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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Bilhetes


Bilhetes
G. Mirim (A Wantuil)
Reformador (FEB) Dezembro 1943

Fui criado no Catolicismo. Deste, passei para o meio protestante e, deste outro, para o numeroso grupo dos indiferentes. Por todo lado se me apresentavam os tais mistérios e dogmas, recheados com aquela obediência cega e quase servil ao sacerdote, padre ou pastor, e, por isso, aconteceu comigo o que se verifica hoje com quase todos, senão todos, que nascem neste país, dito católico.

Sempre me disseram que eu tinha uma alma, e que esta possuía qualquer coisa de divino, porque fora formada pelo Criador. No entanto, não deixavam a essa alma o direito de raciocinar, subordinando-a às suas irmãs que vestem batina ou sobrecasaca preta, com colarinho branco e ares de santidade, sob pena de enviá-la ao inferno, entregue a Satanás, para ser queimada eternamente, entre ranger de dentes e caldeiras a ferver.

E eu, nascido assim, com franca tendência a crer num Ser Superior, aos poucos me ia deixando levar para o numerosíssimo grupo dos indiferentes gozadores, conduzido indiretamente por aqueles sacerdotes que deviam encaminhar-me para esse Deus que o meu espírito ansiava por compreender, para amá-lo com o cérebro e com o coração.

E os anos se foram passando. Quanto mais se desenvolvia a minha acanhada inteligência e quanto menor deixava de ser a minha cultura, mais exigia o meu raciocínio e mais me pedia essa alma que Deus me deu, até que, finalmente, passei a fazer parte, definitivamente, quanto à Religião, dos noventa por cento dos habitantes do meu Brasil.

Os sacerdotes e pastores me evitavam. Minhas perguntas não lhes agradavam e lhes apresentavam dificuldades, por obrigá-los a responderem sempre com evasivas, que eles próprios julgavam deprimentes para teólogos iluminados que deviam ser, ao menos diante das ovelhas que contribuíam para a "maior glória de Deus", como diziam os "santíssimos" inquisidores dos séculos que se foram.

Um dia, um desses "loucos" que nos são conhecidos, através dos sermões religiosos, convidou-me para assistir a uma sessão de Espiritismo. Tive pena do "louco", mas como era um homem de idade avançada, por isso mesmo, e pela sua vastíssima cultura literária, aceitei o seu convite.

Formei os meus planos e segui para a sessão do nosso amigo, disposto a demonstrar-lhe, com provas científicas e indestrutíveis, o erro em que se encontrava.

Entrei no ambiente em que se achavam reunidas pessoas que me eram estranhas e fiquei, no meu canto, a sentir piedade de todos aqueles "loucos", que se comportavam quais os frades de que nos falam as histórias religiosas, com respeito, silêncio e atitude de religiosidade.

"A "coisa" começou. Falam espíritos daqui, replica um senhor que se encontrava na cabeceira da mesa, gritava um outro, queixa-se um terceiro de dores, e eu, sem nada compreender, já sentia desejo de rir, quando uma senhora, voltando-se para mim, recordou-me tantos fatos de que me esquecera com o passar dos anos, tantos conselhos e tantos nomes que me eram caros, que eu, meio tonto, ao sair, levava no bolso um papelzinho com a indicação do livro que me serviu para voltar ao Criador de que me afastara - O Livro dos Espíritos.

Tornei-me, com a observação e com a leitura de centenas de obras espíritas, um entusiasta do Espiritismo, mas, no fim de algum tempo, já me inclinava ao afastamento, pelas mesmas razões de sempre, comuns a todas as religiões: - Pregam o ensino e repetem as palavras do Cristo, sem documentação que satisfaça ao raciocínio do homem do século XX, que tudo quer examinar, discutir e compreender.

E se não fui novamente estacionar entre os adeptos dos gozos da Terra, creiam, meus amigos, que foi por conselho daquele mesmo velho "louco", que me falou novamente: - "Alia, meu caro, Kardec com o complemento da sua obra – “Os Quatro Evangelhos de Roustaing”.

Aí tem, meus companheiros, o meu bilhete de hoje. Não é bilhete de loteria, porque é bilhete que, adquirido e assimilado, produzirá a sua fortuna, a fortuna que a traça não corroí e que os ladrões não roubam.


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