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quinta-feira, 27 de julho de 2017

A Grande Renovação


A grande renovação
por Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB) Janeiro 1943

Em uma de suas vibrantes Epístolas, o apóstolo dos gentios, Paulo de Tarso, disse que o Cristianismo veio para renovar todas as coisas. Realmente assim é, pois que veio renovar o homem, sua mentalidade, suas aspirações, dando-lhe novas finalidades e demonstrando a sem-razão de muitas coisas que constituíam fundamento mesmo da civilização daqueles tempos.

Hoje os Espíritos voltam a repetir-nos as palavras do grande apóstolo. O Cristianismo revive com a Terceira Revelação para renovar todas as coisas. Projeta-se nova luz sobre os caminhos da humanidade, muda-se a mentalidade de quantos tomam conhecimento da revelação espírita, todos os valores mudam de base: o que parecia grande e digno de todos os sacrifícios transforma-se em pequeno, de valor muito passageiro; o que parecia demasiado abstrato para merecer nossa dedicação passa a constituir a razão mesma de ser da vida. O mundo material perde em significação e o mundo moral vem a significar tudo. Novos ideais, novas esperanças, nova segurança vêm amparar o homem em sua penosa jornada sobre a Terra. Ninguém fica excluído da grande família humana à luz da Nova Revelação. Mesmo o mais renitente inimigo do Espiritismo está incluído entre os que terão de ser salvos por ele, mais cedo ou mais tarde. É uma ideia nova, diz Carlos Richet, e por isso tem inimigos. Todas as ideias novas têm contra si a maioria dos homens, porque todos são apegados às ideias velhas e se opõem às novas, até serem vencidos por estas últimas. Nenhuma outra razão existe para hostilizarem o Espiritismo, senão ser coisa nova; mas, o tempo se encarrega de fazer que todas as coisas novas um dia venham a ser velhas e aceitas por todos. Basta que os homens se acostumem com uma ideia, para a aceitarem sem relutância. Logo, virá o tempo em que todos aceitarão o Espiritismo, como ideia madura, bem demonstrada, fora de todas as dúvidas. Tudo é questão só de tempo, porque os propagandistas não se cansam, são os Espíritos que se comunicam por toda a parte e ditam livros, inspiram oradores, manifestam-se por muitas formas convincentes, acumulando afinal uma multiplicidade variadíssima de provas desde as mais materiais até ás mais intelectuais.

Logo, o Espiritismo virá a ser aceito por todos os homens e só isso seria uma grande e fundamental renovação da humanidade; porém, não é só a ideologia que se renova. O progresso físico igualmente renova o mundo com suas descobertas de novas energias, novas máquinas, novos processos de trabalho e arranca o homem do seu comodismo oportunista, das suas velhas rotinas. Nessa transformação material do mundo, por vezes o homem é violentamente lançado na corrente do progresso, apesar de todos os seus protestos, choros e gemidos. Vêm forças maiores arranca-lo de suas rotinas. São os poderes públicos que lhe desapropriam as mansardas infectas e as deitam abaixo para abrir novas avenidas arejadas. São os grandes proprietários que compram casas velhas para demolir e aproveitar somente o terreno em construções melhores, mais confortáveis. É a guerra que arrasa cidades inteiras, afunda navios, forçando o homem a construir de novo, a renovar velhas obras.

Por toda parte corre esse vendaval da demolição para reconstrução. Ora tudo se faz pacificamente, com planos humanitários bem estabelecidos, como nas demolições que se estão processando em nossa velha Capital para a renovar, modernizar, sanear; ora a demolição é feita inconscientemente pelo ódio, como na velha Europa vem ocorrendo. De todas as formas, porém, há demolição em grande escala para renovação.

Paralelamente com a renovação material, vão surgindo as necessidades de reformas no direito e novas leis, novos sistemas de regular as relações dos homens entre si aparecem em todos os países. São legislações novas que se impõem, por se haverem tornado obsoletas e desumanas as velhas ideias de direito e dever.

Toda essa renovação poderia realizar-se sem dores harmonicamente se os homens houvessem aceitado o Cristianismo do Cristo, a lei moral eterna. Em certos casos, assim é e tudo se processa sem sofrimentos, para bem de todos. Noutros casos, porém, os homens se afastaram da lei moral e tentaram resolver seus problemas pela violência; vêm então as grandes calamidades e loucos de ódio e de dor, fazem eles aquelas mesmas coisas que deveriam ter feito com amor, cheios de alegria e felicidade. Desaparece a razão e domina a força. De qualquer sorte, no entanto, os planos divinos de progresso não se deixam prejudicar pelos erros, pela incompreensão dos homens. Fazemos pela dor, com sangue e lágrimas, o que deveríamos ter feito por prazer, por amor a Deus e às suas criaturas. O homem é demasiado pequeno para impedir que se cumpra a vontade de Deus e na vontade de Deus está o progresso, o aperfeiçoamento de todas as coisas, de todos os seres, através de renovações constantes, sempre para melhor. Nada fica estacionado eternamente. Tudo cumpre sua missão e tem que ser substituído: ferramentas, armas, meios de transporte, processos de produção, instituições, conhecimentos tudo envelhece e se torna anacrônico e tem que ser renovado. Nossas ideias igualmente são passageiras, podem durar milênios, mas terão que ser substituídas por outras melhores. Só o que é divino é eterno. A única lei que não tem que ser revogada é a de Deus em sua essência, despida da roupagem humana.

A renovação não cessa nunca. Sempre e a todos os momentos estão sendo renovadas as nossas concepções e nós mesmos, os homens, estamos sendo substituídos, por meio da morte e dos renascimentos a todo instante. Em cada renascimento trazemos novas ideias, novas experiências, para um ambiente novo, e vimos constituir uma personalidade renovada; já não somos precisamente o que fomos em anterior encarnação. No curso mesmo tão breve de uma encarnação, passamos por várias transformações, tornamo-nos dia a dia diferentes de nós mesmos pelas novas experiências, pelas novas observações, pelos novos conhecimentos que vamos adquirindo. Não ficamos estacionários, mesmo que o quiséssemos, com as ideias e aspirações que tínhamos na infância, na adolescência, na juventude, na idade madura. Tudo se transforma em volta de nós e nós também nos transformamos. Em certos momentos, porém, essas renovações se precipitam quais verdadeiras tempestades, como se dá em nossos dias apocalípticos. As nações mais rotineiras do planeta são compelidas a aliar-se às mais progressistas, para a renovação comum. Vemos os países mais novos e progressistas do mundo aliados aos mais velhos, numa luta comum, de que resultará o progresso de todos. A China milenária e os Estados Unidos moderníssimos são frações do todo que se defende, como nós brasileiros, contra as forças tenebrosas do Anticristo. A defesa comum força a colaboração, a interdependência e é evidente que a marcha do progresso tem que ser para a frente. Não serão os Estados Unidos que terão de adotar a velha civilização chinesa, mas a velha China que terá de modernizar-se, como os Estados Unidos, e esta mesma imensa nação moderna tem que modernizar-se dia a dia em seu esforço de guerra, para estar na altura de abater o adversário.

Assim, a atual guerra força todos os povos do planeta a grandes progressos materiais, à renovação de suas indústrias, às pesquisas científicas, ao desenvolvimento de energias latentes.


            É o progresso doloroso da renovação, que poderia ter-se realizado harmonicamente, se os homens não houvessem desprezado o Evangelho. De qualquer sorte, porém, tudo se renovará e o mundo de após guerra será completamente outro. 

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