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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Instrução e Educação


            É preciso não confundir instrução com educação. A educação abrange a instrução,
mas pode haver instrução desacompanhada de educação.

            A instrução relaciona-se com o intelecto; a educação com o caráter. Instruir é ilustrar a mente com certa soma de conhecimentos sobre um ou vários ramos científicos. Educar é desenvolver os poderes do espírito, não só na aquisição do saber, porém especialmente na formação e consolidação do caráter.

            O intelectualismo não supre o cultivo dos sentimentos. “Não basta ter coração, é preciso ter bom coração", disse Hilário Ribeiro, o educador emérito cuja extraordinária competência pedagógica estava na altura da modéstia e da simplicidade que exornavam seu formoso espírito.

            Razão e coração devem marchar unidos na obra do aperfeiçoamento do espírito, pois em tal importa o senso da vida. Descurar a aprendizagem da virtude deixando-se levar pelos deslumbramentos da inteligência é erro de funestas consequências.

           
Sobre este assunto, não há muito, o presidente dos Estados Unidos da América do Norte citou ,um julgado da Suprema Corte de Justiça de Massassuchets, no qual, entre outros princípios de grande importância, se enunciou o de que “o poder intelectual só e a formação científica sem integridade de caráter podem ser mais prejudiciais que a ignorância. A inteligência, superiormente instruída, aliada ao desprezo das virtudes fundamentais constitui uma ameaça".

            Convém acentuar aqui que a consciência religiosa corresponde, neste particular, ao fator principal na formação dos caracteres. Já de propósito usamos a expressão - consciência religiosa - ao invés de religião para que se não confundam ideias distintas entre si. Religiões há muitas mas a consciência religiosa é uma só. Por tal designação entendemos o império interior da moral pura, universal e imutável conforme foi ensinada e exemplificada por Jesus Cristo. A consciência religiosa importa em um modo de ser, e não em um modo de crer.

            É possível que nos objetem: mas, a moral cristã é tão velha, e nada tem produzido de eficiente na reforma dos costumes. Retrucaremos: não pode ser velho aquilo que não foi usado. A moral cristã é em sua pureza e em sua essência, desconhecida da humanidade. Sua atuação ainda não se fez sentir ostensivamente. O que as religiões tem espalhado como sendo o Cristianismo é a sua contrafação. Da sanção dessa moral é que está dependendo a felicidade humana sob todos os aspectos.

            O intelectualismo, repetimos, não resolve os grandes problemas sociais que estão convulsionando o mundo. O fracasso da Liga das Nações é um exemplo frisante; e, como esse, muitos outros estão patentes para os que tem olhos de ver.

            O que veio fazer no mundo a Sabedoria divina encarnada em Jesus-Cristo? pergunta o grande Vieira. Em seguida responde magistralmente: “A Sabedoria divina, descendo do céu à Terra a ser Mestre dos homens, a nova cadeira que instituiu nesta grande universidade do mundo e a ciência que professou foi só ensinar a ser bom e nenhuma outra. A retórica deixou-a aos Túlios e aos Demóstenes; a filosofia aos Platões e aos Aristóteles; as matemáticas aos Ptolomeus e aos Euclides; a medicina, aos Apolos e aos Esculápios; a jurisprudência, aos Solões e aos Licurgos; e para si tomou só a ciência de formar caracteres impolutos e corações amoráveis.


            "Em todas as ciências é certo que há muitos erros dos quais nasce a diferença de opiniões; em todas as ciências há muitas ignorâncias, as quais confessam todos os maiores letrados que não compreendem nem alcançam. Pois se veio a Sabedoria divina ao mundo, por que não alumiou estes erros, por que não tirou estas ignorâncias? Porque errar ou acertar em todas as matérias, sabê-las ou não as saber, pouca coisa importa; o que só importa é saber salvar, o que só importa é acertar a ser bom: e isto é o que nos veio ensinar o Filho de Deus. Nem ensinou aos filósofos a composição dos contínuos nem aos geômetras a quadratura do círculo, nem aos mareantes a altura de leste a oeste, nem aos químicos o descobrimento da pedra filosofal, nem aos médicos as virtudes das ervas, das plantas e dos mesmos elementos; nem aos astrólogos e astrônomos o curso, a grandeza,  o número e as influências dos astros: só nos ensinou a ser humildes, só nos ensinou a ser castos, só nos ensinou a fugir da avareza, só nos ensinou a perdoar as injúrias, só nos ensinou a sofrer perseguições pela causa da justiça, só nos ensinou a chorar e aborrecer o pecado e armar e exercitar a virtude; porque estas são as regras e as conclusões, estes os preceitos e os teoremas por onde se aprende a ser bom, a ser justo, que é a ciência que professou e veio ensinar o Filho de Deus."

            É de semelhante espécie de ensino que precisam os homens de nossos dias. Todos os problemas do momento atual resumem-se em uma questão de caráter: só pela educação podem ser solucionados.

            Demasiada importância se liga às várias modalidades do saber, descurando-se o principal, que é a ciência do bem.

            Os pais geralmente preocupam-se com a carreira que os filhos deverão seguir,
deixando-se impressionar pelo brilho e pelo resultado utilitário que de tais carreiras possam advir. No entanto, deixam de atentar para a questão fundamental da vida que se resolve em criar e consolidar o caráter. Antes de tudo, e acima de tudo os pais devem curar da educação moral dos filhos, relegando às inclinações e vocações de cada um a escolha da profissão, como acessório.

            É oportuno fechar estes comentos recordando as sábias palavras que Jesus dirigiu à Marta: “Marta, Marta, estás muito ansiosa e te preocupas com muitas coisas; entretanto poucas são necessárias, ou antes uma só; pois Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada."

(Ext. do "Reformador" de 10-12-1927, páginas 227-228-229.)


Instrução e Educação
Vinicius

Reformador (FEB) Setembro 1972

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