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sábado, 9 de janeiro de 2016

Males do corpo, medicina da alma


            Relata João, o evangelista, cap. 5, V. 2-9,14:

            "Em Jerusalém está o tanque das ovelhas, que em hebreu se chama Betesda, o qual tem cinco alpendres. Nestes jazia uma grande multidão de enfermos, de cegos, de coxos, dos que tinham os membros ressecados, todos os quais esperavam que se movesse a água, porque um anjo do Senhor descia em certo tempo ao tanque, e movia-se a água. E o primeiro que entrava no tanque, depois de se mover a água, ficava curado de qualquer doença que tivesse.
            Esteve também ali um homem que havia trinta e oito anos se achava enfermo. Jesus, que o viu deitado, e soube estar ele doente há tanto tempo, disse-lhe: Queres ficar são?
            O enfermo lhe respondeu: Senhor, não tenho homem que me ponha no tanque quando a água for movida, porque, enquanto eu vou, outro entra primeiro do que eu.
            Disse-lhe Jesus: Levanta-te, toma a tua cama e anda.
            E no mesmo instante ficou são aquele homem; tomou a sua cama e começou a andar.
            Depois, achou-o Jesus no templo e disse-lhe: Olha que já estás são; não peques mais, para que te não suceda alguma coisa pior."

            Como se depreende claramente dessa afirmativa do Mestre, as moléstias e os desarranjos físicos que infelicitam a Humanidade - exceto aqueles derivados do meio ambiente e os estados mórbidos resultantes da idade - são efeitos de enfermidades da alma. Até mesmo as doenças atribuídas aos excessos de toda espécie ou aos maus hábitos, como o de fumar, o de ingerir bebidas alcoólicas, etc.

            Sim, porque os abusos, da mesma forma que as tendências para os vícios, são consequências de desejos. Ora, quem deseja é a alma: e não o corpo; este é apenas o veículo através do qual aquela se manifesta.

            Escusar-se alguém de seus erros, sob a alegação de que "a carne é fraca", não passa de sofisma.

            A carne, destituída de pensamento e vontade, não pode prevalecer jamais sobre o espírito, que é o ser moral a quem cabe a responsabilidade de todos os atos.

            A alma, quando sã, governa o corpo, disciplina-o e só lhe concede o que convenha à sua saúde. Já aquela que transige com os apetites carnais, permitindo sejam criados usos e costumes nocivos ao seu indumento físico, é uma alma em estado de enfermidade.

            Nos mundos elevados, onde não há almas enfermas, também não há corpos enfermiços; aqui na Terra, porém, onde elas constituem imensa maioria, os aleijões, os cânceres, as chagas, os tumores, enfim, toda a sorte de flagelos conhecidos e catalogados pela ciência médica subsistirão por longo tempo ainda, até que os homens se convençam dessa verdade e busquem o único remédio capaz de curá-los: a higiene da alma!

            Nada do que existe é inútil; portanto, se as enfermidades existem em nosso mundo é porque Deus assim há determinado, para que, pelas dores, aflições e angústias da destruição orgânica, a Humanidade se cure de suas fraquezas e acelere a sua evolução.

            Se os que se deixam dominar pelas más tendências anímicas não conhecessem, como consequência de seus desregramentos, as moléstias e a infelicidade, não se empenhariam em corrigir-se, continuariam sempre na mesma situação de ignorância ou de maldade, retardando indefinidamente seu progresso espiritual.

            Sofrendo, existência pós existência, os acúleos das enfermidades, para as quais não encontram remédio (e quando conseguem a cura de uma, logo surge outra desconhecida), os homens são levados a investigar a causa de sua desventura, e, descobrindo-a finalmente, cuidam de extirpá-la e não mais reincidir nos antigos erros.

*

            As enfermidades, além de corrigirem os desacertos e os vícios de que os terrícolas, em geral, ainda se ressentem, constituem, também, a única terapêutica eficaz para sanar lhes defeitos e imperfeições outras, mais graves, de que resultam danos e sofrimentos a outrem.

            O intelectual, por exemplo, que coloca sua inteligência a serviço da corrupção, da mentira e de outras formas do mal, será presa da demência ou da idiotia para que, de futuro, aprenda a fazer bom uso de tão nobre faculdade.

            O orgulhoso e o déspota, não há como abatê-los e domá-los, senão por meio de enfermidades asquerosas que os segreguem do convívio social. Conhecendo-as, suas altanarias cederão lugar à humildade, virtude esta indispensável ao aprendizado da ciência do bem.

            O egoísta, o insensível, aqueles que nunca estão dispostos a auxiliar o próximo, para que evoluam até o polo oposto - o altruísmo, terão que ser provados pela desgraça ou pela falta de saúde em uma série de existências, nas quais, privados de recursos, verão quanto é penoso depender de que outros os atendam e sirvam em suas necessidades.

            O avarento e o usurário, que, para amealharem mais uma moeda, impõem, aos que deles dependem, sacrifícios e privações inomináveis, que chegam, às vezes, às raias do depauperamento, como aprenderão a movimentar os bens em proveito da coletividade sem que sofram, a seu turno, os horrores de semelhante trato?

            O voluntarioso, o pouco resignado, como hão de adquirir paciência, conformidade e submissão à vontade divina sem que sejam trabalhados pelas doenças, principalmente aquelas que lhes tolhem a capacidade de locomoção?

            Não se creia que estejamos a forjar tal filosofia. É o Evangelho que assim no-lo ensina. Além daquela afirmação do Cristo, a que já nos referimos, vejamos o que Paulo, apóstolo, nos diz a respeito.

            Em sua II epístola aos Coríntios, 12:9, declara ele textualmente: "a virtude se aperfeiçoa pela enfermidade", e em Hebreus, 12:5-11,  assim se expressa:              

            "Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, nem te desanimes quando por ele és repreendido (provado no sofrimento), porque o Senhor castiga ao que ama e açoita a todo o que recebe por filho. Perseverai firmes na correção. Deus se vos oferece como a filhos; porque, qual é o filho a quem não corrige seu pai? Além disso, se, na verdade, tivemos a nossos pais carnais, que nos corrigiam e os olhávamos com respeito, como não obedeceremos muito mais ao Pai dos espíritos, e viveremos? E aqueles, na verdade, em tempo de poucos dias nos corrigiam segundo a sua vontade, mas este castiga-nos, atendendo ao que nos é proveitoso para receber a sua santificação. Ora, toda a correção ao presente, na verdade, não parece ser de gozo senão de tristeza, mas ao depois dará um fruto mui saboroso de justiça aos que por ela têm sido exercitado."

            Não maldigamos, pois, as enfermidades; elas desempenham missão purificadora e redentora para as nossas almas. Tratemos, antes, de suportá-las cristãmente, sem protestos e sem revoltas contra Deus, porque, a não ser assim, longe estaremos de alcançar a saúde completa a que todos aspiramos.

            Finalizando este estudo, cumpre ressalvar que nem sempre uma existência prenhe de amarguras e padecimentos significa expiação de faltas anteriores. Às vezes, são provas buscadas pelo espírito, a fim de concluir sua depuração e ativar o seu progresso. Pode ocorrer também que algum ser, de grande elevação, se haja determinado vir à Terra em missão, e não em cumprimento de penas, suportando com exemplar resignação os maiores reveses da vida, qual Jó, para ensinar a nós outros, míseros calcetas, de que maneira se deve sofrer, para tirar do sofrimento o abençoado fruto da evolução espiritual.

Males do corpo, medicina da alma
Rodolfo Calligaris

Reformador (FEB) Janeiro 1963





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