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quarta-feira, 24 de junho de 2015

O Medo da Morte

             Conta Eugène Muller, em Curiosités historiques et littéraires, que certa vez a padre Bridaine, após pregar longo sermão sobre a brevidade da vida, anunciou ao povo que lhe seguia os passos numa procissão :

            - Meus irmãos, agora vou levá-los às suas casas.

            E, sem mais explicação, conduziu os fiéis ao cemitério.

            Estou por dizer que esse sacerdote, como o Papa Alexandre VI, era ateu. Melhor teria
feita ele se elucidasse as seus paroquianos sobre a eternidade da vida, a exemplo dos sacerdotes de Ísis, que chamavam casas dos vivos às necrópoles, por considerarem a morte uma ressurreição, verdadeira metamorfose no itinerário da vida humana.

            Segundo alguns ocultistas, a embalsamamento era praticado na Egito para guardar os Espíritos dos mortos, permitindo mais facilmente sua evocação e sua ajuda nas rituais da magia.

            Reza a tradição que os judeus do tempo do Cristo não saíam à noite por causa dos assaltantes, e também dos maus Espíritos. Confúcio já afirmava que os Espíritos estão em toda parte e em volta de nós.

            A ideia da sobrevivência da alma era ponto pacífico nas diferentes civilizações antigas, e sobre isto existem provas históricas, até mesmo em documentes arqueológicos vindos ultimamente à luz da publicidade. Como se vê, o Espiritismo figura nas tradições escritas e orais da antiguidade. Kardec sabia tudo isso, e creio que não seria lá muito fácil ensinar Espiritismo a Kardec.

            A vida de Stuart Mill, a célebre filósofo inglês, regista comovente episódio . Quando. lhe morreu a esposa, a quem amava com delírio, comprou ele uma granja solitária, vizinha da cemitério, e dali contemplava diariamente, para cima das árvores, a branca sepultura da amada. No entanto, como diz Maeterlinck, “não é nos cemitérios, e sim no espaço, na luz e na vida que devemos procurar nossos mortos”. E para  tornar a vê-los (salvo nos casos de vidência e materialização) teremos que transpor aquela porta que só se abre uma vez em cada existência. Se, para entrar no mundo dos mortos que vivem, é preciso sair do mundo dos vivos que morrem, não devemos jamais forçar essa porta. Do contrário, bem sabemos o que espera aos que a atravessam sem serem chamados.

            Ninguém ignora que o medo da morte, melhor diria, o pavor da morte, é um fenômeno epidêmico da condição humana. Não tanto pela morte em si, mas pela morte particular de cada um e de seus íntimos. Porque, em geral, a morte das pessoas estranhas não nos causa estranheza. Para livrar-nos desta fúnebre obsessão, não é necessário proceder como aqueles frades de um convento medieval, que quando passavam uns pelos outros diziam, invariavelmente, com voz soturna:

            - Irmão! Lembra-te de que hás de morrer um dia!

            Para alguém afastar o espantalho da morte, basta convencer-se de que é imortal. Nada mais imortal que a morte. A personalidade do homem sofre, necessariamente, substancial transformação quando ele perde o medo da morte e entra em preparativos para receber-lhe a visita a qualquer momento.

            “Feliz daquele que tem sempre presente a hora da morte e cada dia se prepara para morrer” , reza a Imitação de Cristo.

            E já dizia Heráclito: “Quando vivemos a nossa vida atual, a alma está morta e enterrada no corpo; mas quando morremos é o contrário: a alma renasce para a vida real.” Também cito a propósito - e de propósito - esta frase com que Carl du Prel define a palingenesia: “O nascimento e a morte não são antagônicos, pois cada nascimento é uma morte relativa, e cada morte um nascimento relativo.”

            Nunca é demais lembrar que nós morremos todas as noites, pois o homem dorme a terça parte de sua vida. Não chega esse treinamento para a gente se acostumar com a transferência compulsória para o mundo espiritual?

            Quanto a mim, ciente e consciente desta verdade, aguardo, com o decreto da Providência, a laboriosa aposentadoria da morte, que traz a insônia do Espírito. E certo de que, na jurisprudência divina, a morte é o habeas-corpus  da alma.

O Medo da Morte
por Alberto Romero
Reformador (FEB) Setembro 1970


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