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domingo, 16 de julho de 2017

A Maior das Obras de Deus


A Maior das Obras de Deus – parte 1
por Abel Gomes
Reformador (FEB) Dezembro 1942

Convidado a opinar, para as páginas de uma revista, sobre a grandeza das obras de Deus isto é convidado a declarar qual dessas obras sublimes em minha opinião, é a mais elevada, mais bela, mais perfeita, conservei-me longamente em silêncio receoso de ser uma falta dissertar sobre assunto de tão provada transcendência.

Como poderia eu, pequenino, finito, frágil, alçar o pensamento à imensidade, ao infinito, à grandeza e ao poder do Pai Celeste?! Eu, tudo ignorando, minúsculo verme da terra, erguer o olhar à onisciência do Ser Supremo?!

O que hoje faço talvez seja, portanto, uma ousadia. Tão grande é, porém, a misericórdia divina, que extinguirá a minha falta, cobrindo-a com o manto do seu perdão sublime.

Mas, o meu ato, neste rude escrito, não é uma falta para com o Onipotente, apenas o será perante os homens; pois a Grandeza Infinita, que domina o universo, não será jamais atingida por um obscuro verme deste mundo.

Falta no tempo e não na eternidade; ousadia perante meus irmãos, os homens, e não para com o Eterno, o Pai.

Perdoai-me, pois, Deus e Senhor meu, se for ousadia proclamar qual é, de vossas obras sublimes, a mais elevada, a mais bela, a mais perfeita.

Perdoar-me, não por Vós, a Quem a minha ousadia, se assim o meu ato for considerado, jamais atingirá, mas pelo conceito que de mim podem fazer os homens, hóspedes, como eu, deste ponto minúsculo da imensidade, denominado Terra, se me puder molestar esse conceito, ao verem-me eles abordar assunto de tão extraordinária transcendência.

Perdoai-me, pois, Deus e Senhor meu, e permiti-me proclamar, neste rude escrito, qual é, dentre vossas obras sublimes, a mais elevada, a mais misericordiosa, a mais bela, a mais perfeita.

*

Quando, durante o dia, volvo o olhar pelo espaço que nos circunda na terra e imagino a quantidade de espaços semelhantes de que é composta a superfície desta enorme esfera, minha alma se extasia de admiração ante o Criador deste mundo. E vendo o Sol que nos ilumina e aquece, e lembrando-me de que esse Sol é o centro de um sistema de mundos semelhantes ao nosso mundo - maiores uns, outros menores, mas todos cheios de luz e de vida e todos habitados ou habitáveis por humanidades semelhantes à deste mundo - meu espírito se perde em conjecturas a cerca da grandeza e do poder do Senhor Supremo.

Se cada uma dessas moradas possui a sua atmosfera, as suas selvas, os seus rios, os seu mares, a sua fauna, as suas montanhas, os seus vaies; se sobre cada uma delas existe e evolui uma raça pensante; se em torno desses mundos gravitam astros secundários, que são outras tantas luas iluminando lhes as noites com os revérberos do astro-rei; e se tudo quanto vemos entre nós de encantador e grandioso - todo o meu ser vibra de admiração e deslumbramento, contemplando nessas maravilhas o poder do Senhor Supremo.

Mas, entre as obras de Deus, algo existe mais elevado e mais belo.

*

Quando, à noite, atiro um olhar à imensidade e contemplo os milhões e milhões de estrelas que povoam esses espaços sem fim, minha alma se sente extasiada perante a magnificência do Ser Supremo, sabendo ser um sol cada uma dessas estrelas, ao redor do qual gravitam outros astros que são outros tantos mundos, habitados ou habitáveis, centenas ou milhares de planetas e seus satélites, girando no espaço, e levando cada um desses mundos as suas maravilhas particulares, as suas raças ignotas; as suas belezas naturais, uma fauna talvez estupenda, uma flora talvez exuberante, e talvez os seus sábios, os seus gênios, os seus admirados cientistas...

E cada estrela é um sol, em torno do qual há outros mundos semelhantes a este que nós habitamos; e essas estrelas são tantas, isto é, são tão numerosos esses astros-sóis, centros ao redor dos quais vivem e giram astros, que se os pudéssemos contar veríamos, maravilhados, que o seu número é maior do que o número de gotas de água que o nosso oceano contém!

São tantos esses sóis misteriosos, perdidos para nós pelo infinito, que a lenda antiga pretendeu ver, esparso na amplidão, o branco liquido de onde se derivou o nome de Via-Láctea, nome dado ainda àquele magnificente e imenso cardume de estrelas, que aos nossos olhos parecem unidas umas às outras, estando entretanto separadas entre si por distâncias incomensuráveis.

Contemplando, a noite, aqueles sóis longínquos e imaginando o sistema solar que cada um deles preside, e pensando nas outras maravilhas do espaço infindo, com as suas nebulosas, - germes talvez de futuros mundos. - e os cometas misteriosos, de alongadas elipses, minha alma é arrebatada a curvar-se, submissa e deslumbrada, ante a magnificência de Deus, que tudo dispôs nesse universo sem fim.

Mas, entre as obras de Deus, eu penso existir algo mais elevado e mais belo.

*

Quem, como eu o fiz, já se embrenhou a sós por uma floresta espessa onde não se ouvia a voz de outro ente humano, e ai viu árvores colossais, e frutos, e flores, e aves canoras, e animais silvestres, e conservou-se longo tempo a pensar sobre a riqueza imensa das selvas, sobre a quantidade admirável de seres vivos aí ocultos e acerca dos mistérios aí entrevistos, deve ter ficado deslumbrado pela grandeza e pela sabedoria do Senhor Supremo.

Como pode, em urna pequenina semente, ocultar-se o germe de uma árvore gigantesca?! Como pode o tronco anoso originar-se de um fruto quase informe, e tanto se elevar e fortalecer que chega a resistir com galhardia à fúria dos vendavais?! Como pode, do solo impuro, subir a haste flexível onde desabrocha a flor?! E as aves, com o seu canto e os seus ninhos e as flores, com o seu perfume, e as águas cristalinas do riacho que murmura?!

Em tudo, e por toda parte, vemos a magnificência do Senhor Supremo - nas grandes e nas pequenas coisas da criação, no majestoso roble como no musgo humílimo, nas asas possantes da águia como no esvoaçar do esbelto colibri, para o qual nunca houve segredos para a permanência em um ponto no espaço.

É tão grande o poder e tão admirável é a sabedoria de Quem criou as selvas e nelas fez surgir quanto nelas vive e sente, que minha alma se enleva, comovida e deslumbrada, pensando na bondade infinita que tais maravilhas criou.

Mas entre as obras de Deus, algo existe mais elevado e mais belo.

*

No silêncio dos campos, na solidão das selvas, ou à vista do oceano, longe, bem longe do bulido dos outros entes humanos, é que nossa alma se eleva mais diretamente aos pés do Senhor Supremo.

O silêncio e a solidão aproximam-nos de Deus.

Alta noite, junto da cidade adormecida, quem já esteve, a sós, à luz argêntea da lua, contemplando o oceano, e sentindo, a seus pés, o embate forte e sonoro das vagas de encontro às pedras da margem, deve ter sabido compreender como é grande o mar, formoso nos seus dias de calma e nas suas noites silenciosas, majestoso e belo nos mistérios que encerra em suas entranhas profundas, e mesmo em sua imensa superfície, imponente e tétrico, mas ainda assim formoso, nos seus dias tempestuosos, nas suas noites de trevas e de borrasca, quando o nauta lhe vê as fauces dos abismos, estrondeando nos ares revoltos a voz ameaçadora, de morte e de extermínio, contra o frágil batel exposto à fúria dos ventos e das vagas.

No fundo ainda quase desconhecido do oceano, nos seus vales profundos e nas suas escarpadas montanhas, que estranha flora vegeta e que extraordinária fauna habita!!

Em cada gota de suas águas existe o que a fraqueza do nosso aparelho visual nos não permite distinguir; mas as lentes do microscópio aí descobrem seres que vivem, que sentem e talvez - quem o poderá negar? - progridem, evoluem...

Vendo esse mar imenso, com o desejo insano de lhe desvendar os arcanos, nossa alma se prostra reverente perante a grandeza dos oceanos, em tudo sentindo a magnanimidade de Deus, o Ente infinitamente poderoso e sábio para Quem não há mistérios em todas essas maravilhas.

Mas, entre as obras de Deus, algo existe mais elevado e mais belo.

*

Perdoai-me, Deus e Senhor meu, pela ousadia em que talvez esteja incorrendo, não perante Vós, mas perante meus irmãos, os homens, proclamando que alguma coisa existe, entre as vossas obras sublimes, mais elevada, mais bela, mais perfeita, do que o mar imenso com todos os seus mistérios, do que as florestas espessas com todas as suas riquezas, do que a terra onde habitamos com todas as suas belezas naturais, e do que a amplidão infinda, povoada de mundos incontáveis, e repleta de maravilhas, e que é, toda ela, como que um hino perene de glória para com o Senhor Supremo, para com a sabedoria infinita do Criador.

Algo existe, pois, entre as obras de Deus mais elevado, mais belo e mais perfeito do que a terra, o mar e o infinito.

*

Penso que, entre as obras sublimes de Deus, a mais elevada, a mais bela, a mais perfeita, é, incontestavelmente, o amor de mãe.

          *

Que seria do indefeso entezinho se lhe faltasse o carinho materno?

Iniciando a vida terrena o entezinho chora, lamenta-se. Talvez sejam os protestos da ave altiva e livre que se librava nos ares, contra as agruras do nosso mundo, cadeia de almas que recebe mais um sofredor.

Ei-lo, o recém-nascido, pequenino quase inerte, privado de consciência e de palavra, ignorando importância da sua missão, mas já envolto em faixas, e docemente estendido sobre o fofo colchãozinho do seu leito suspenso.

E alguém vela, dia e noite, à beira do pequenino berço.  

Ao abrir a criancinha os seus olhos doloridos, pouco afeitos ainda à nossa luz, alguém, num sorriso santo de felicidade, de esperança e de amor vem depor-lhe, sobre o corpo rosado, sobre os bracinhos tenros, sobre as mãozinhas apertadas, sobre a lisa e pequenina face, um sem número de beijos castos, impregnados do amor mais puro e mais santo.

Se chora o inocentinho, há alguém, a seu lado, que o embala e consola, que o defende contra as intempéries, que o alenta com carinho inexcedível, com afeição incomparável. 

É sua mãe.

*

A mulher é mais formosa quando é mãe. Não lhe reconheço a verdadeira beleza, se não lhe vejo nos braços o filhinho amado.

Sempre foi este, para mim, o quadro mais belo da criação: a mãe, sorridente, tendo nos braços o filhinho a sugar-lhe os seios túmidos.

É a carne da sua carne, a vida da sua vida. Representa para ela um mundo inteiro de amor e concentra para ela as mais fagueiras, as mais belas e lisonjeiras esperanças.

*

Que seria do inocentinho se lhe faltasse o carinho materno?!

Mas, passam dias e noites, decorrem semanas, escoam-se meses, sem que, por um momento, falte quem vele junto a seu berço, ou durma a seu lado, ouvindo-lhe o respirar calmo da inocência e da confiança, ou despertando ao som do mais ligeiro vagido, para novos cuidados, para novos esforços pela saúde e pela tranquilidade do pequenino ente tão ternamente adorado.

Mesmo durante o sono reparador, a mãe, amorosa e boa, vê em sonhos o filho querido.

E os meses continuam a passar, e vão os anos decorrendo. Com o perpassar do tempo não diminuem, porém, os cuidados maternos. O filho tem crescido em idade, em forças, em tamanho, em raciocínio, e então é tempo, para a mãe dedicada, de lhe formar a alma, de lhe incutir a crença em Deus, e na imortalidade, de lhe inspirar amor ao bem e ao próximo.

No correr da vida, muitos homens são, física e moralmente, quais suas mães os idearam.

Sem o amor materno, numerosas criaturinhas pereceriam, não podendo resistir aos perigos da primeira infância, e a quantos sobrevivessem faltariam, no futuro, os sentimentos mais nobres que apenas um coração de mãe sabe inspirar. E o mundo estaria, consequentemente, pleno de deformidades.

É por tudo isso que eu penso ser o amor de mãe a mais elevada, a mais bela, a mais perfeita das obras sublimes de Deus, mesmo quando essa maravilhosa criação da bondade divina é comparada às selvas, ao mar e ao espaço, e a quanto existe nas selvas, no mar e no espaço.

Ao inocentinho, que entre nós vem viver, falta, às vezes, nos seus primeiros tempos de existência terrena, o carinho materno, porque à mulher a quem deve a vida, terminou cedo ainda, a vilegiatura neste mundo de incertezas; mas, nesse caso, tão grande é a misericórdia divina, que o pequenino orfanado é recolhido com afeto e carinho, pressurosamente, por um coração a quem a ternura de outra progenitura soubera transferir, anos antes, quanto de afeição e de cuidados sabe abrigar um coração de mãe.

E é assim, mesmo indiretamente, que a infinita bondade de Deus se manifesta através da mais sublime de suas obras - o amor de mãe. Sem ele, o nosso mundo seria um caos. Os mais nobres sentimentos humanos desapareceriam. O amor conjugal passaria a ser uma convenção. A verdadeira fé religiosa seria substituída pelo negro ceticismo. O dever seria do domínio dos códigos.

Deus, criando o amor materno, agiu menos como Senhor do que como Pai. Essa criação, a mais sublime, é filha de Sua ciência sem limites mas inspirada pela Sua misericórdia imensa e Seu amor infinito.

Eu penso, pois, que a mais elevada, a mais bela, a mais perfeita das obras de Deus, é incontestavelmente, o amor de mãe...

A Maior das Obras de Deus – parte 2
por Abel Gomes
Reformador (FEB) Janeiro 1942

Examinemos uns fatos, entre os numerosos que me ocorrem.

Um dos meus amigos fora acometido de uma doença grave, no crâneo, e era necessário uma intervenção cirúrgica. Para isso dirigiu-se à Capital, acompanhado pela esposa; mas os ilustres facultativos, por ele procurados, exigiam que primeiramente se fizesse mais forte, mais robusto, de modo a resistir à dolorosa operação, pois, estava tristemente abatido no físico e no moral.

Entre esses facultativos estava um parente e amigo do enfermo. Esse ilustrado clínico, porém, devia seguir naquela ocasião para o sul, em trabalhos da sua honrosa profissão, e, fazendo-lhe a última visita de médico, partiu quase convicto de não mais o encontrar à sua volta, tão pálido e desanimado estava o pobre moço.

No dia seguinte, também a esposa do enfermo abandonou-o naquela grande metrópole, e voltou para a terra natal, onde enfermara gravemente o velho pai.

Cerca de trinta dias se escoaram. Em uma bela tarde de verão, o ilustre médico, regressando de sua viagem ao sul, quis, antes de se dirigir ao lar, saber notícias do primo enfermo e encontrou-o forte, animado, bem disposto, à porta da casinha ajardinada que lhe servia de residência. Parecia em plena saúde.

O moço foi ao encontro do recém-chegado, estendendo-lhe as mãos numa saudação cheia de afeto; mas, o doutor, antes de lhe corresponder ao cumprimento, asseverou:

- Tua mãe está aqui contigo.

- Sim - replicou o moço; - há mais de vinte dias. E porque o dizes?

- Porque somente um amor de mãe é capaz de fazer voltar à vida um quase moribundo, - replicou o doutor.

Realmente, com o enfermo estava sua mãe, que, sabendo, vinte e cinco dias antes, em que condições se achava o filho, correra em seu auxílio. Mal podendo dispor dos recursos necessários à longa viagem, partira pelo primeiro comboio.

A pobre senhora não conhecia a capital, mas seguiu sem relutância; não dispondo de uma companhia, seguiu sozinha.

Sem os cuidados assíduos de uma mãe amorosa, sem o tratamento carinhoso e incansável daquela a quem devia a vida, jamais o pobre enfermo recuperaria as forças e nunca se elevaria, física e moralmente, às condições necessárias à intervenção cirúrgica.

Pouco depois era o moço operado e iniciava a curta fase de convalescença, terminada pelo seu completo restabelecimento.

***

De quanto é capaz um coração de mãe! É sempre o mesmo o seu amor, em todas as épocas da vida do filho, e por este sacrifica a fortuna, os gozos da vida, o fruto do seu labor insano, os confortos de um lar feliz, a própria saúde, a própria vida enfim, se também se tornar preciso, tudo fazendo sem um queixume, e considerando-se feliz em concorrer para a felicidade do filho querido.

***

Quando entrardes numa cadeia, em visita de caridade, ou quando percorrerdes as dependências de uma penitenciária, levados pelo desejo de fazer o bem como discípulos do Cristo e como cidadãos, procurar um por um, em particular, os criminosos condenados pelos delitos mais horrendos, mais terríveis, e a cada um desses infelizes perguntai com interesse afetuoso:

"Onde reside tua mãe?"

Um deles responderá: "Não conheci minha mãe, Senhor: faleceu quando eu nasci".

Outro vos dirá: "Minha mãe me faltou na primeira infância; não existe mais".

Um outro vos explicará: "Eu fugi da casa de meus pais quando ainda era menino, e nem sei sequer se minha mãe ainda existe!"

Mais um infeliz vos elucidará: "Eu sou filho do erro, e as convenções sociais baniram-me do lar. Não sei quem é ou quem foi minha mãe”.

Dai a cada um desses infelizes, se disso necessitarem, uma pequena lembrança que lhas deixe um pouco de conforto material, e a todos eles dedicai uns momentos de consolo, descerrando-lhes as portas longínquas da esperança pelo caminho da fé, do arrependimento, da regeneração e do amor, e serenai o vosso espírito, ao deixardes esse campo de misérias, pensando na bondade infinita de Deus, que a todos os Seus filhos aguarda com o Seu perdão de Pai amantíssimo.

***

Conheceis de certo alguns moralmente sãos, cujas qualidades, como chefe de família, e amigo, e funcionário, e cidadão, podem ser tomadas por modelo. Encaminhai-vos a alguns deles, particularmente, na direção de um estabelecimento industrial, ou à banca honrada de um advogado, ou à cátedra do mestre erudito, ou ao laboratório onde trabalha o sábio, ou ao consultório de um facultativo que de sua ciência faz um sacerdócio, ou a qualquer parte, enfim, onde labuta um homem com honra, com dedicação e com fé, e a cada um deles interrogai:

“Senhor, eu desejava saber a quem deveis a posição que ocupais. Quem vos ensinou a subir com honra, a engrandecer-vos sem soberba, a devotar-vos ao bem? Deveis a compreensão dessas verdades ao vosso próprio mérito, aos vossos esforços pessoais, ou tivestes um mestre que vos apontou o caminho do bem, da honra, do dever?"

Algum desses homens, dirigindo-se ao interior de sua residência, de lá regressará trazendo pelo braço uma velhinha sorridente, que vos apresentará nestes termos: "É minha mãe!..”

Outro, menos feliz, ouvindo a vossa pergunta, erguerá a destra em direção a um quadro que lhe honra a câmara de trabalho e vos dirá com os olhos úmidos de pranto:
           
"Cavalheiro, eu tive uma mãe".

E diversos outros dar-vos-ão respostas semelhantes.

É que o amor de mãe não se confina somente num berço. Não justifica a alegria grega do amor-menino. Acompanha o filho desde o primeiro vagido até que um dos dois entes desaparece da vida terrena; depois ressurge na vida futura, e vive e brilha pela amplidão infinita.  

***

Vi algures uma família sem chefe, uma viúva coberta de luto, alguns infantes sem pai, um lar onde a desdita se alojara. Pouco tempo antes habitavam ali a alegria e a esperança. Mas um dia morrera o chefe da família, o pai, esvaindo-se em sangue, horrivelmente ferido pelo ferro homicida que o seu próprio filho manejara.

Muito jovem ainda, o imberbe matador pensou na fuga, mas o remorso o atirou às mãos da justiça dos homens que o condenaram à pena máxima.

Porque cometera ele o horrendo crime? Defesa de alguém? Defesa própria? Sugestão de um espírito devotado ao mal? Medo de opinar, nas desarmonias domésticas, se existiam, contra quaisquer arbitrariedades paternas? Ou ausência de cultivo moral, ou falta de crença, ou um momento de loucura?

Ninguém o sabe. Ninguém o saberá talvez.

E o infeliz parricida, muito jovem ainda, quase adolescente, viu fechados após de si as férreas portas da penitenciaria, e viu que ao longe, numa aldeia pacifica, naquela herdade anteriormente alegre e calma, ficava uma família banhada em lágrimas e coberta de luto e de vergonha.

Pois a mãe extremosa desse infeliz, vendo-o embora culpado de tanta dor, de tanta e tão acabrunhadora desdita, saía a procura de clemência para o filho parricida. Com o coração a transbordar de amor e a alma de mãe a retumbar afetuoso perdão, deixava bastas vezes o lar e despendia não pequena parte do fruto do seu trabalho e das suas economias, e partia, viajando com sacrifício inaudível, a fim de impetrar perdão para o filho, o seu primogênito, tanto mais querido quanto mais desditoso se tornara, até que um dia, quase vinte anos depois do horrendo crime, um dos dirigentes deixou-se comover pelas suas lágrimas, pelos seus rogos, restituíram-lhe o filho.

Tem muito de divino o amor de mãe, ao qual nem o crime, e crime tão atroz, consegue jamais arrefecer.

***

No interior de um castelo antigo e nobre, no seio de uma família de costumes austeros, penetrou um dia a desonra: uma criança devia em breve surgir à luz, sem que anteriormente se houvesse efetuado um matrimonio. Era necessário desaparecesse a prova do erro. Assim opinava a velha castelã, e assim confirmava a jovem, filha única, que tivera a fraqueza de crer nas juras fementidas das de um moço pervertido pelos maus exemplos da época.

Para que desaparecesse o inocentinho, porém, esbulhado até dos seus direitos de herança, pensou a rica fidalga dever falar ao velho e sábio arcebispo, - naqueles tempos em que, como disse Vieira, os vasos eram de pau, mas os sacerdotes eram de ouro - e o prelado, profundo conhecedor do coração humano, declarou a ambas as senhoras que o caso era justo e seria a ação digna da aprovação de Deus; mas, apenas, sendo ele o arcebispo quem recebesse o inocentinho e se encarregasse de o extraviar, sob o mais rigoroso sigilo, o que poderia ser feito somente depois que a jovem mãe conservasse consigo o pequenino durante três dias...

Efetivamente, o velho prelado, algum tempo depois, entrando na alcova alcatifada onde tinha nascido, três dias antes, a inocente criancinha, dirigiu-se a jovem mãe, que a amamentava sorrindo, e disse, estendendo-lhe as mãos: "Venho reclamar o recém-nascido a fim de fazê-lo desaparecer, concluindo a minha missão".

- Não - respondeu-lhe a mãe com firmeza; o meu filho não se arredará de mim. Eu o criarei com dedicação e com amor.

- E eu tudo farei para que o meu amado netinho seja feliz entre nós - asseverou a velha fidalga, sorrindo ao pequenino.

Eram dois corações de mãe. Afrontavam o opróbrio e encaravam desassombradamente as convenções sociais, desprezando todas as censuras, que pelo mundo lhes pudessem fazer, e conservavam consigo, amorosamente, com carinho inexcedível, aquele pequeno ser, cujos olhos misteriosos pareciam envolver uma carícia e cujos lábios rosados pareciam esboçar, a meio, um sorriso de gratidão e de afeto.

O arcebispo sorriu, satisfeito. Aquele três dias tinham sido suficientes, mais do que suficientes, para despertar no coração da nobre e orgulhosa castelã o amor ao pequenino infante, de quem era duas vezes mãe, e para substituir, no coração da jovem fidalga, a afeição mundana pelo amor puríssimo de mãe.

Já não consentiriam que lhes arrebatassem dos braços o filho querido.

***


Penso pois, que, entre as obras grandiosas de Deus, a mais sublime é o amor de mãe.

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