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domingo, 24 de janeiro de 2016

Uma história como outras



Aquele velho morava num pequeno cômodo, na falda do morro dos Esquecidos. Chamava-se Pedro. De quê, nunca se soube. Era simpático, embora a fisionomia franca e atraente não deixasse de trazer o aspecto da austeridade. Ignorava-se quase tudo a respeito de Pedro, da sua vida pregressa e atual. Apenas era conhecido como homem bondoso, pronto a servir a quem quer que fosse, incapaz de uma palavra inconveniente ou de um gesto intempestivo.

Vimos a conhecê-lo por intermédio de um morador do morro, quando, numa roda de que fazíamos parte, ele salientava a personalidade do “seu” Pedro.

- Só sei, disse Euzébio, o morador do morro, que eu estava doente, desenganado, e ele me salvou. 

- Salvou? - perguntamos.

- Sim, salvou-me. Ele ia subindo o morro e eu ia descendo. Quando passei por ele, chamou-me:

- Preciso falar-lhe agora. Você está muito doente, mas isso não é razão para pensar em coisas lúgubres...

- Como é que o senhor sabe que estou doente? Quem foi que lhe disse que estou desesperado e com a intenção de me matar?

- Isso não importa. Sei. Mas você pode ficar bom, desde que se disponha a seguir à risca tudo o que eu lhe determinar. Quer ficar bom?

- Querer eu quero, sim, senhor. Mas já fui desenganado duas vezes, e acho que não dá mais jeito ...

- Não custa nada tentar, Euzébio...

- O senhor também sabe o meu nome? Como foi que soube?

- O mundo é muito pequeno. E isso não é assim tão difícil de saber, Euzébio.

E o ex-enfermo descreveu minuciosamente o que lhe sucedera. Durante meses, seguiu rigorosamente o tratamento que o velho indicara. Fisgado pela curiosidade, indaguei:

- Diga-me, Euzébio, que remédios você tomou?

- Remédios? A bem dizer, nenhum. O velho me recebia na casa dele. Orava, orava e dizia umas coisas estranhas, como se estivesse falando com algum companheiro. Mas não era, não. Falava sozinho... Confesso que tive medo, no começo. Depois, acostumei. Ao fazer a prece, pedia que Deus nos abençoasse e Jesus nos permitisse receber a visita dos Seus trabalhadores... É: trabalhadores. " Assim é que ele falava. Nunca vi ninguém. Ele me fazia uns gestos, enquanto falava. Depois, dava-me a beber a água de um jarro. Fazia uma porção de recomendações. Como eu queria ficar bom, aguentei tudo isso. Já estava desanimado e pensando em não voltar mais ali, quando o velho me disse que a minha doença necessitava de tratamento demorado. Era preciso ter paciência e coragem. Eu lhe respondi que paciência eu não tinha muito, mas, coragem, poderia provar a qualquer momento. .. Sabe o que me disse ele? – “Está bem. Dentro em pouco vou apurar se você tem mesmo coragem.”

- Você ainda vai lá? perguntei, interessado.

- Vou. Agora estou aprendendo com ele o Evangelho, que ele lê e comenta, explicando coisas que são realmente interessantes. “Chateado”, quis desistir. Ele, então, sério, me fez uma advertência, mais ou menos assim:

- “Você precisa tanto do Evangelho quanto nós do ar que respiramos. Não está melhor, com o tratamento que vem fazendo? Entretanto, a sua cura será apressada quando você aprender as lições que está recebendo e experimentá-las diariamente. E digo-lhe: o seu mal é de origem espiritual, meu amigo. Cuidando da alma, o seu corpo será beneficiado. Não sou feiticeiro, como você está pensando, mas sei que a maioria das doenças que infestam o mundo têm origem nos desequilíbrios da alma.”

..........................................

Não resisti e pedi que Euzébio me levasse à casa de Pedro. E lá fui.

Conheci o velho e prendi-me também a ele. Sua conversa é simples, porém superiormente orientada. Diante de várias indagações minhas, disse ele:

- “Hoje muita gente acha ridículo crer em Deus, falar em Jesus e Maria Santíssima. Isso tudo “já era”, como se diz. Só duas coisas preocupam: dinheiro e sexo. Para obter dinheiro, muita coisa triste é consumada. Certas pessoas, mal esclarecidas, rebeldes e intransigentes, consideram que a vida se resume em gozar os prazeres materiais. Ouve-se freqüentemente: “O dinheiro faz tudo.”

Fez uma pausa breve, continuando, em seguida:

- Legiões de Espíritos inferiores invadiram a Terra. Muitos são infelizes revoltados, que foram levados às últimas guerras. Voltaram à Terra com o ódio no coração. Desejam destruir tudo, participam de grupos terroristas, perdendo ótimas oportunidades para uma vida útil a si e ao mundo. Desiludidos, cegos pelo ateísmo, sentindo as dores que herdaram de um comportamento irregular, decidiram retomar a ofensiva homicida que a morte interrompera, convencidos de que é preciso destruir para renovar. Mas nada renovam. São o fermento do Anticristo. As entidades de socorro da Espiritualidade envidaram todos os esforços para que entendessem a força e a realidade do bem, e reconhecessem ser Deus o poder que governa a vida cósmica, e, ainda, que Jesus, tolerante e justo, está sempre disposto a ajudar os que de boa-vontade se dispuserem a uma caminhada de recuperação. Essas enormes falanges de Espíritos revoltados aí estão, no mundo atual, estimulando os maus à prática de atos de violência, influenciando os Espíritos fracos ao materialismo ateu. Dessa forma, a Terra, convulsionada, provocará, por ação da lei cármica, medidas muito enérgicas para livrar-se da maldade que se multiplica e se torna mais fria e cruel do que seria admissível em nosso século.”

- E Euzébio, ficará bom? - arrisquei a pergunta.

- “Possivelmente, porque tudo depende dele. Será submetido por mim a novas experiências. Já lhe disse que a violência só gera violência e a maldade é uma epidemia que só pode ser combatida com a prece e a prática do Evangelho. Se todos os que crêem se unirem mentalmente para formar uma barreira espiritual, tal estado de coisas declinará. Devemos compreender que nada sucede por acaso e que os acontecimentos que estão envergonhando a espécie humana têm uma causa, pois são efeitos de erros e maldades de outros tempos..”

Os olhos de Pedro cintilavam de maneira estranha. Tive a impressão de que fulgores de várias tonalidades saíam de suas pupilas. Sua face estava pálida e as lágrimas por ela desciam, atestando a pureza dos sentimentos que o dominavam.

Esperei que ele concluísse uma prece e despedi-me. Nunca mais o vi. Mas o Euzébio me apareceu, certa noite, quando dobrávamos uma esquina... Abraçamo-nos. Perguntei por Pedro e ele me informou que não andava mais por aqui...

Despedimo-nos, e, nesse instante, reparei que o livro que ele sobraçava era “O Evangelho segundo o Espiritismo”...

Pedro não perdera o tempo. Nem Euzébio...

Louvado seja Deus!
Uma história como outras
José Brígido / (Indalício Mendes)

Reformador (FEB) Agosto 1976

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