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domingo, 24 de janeiro de 2016

Evangelho e pregação




Nada é mais fácil do que a leitura dos Evangelhos, do que dizer-se que todos devemos ser assim e assim, para que a reforma individual contribua, a pouco e pouco, para a melhoria das coletividades. Escrever-se sobre os princípios de ordem moral, subir-se a uma tribuna e exaltar a beleza e a utilidade das lições de Jesus, tudo muito fácil. Aconselhar-se a exemplificação diária desses princípios e dessas lições, muito acertado e conveniente. Todavia, o principal é que aqueles que escrevem bonito ou falam bonito sobre essas coisas tão importantes sejam os primeiros a dar o exemplo em seu comportamento cotidiano; do contrário, é bem de ver, não passarão de infelizes enganadores de si mesmos, como os escribas e fariseus de que nos falam as Escrituras. Não há dúvida de que, mesmo
assim, conseguirão que alguém se resolva a praticar as lições evangélicas, pelo menos enquanto não souber que ele é “guia de cego”, mas cego também, porque não está em condições de demonstrar a sinceridade de suas palavras na prática diária, exemplificando o que aconselha aos outros.

Para cumprir o que determinam os Evangelhos é preciso coragem. Sim, coragem e força de vontade. Nós, que não temos sequer a semelhança das virtudes de Jesus, lutamos com a inferioridade moral que nos impôs as provas da reencarnação, precisamos ter muito ânimo, muita coragem, muita determinação para vencer a barreira que está em nosso íntimo. Não é fácil. Nem é trabalho para poucas horas ou poucos dias, porque muita vez as nossas mazelas surpreendem-nos quando já nos parece que estamos progredindo um pouco...

A responsabilidade dos que escrevem e pregam o Evangelho é gigantesca. Podem comprometer-se seriamente, se não se preocupam em pregar pelo exemplo, renunciando à vaidade que os aplausos estimulam, se não rejeitam de fato a idéia do “prestígio” que pode surgir aqui e ali. Alguns, no entanto, não se preocupam com o dia de amanhã. Fazem questão de figurar entre os maiores oradores ou os melhores articulistas, por vezes usando expressões inadequadas, que o ouvinte comum desconhece.

Alguns, “cegos, guias de cegos”, ainda não tiveram a necessária coragem de respeitar os Evangelhos, de tentar, com disposição, a árdua tarefa da exemplificação. Não souberam ainda aprender com os oradores que realizam com fé e superioridade a sua função na tribuna religiosa, e com o jornalista que, em vez de pensar em si mesmo, analisa com firmeza e devoção os pontos evangélicos que mais necessários se fazem a determinados auditórios.

            É preceito doutrinário: “...não vos isenteis dos deveres que os vossos cultos impõem, porquanto ainda agora, como ao tempo dos Hebreus e até que estejais bastante adiantados moral e intelectualmente, bastante purificados para não mais adorardes o Pai no monte ou em Jerusalém, para serdes adoradores do Pai em espírito e verdade, é necessário que tenhais um freio. Fazei, porém, de modo que o cumprimento de tais deveres seja uma homenagem sincera, sinceramente prestada ao grande Ser que reina sobre o Universo e não a marcha monótona e regular da máquina que funciona porque tem que funcionar. Não vos limiteis às práticas exteriores dos vossos cultos, omitindo, negligenciando a adoração verdadeira e a caridade do coração e dos atos, as quais, quando praticadas, constituem o amor a Deus, a justiça, a misericórdia e a fé” (“Os Quatro Evangelhos”, J.-B. Roustaing).

Há verdades que devem ser veiculadas, menos com o objetivo exclusivo de crítica destrutiva do que com a intenção de viver-lhes a mensagem com os companheiros que nem sempre se lembram de que colheremos amanhã o que semearmos hoje.

                         Evangelho e pregação
Tasso Porciúncula / (Indalício Mendes)

Reformador (FEB) Agosto 1976

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