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domingo, 13 de dezembro de 2015

Quando amanhecer o dia...


           A brutalidade humana estigmatizou o Cristo de Deus durante todo o trajeto por Ele percorrido, nos 33 anos que passou entre nós. Chegado de regiões sidéreas, investido de tamanho poder que declarou a Pilatos que sua condenação só ocorria porque o Alto assim o desejava, tanto o início quanto o final de sua missão na Terra constitui-se, aos nossos olhos, em pomo de discórdia, especialmente se nos recordamos de que Ele é o selo da mansidão e da paz. Da manjedoura ao Getsêmani, do Getsêmani ao Gólgota, os homens rodearam-no de controvérsias, testaram-lhe a paciência que, em momento algum, demonstrou as fraquezas que nos são peculiares, atestando-lhe a genealogia completamente estranha à da raça humana. Renan, o grande historiador, diz que Ele foi tão grande que não pode localizar-se na corrente comum do tempo percebido pelo ser humano: dividiu a História em antes e depois. Dialogou com todo tipo de pecadores e criminosos, enfrentou o mundo de César, e não fraquejou em um só minuto. A grandeza inabordável de Jesus, como grandeza, não nos é acessível, embora o seja, e plenamente, como amor, que cobre uma multidão de pecados.

            Ainda hoje o seu nascimento perde-se entre discussões improdutivas e polêmicas acerbas, quando a grande realidade é que, primeiro, o que nos deve importar é a exemplificação que Ele nos legou, consubstanciada nas obras que empreendeu, e que não passaram nem passarão, como passou Jerusalém, no ano 70. Foi tão augustamente sábio que fez das hediondas perseguições de Nero e de Diocleciano motivo de difusão do Cristianismo; soube retirar da iniquidade o bem que socorre a própria iniquidade. Em segundo lugar, falávamos de polêmicas, o que nos importa não é o que Ele foi ou deixou de ser, mas o que Ele é. Em terceiro lugar, importa a nós que tudo se passou de acordo com a vontade Divina; que em Maria se fez, de igual modo, a vontade do Senhor; e que Ele veio para a salvação do mundo, que o não compreendeu, e não o compreende ainda. O Evangelho de Lucas, que alguns exegetas também consideram como sendo destinado aos Gentios, junto com o de Marcos, carregados de maior historicidade, o primeiro, como o sabemos, brotado na atilada mente paulina, de acordo com informações da própria Virgem Mãe, narra o que se passou na noite maravilhosa do nascimento do Rabi Galileu.

            A partir, muito depois, da transformação da água em vinho, durante as Bodas de Caná - o início da vida pública de Jesus - desabou sobre o Mestre uma intempérie de acusações falsas, incompreensões, acintes e absurdos, os quais somente a excelsa posição que ocupa poderia suportar.

            Com a ida do Senhor a Betânia, a ressurreição de Lázaro, e a refeição na casa de Simão, o leproso - que alguns estudiosos identificam com o próprio ressurrecto, o que não está provado - junto a Marta e Maria de Betânia, toda a intransigência dos homens deu as mãos, combinando atrocidades, no mais ominoso processo de que se tem conhecimento.

            Impossível a atribuição de culpa em separado a essa ou àquela facção: a verdade é que o gênero humano é o grande responsável pelo Calvário do Senhor. A grande verdade é que os interessados e autoridades que arquitetaram o evento não passam de símbolos da raça de que fazemos parte, a crucificada por excelência, e, ainda hoje, a prisioneira única do túmulo de onde Ele desapareceu. De um lado, a ira farisaica, a intransigência judaica, oferecendo denúncia formal contra o que, nascido em Belém, na Judéia, foi chamado Nazareno. A denúncia não foi por Judas desencadeada, mas o teve como pretexto, cuja traição contrariou a própria Lei Moisaica, tão defendida pelos lobos do Sinédrio, e que dispõe, no Levítico, XIX, 16: "Não te oferecerás a ti mesmo como testemunha contra a vida do teu próximo." Naquela hora, até mesmo o que já serviria de motivo para a dilapidação de Estêvão poderia ser relegado a plano secundário. Aquele homem precisava ser condenado e sumariamente executado... para segurança da mentira e da injustiça! De outro lado, a conivência temerosa, entibiada por parte da justiça romana que, chamada a atuar, viu-se forçada a confirmar a sentença, perante o ódio da populaça.

            Fraudes, dolo, erros essenciais: todo o negativismo precisou combinar-se para levar à morte, aos olhos dos homens, o Filho de Deus.

            Pôncio Pilatos, assustado diante do sonho de Cláudia, que o aconselhava a não arriscar a responsabilidade no julgamento de um justo, apela para os conselhos de Públio Lentulus, que - após afirmar que ninguém tinha Jesus na conta de conspirador ou revolucionário, em Cafarnaum, e que ele próprio, Lentulus, encarava suas ações, naquelas plagas, como as de um homem superior, caridoso e justo - sugere a Pilatos que envie o acusado ao julgamento de Herodes Ântipas, representante do governo da Galileia em Jerusalém. Lá, o Cristo é recebido com sarcasmo, informa-nos Emmanuel, veste a túnica alva, e tem assentada sobre a cabeça a coroa de espinhos, que não é de ferro ou bronze, ou qualquer outro metal, mas de uma planta espinhosa, que produz ardentíssima seiva. Reconduzido à presença de Pilatos, tendo enfrentado o sarcasmo da turba, Pilatos assegura que seu coração lhe diz que aquele homem nada havia feito. Como a multidão enlouquecida ameace invadir a mansão, Polibius sugere o açoite em praça pública, para que se saciasse a sede de condenação ali exibida. Mas, é impossível aplacar violência com mais violência, neutralizar o sangue com mais sangue. Após ter Jesus, durante os açoites, encontrado os olhos do Senador,... "que baixou a fronte, tocado pela imorredoura impressão daquela sobre-humana majestade", Públio retorna ao interior do palácio, contristado. Nesse momento, Emmanuel informa-nos que foi ele mesmo quem sugeriu uma espécie de permuta do Cristo por outro prisioneiro que já tivesse a sentença de morte irrecorrível.

            Pilatos sugere Barrabás... Mas, a multidão absolve Barrabás e quer Jesus crucificado. Pilatos lava as mãos (mais tarde, é o próprio Emmanuel quem informa que ele irá suicidar-se), e o Cristo marcha na direção do Monte da Caveira.

            Toda essa aparente coordenação falha por demonstrar ordem, e parece-nos válida a estupefação de Daniel Rops, ao dizer que não se consegue entender como tinha podido Ernest Renan deixar escrito que, no processo de Jesus, tudo transcorreu na mais absoluta ordem. Todo o procedimento iniciou-se com trevas, e não poderia terminar senão em trevas. O próprio Céu ratificou a escuridão moral da humanidade, cobrindo o mundo com trevas. E tudo se consumou assim... E tudo se iniciou assim!

            Marcado pela animalidade dos seus irmãos menores, marcou-os Jesus, indelevelmente. Seus sinais serão cicatrizes, enquanto em nós houver maldade; luzes, ao contrário, é o que restará de tudo, quando redimidos estivermos.

***

            Um evento contendo dois episódios chama-nos a atenção para o poder regenerador do Messias. Ambos os episódios são, mais uma vez, narrados pela noção de historicidade de Emmanuel, que, embora não seja aceito como fonte escrita de História, o que, de resto, ninguém consegue provar, é, para nós, o grande evangelizador, ao qual o futuro prestará mais respeitos. (1)

            (1) A própria História nega autenticidade à célebre lâmina descoberta em Nápoles, contendo artigos referentes ao processo da crucificação, um dos quais discrimina sedução à pessoa do Cristo (mesith - sedutor).

            O primeiro deles toca o problema da descrição dos traços físicos do Mestre. Historicamente, nada existe que nos leve a afirmar como fosse Jesus. Alguns hermeneutas pretenderam "interpretar" a passagem de Lucas, XIX, 1 a 4, de tal modo a que fôssemos levados a crer que Jesus, e não Zaqueu, era o que se estampava em estatura pequena. Uma efígie do Cristo parece estar insculpida numa antiga pedra, trazida de Constantinopla a Roma, e cuja influência se faz sentir quer sobre uma tapeçaria atribuída a Johann Van Eyck, quer sobre um medalhão, que se encontra em Poitiers, esculpido no século XVI. Alguns afirmam que, quando da Ascensão, os Apóstolos pediram a Lucas que criasse um quadro retratando o Senhor (2); e que, depois de três dias de preces e de jejuns, começando seu trabalho, Lucas viu aparecer o rosto sagrado. O caso de Verônica é também aventado, sendo que outros conhecedores dizem que ela é a mesma hemorroíssa, curada por Jesus, a qual, tentando pintar a fisionomia inesquecível, desespera-se e vê entrar Jesus, que vem pedir-lhe refeição, e que, enxugando o rosto com um pedaço de linho, nesse tecido deixa impressos os seus traços.

            (2) Trata-se, evidentemente, de uma lenda. Não temos noticia de que Lucas tenha estado presente à Ascensão.

            No entanto, é a célebre Carta de Lentulus que exige maiores atenções de nossa parte. Os estudiosos dizem não existirem evidências históricas desse Senador, mas nós sabemos que o "Larousse do século XX" registra a figura de Públio Lentulus Sura, que Emmanuel identifica como sendo ele mesmo, quando era avô daquele que seria o Senador. Isso é, de fato, uma pista. No entanto, os pesquisadores preferem ter a carta na conta de apócrifa.

            A carta é dirigida "ao Senado e ao Templo Romano", e vem sendo classificada como poética, e psicologicamente de grande efeito (3). Eis a descrição que nela se contém do Cristo:

            (3) De fato, a identificação de Públio Lentulus Sura é uma pista de localização de um tronco familiar. Na realidade, quanto à carta, existiram dezenas de Lentulus na ocasião, além de termos de considerar que o documento, se não pode ser dito como de Públio Lentulus, tampouco lhe pode ser negado historicamente. Existe, a rigor, um ponto apenas onde pode surgir dessemelhança válida: o Lentulus da carta diz-se Governador de Jerusalém. De um certo modo, coonestando a complexidade do assunto, convém ressaltar que há diversos textos para a mesma carta, e até mesmo nos jornais antigos - quando a reproduziam - poder-se-Ia, facilmente, detectar as diferenças.

            "É um rosto venerável, e de tal modo que aqueles que o encaram podem experimentar, ao mesmo tempo, temor e amor. Seus cabelos são da cor de avelãs maduras, lisos até quase as orelhas, com leve reflexo azulado, caindo sobre os ombros. A tez é cheia de vida; seu nariz e sua boca não têm defeitos. Tem a barba abundante, do mesmo tom que a cabeleira, não muito longa e dividida no queixo. É esguio, ereto, e suas mãos e seus braços são admiráveis." A carta, realmente bela, termina com a citação dos Salmos, XLV, 3: "É o mais lindo dos filhos dos homens!"

            Apócrifa ou não, ninguém melhor do que Emmanuel para resolver o problema. Vejamos. Flavia Lentulia padecia grave enfermidade. Lívia, a inesquecível Lívia, insiste com o Senador para que vá ter com o Messias de Nazaré. Ele acede aos rogos da esposa, embora ressalte que...  "Não procederei, todavia, conforme sugeres. Irei sozinho à cidade, como se me encontrasse em hora de simples entretenimento, passando pelo trecho do caminho que nos conduz às margens do lago, sem chegar ao cúmulo de abordar pessoalmente o profeta, de modo a não descer da minha dignidade social e política, e, no caso de sobrevir alguma circunstância favorável, far-Ihe-ei sentir o prazer que nos causaria a sua visita, com o fim de reanimar a nossa doentinha."

            Não foi sem lutas íntimas, orgulho contra humildade, que Lentulus se dirigiu ao encontro, após uma hora sobre as suas amargas cogitações íntimas (sic).

            O Senador esperava encontrar "homem simples e ignorante, dada a sua preferência por Cafarnaum e pelos pescadores". Esperava encontrar dificuldades, porque... "não lhe interessara o conhecimento minucioso dos dialetos do povo e, certamente, Jesus lhe falaria no aramaico comumente usado na bacia de Tiberíades". Eis que se encontrava inteiramente enganado! Apoiado num banco de pedras, começa a experimentar sensação nunca dantes sentida. Recorda-se dos menores feitos de sua vida terrestre, e parece ter abandonado temporariamente o corpo carnal. Experimentava êxtase, olfatava perfumes vindos do lago de Genesaré, o mar da Galileia, com mais ou menos vinte quilômetros de extensão, quando o Jordão está a 208 metros sob o nível do mar, e que pode ser atravessado em pouco mais de meia hora. Há, por ali, mimosas, jasmins e loureiros. Diz-se ser, ainda hoje, um dos
mais belos lugares da Terra.

            As palavras de Emmanuel levam-nos à conclusão de que ele, Públio Lentulus, encontrava-se desdobrado; e tanto é assim que, depois que tudo cessou, por volta das vinte e uma horas, o Senador despertava (sic). Já em estado de desdobramento,
estacara diante de seus olhos "personalidade inconfundível e única". Eis a descrição de Emmanuel, em confronto com a carta de Lentulus:

            "Tratava-se de um homem ainda moço, que deixava transparecer nos olhos, profundamente misericordiosos, uma beleza suave e indefinível. Longos e sedosos cabelos molduravam-lhe o semblante compassivo, como se fossem fios castanhos, levemente dourados por luz desconhecida. Sorriso divino, revelando ao mesmo tempo bondade imensa e singular energia, irradiava da sua melancólica e majestosa figura uma fascinação irresistivel."

            Mais adiante, Lentulus identifica "aquela criatura impressionante" ... "e torce misteriosa e invencível tê-lo ajoelhar-se na relva lavada em luar".

            Alguns estudiosos dizem que Jesus ria pouco mas, Emmanuel diz que Ele sorria, e não que Ele ria naquele momento. Não há, na narrativa do Espírito, qualquer menção à tonalidade azulada, se bem que ambas as narrativas falem em cabelos castanhos, porque a avelã madura é da cor de cabelos castanhos. Além disso, muito embora mencione fios castanhos, levemente dourados, logo a seguir referenda uma luz desconhecida, que, no atordoamento da presença do Cristo, e no estado de desdobramento, bem poderia ser azulada ou dourada. Além do mais, não poderia o azulado ser suave emissão magnética do Senhor, ao passo que o dourado seria o reflexo da luz solar em seus cabelos sedosos?..
           
            Nada parece estar em choque nas duas narrativas, e tudo leva a crer que elas são uma e só coisa, com pontos de vantagem para a dissertação mediúnica, que é o Espírito dando o próprio testemunho, ao passo que a carta bem poderia, em qualquer ponto, se fosse o caso, ter sido prejudicada, dessa ou daquela forma. Há praticamente uma identidade de vistas, e o problema da luz azulada ou dourada deixa de ser problema, enfocado à luz dos conhecimentos espíritas.

            Mais um ponto que autoriza a interpretação do desdobramento, enquanto lança por terra todas as suposições do Senador Públio Lentulus sobre a ignorância de Jesus, é o problema da comunicação entre os dois personagens, naquele dia. Das palavras de Emmanuel, depreende-se que Jesus não falou nem aramaico, nem siríaco, nem latim, nem linguagem alguma conhecida, mas "exclamou em linguagem encantadora, que Públio entendeu perfeitamente, como se ouvisse o idioma patrício, dando-lhe a inesquecível impressão de que a palavra era de espírito para espírito, de coração para coração". (Grifos nossos.) Mais adiante, Emmanuel diz que... "o profeta, como se prescindisse das suas palavras articuladas" (palavras essas de Lentulus), o que demonstra que, de fato, a comunicação era pelo veículo do pensamento, que, naquele instante, suplantava as barreiras dimensionais, para dizer ao Senador que... "ainda assim, meu amigo, não é o teu sentimento que salva a filhinha leprosa e desvalida pela ciência do mundo, porque tens ainda a razão egoística e humana; é, sim, a fé e o amor de tua mulher, porque a fé é divina... "

            Quebraram-se os elos... Lentulus ainda o veria no dia do açoite, sugerido por Polibius, para acalmar a turba insaciável. O tempo que se passou desde o desdobramento até ao êxtase, e deste ao despertar, por volta das vinte e uma horas, são a narrativa perfeita da rapidez do crepúsculo em todas as paragens da Terra Santa. Emmanuel chegou a ponto de, com toda a naturalidade, mostrar que uma hora após o percurso de uns trezentos metros (página 83), insensivelmente apoiado sobre o banco de pedras já mencionado, ... "um velário imenso de sombras invadia toda a região:..." e que... "o céu, àquela hora, era de um azul maravilhoso, enquanto as claridades opalinas do luar não haviam esperado o fechamento absoluto do leque imenso da noite."

            O leque imenso da noite fechou-se, sim, aguardando que o Senador Públio Lentulus despertasse ao toque caricioso do Messias. Quando nasceria o dia para o Patrício? Quando nascerá o dia para nós? Seremos daqueles que, ainda hoje, face a face com o Mestre, no Consolador Prometido, insistem em negá-lo renitentemente? E não digamos que se o víssemos transformar-nos-íamos imediatamente, porque é bem provável que tenhamos sido um dos que o viram, sem o ter descrito para a posteridade, para que a História duvidasse menos, a fim de que tudo nos fosse bem mais fácil, simplesmente porque estávamos ocupados em gritar: "Jesus!.. Jesus!.. Absolvemos Barrabás!.. Condenamos a Jesus!.. Crucificai-o!.. Crucificai-o!.."

Quando amanhecer o dia
Boanerges / (Indalício Mendes)

Reformador (FEB) Abril 1976

Indalício Mendes assinou...


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