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domingo, 20 de dezembro de 2015

A. Wantuil de Freitas - Um hino ao Trabalho


A. Wantuil de Freitas
- Um hino ao Trabalho - Parte l
Indalício Mendes

Reformador (FEB) Março 1976

Wantuil,
quatorze meses após esta foto,
assumiria  a Presidência,
substituindo Guillon Ribeiro.



  Guillon Ribeiro


“Somente vive quem luta,
Quem traz n’alma e sobre a fronte
Um desígnio inabalável;
Quem galga o áspero cume
De um destino alevantado;
Quem vai pensativo e cheio
De sublime aspiração,
Levando diante dos olhos,
Toda noite, todo dia,
Ou algum santo trabalho,
Ou então um grande amor."
                   Victor Hugo

Fac et spera! (Trabalha e espera!)

            Há dois anos, partia para a Espiritualidade uma das mais significativas figuras do Espiritismo brasileiro, homem bom, honesto, apegado ao trabalho, que construiu a própria vida terrena com esforço pessoal, sacrifícios e louvável tenacidade, sem deixar de dar cumprimento aos deveres que todos temos para com Deus. Pode ter parecido um obreiro como tantos que mourejam neste mundo, sem alarde nem recursos que pudessem ser apontados como incompatíveis com os sagrados mandamentos. Para ele a honestidade não era uma virtude excepcional, mas um curial dever de todas as criaturas. Não cortejou a popularidade nem cultivou o narcisismo. Não andou regateando aplausos para os atos meritórios que praticou. Era simples e compenetrado de que a vinda para este planeta não constituiu uma excursão turística, mas uma oportunidade para o resgate de antigos débitos e para a conquista do respeito que o comportamento retilíneo pode assegurar.

            Chamou-se Antônio Wantuil de Freitas, na encarnação que se encerrou a 11 de março de 1974. Quando a luz da revelação espírita iluminou a sua consciência, soube ele compreender as responsabilidades que assumem com o Alto todos aqueles que conscientemente se declaram irmanados à Revelação dos Espíritos. Ser espírita não é urna simples adesão verbal ao Cristianismo Redivivo: é um compromisso de trabalho fiel, de lealdade incorruptível, de respeito a todos os seres vivos, a tudo quanto vive, de incorporação integral à obra de colaboração com o Bem, sem preconceitos de nenhuma ordem, sem restrições de qualquer espécie, a fim de que a passagem pela Terra seja marcada por ações dignificantes e benéficas à humanidade em geral, sem se deter para defender-se das injustiças do mundo, porém com a exclusiva preocupação de exemplificar os ensinamentos do Cristo, tendo por bússola o Evangelho.

            Isto porque, conforme esclareceu Bezerra de Menezes, "o mundo não vos compreende, como não compreendeu ao Cristo de Deus. O mundo desvaira. Vive para o presente, nada espera do amanhã. Quando despertar, será sob a guante da dor, que por toda parte flagela, mas redime."

            Dotado de aguda inteligência, Wantuil dela jamais se utilizou para ofender ou destruir a quem quer que fosse. O temperamento era equilibrado pela compreensão dos homens e das coisas desta vida. Assim, a tolerância era apanágio da sua formação moral. Todavia, sabia distinguir as nuanças do comportamento humano, e não se deixava iludir, graças a um como que sentido intuitivo bem desenvolvido, que o advertia a tempo de qualquer perigo oculto.

            Reputava a disciplina como lei de salvaguarda da unidade e da liberdade dos homens. Assim, conduzia-se com segurança no meio heterogêneo em que atuamos. Sentia a prudência como atributo essencial ao êxito, tanto quanto a discrição é importante no âmbito das relações humanas. Sua energia era algo que bem retratava a excelência do seu caráter. Gostava de dizer sim, mas nunca vacilou em dizer não, quando se tornava imprescindível que o dissesse. Esse homem revelou desde cedo qualidades pessoais que emolduraram sua personalidade com o acatamento e a veneração dos que o compreenderam. Inspirava confiança e tranquilidade, por ser ponderado e dado à introspecção prudente. Jamais foi capaz de dizer mais do que o necessário em uma dada circunstância. Poder-se-ia afirmar que foi o homem certo para fazer as coisas certas no tempo certo.

            Amou o trabalho, pôs sempre muito amor em suas tarefas, como se estivesse a todo momento repetindo mentalmente estas palavras de Jesus: "Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também" (João, 5:17),

            Parece sua esta frase lapidar de André Luiz: "O dever lealmente cumprido mantém a saúde da consciência."

            Por querer tanto bem ao trabalho, dava muito valor ao tempo, e procurava sempre fazer o melhor possível, buscando aproximar-se da perfeição, que é o ideal humano. Não desprezava pormenores. Estava certo, porque, segundo o inolvidável inventor Edison, "são quase sempre as coisas simples as que mais nos escapam", podendo trazer consequências negativas para o sucesso de qualquer empreendimento. Se atentarmos para o fato de que tudo é feito de pequeníssimas partículas, compreenderemos que não se deve jamais subestimar os pontos aparentemente insignificantes.

Disciplinador do Tempo

            Sua operosidade levava-o a "brigar" com o Tempo. Não tinha, entretanto, o relógio como desafeto, mas como prestimoso colaborador, porque lhe permitia enganar o Tempo uo, como dizia Montherlant, "comer o tempo". O qualificativo, aliás, era "les chronophages" (cronófagos ou comedores do tempo), frisou André Maurois. Também foi, portanto, um "comedor" de tempo. Tanto assim que, ao se converter ao Espiritismo, deixou definitivamente de assumir compromissos sociais, e não aceitava atividades estéreis, talvez por compreender que a vida humana é muito curta, e malbaratar horas valiosas e irrecuperáveis com frivolidades significaria sacrilégio.

            Metódico, dividia o tempo com sabedoria e, assim, tinha tempo para tudo. Respeitava a pontualidade com religioso escrúpulo, e não permitia que o atraso acidental se transformasse num hábito, de maneira que para tudo tinha horário, dentro e fora dos deveres da Casa de Ismael. Não se julgue haja sido ele um escravo do tempo, pois, na realidade, foi um "disciplinador do tempo". Tinha-se a impressão de que o relógio andava de acordo com a conveniência do seu serviço. Seu dinamismo, mesmo quando a idade já lhe impunha certas restrições, dava-lhe o caráter como que de ubiquidade, tantas as providências que, quase simultaneamente, tomava, assegurando a consumação dos esquemas preestabelecidos.

            Seu amor ao trabalho faz-nos recordar o célebre escritor Alexis de Tocqueville, autor de "Da Democracia na América", livro que teve enorme repercussão em todo o mundo ocidental, na época do lançamento. Tocqueville amava também o trabalho, e não desperdiçava tempo. A esse respeito, escreveu Gustave de Beaumont: "O ócio era antipático à sua natureza e quer o seu corpo se achasse em movimento ou imóvel, sua inteligência estava sempre a trabalhar. Para Alexis, a conversa mais agradável nenhum valor tinha se não era útil. Os dias aziagos eram os que ele perdia ou haviam sido mal empregados. A menor perda de tempo o contrariava." Outro famoso escritor, Samuel Smiles, hoje, infelizmente, desconhecido da juventude, escreveu: "O próprio Tocqueville disse: "Este mundo pertence à energia. Não há época alguma da vida em que nos possamos entregar ao descanso. O esforço no exterior de nós mesmos, e mais ainda no interior, é tão necessário e até mesmo muito mais necessário à medida que envelhecemos do que na mocidade. Comparo o homem neste mundo a um viajante que se encaminha incessantemente para uma região cada vez mais fria, e que se vê obrigado a agitar-se mais e mais, à proporção que se vai internando. A grande doença da alma é o frio. E para embatermos esse mal terrível, devemos entreter o movimente vivo do nosso espírito, não só por meio do trabalho, senão também pelo contato de nossos semelhantes e dos negócios deste mundo."

Simplicidade e Franqueza

            Aquele seu "jeitão" de mineiro do interior contrastava com o desembaraço do seu espírito, e a sua inteligência viva e percuciente. Era franco e claro, mas não grosseiro. Pode ser que haja sido algumas vezes mal compreendido, mas, muitos dos que se surpreenderam com o seu feitio franco, mais tarde louvaram a sinceridade do seu comportamento. Não iludia ninguém, não fingia, não contemporizava, não procrastinava a solução dos problemas: enfrentava-os decididamente. Poder-se-ia ter aludido à agrestia de um gesto seu, mas jamais acoimá-lo de fariseu. Sua sinceridade  estava à flor da pele. Entretanto, quando preciso, sabia conversar amavelmente, recebendo com bonomia os que o procuravam, revelando paciência e condescendência, que se casavam perfeitamente com a natural simplicidade de suas maneiras, o que confirma "in totum" o dito de Mayer: "a simplicidade é o selo da verdade".

            Detestava os intrigantes e aduladores. Não perdia tempo com eles, mesmo que tentassem corrompê-lo com louvaminhas excessivas.

            Modesto e sóbrio, por mais que produzisse, sempre se dizia em situação deficitária em relação ao serviço prestado ao Espiritismo e à Federação Espírita Brasileira. Fugia de se tornar alvo de atenções, e padecia, quando, ungido pelas circunstâncias, tinha de ser fotografado. Raramente condescendeu, como o fez, por exemplo, no lançamento do primeiro selo espírita do mundo, comemorativo do Centenário da Codificação do Espiritismo, a 18 de abril de 1957, no balcão filatélico instalado, por deferência do então Sr. Diretor de Correios, no andar térreo da sede da Federação, à Avenida Passos.

            (Importa não se confunda com selos postais os emitidos pela Federação Espírita Espanhola - a fim de angariar recursos para o Congresso Espírita Internacional, realizado em Barcelona, em 1934 -, em número de seis, trazendo as efígies de Allan Kardec, Léon Denis, Amália D. Soler, Bezerra de Menezes, Conan Doyle e Cosme Mariño.)

                                               Economizar para prosperar

            Wantuil era um homem econômico. Considerava a economia a plataforma para a prosperidade, isto é, uma economia ativa, destinada a promover utilidades, assegurando, ao mesmo tempo, a estabilidade de que todos, indivíduos e coletividades, necessitam para progredir.

            Não apoiava a economia estática, improdutiva, carecente de movimento, como a dos sovinas, que têm no dinheiro não um meio para a melhoria da vida, mas um fim egoístico, infecundo. Seu conceito de economia, portanto, era elevado. Disse alguém, alhures, que "os poderes das virtudes formam o corpo de um homem bom". Da mesma forma, os poderes da economia formam o corpo da prosperidade. Além do mais, Wantuil dava muito valor à reciprocidade e também à solidariedade. Ambas constituem um princípio coincidente com as ideias evangélicas: No primeiro caso, "tudo o que quiserdes que os homens vos façam, fazei-o assim também vós a eles"; no segundo, "pedi, e dar-se-vos-á. Pois todo o que pede, recebe" (Mateus, 7:7-12). É da sabedoria de Confúcio princípio idêntico: "0 que não queres para ti mesmo, não o faças a outrem. Isso é Reciprocidade."

            A economia representa um ato previdente, ato que atinge o clímax quando ela se dinamiza, proporcionando oportunidades de desenvolvimento e fartura. Ainda mais se nobilita a economia quando objetiva favorecer aos que necessitam mais, ou ao se destinar a empreendimentos em favor da coletividade.

            Até hoje se comenta, com um certo sabor anedótico, que Wantuil mandava aproveitar o verso de envelopes de cartas recebidas, para recados, pequenos cálculos e anotações, em vez de gastar papel novo. Isso foi feito durante anos, mormente na longa fase de aperturas da FEB, que se preparava para o prodigioso salto de que resultou o Departamento Editorial.

            Uma das maiores calamidades dos tempos é o desperdício. Das sobras das mesas dos fartos, milhões de bocas humanas poderiam ser alimentadas. ("Recolhei os pedaços que sobejaram, para que nada se perca. Assim os recolheram e encheram doze cestos de pedaços dos cinco pães de cevada que sobejaram aos que haviam comido" - João, 6:12-13.)
           
            Da supressão dos gastos supérfluos, dos indivíduos, das organizações particulares humanas e dos governos muitos recursos poderiam ser recolhidos para atender a imprescindíveis providências de interesse público.      .

            As economias feitas por Wantuil, juntas a outras providências por ele determinadas, permitiram que a Federação Espírita Brasileira, pela primeira vez em sua história, pudesse respirar aliviada, livre de angústias imensas, e partir para a realização de reformas necessárias ao seu progressivo desenvolvimento.

Dores e Silêncio

            Como Kardec, Bezerra de Menezes, Leopoldo Cirne, Guillon Ribeiro e outros, Wantuil de Freitas não escapou às farpas da maledicência e da calúnia, e também sofreu em silêncio, sem queixas. Se vez por outra se manifestou para esclarecer e retificar alguma afirmativa aleivosa, foi por compreender que seu silêncio poderia, de certo modo, envolver o nome respeitável da Casa que tão proficientemente dirigia.

Sabedoria da Experiência

            Conversando um dia com alguns dos mais íntimos elementos da Federação, disse Wantuil que, convidado para Diretor, por Guillon Ribeiro, isto em 1936, levou seis anos a comparecer às reuniões sem opinar fundamente acerca dos assuntos ali discutidos. Seguia o velho preceito: "ver, ouvir e calar". Entrementes, prestava muita atenção à natureza dos problemas debatidos, observava o comportamento dos demais Diretores e suas reações, de modo a se assenhorear de tudo e recolher ensinamentos que, mais tarde, muito úteis lhe seriam. Conhecendo a situação geral da Federação, sentia-se mais apto para dar qualquer opinião, quando achou que era chegada a hora de participar ativa e eficientemente dos trabalhos. É que acumulara, pela observação, pela análise psicológica dos companheiros e do ambiente, a sabedoria que a experiência bem aproveitada vai formando, quase que por um processo de sedimentação, para enriquecer o cabedal de aquisições seleciona das pela inteligência. Não era homem de atitudes apressadas e intempestivas. Não falava pelo prazer tolo de falar, sem conhecimento de causa. Ponderava e externava seu ponto de vista, quase sempre aprovado, em virtude da lógica de seus argumentos. Calados podemos ser, às vezes, mais úteis do que opinando sobre algo que não conhecemos suficientemente.

Dois Acontecimentos Marcantes

            Em 1944, a 8 de agosto, foi a Federação Espírita Brasileira surpreendida por uma ação declaratória da Exma. Sr.ª D. Catharina Vergolino de Campos, pleiteando os direitos autorais dos livros até então recebidos mediunicamente por Francisco Cândido Xavier, ditados pelo Espírito Humberto de Campos. O fato teve extraordinária repercussão no país e no estrangeiro. O leitor interessado poderá encontrar na obra "A Psicografia ante os Tribunais", de Miguel Timponi, editada pela FEB, o relato completo do ruidoso acontecimento.

            A inesperada situação exigiu de todos, preponderantemente de Wantuil de Freitas, como Presidente da FEB, muita concentração e solidariedade, para defrontar um problema que sequer fora sonhado em nossa comunidade. Não se pode, hoje, imaginar o "corre-corre" que foi a coleta de elementos destinados à contestação oferecida pela Federação Espírita Brasileira, como primeira suplicada, e o nosso querido Chico Xavier, como segundo suplicado, pois o tempo era curto, embora a atividade de Wantuil e a capacidade do nosso também querido Dr. Miguel Timponi, patrono da causa, assistido pelos advogados Drs. Nélson Martins Paixão e Francisco Nogueira.

            Todos foram convocados por Wantuil, e todos - admirável exemplo de amor e solidariedade! - buscaram dar o máximo que podiam para o êxito das tarefas que lhes foram atribuídas.

            Uma noite, recebemos telefonema de Wantuil, dizendo-nos da sua enorme preocupação com um trabalho de confrontação e demonstração literárias, solicitado a ilustre correligionário, advogado, jornalista e homem de letras, que - disse-nos - era, sem dúvida, excelente prova da competência e da cultura do autor.

            Entretanto, não era precisamente o de que precisava para instruir a contestação. Tentara comunicar-se com o acatado confrade, para tentar urgente recondicionamento do trabalho, mas não conseguira localizá-lo. A situação era crítica, porque já não havia tempo disponível, porquanto, esgotar-se-ia no dia imediato, às tantas, horas, o prazo previsto em lei para a entrega da contestação por parte da FEB.

            Feito o novo trabalho, "em cima da perna", como se costuma dizer de algo feito às carreiras, foi enviado a Wantuil, com a ressalva de que talvez necessitasse de emendas, para uma redação definitiva. Ele o recebeu e mandou-o tal como estava, para não perder o prazo fatal, pois, em resumo, era o que queria para evidenciar a identidade de estilo entre Humberto-Homem e Humberto-Espírito.

            Registramos o fato pela só circunstância de evidenciar os dias atribulados que ele viveu, para reunir toda a documentação necessária à defesa entregue a Miguel Timponi, autor da importante obra "Magnetismo Espiritual", sob o pseudônimo de Michaelus, e concatenar tudo quanto hoje faz parte de um dos mais importantes livros acerca da psicografia em face dos Tribunais.

            O Espiritismo, finalmente, saiu triunfante, graças ao elevado senso de justiça e à admirável isenção de ânimo com que foi o feito julgado. Mas o nosso Wantuil deve ter conseguido muitos fios grisalhos a lhe enfeitarem a cabeça... Não lhe faltara, porém, a assistência dos Grandes Espíritos, a começar por Ismael. As preces feitas com a maior unção, tiveram, finalmente, o resultado desejado.

            Tudo parecia haver-se acalmado, e a Federação continuava, como sempre o fez, como o faz e sempre o fará, a exercer o seu mandato moral e espiritual com a tranquilidade dos justos, quando, logo no ano seguinte, outro acontecimento importante, e igualmente grave, sacode-a. Havia uma surda perseguição ao Espiritismo. As sociedades espíritas sofriam mais de perto os efeitos da coação, que, dia a dia, se tornava maior. Todas as dificuldades eram-lhes impostas para funcionar. Criou-se até um cadastro policial para o fichamento dos adeptos.

            Estávamos em 1945, ainda sob o governo de Getúlio Vargas. Compreendendo a gravidade da situação e o alcance coercitivo das medidas até então tomadas, Wantuil movimentou-se e pôde manter contato direto com o próprio Presidente da República e com o Chefe de Polícia, que era, na ocasião, o Ministro João Alberto. Não nos cabe esmiuçar o assunto. Dentro de poucos dias, foram desfeitas todas as incompreensões, e as autoridades "reconheceram às instituições espíritas o direito de se organizarem e funcionarem livremente". Os acontecimentos de 1945 nada mais foram do que a reeclosão do que havia acontecido em 1937 e em 1941, quando Wantuil ainda era Gerente do "Reformador". Sua atuação foi corajosa, mesmo temerária, pois esteve a pique de ser posto na cadeia como vulgar delinquente. As pressões e coações ao Espiritismo vinham de longe. Uma Portaria do Sr. Chefe de Polícia do então Distrito Federal, datada de 10 de abril de 1941, reavivou a prevenção sem fundamento. Foi determinado o imediato fechamento das portas da Federação Espírita Brasileira e de todas as sociedades e centros espíritas. Wantuil tomou a frente do movimento de defesa do Espiritismo, com a energia jovem que o distinguiu até a madureza. Envidou esforços incomuns, mobilizou conhecimentos e promoveu auxílios valiosos de personalidades simpáticas à Casa de Ismael e, principalmente, à causa do Direito e da Razão, assegurada, pelos textos constitucionais. E o mesmo Sr. Chefe de Polícia, que ordenara o fechamento das casas espíritas, deu ordem, sete dias depois, para que elas reabrissem.

            O curioso é que, em determinadas circunstâncias, a Constituição era acatada para permitir que o médium Padre Antônio pudesse exercer seus "milagrosos" atributos, mas os médiuns espíritas eram considerados à margem das garantias constitucionais! Foi o que mais tarde, por volta de 1945, veio a acontecer...

* * *

            Como esclarecimento de natureza histórica, diremos que a primeira perseguição imposta ao Espiritismo brasileiro ocorreu no dia 28 de agosto de 1881.

            A Polícia proibiu a realização das sessões da Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade, que era, ao tempo, a mais importante Sociedade espírita do Brasil. Em
consequência, a Diretoria da mesma, a 6 de setembro do mesmo ano, enviou extenso Memorial ao Imperador D. Pedro II, em defesa do Espiritismo. No dia imediato, 7 de setembro, essa Sociedade dirigiu também ao Papa Leão XIII a sua reprovação aos lutuosos acontecimentos verificados em Roma, na noite de 13 de julho do mesmo ano de 1881, por ocasião da trasladação dos restos mortais do Papa Pio IX.

                                                                       Benção Papal...

            Diante disso, o Cardeal Z. Jacobine, em nome do Papa Leão XIII, remeteu, a 19 de novembro, à Sociedade Acadêmica, um ofício, agradecendo os termos da reprovação citada, enviando, aos signatários, a bênção papal...

Contra a ação antiespírita

            Como continuassem as pressões contra o Espiritismo, cuja origem não era desconhecida dos espíritas, a 19 de novembro de 1890, a Federação Espírita Brasileira, fundada em 2 de janeiro de 1884, através do "Reformador", que passara a ser seu órgão oficial, por oferta de seu fundador, Augusto Elias da Silva, desde o dia 19 de janeiro do mesmo ano, dirige ao então Ministro da Justiça longa defesa contra os artigos 157 e 158 do novo Código Penal, artigos que embaraçavam a prática do Espiritismo, fazendo, a 22 de dezembro de 1890, pelo Centro Espírita do Brasil, uma representação ao Marechal Deodoro da Fonseca, primeiro Presidente da República Brasileira, solicitando a supressão dos dois citados artigos do Código Penal.

            Essa representação foi feita pelos Drs. Bezerra de Menezes e Francisco de Menezes Dias da Cruz (então Presidente da FEB) e os advogados Drs. João Carlos de Oliva Maia, José dos Santos Silva e Antônio Luiz Sayão.

            Em vista de persistirem as coações ao Espiritismo, foi constituída, a 4 de agosto de 1892, no Rio de Janeiro, uma Comissão Permanente que defenderia os espíritas quando perseguidos em suas convicções e na propaganda da Doutrina. A Comissão ficou assim composta: Dr. Ramos Nogueira, Senador Antônio Pinheiro Guedes, Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, Deputado Aristides Spínola Zama, Dr. João Carlos de Oliva Maia, Dr. Francisco de Menezes Dias da Cruz, Deputado J. C. de Almeida Nogueira, Deputado Alcindo Guanabara, Prof. Angeli Torterolli e Dr. Valentim Magalhães.

            As figuras mais eminentes do Espiritismo continuavam, entretanto, pugnando pela liberdade dos espíritas, tanto que, a 10 de agosto de 1893, foi lida no Congresso Nacional uma representação assinada por alguns espíritas ilustres, entre eles os Drs. Adolfo Bezerra de Menezes, Dias da Cruz e Senador Pinheiro Guedes. Pedia-se ao Congresso reconhecer a inconstitucionalidade do Código Penal na parte relativa ao Espiritismo. O Presidente do Congresso remeteu a representação à Comissão Revisora do Código Penal, para que a tomasse em consideração.

            Eis, em síntese, alguma coisa dos esforços despendidos em defesa do Espiritismo. Wantuil de Freitas, que conhecia todos esses-fatos, sabia as dificuldades que teria de enfrentar, quando sobrevieram os acontecimentos de 1941 e 1945, acima registrados,

* * *

            Quando aludimos ao perigo por que ele passou de ser preso, não exageramos. Ele próprio, alguns anos depois, o declarou, pelas páginas do "Reformador", de agosto de 1948, que poderá ser consultado por quem desejar aquilatar bem da estatura moral e da coragem desse homem que, depois de ser um Gerente excepcional do "Reformador" (cabe ao Procurador a Gerência do órgão de imprensa da FEB - exercida gratuitamente, como sucede em relação aos demais cargos da Administração), viria a tornar-se, por consenso unânime dos amigos fiéis da Casa de Ismael, um dos seus extraordinários Presidentes.

Estima Justificada

            A estima e admiração que Guillon Ribeiro tinha por ele sublimou-se com a atitude varonil, mas humilde, ao defender os espíritas contra a impertinência e o facciosismo de um acusador, que pretendeu estender a todos os adeptos da Terceira Revelação o procedimento inaceitável atribuído a um pseudo-espírita.

            A coragem verdadeira é conhecida em momentos agudos, como aquele, quando as possibilidades de segurança inexistem, embora sejam exuberantes as da humilhação moral e física. Guillon não se enganara, desde que trouxera Wantuil para o seu lado. Antevira as virtudes do amigo, quando era ele ainda completamente desconhecido de todos. Lera-lhe na alma a firmeza de caráter e a segurança de que seria capaz em qualquer oportunidade, em defesa do Espiritismo, em defesa da Doutrina, em defesa da Federação Espírita Brasileira.

            O autor deste artigo tem motivos para louvar, novamente hoje, a coragem de Wantuil de Freitas. Convidado para Secretário do "Reformador", através de um telefonema de Wantuil de Freitas para a redação do "Diário de Notícias", onde trabalhava, ficou atônito. Mediu a sua pasmosa insignificância e a altura do convite recebido de um homem que conhecia, ainda superficialmente, dos momentos em que, em companhia de Guillon Ribeiro, João Luiz de Paiva Júnior, Alfredo Félix da Silva (Capitão Félix), João d'Oliveira e Silva e outros, se conversava, às vezes, na sede da FEB. Ainda atordoado pelo intempestivo convite, demo-nos pressa em agradecer e recusar a honrosa lembrança, por vários motivos óbvios. Ante a insistência, acabamos por aquiescer, em princípio, à vontade de Wantuil. Depois, conversamos e ele ficou sabendo das razões fortes que nos levavam a não aceitar a indicação, ainda que nos dispuséssemos a ficar inteiramente a seu dispor, dentro das limitações reveladas. Tivemos, mesmo assim, de ceder.

            Dias depois, algo sucedeu, sem o conhecimento de Wantuil, que nos aconselhara a desistir. Escrevemos-lhe uma pequena carta, sem relatar as razões que nos levavam a tal gesto. Divergiu fortemente da nossa atitude. Tivemos, então, de lhe expor as razões verdadeiras da renúncia, pois não desejávamos criar-lhe embaraços, porquanto um companheiro não vira com bons olhos a escolha, e nos hostilizara. Compreendemos que, em tais condições, iríamos, talvez, criar dificuldades ao trabalho de Wantuil, e não seria justo que isso acontecesse, pois tudo ficaria em paz com a nossa saída. Wantuil fechou a questão, tivemos de ceder, plenamente prestigiado por ele. O companheiro, entretanto, alegou motivos particulares e se retirou.

            Daí nasceu uma amizade de mais de trinta anos, que ainda perdura, pois Wantuil está mais vivo do que nós, ainda amortalhados na carne. Sentimos, no momento em que descrevemos esse fato, apenas como subsídio modesto para a história desse grande amigo, uma profunda emoção. A sua lealdade sólida jamais enfraqueceu, comprovando a sua bela formação moral.

O Guia de Wantuil

            Compulsando notas e documentos inéditos de Wantuil de Freitas, que nos foram confiados para que pudéssemos consubstanciar este trabalho, soubemos de um fato, que não deixa de ser pitoresco, ocorrido pouco tempo depois da sua conversão ao Espiritismo. No Grupo familiar de que fazia parte, foi-lhe dito, logo às primeiras reuniões, que o seu Guia era Ismael. Ao tomar conhecimento disso, Wantuil procurou informar--se da personalidade de Ismael, que muitos pensavam tratar-se do iluminado patrono da Federação Espírita Brasileira. Wantuil recebeu o informe como simples mistificação. Peremptoriamente, recusou-se a aceitá-lo. No decurso desse mesmo ano, ouviu referências a uma médium residente, então, na Avenida Pedro II, no Rio, cuja especialidade era retratar mediunicamente, a pastel, sem receber qualquer remuneração, Espíritos desencarnados. Apesar de ainda não conhecer essa médium, que era a distinta senhora Dinorah Simas Enéas, esposa do Coronel Simas Enéas, com quem tivemos cordiais relações, bateu à sua porta, desinibidamente, e pediu o retrato do seu Guia, o que lhe foi desde logo prometido. Passaram-se dois meses. Voltou à casa da médium e esta lhe entregou o retrato que fizera, o que foi para ele grande decepção. O Espírito apresentado era jovem, sem barba nem bigodes. Isso lhe deu que pensar. Pelo menos, acertara num ponto: não se tratava do
Ismael que lhe haviam dito antes, no que, aliás, nunca acreditou. O verdadeiro Ismael, em que todos pensavam, deveria ter barbas longas, como as de uso em sua época. O fato serve para reafirmar que Wantuil, desde cedo, gostava das coisas claras, sem sofismas. Levou o retrato para casa. Havia lá uma pretinha analfabeta, que era médium vidente. Quando viu o patrão entrar e deu com os olhos no retrato, exclamou, de inopino, num misto de surpresa e contentamento: "Xii! É o Guia do seu Antônio!"

            Isso fez aumentar ainda mais a confusão que ele estava desejoso de esclarecer. Quer dizer que o seu Guia era mesmo aquele jovem imberbe?

            Nada disse, mas, na sessão que dirigia em seu lar, perguntou mentalmente como poderia ser explicada tamanha confusão. A resposta não se fez esperar: "Todos os que trabalhamos sob a direção de Ismael tomamos-lhe o nome”. Eu sou um dos muitos que lhe recebem instruções." Depois disso, Wantuil deixou o caso de lado. A propósito, tivemos também uma experiência igual, em seu desfecho, quando, na década de 40, fazíamos sessões em nossa casa. Não compreendemos também, naquela ocasião, que um Espírito se manifestasse no mesmo dia e na mesma hora em sessões realizadas em lugares diferentes. Fizemos idêntica consulta e tivemos resposta idêntica.
            Causara-nos espécie a presença de um Espírito com o mesmo nome, a apresentar-se, coincidentemente com as suas atividades conosco, em outras reuniões à mesma hora, no mesmo dia.
            Disse-nos o orientador espiritual dos nossos trabalhos que, via de regra, o Guia, chefe ou diretor espiritual do grupo, é o mais solicitado. Tem ele seus assessores, que são componentes do mesmo grupo e estão autorizados a usar-lhe o nome e a se apresentarem, nas obras de assistência moral, espiritual e de caridade, com a sua assistência, como se fossem ele próprio, pois, na realidade, é ele que determina a seus colaboradores o que devem fazer e como o fazer em qualquer circunstância, com um certo poder discricionário, é claro. Desde então, compreendemos o "mecanismo" dos trabalhos espirituais, nesse particular, porque nos satisfizera cabalmente a resposta clara que recebêramos. O Espiritismo tem sutilezas que somente podem ser conhecidas através da experiência trazida pelo contato frequente com esses prestimosos amigos do Além. Podem os mais exigentes considerar a explicação insubsistente e parca, talvez por não compreenderem
ainda o que já nos foi possível compreender: há da parte dos caridosos irmãos da Espiritualidade a tendência para dar soluções práticas e simples a problemas igualmente simples, criados pelos humanos...

Bezerra, Cirne e Wantuil

            Quando atacado, raramente se defendia, e, quando o fazia, era por meios que não redundassem em ataques pessoais, em prejuízo da Doutrina. Em 1950 como fosse acusado de dilapidar o patrimônio da Federação, respondeu com a publicação do Relatório que se vê no "Reformador" do mesmo ano - págs. 219 e 220 -, na qual ficou evidenciado haver feito, em apenas dez anos, o que a Casa de Ismael não conseguira realizar nos 57 anos anteriores. Doutra feita, acusado de já não merecer a confiança do corpo social, Wantuil convocou a Assembleia Geral, e esta, em 15 de abril de 1950 (ver "Diário Oficial" de 12 de maio de 1950, página 7.399), unanimemente lhe concedeu poderes que só se dão a homens daquela estatura moral. Em 1954, contra a expectativa dos que o hostilizavam, viu aprovada, também por unanimidade, a reforma dos Estatutos da Instituição. Ele, Bezerra e Cirne foram os Presidentes mais combatidos de toda a história do Espiritismo, mas, como esses dois, soube sofrer em silêncio e não se esqueceu nunca de orar pelos que o caluniavam e perseguiam, sem jamais recorrer à Justiça Criminal para processar seus detratores.

A. Wantuil de Freitas - Um hino ao trabalho - parte 2
por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Abril 1976

Biblioteca e Livraria  Wantuil de Freitas

            Há aspectos muito interessantes da personalidade de Antônio Wantuil de Freitas que poucos puderam conhecer. A sua modéstia era, como dissemos, congênita. Por isso, não foi surpresa para nós o encontrarmos, em algumas das anotações por ele deixadas, ou em volantes impressos, frases como esta: "Nunca foi publicado, nem no "Reformador". W.", "Arquivo na Biblioteca", etc. Não raro, mandava arquivar sumariamente, sem qualquer vacilação, o que quer que a ele se referisse, salientando o seu trabalho, direta ou indiretamente, como, por exemplo, uma carta do "Centro Espírita do Calvário ao Céu" - Rua Cel. João Manoel, 763 - Caixa Postal, 141 - Bebedouro - Estado de São Paulo, da qual tomou conhecimento por cópia a ele enviada pelo 1º Secretário da FEB, noticiando homenagem a Wantuil, em se lhe atribuindo o nome à Biblioteca e à Livraria da Instituição.

Reverência à FEB

            O seguinte ofício, da Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro, subscrita por seu Presidente, Dr. Floriano Moinho Péres, mostra também, a tinta vermelha, esta recomendação: "Guardar. Refere-se ao Presidente da FEB":

            "Niterói, 3 de dezembro de 1968. Caro doutor Wantuil de Freitas.
            - Paz, com Jesus-Cristo!
            "Na oportunidade do NATAL que se aproxima e do ANO NOVO que se prenuncia dos mais fecundos para a DOUTRINA DO ESPIRITISMO, desejo fazer-lhe, em meu nome pessoal e no da DIRETORIA DA CASA DE BEZERRA, os votos sinceros de muita paz e tranquilidade espiritual junto àqueles que mais lhe são caros.
            "Pedimos ao PAI CELESTIAL muito pela sua saúde, e pela permanência, ainda por longos anos, no corpo somático, a fim de que a CASA DE ISMAEL possa continuar encontrando, nas suas afinidades psíquicas com o PLANO MAIOR, toda a orientação segura
com que tem genialmente conduzido esta grande nave que se chama PACTO AUREO.
            "Que possamos estar sempre à sombra dessa árvore frondosa, que é a FEDERAÇÃO ESPíRITA BRASlLEIRA, que nos tem inspirado e conduzido no CAMINHO CERTO.
            "Fraternalmente, Floriano Moinho Péres."

Curioso Bilhete de Ismael Gomes Braga

            O seu comportamento coerente impunha-se mesmo com os amigos mais íntimos, evitando sempre que algo fosse feito para se pôr em relevo a sua pessoa. Ismael Gomes Braga, figura relevante no movimento espírita, que o estimava muito e era também por ele muito estimado, enviou-lhe o seguinte bilhete, cuja redação, deliciosamente impregnada de bom humor, deve ter feito o "velho" Wantuil sorrir e morder de leve a indefectível cigarrilha que o acompanhava:

            "23-10-64 (1º de seu ano 70)
            "Wantuil,
            "Quanta coisa V. já fez em 69 anos!
            "Fortuna, cultura, rica prole, livros, construções, etc., etc. Deixará o mundo bem melhor do que encontrou.
            "Deus seja louvado por tudo que V. pode e por tudo que ainda poderá realizar pelos nossos belos ideais EEE.
            "O longo artigo "Continuidade", aqui anexo, é excelente quanto à qualidade do papel, e só. As ideias são velhas e pouco valem, mas V. reconhecerá que o papel é realmente bom e não poderia ficar perdido.
            "Peço-lhe apresentar à sua santa companheira os meus sinceros parabéns pela virtude de estar suportando Você há tantos anos, sempre com paciência.
            "Cordial abraço do
            ISMAEL."

            Estamos fazendo estes registros sem qualquer preocupação cronológica, como o leitor deve ter observado. O importante é realçar a firmeza de comportamento de Wantuil de Freitas, pela segurança e lucidez com que se houve no desempenho de numerosas funções, no curso de sua vida produtiva.

Cultura Reconhecida

            Em 1942, isto é, um ano antes de ser conduzido à Presidência da Federação Espírita Brasileira, para substituir Guillon Ribeiro, personalidade forte e atraente, sob todos os aspectos, principalmente pela educação evangélica, aprimorada cultura geral e profundo conhecimento do nosso idioma, ingressou Antônio Wantuil na Sociedade de Homens de Letras do Brasil, por proposta do Dr. Nélson Martins Paixão.

            Sabendo-se o rigor mantido por esse conspícuo cenáculo de cultura fundado por Olavo Bilac, em 1914, avaliar-se-á o reconhecimento do valor intelectual de Wantuil de Freitas, bem versado em nosso vernáculo, hoje tão descurado, e a ratificação do seu mérito pela unânime resolução da Diretoria, constituída por homens de letras.

            Eis o ofício que lhe foi enviado, ao qual nunca se referiu, nem mesmo em palestras íntimas:

            "Rio de Janeiro, 1º de 12 de 1942.

            "Ilmo. Sr. Dr. Antônio Wantuil de Freitas.
            "Tenho a subida honra de comunicar-lhe que por resolução unânime da Diretoria foi indicado o nome de V. Exa. para fazer parte do nosso grupo social na
categoria de sócio efetivo.
            "Congratulando-me com a feliz escolha, valho-me da oportunidade para reiterar os protestos da mais elevada consideração e distinto apreço.
            "Subscrevo-me, com a devida vênia,
            confrade admirador
            Arnaldo Damasceno Vieira, Presidente."

Com Chico Xavier

            Wantuil de Freitas foi amigo pessoal dos grandes espíritas do seu tempo, com os quais se correspondia amiudadamente. Dentre eles, Guillon Ribeiro, Vinícius, Ismael Gomes Braga, Romeu Camargo, Camilo Chaves e muitíssimos outros, como seja o nosso querido Francisco Cândido Xavier, cuja amizade se iniciou em 1932.

            Chico era tratado por ele como um filho, e ambos se entendiam maravilhosamente. O trecho da gravação feita em Uberaba (MG), na manhã de sábado, dia 19-12-1967, quando da visita da "Caravana Cristã-Espírita da Guanabara" ao médium, sob a responsabilidade de Geraldo de Aquino - e integrada também por Floriano Moinho Péres, Presidente da FEERJ -, estampado na edição de janeiro-1968 de "O Espírita Fluminense", sob o título "De Francisco Cândido Xavier ao Presidente da Federação Espírita Brasileira", é, neste sentido, bastante expressivo:

            (...) "Nós pedimos ao nosso Geraldo de Aquino levar ao querido companheiro e orientador, Dr. Wantuil de Freitas, o nosso respeitável e cada vez mais digno Presidente da nossa Federação Espírita Brasileira, a nossa palavra de agradecimento pelo muito que recebemos do seu coração e da sua inteligência da sua capacidade administrativa, do seu senso de orientação!
            "Durante quarenta anos o nosso Dr. Wantuil ele Freitas tem sido para mim um amigo e um mentor. Se é verdade que temos no Espírito de Emmanuel um amigo vigilante, um orientador no Mundo Espiritual, eu devo reconhecer de público tudo quanto devo a este nosso amigo valoroso e incansável, que, no silêncio e no sofrimento, tantas vezes incompreendido, tantas vezes na luta, tem sabido arrostar dificuldades enormes para conduzir o Navio dos nossos princípios no Brasil, durante estes anos todos de sua orientação na Federação Espírita Brasileira, com o valor e com a paciência que nós lhe reconhecemos.
            "Nós queremos dizer, diante deste Natal: - Dr. Wantuil, nosso querido amigo, Deus o abençoe, Deus o engrandeça! Que Jesus multiplique as suas forças, e que nós todos, em oração, possamos agradecer ao nosso Divino Mestre e Senhor tudo quanto devemos à presença do senhor no Brasil e no mundo! Nós queremos reconhecer isto! Muitas vezes, senão podemos reconhecer, é pela nossa imperfeição. Mas nós queremos que o senhor saiba que nós desejamos reconhecer isto, e Jesus há de nos ajudar para que reconheçamos isto, dando ao senhor a homenagem do nosso carinho, do nosso respeito e da nossa gratidão! A nossa alegria de hoje, em Uberaba, é uma alegria em que o senhor está dentro dela em todos os minutos. Em cada número dessas orações musicadas (porque nós estamos dentro de melodias que são verdadeiras orações), a sua presença está conosco, e nós dizemos: Dr. Wantuil, Deus o abençoe! O nosso Geraldo de Aqvino levará ao senhor e aos companheiros da Federação Espírita Brasileira a nossa mensagem de respeito, e de gratidão também. Louvado seja Deusl"

            Algum dia, naturalmente, os biógrafos do estimado médium mineiro oferecerão ao mundo a valiosa e interessante correspondência entre eles permutada, tão importante para a história do Espiritismo no Brasil, e há dois anos confiada, por Zêus Wantuil, ao nosso companheiro Francisco Thiesen, Presidente da FEB.

            Então, ver-se-á quão valioso foi o período da vida de Wantuil em suas relações sempre amistosas com Chico. Homem dotado de enorme perspicácia e clarividência
possuiu ele um como que dom premonitório, que muitas vezes o ajudou a prevenir problemas difíceis, situações angustiantes ou embaraçosas.

Wantuil parecia "Adivinho"

            Lembramo-nos de que, um dia, ele nos expusera pelo telefone certo fato que teria de encarar proximamente. Trocamos ideias e, modestamente, opinamos. Wantuil divergiu. Ao nosso ponto de vista opôs o seu. Pelo modo com que falava, dava a impressão de que o fato já se verificara e ele o via, como que numa tela, com as consequências respectivas, pois nos disse: "Não. Isso deve acontecer assim e assim, por isso e por aquilo." Depois, rematou: "Já sei o que vou fazer." E explicou-nos superficialmente a ação que iria desenvolver, com a prudência que nunca o abandonou. Desligou o telefone. Ficamos a pensar no caso e a desejar que ele fosse bem sucedido, no que não tínhamos, aliás, a menor dúvida.

            Passam-se os dias e chegou aquele, decisivo, em que deveria tomar a atitude que nos revelara. Os obstáculos não foram pequenos, mas ele os venceu, porque tudo foi "assim e assim", conforme sua previsão, "por isso e aquilo", etc., etc. Evidentemente, muitos fatos curiosos, da intimidade da Casa de Ismael, poderiam ser mencionados, e talvez o possam um dia, como evidência do que foi ele como homem espírita, a serviço da Casa-Máter.

Restaurava sua força na prece

            Sua força de vontade era algo de admirável também. Sabia o que queria e como devia querer. Eclodira o "caso Humberto de Campos", envolvendo a Federação Espírita Brasileira e Francisco Cândido Xavier. Foram dias e noites de intensa preocupação para todos nós, principalmente para Wantuil, que, como Presidente, suportava o peso de gigantesca responsabilidade. Como sempre fazia, recorreu à oração, porquanto tinha uma fé inabalável no poder do Alto. Sabia, porém, que todos temos compromissos espirituais a satisfazer, e que, a este respeito, a imparcialidade da Lei é inexorável. Se tivesse de carpir a dor de uma provação maior, decorrente do seu passado espiritual, estava pronto e resignado a receber fosse o que fosse. Entretanto, não desejou jamais que algo pudesse ferir, ao de leve, embora, a Federação Espírita Brasileira. Temia não por si, individualmente, mas pelo que pudesse afetar Francisco Cândido Xavier e a Casa de Ismael, de tradição pura e respeitável, amparada pela autoridade moral e intelectual de tantos vultos insignes que por ela passaram e que constituíram a base terrena, íntegra e sólida, do Espiritismo Cristão no Brasil.

            Sentia-se pequenino diante da enormidade da questão que, inopinadamente, desafiava a Casa-Máter.

            Na sua condição de médium, deve ter pensado como pensou Pedro Richard, certa vez, quando se manifestou no Grupo Ismael e ditou ao médium Celani palavras cheias de amor e incentivo, conforme se poderá ver pelo trecho que, a seguir, reproduzimos:

            "Compreendei todos vós que a Federação é árvore que o Pai plantou. (...) Porém, não perecerá. (...) É preciso lutar, lutar muito, para receber aqui o prêmio do sacrifício. É preciso confiar de verdade nas promessas de Jesus-Cristo, as quais se cumprem mediante a assistência dispensada a seus servos. Se reconheceis a vossa fraqueza, também haveis de reconhecer que acima de vós laboram os fortes, fortes pela virtude, fortes pelo saber."      .
           
            A verdade é que, pelas preces, revigorava o ânimo e tomava providências que contribuíssem para acautelar os respeitáveis direitos da Federação. Nós, fechados em nossa insignificância, como um tatu-bola quando acossado pelo perigo, nos fortalecíamos ao mirar a serenidade, ainda que aparente, de Wantuil de Freitas.

            Ele confiava na Justiça brasileira, porque a questão, como ficou provado posteriormente, apesar de delicada, teria de encontrar uma solução compatível com a Verdade. E esta é indivisível e una.

Humildade

            Num certo período da década de 60, Wantuil sentiu que sua saúde declinava. Supôs mesmo que não demoraria muito tempo na Terra. Redigiu suas últimas vontades, dentre as quais destacamos o seguinte trecho, que diz bem da sua humildade:

            " ... que todos fiquem sabendo que eu mesmo reconheço ter feito pouco em
beneficio da coletividade, mas também reconheço que dei tudo quanto me foi permitido pelas minhas fracas forças físicas, espirituais e intelectuais."

            Quanto nos sentimos nulos diante do homem dinâmico e empreendedor que foi Wantuil de Freitas!

            Sentimo-nos um inseto perdido na planície, em face de um conquistador de gigantesco alcantil, a contatar mais de perto com a saudação do Sol ardente e dominador! Sua passagem pela Federação galvanizou o Espiritismo brasileiro, tornando o Livro Espírita não uma aventura tímida, mas um cometimento audacioso e altruístico.

Instrumento da caridade espiritual

            Na tribuna da FEB, no grande salão do edifício da Avenida Passos, às terças-feiras, durante longos anos, dissertou Wantuil sobre o Evangelho. Certa noite, seus amigos, bem como todos os que frequentavam assiduamente a Casa, estranharam que ele se houvesse afastado do ponto em estudo, coisa que jamais fizera, porquanto era muito escrupuloso e rigoroso na observância das regras estabelecidas. Terminada a reunião, os amigos souberam que ele, médium intuitivo que era, fora obrigado a falar de assunto completamente diverso daquele sobre que vinha discorrendo. Logo após, compareceu à Secretaria um casal que, após meses de desespero, comparecera pela primeira vez àquela reunião. Viera dizer-lhe que ia sair feliz da Federação, consolado, resignado e cheio de esperança, em virtude daquilo que Wantuil dissera, como se estivesse falando especialmente para esse casal de ouvintes inesperados.

Cedo ainda para repousar...

            Doutra feita, em 1956, quis ele deixar a direção do "Grupo Ismael", sentindo-se cansado, e também porque julgou necessário ir preparando novos trabalhadores, a fim de que a FEB não fosse colhida de surpresa, no caso da sua súbita desencarnação. Os Guias, porém, e não somente os Guias, mas, também, antigos diretores da Instituição, já desencarnados, vieram apelar para que ele não passasse aquele posto a ninguém, pois a sua presença era ainda imprescindível.

A. Wantuil de Freitas - Um hino ao trabalho  - Parte 3 e final
por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Maio 1976

DE - Miragem que se tornou realidade

            Encontrava-se a Federação a braços com dificuldades enormes, inclusive deficiência de recursos financeiros, retardando a reedição de livros doutrinários, quase todos esgotados, e a publicação de novas obras, sem que se encontrasse meio de solucionar o impasse.

            Os livros e o "Reformador" eram, então, compostos e impressos também em oficinas de terceiros, por vezes apresentados com falhas gráficas, atrasos e custos excessivos. Os problemas continuaram, pois a oficina do "Reformador", montada em 1939, e que se não confunde com aquela que fora construída na própria residência de Elias da Silva, não correspondia às necessidades impostas pela crescente procura de livros.

            Wantuil levou dias a meditar sobre o assunto. Aquilo não podia continuar assim, dizia. Era preciso achar maneira positiva de vencer os obstáculos, mesmo à custa de ingentes sacrifícios. Pensou maduramente, e levou à Diretoria o gigantesco plano de criação do Departamento Editorial (DE), em local em que as leis municipais lhe permitissem todo o desenvolvimento que se fizesse necessário. E, assim, foi o DE criado em São Cristóvão, a 1.800 metros da Avenida Presidente Vargas, apesar de o considerarem "louco".

            Para a aprovação de seu plano, porém, Wantuil teve de lutar contra as trevas. De nada valeram as provas de capacidade, dinamismo, coerência, abnegação, seriedade e firmeza que dera até então. Passou a defrontar má vontade e pessimismo, restrições e até ataques pessoais, pois chegou a ser caluniado. Alguns elementos da Diretoria opuseram-lhe fortes objeções: "Donde tirar os recursos monetários, se a Federação não possuía em Caixa senão modesta e insignificante quantia destinada a pagamento de suas despesas mensais? Como se entregar a empreendimento de tamanho vulto se havia dívidas a saldar em prazo fatal?"

            Wantuil deveria demonstrar, mais uma vez, que não era apenas um grande e inspirado idealizador, um sonhador, como supunham, mas também um destemeroso e eficiente realizador. Seu espírito prático evidenciava-se a todo momento, deixando aparecer o homem metódico, pertinaz e objetivo que era. Fez alto donativo à Federação e, pelo "Reformador", apelou para que auxiliassem a FEB. A quantia conseguida em todo o Brasil, no entanto, não fora além de um décimo da imprescindível para dar o passo inicial do plano traçado. Não tardou, porém, que encontrasse uma solução salvadora para superar essa nova dificuldade. Foi para casa e reuniu a dedicada mulher e os filhos esclarecidos, expôs-lhes a gravíssima conjuntura em que se encontrava a Casa de Ismael e a necessidade de uma solução que a libertasse da dependência prejudicial à causa do Espiritismo, pela escassez de meios para aumentar a produção de livros doutrinários e evangélicos.

            Ficou radiante, quando todos, espontaneamente, aprovaram a ideia que apresentara, revelando admirável compreensão. Imediatamente, pôs à disposição da Federação Espírita Brasileira a importância que fosse precisa, sem documento algum e sem juros nem prazo, para a execução do plano estabelecido, importância para ser paga, se fosse possível, pela devedora. Wantuil conseguiu, ainda, a ajuda financeira de Frederico Figner e Manoel Jorge Gaio. Ergueu-se a obra, ele à frente, alheio às cassandras agourentas, e, dentro de poucos anos, a Casa de Ismael levantava os primeiros marcos do Departamento Editorial. Nada mais devia, e estava com as suas edições em dia.

            Allan Kardec e outros autores espíritas foram lançados em inúmeros países da Europa e de todos os demais continentes, através da língua internacional - o Esperanto. Longo seria este resumo - que então deixaria de sê-lo - se fôssemos citar todos os sacrifícios e todas as preocupações que ele teve de arrostar, além dos murmúrios e dos cochichos dos descontentes, daqueles que pouco ou nada fazem, mas são exigentes e severos nas críticas, mesmo injustificadas. Não tinha horas suficientes para o trabalho que reclamava sua atenção. Época houve em que seu estado de saúde se tornara tão precário, devido a esgotamento físico e mental, que, sobre uns tijolos, os empregados colocaram algumas tábuas, dessas que acompanham os fardos de papel, para que pudesse o benemérito Presidente repousar um pouco. E quantas vezes Wantuil foi conduzido para aquela dura e improvisada cama, quase em estado de síncope, por excesso de trabalho...

                                                           O bem sempre triunfa

            Ainda nos lembramos de certo período de agitação. Havia grupos que permanentemente o hostilizavam e, assim, iam para as reuniões pessoas industriadas para desfechar-lhe golpes, recusando sistematicamente suas propostas e sugestões, contrariando-o em todos os pontos, por qualquer motivo, e buscando influenciar a votação, quando chegada a hora de uma decisão definitiva.

            Numa tarde, elementos de um dos grupos romperam fogo contra ele, em plena reunião. Outros, estimulados, reforçaram o ataque a uma proposição que deveria ser aprovada. Estabeleceu-se um princípio de tumulto. Sereno, Wantuil restabeleceu a ordem, pedindo aos presentes que defendessem como quisessem seus pontos de vista, sem, contudo, se esquecerem dos princípios da Doutrina. Os ânimos serenaram. Em meio ao impasse surgido, foi proposta a votação, que era o que desejavam os que lhe estavam fazendo oposição, pois o momento parecia favorável aos desígnios dos turbulentos.

            Nós, confessamo-lo, estávamos desencantados. Wantuil, os cotovelos sobre a mesa e o rosto oculto pelas mãos em concha, parecia vencido. Mas, estava em prece. Iniciada a votação, tivemos a impressão de que os opositores venceriam por larga margem de votos, porque cabalaram, buscando convencer, sugestionar, pressionar outros representantes. Os votos começaram a pingar na urna, Wantuil continuava calado, muito sério, compenetrado, orando. Termina a votação. Vencera a Federação Espírita Brasileira, com um único voto contra!           -

            Como pudera ser isso? É que, tal como disse Hamlet, "há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que julga a vossa filosofia" (There are more things in heaven and earth, Horatio, / Than are dreamt of in your philosophy).

Dois amigos novamente juntos

            Wantuil de Freitas foi grande amigo de Guillon Ribeiro, cujo caráter puro enaltecia sempre, reconhecendo-lhe as nobres virtudes e a sólida cultura, considerando-o mesmo seu "pai espiritual". Essa veneração, que todos quantos conheceram Guillon Ribeiro sabem ser justificada, era correspondida, porquanto este também muito o admirava, quer pela operosidade e escrúpulo, como pela lealdade e firmeza. Isso durou sempre.

            Wantuil gozou da absoluta confiança de Guillon, que, em seus últimos anos de permanência na Terra, nada publicava sem ouvir a opinião do amigo dileto, pois lhe apreciava a franqueza e isenção de ânimo. Entre eles havia grande diferença de idade: vinte anos. Eram, possivelmente, Espíritos já irmanados desde pregressas existências, reunidos na Casa de Ismael para servir à causa do Espiritismo. Como se entenderam! Guillon Ribeiro parece haver pressentido estar Wantuil de Freitas destinado a substituí-lo, porque ninguém se lhe revelava, mais do que este, com tantas qualidades naturais para o árduo cargo de Presidente.

            A convivência com Guillon Ribeiro foi-lhe muitíssimo útil, pois lhe permitiu assimilar tudo quanto poderia ser indispensável numa função, como essa, de alta responsabilidade, na Casa-Máter. Hoje, ambos se acham novamente unidos na Espiritualidade, trabalhando com o mesmo entusiasmo, a mesma alegria e a mesma eficiência pela causa cristã-espírita, de que é expoente a Federação Espírita Brasileira, instituição que, como dirigentes terrenos, tanto amaram e serviram, e que, agora, libertos das restrições carnais, continuam a servir com o mesmo acendrado carinho.

A netinha Arnete

            Embora a aparência de homem frio, desligado de certas emoções terrenas, Wantuil era um amoroso, no bom sentido da palavra. Nunca foi piegas, mas foi terno, sem, no entanto, misturar ternura com fraqueza. Sua discrição era, aliás, conhecida. Guardava no_ imo do peito as emoções mais íntimas, evitando resvalar na vaidade ou no personalismo. Daí o pensarem alguns ter sido ele indiferente aos sentimentos de afeto. Homem de pensamento, que vibrava, emocionado, com a só leitura do Evangelho, não poderia jamais ser alheio às emoções que valorizam o sentimento humano. Por isso, só depois do seu retorno ao lar espiritual é que muita coisa curiosa a respeito da dinâmica e proveitosa vida terrena vem sendo conhecida. Sua maneira de ser não sugeria grandes rasgos de ternura a quem o conhecesse superficialmente, mas, repetimos, não era um homem glacial. Hoje, as qualidades que o tornaram tão útil emergem para comprovar exuberantemente que foi autêntico servo do Cristo, com reservas de ternura como forças potenciais.

            Em dezembro de 1962 escreveu o soneto, até hoje inédito, que abaixo transcrevemos, dedicado à netinha Arnete, então com 10 anos:

                        De nada valerá a vida aqui no mundo,
                        Tomando novo corpo entre os que eram teus,
                        Se contigo não vem um desejo profundo
                        De muito amar o próximo e sobretudo a Deus.

                        Efêmeras serão as glórias desta vida,
                        Se apenas sociais, se apenas cá da Terra.
                        A vitória real só será conseguida
                        Se cumprimos a Lei que o Sinai nos descerra.

                        Lutando contra o Mal, na certa vencerás
                        A prova derradeira a que fizeste jus,
                        Na conquista do Bem, na conquista da Paz,
                       
                        Sentindo mais suave a dor de tua cruz.
                        E a vitória final, a glória tê-Ia-ás,
                        Quando fores tão boa, como te quer Jesus!
                        Teu Vovô Wantuil.

            Analisem rigorosamente cada estrofe deste belo soneto. Nele encontramos o encanto da lição doutrinária, que resplende, soberba, da Regra Áurea, firmada por Jesus. É o amor à neta espelhando reflexo do amor ao Cristo. É o amor ao Cristo fazendo viver a meiga advertência evangélica, de que de nada valerá sua reencarnação se não houver trazido consigo o amor a Deus e a vontade de observar a Lei que pode fazer todos os homens felizes, porque sempre colhemos o que plantamos. É o senso estético dos versos alcandorados nas grimpas celestiais do Evangelho, a projetar a Luz do amor à humanidade, aura sublime do Cristo de Deus, através do alerta ao Espírito que inicia nova trajetória terrena!

            Como poderia Wantuil, sendo poeta tão afetivo, possuir coração frio?

Homenagem poética de um Espírito

            Nesse mesmo ano de 1962, novas manifestações do Alto ocorreram. No dia 17 de dezembro, o médium Porto Carreiro Neto, de quem guardamos a mais terna lembrança, recebeu psicograficamente o seguinte soneto de Damasceno de Aguiar, Espírito de suave estro, a. ele dedicado e também nunca publicado:

                                                                       Cobre

                                                                                              (Ao irmão Wantuil)

                        Fui matéria de verde-azul vestida,
                        No lodo, eu mesmo lama repelente;
                        Mineiros me arrancaram da jazida
                        Para o bem, para o mal - que sabe a gente?

                        Fui bronze no canhão de amor ausente,
                        Ceifando vidas, sem plantar a vida...
                        Depois, no sino, quérulo ou ridente,
                        Rezando no ar uma oração sentida... 

                        Afinal fui eu mesmo, cobre vivo,
                        Expurguei-me das culpas, redivivo,
                        Ligando terras na Fraternidade!
                       
                        E destarte marchando, passo a passo,
                        Minhalma vibra no Divino Espaço,
                        Vivendo alegre para a Humanidade!

            A margem do original, a mesma anotação de punho próprio: "Nunca foi publicado, nem no "Reformador". W."

Reconhecimento público

            Muito há ainda a se recolher a respeito de Wantuil de Freitas. Até aqui mencionamos alguns elementos obtidos aqui e ali, ou de uns pouquíssimos papéis por ele deixados. O de que se pode ter plena certeza é que ele não foi como aquela personagem do poeta, que "passou pela vida em branca nuvem". Ele, pelo contrário, deu muito de si mesmo, mas, como tem acontecido com outros grandes vultos do Espiritismo Cristão, não se preocupou com a "sua história". Esses homens geralmente não deixam os elementos essenciais para uma biografia, mesmo modesta. Pensam mais nos deveres assumidos com Jesus. O trabalho na Terra é tarefa importante, sem dúvida, porque determinada pelo Alto, no exercício da qual somos, por vezes, meros executores de encargos antes recebidos.

            Para não se supor estejamos nós exaltando, incensando a personalidade desse companheiro valoroso, reproduzimos, a seguir, um trecho da mensagem de Bezerra de Menezes, captada mediunicamente pela médium Maria Cecília Paiva, na reunião pública de 12 de abril de 1974, na sede da FEB, data imediata à da desencarnação de Antônio Wantuil de Freitas, e publicada nesta revista, na íntegra, na edição de abril do ano citado, sob o título "A chegada do justo":

            "Não estamos fazendo aqui os elogios desnecessários, mas escrevendo uma página "post mortem" para os que ficam na labuta do mundo. O exemplo de trabalho e perseverança, paciência e tolerância, humildade e amor, de nosso confrade, é digno de ser imitado por quantos seguem as pegadas do Mestre e desejam transformar os corações em focos de luz para o terceiro milênio. Saudamos com intenso júbilo a chegada de nosso irmão no plano mais alto e desejamos àqueles que o substituem nas lides terrestres a mesma perseverança e fé nos trabalhos de Ismael."

            Embora ainda seja cedo para se lhe fazer completa justiça, principalmente da parte daqueles que dele possam ter tido distorcida imagem, fato é que sua atuação ultrapassou nossas fronteiras, e seu nome foi mencionado com respeitosas referências. Como comprovação do que dizemos, basta a homenagem que lhe foi prestada pelos espíritas norte-americanos, em 1948, por ocasião do centenário do famoso episódio de Hydesville, vilarejo do Estado de Nova York, situado a cerca de vinte milhas da então nascente cidade de Rochester. Esse notável fato histórico foi devido à mediunidade de duas jovens criaturinhas - Margaret, de 14 anos, e Kate, de 11 - de uma honesta família de fazendeiros, a família Fox.

            Pode dizer-se que o Espiritismo (ou o Espiritualismo Moderno, como, desde então, passaram os povos de língua inglesa a denominar o acontecimento da descoberta do relacionamento do mundo físico com o mundo espiritual) nasceu aí, desde que, a 31 de março de 1848, foram percebidos os ruídos de arranhadura, provocados por um Espírito, aflito por se comunicar com alguém da Terra que pudesse compreender a magnitude das revelações que desejava fazer. Chamava-se, conforme disse, Charles B. Rosma.

            Vamos passar a palavra à senhora Fox, mãe de Margaret e Kate, reproduzindo trechos do depoimento por ela prestado naquela época, colhido em "História do Espiritismo", de Sir Arthur Conan Doyle:

            "Na noite da primeira perturbação, todos nos levantamos, acendemos uma vela e procuramos pela casa inteira, enquanto o barulho continuava e era ouvido quase que no mesmo lugar. Conquanto não muito alto, produzia um certo movimento nas camas e cadeiras, a ponto de notarmos quando deitadas. (...) Na noite de sexta-feira, 31 de março de 1848, resolvemos ir para a cama um pouco mais cedo e não nos deixamos perturbar pelos barulhos: íamos ter uma noite de repouso. Meu marido aqui estava em todas as ocasiões, ouviu os ruídos e ajudou a pesquisa. (...)
            Minha filha menor, Kate, disse, batendo palmas: "Sr. Pé Rachado, faça o que eu faço." Imediatamente seguiu-se o som, com o mesmo número de palmas. Quando ela parou, o som logo parou. Então Margaret disse, brincando: "Agora faça exatamente como eu. Conte um, dois, três, quatro" e bateu palmas. Então os ruídos se produziram como antes. Ela teve medo de repetir o ensaio. Então Kate disse, na sua simplicidade infantil: "Oh, mamãe! eu já sei o que é. Amanhã é primeiro de abril e alguém quer nos pregar uma mentira."
            Então pensei em fazer um teste que ninguém seria capaz de responder. Pedi que fossem indicadas as idades de meus filhos sucessivamente. lnstantaneamente foi dada a exata idade de cada um, fazendo uma pausa de um para o outro, a fim de os separar até o sétimo, depois do que se fez uma pausa maior e três batidas mais fortes foram dadas, correspondendo à idade do menor, que havia morrido.

            Perguntei então: "é um ser humano que me responde tão corretamente?" Não houve resposta. Perguntei: "É um Espírito?" Se for dê duas batidas." Duas batidas foram ouvidas assim que fiz o pedido. Então eu disse: "Se foi um Espírito assassinado dê duas batidas." Estas foram dadas instantaneamente, produzindo um tremor na casa. Perguntei: "Foi assassinado nesta casa?" A resposta foi como a precedente. "A pessoa que o assassinou ainda vive?" Resposta idêntica, por duas batidas. Pelo mesmo processo verifiquei que fora um homem que o assassinara nesta casa e os seus despojos enterrados na adega; que a sua família era constituída de esposa e cinco filhos, dois rapazes e três meninas, todos vivos ao tempo de sua morte, mas que depois a esposa morrera. Então perguntei: "Continuará a bater se chamar os vizinhos para que também escutem?" A resposta afirmativa foi alta.

            Meu marido foi chamar Mrs. Redfield, nossa vizinha mais próxima. (...) Então Mrs. Redfield chamou Mr. Duesler e a esposa e várias outras pessoas. (...) Mr. Duesler fez muitas perguntas e obteve as respostas. ( ... ) Pelo mesmo processo das batidas Mr. Duesler verificou que ele tinha sido assassinado no quarto de leste, há cinco anos e que o assassínio fora cometido à meia-noite de uma terça-feira, por Mr....; que fora morto com um golpe de faca de açougueiro na garganta; que o corpo tinha sido levado para a adega: que só na noite seguinte é que havia sido enterrado; tinha passado pela despensa, descido a escada e enterrado a dez pés abaixo do solo. Também foi constatado que o móvel fora o dinheiro.

            "Qual a quantia: cem dólares?" Nenhuma resposta. "Duzentos? Trezentos?" etc. Quando mencionou quinhentos dólares as batidas confirmaram. (...) Na noite de sábado,1º de abril, começaram a cavar na adega; cavaram até dar n’água; então pararam. Os sons não foram ouvidos nem na tarde nem na noite -de domingo. (...) Nada mais ouvi desde então até ontem. Antes de meio-dia, ontem, várias perguntas foram respondidas da maneira usual. Hoje ouvi os sons várias vezes.
            Não acredito em casas assombradas nem em aparições sobrenaturais. Lamento que tenha havido tanta curiosidade neste caso. Isto nos causou muitos aborrecimentos. (...) Garanto que o depoimento acima me foi lido e que é a verdade; e que, se fosse necessário, prestaria juramento de que é verdadeiro."

                                                                                              (a) Margaret Fox."

            Desculpem-me a extensão dos trechos transcritos. Foi o mínimo possível para que aqueles que desconhecem o famoso acontecimento pudessem dele ter uma idéia razoável. Pois bem, a Federação de Templos e Sociedades Espíritas (Federation of Spiritual Churches and Associations, Inc.) e a Comissão incumbida de celebrar o Centenário do Espiritualismo Moderno (Espiritismo) - (World Centennial Celebration of Modern Spiritualism), a primeira, por seu Presidente, Rev. V. R. Cummins, e a segunda, por seu Secretário, Rev. HeIene Gesling, assinaram o Certificado de Serviço conferido a A. Wantuil de Freitas, certificado esse que contém os seguintes dizeres:


Comemoração Mundial do Centenário
1848   do Moderno Espiritualismo   1948

Declaramos pelo presente que a A. Wantuil de Freitas, Rio de Janeiro, Brasil, por haver prestado valiosos serviços para o sucesso material e a glória espiritual da Comemoração Mundial do Centenário do Espiritualismo Moderno, é concedido este

Certificado de Serviço

como reconhecimento oficial e gratidão por esse motivo.

E como testemunho e aprovação disto é aposto o selo da Federação de Templos
e Sociedades Espíritas, no primeiro dia de setembro do ano de mil novecentos
e quarenta e oito, em Hydesville, no Condado de Wayne,
Estado de New York, Estados Unidos da América.

Federação de Templos e Sociedades Espíritas

Rev. V. R. Cummins, Presidente

                        Comemoração Mundial do Centenário do Moderno Espiritualismo

Rev. Helene Gesling, Secretária


            Ao lado direito, parte inferior do Certificado, um selo dourado, picotado em toda a sua circunferência, com os seguintes dizeres em relevo: "Federação de Templos e Sociedades Espíritas, Inc.", tendo, no centro, as iniciais dessa instituição: F S C.

Homenagem póstuma

            Deixamos propositadamente para encerrar este trabalho o seguinte soneto, que bem exprime, em relação ao querido amigo Wantuil, hoje liberto da prisão carnal, o sentimento de todos nós. Que, já agora, possa ser ainda mais útil colaborador da obra de Jesus, "nos altos páramos da mansão celeste":

Regresso

Antônio Wantuil âe Freitas foi-se embora:
Regressou redimido à Pátria Bela e Santa...
Vendo-o subir assim triunfante a gente canta,
Mas de tão distante sabe-lo a gente chora.

Descansa o lidador na deslumbrante aurora
Que as forças retempera e os ânimos levanta;
Mas logo torna à liça em. que tanto se encanta,
Pelo Reino do Bem que o mundo ansioso exora.

O servo do Senhor não cruza os braços nunca,
Enquanto o mal feraz afiar a garra adunca,
Envenenando os corações de angústia e dor.

Vamos de novo juntos - Deus seja louvado!
Agora no presente, como no passado,
Na porfia divina da extensão do Amor!


Hernani T. Sant’Anna

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