os tribunais do Santo Oficio, a acender as fogueiras da lnquisição - como se, para demandar as coisas de Deus fosse mister apelar para a espada de Cesar.

Saibamos, pois, ser rigorosos para com os nossos próprios defeitos e tolerantes para com as faltas alheias.

                     Só assim seremos dignos de nos dizermos espíritas.

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