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terça-feira, 2 de junho de 2015

A Escolha das Provações

                No tempo em que os livros escolares destinados à infância eram cheios de bons ensinamentos e conselhos instrutivos, li uma lição onde se contava que experiente e velha mosca, necessitando ausentar-se de casa, chamou a filhinha, ingênua e tenra, e assim lhe falou: “Minha filha, até que eu volte, não te afastes daqui; poderias correr graves perigos, sem que tivesses quem te acudisse. Sê obediente a esta ordem, minha filha, porque os conselhos das mães nos poupam de muitos sofrimentos e faTais enganos”.

            Mas, tão logo a precavida mosca se ausentou, a mosquinha começou a rir-se, dizendo:  “Meu Deus, quão rabugentas são as velhas e quanto gostam as mães de privar os filhos dos divertimentos e passeios! Ora, perigos! Então eu não sei voar? Sou alguma tola, que se deixa, colher por qualquer?”

            E começou a voar. Como era esplêndido! Quantas coisas novas e belas!

            E foi voando, e foi voando, até chegar a um grande pátio, onde julgou ver linda nuvem, muito branca, movendo-se para o alto e sumindo-se em seguida. E pensou: Oh! uma nuvem, e eu que tinha tanta vontade de vê-las! E a rabugenta da mamãe, enganando-me, a dizer que as nuvens estão no céu e as moscas não podem subir tão alto para contemplá-las melhor!..  Ah! velhas rabugentas! ...

            E voou mais rápido, para chegar depressa. Mas, não era nuvem, ou, antes, era uma nuvem de vapor, desprendendo-se de um tacho com água a ferver. E a mosquinha, que não conhecia o perigo e dele não aprendera ainda a defender-se, viu-se envolvida pelo vapor fervente, sufocada e desaparecida na voragem da morte.

            No derradeiro instante, reconhecendo o erro, seu pensamento correu célere em busca da mãe querida, à qual quisera então dizer: Oh! minha mãezinha, perdoa à tua ingrata e louca filha a dor que te causa. Insensata, porque não ouvi, porque desprezei os teus conselhos, mãe?

            Assim são aqueles que fecham os ouvidos aos ensinamentos do Evangelho. À semelhança do carinho materno, a Doutrina Espírita mostra aos orgulhosos e inexperientes entes humanos os perigos da existência que não se norteia pelo espírito e verdade das leis de Deus, apontando o da nuvem traiçoeira e mortífera, vapor que sufoca e queima e mata; apresentando os fatos espíritas de todos os dias, aos olhos da Humanidade inteira; indicando que é tempo de tomarmos os novos rumos que nos são traçados pelos Espíritos amigos, e de fugirmos aos inevitáveis sofrimentos que aguardam os incautos gozadores, insensíveis à palavra e às lições que nos vêm do Alto.

            Mas, à semelhança da vaidosa moscazinha, nós nos rimos ou duvidamos da verdade dos conselhos salvadores e, supondo-nos abarrotados de poderes que não temos, vamos voando cegamente ao encontro da morte. Somente depois que o Espírito se desprende da carne, a nossa visão se aclara e se volta, cheia de pena e remorso, para as verdadeiras realidades da vida espiritual, e para aqui nos volvemos suplicando por uma prece que nos atenue os sofrimentos no Espaço e nos permita obter mais rapidamente o resgate das nossas culpas.

            Cegos, três vezes cegos, que não nos convencemos, apesar das lições de todos os dias, de quanto é caro o preço pelo qual compramos os prazeres efêmeros da vaidade, do orgulho, da inveja, das vinganças, das iras castigadoras, da indiferença pelos males e agruras do nosso próximo, desse próximo que o Cristo mandou amássemos com o socorro da nossa caridade, do nosso pão, da nossa palavra amiga.

            Foi também num desses livros para a infância, que hoje não se escrevem mais, em nossa triste época, que li uma filosófica comparação de Benjamim Franklin.

            Tinha o grande homem menos de dois lustros de idade quando, transitando pela rua, encontrou certo rapaz soprando num assobio. Encantado com aquele insignificante canudinho que produzia sons, aos seus ouvidos - inexcedíveis em beleza e harmonia - ele, que nunca tivera um assobio, ficou maravilhado e desejoso de possuir o mirífico instrumento. Correu a casa e, pegando em todo o dinheiro que possuía, dádiva dos pais e padrinhos, comprou ao anônimo o assobio, voltando radiante, mais contente decerto do que o rapazinho que recebera talvez o víntuplo do valor do tal canudinho sonoro.

            Porém, que desilusão, quando mostrou e disse aos pais a compra que realizara! Fizeram-no compreender o absurdo exagero do preço e quantos outros lindos brinquedos, flautinhas e assobios podia ter adquirido com o dinheiro que entregara afoitamente!..

            Daí em diante, por toda a sua vida de homem, sempre que encontrava uma vítima das enganosas aparências do mundo, um vencido pelos esbanjamentos, pelos vícios, pelas imprudências, pelas falsas galas que duram pouco e tanto custam - nada valendo, Benjamim Franklin dizia a si próprio, lembrando a inesquecível lição que recebera: Pobre irmão, pagaste bem caro o teu assobio!

            Assim somos, quando vamos descuidados pelos caminhos da vida. O primeiro prazer falaz, tosco e insignificante assobio, nos empolga e delicia e por ele entregamos todos os dinheiros, todos os tesouros recebidos de nossos pais, dos mestres, dos Guias. E só depois que a nossa desiludida sofreguidão compreende quantas coisas belas trocamos por uma que não valia nada, é que nos voltamos, chorosos e arrependidos , pedindo o remédio, às vezes impossível de encontrar, porque há coisas que, perdidas uma vez, não se podem readquirir nesta vida.

            À flor emurchecida podemos restituir o perfume artificial das essências fabricadas nos laboratórios; mas, o viço, a fragrância, a frescura da pétala, a aveludada cútis que a seiva do tronco empresta à flor, isso não se restitui, porque a vida em tudo vem de Deus e a Deus pertence dar, ou suprimir .

            Talvez porque o Espiritismo não se propõe a fazer desses milagres, é que muita gente não o aceita. Exigem, por exemplo, que transforme - num dia - o bandido em santo, ou então querem maravilhas, pompas, palavras tétricas, castigos horríveis, poços de enxofre fervente, cadáveres que não se decomponham e a cujo contato desapareçam mazelas e feridas, loucuras e paralisias, verrugas e capenguices.


            O Espiritismo não faz milagres. A sua doutrina é o Evangelho, em espírito e verdade. Ser espírita é cumprir os dez mandamentos da lei de Deus; é seguir o Cristo pelos caminhos que traçou com as palavras do sermão da montanha; é ser humilde e bom, mansueto e caritativo, resignado na fé e ardoroso no trabalho, sincero, leal, amigo da família, tolerante com os erros alheios, meigo na palavra, honesto nas ações.

            Ser espírita é abominar os vícios e amar as virtudes.

            Sem condenar as crenças de ninguém, o Espiritismo afirma e quer demonstrar que o único caminho para Deus é o Evangelho. Fora do Evangelho, não há verdade, não há salvação.

            Na terra, não há deuses que salvem, não há santos, não há milagres.

            Deus é um só e está nas Alturas; santos são aqueles que cumprem a lei do Senhor; milagres são as manifestações dos Espíritos, revelando-nos a outra vida ao termo da qual está a luz inextinguível, iluminando as derradeiras moradas do Pai.

            Aí estão as comunicações dos Espíritos. Eles nos dizem que, chegando ao Espaço e descortinando a verdade, medindo toda a extensão dos erros cometidos, o Espírito volta para resgatar - por vontade própria - os seus crimes e sofrer a depuração dos maus fluidos que lhe escurecem a alva pureza de que necessita, para remigiar mais alto e fruir as delícias dos outros mundos, onde se é mais perfeito, mais esclarecido e se está, por assim dizer, junto de Deus.

            Os que ainda não começaram esse trabalho de aperfeiçoamento, ou que ainda se acham mergulhados nas trevas da perturbação que se segue à desencarnação, quando o Espírito se liberta do corpo material - esses aqui vêm mostrar-nos, chorando ou blasfemando, a realidade da sobrevivência da alma, tranquila ou sofredora, conforme viveu, bem ou mal, dentro ou fora das leis divinas.

            Essa a principal razão dos fatos espíritas.

            As manifestações dos Espíritos não são espetáculos de proscênio, para que nos regalemos com acontecimentos sensacionais; não são exibições de prestidigitação, para provocar aplausos. São avisos para que cuidemos da nossa alma e nos façamos dignos das bênçãos de Deus, porque Deus nos deixa a escolha dos caminhos para chegarmos até Ele. Se os erramos, teremos de reconhecer o engano, ao chegarmos ao fim da enganosa estrada, e de recomeçar a viagem, sofrendo as fadigas do percurso, até trilharmos o chão bendito.

            Esta a verdade. Veja quem puder; acredite quem quiser.

            O Espiritismo diz apenas: Homem que vives engolfado nas coisas materiais, sem reparar que tens uma alma imortal, lembra-te de que és o operário da tua ventura ou da tua desgraça , Lembra-te de que, se fazes o mal a outrem, sofrerás na Terra a consequência desse mal; atenta, pois, em que, se encheres à tua consciência - que é o arquivo do Espírito - de iniquidades, sofrerás na outra vida as consequências dessas iniquidades.

            Porque duvidar? Porque tomar como fábulas, alucinações, truques, mentiras, os fatos abundantes, comprovados hoje até pelas placas das máquinas fotográficas?

            O Espiritismo não tem a prova material de alguns casos, é certo; mas, possui a palavra dos Espíritos, concordantes com as leis esboçadas em todos os ensinamentos dados posteriormente à vinda de Jesus-Cristo.

            Porque duvidar, por exemplo, de que Maria Antonieta, a rainha esposa de Luís XVI, de França, seja uma reencarnação de Salomé, a quem Herodes presenteou a cabeça decepada de João Batista?

            Quando a guilhotina da Revolução Francesa cortou a vida da rainha, não se estava cumprindo a lei de “quem com ferro fere, com ferro será ferido”?

            Não é perfeitamente lógico que a provação escolhida corresponde ao sofrimento humilhante, que é rolar de um trono para a ignomínia do cadafalso?

            E porque duvidar também de que essa mesma culpada, Maria Antonieta, é a meiga senhorita Smith, que o Dr. Flournoy, professor da Universidade de Genebra, estudou num livro e que a Sociedade Espírita Suíça aceita como sendo essa reencarnação?

            Não está de acordo com a lição dos Espiritos que as orgulhosas rainhas e princesas podem voltar à Terra, a fim de serem um dia burguesinhas encantadoras e amoráveis, para enlevo dos pais e consolo dos aflitos, a quem fizeram sofrer, e mais tarde socorrem com verdadeira e evangélica piedade?

            Não temos a lição, aqui mesmo, no Brasil, em Belém do Pará, da grande, da extraordinária médium Ana Prado, que morreu queimada, reencarnação de famoso inquisidor (1), que veio expiar corajosamente, abnegadamente sofrer esse terrível gênero de morte, que outrora fizera experimentar aos infelizes que, com o estigma de hereges, caíram nas garras do Tribunal da Santa Inquisição?

                (1) O Blog pergunta: Alguém teria a confirmação dessa informação por alguma outra fonte?

            Quem não sabe e não recorda o conhecido caso do menino indiano, de azulados olhos e loiro cabelo, totalmente diferente dos pais morenos, que, aos quatro anos de idade, disse ser a reencarnação do major inglês D. J. Welsh, que perecera afogado em Março de 1904 e cuja vida anterior e moradia descreveu, apesar de nunca ter visto o local onde existira e morrera aquele oficial, na reencarnação precedente?


            Os fatos são muitos, tantos que se tornaram banais, tão banais que os homens já se acostumaram e não os aproveitam nos profundos e admiráveis ensinos que encerram.

            Hoje, vemos criaturas extraordinárias, que nos merecem apenas uma complacente homenagem. Se tivessem vivido assim em outras épocas, seriam outros tantos santinhos, de que vou falar, iguais aos que certas ingênuas pessoas adoram, às vezes sem saber mesmo quem foi em vida aquele homem ou aquela mulher, impingidos como ouro de fino quilate nas virtudes e no progresso espiritual. Muitas vezes, vencidos pela bondade e abnegação de alguém, dizemos: “Aquela criatura é uma santa!” Profunda verdade, que não sabemos aproveitar, seguindo o exemplo de tal criatura, superior, não raro, a muito santo de 4ª ordem, diante do qual nos vamos ajoelhar ...

            Porque é preciso não esquecer que todos temos conhecido, em nosso trato quotidiano, algumas figuras humanas que nunca possuíram um vício, sempre praticaram a caridade, sofreram resignadas, tiveram e seguiram a verdadeira fé, foram, em suma, legitimas santas, e não mereceram senão meia dúzia de palavras de elogio, enquanto o esquecimento não veio apagar a sua da nossa memória. Outras, cujo verdadeiro nome nem ao certo sabemos qual foi, vivem diante dos nossos olhos, cheias de mimos, velas e rezinhas, quando, em verdade, feita uma justa comparação, rigorosa, não merecem a centésima parte de um pequeníssimo encômio, pois convém não esquecer que muitos dos chamados santos que estão nos altares das igrejas, antes de principiarem a esmurrar os peitos contritos e a derreter as banhas fartas, foram feiticeiros, bêbedos, jogadores, assassinos e ladrões. Há, em verdade, entre os chamados santos, muitas e luminosas figuras projetando luz para o futuro, mostrando, em toda a plenitude, a verdade da lei da reencarnação e o valor das provações, quando o Espírito é bem assistido e não fracassa na luta do corpo material, reagindo contra os terríveis padeceres que o EU espiritual escolheu para seu progresso, para sua evolução.

            Existiram essas figuras luminosas; mas não foram santas.

            O Espiritismo as explica na simplicidade das provações, dentro da lei da reencarnação, do progresso espiritual.

            Só assim podem ser compreendidas essas personagens. De outro modo, pareceriam loucos, pois sofrer, por livre e espontâneo alvedrio, sem uma causa, sem um motivo, sem uma razão, seria admitir que as provações terrenas são quase um esporte para alguns que as querem passar, bastando, para outros que não estejam dispostos a tomar tanto trabalho, agarrar-se a uma religião e comprar através dela a salvação, com rezas de encomenda, cerimônias, etc. Além disso, só a vontade deliberada, trazida do Alto, pode explicar a fortaleza de ânimo para suportar os rudes golpes de certas amarguras, pois não há dentro da contingência humana poder de vontade que nos faça sofrer - por simples engano - sem uma razão espiritual, certas injustiças e agruras morais terríveis, que poderíamos evitar, pronunciando apenas o nome do verdadeiro culpado, ou dizendo uem somos.

            Porque então sofrem certas criaturas os maiores tormentos, resignadas, sem uma queixa, quase alegres e felizes, dando graças ao Senhor por tantos martírios e tantas desventuras?

            É que aquela foi a provação escolhida. E quando a criatura se faz digna da ajuda de um bom Guia, não lhe faltam forças para vencer; se assim não for, fracassará, como se vê, a cada passo, em todos os aspectos da vida.


            Eis alguns exemplos tirados dos livros da Igreja católica apostólica romana, referentes a criaturas chamadas santas.

            Que as pessoas de boa fé examinem a interpretação que lhes dá o Espiritismo e vejam, à luz de um raciocínio desapaixonado, sincero, como devem ser encarados os fatos, as causas, as consequências. Meditem e vejam se foram santos ou Espíritos em provação.

            Santa Rosa de Lima, assim chamada por ser peruana, isto é, nascida em Lima, capital da República do Peru, veio ao mundo em 1586, tendo por pai Gaspar Flores. Seu nome de batismo foi Isabel; porém, devido ao encantador aspecto das faces, lembrando rosas, Rosa passou a ser chamada.

            Desde muito cedo, revelou a jovem o feitio do seu Espírito, voltado para as coisas de Deus, alheia às vaidades e aos aspectos fúteis da existência.

            À proporção que aumentava a sua peregrina beleza, mais lhe cresciam também a aversão às mundanices e o desejo de destruir em si própria os motivos de fracassar nas provações que escolhera. Assim, toda vez que necessitava sair à rua, esfregava o rosto com as folhas da pimenteira e não raro com a mesma pimenta, de modo que a intumescência corrosiva lhe desfigurasse a formosura. Era simples, piedosa e boa, sofrendo resignada maus tratos dos pais, que desejavam casá-la à viva força.

            Não havendo, naquela época, para onde voltar-se espiritualmente, dentro em breve foi encerrar-se no convento de São Domingos, em 1606, com bastante mágoa de seus pais, que, tendo ficado pobres, viam na beleza da filha o seu tesouro e sempre sonharam vê-la casada, rica e feliz, naquele lar onde mesmo solteira prestava valioso auxílio, cultivando a terra e cosendo, para ajudá-los.

            Mas a futura Santa Rosa assim não entendeu, principalmente porque Espíritos atrasados, talvez inimigos e vítimas dela em outras encarnações, a perseguiam tenazmente, fazendo-a sustentar lutas terríveis para não fracassar, principalmente quando os pais a castigavam por motivo de recusa ao casamento.

            Ingressando na vida estéril do convento, Rosa pouco ou quase nada pôde fazer em favor do próximo; mas, expiou bem duramente as culpas de outras vidas, pois o rigor dos sofrimentos que se impunha era de tal ordem, que misturava fel na comida.

            Aos trinta anos de idade, voltou ao Espaço. Quem teria sido, anteriormente, Isabel Flores, a Santa Rosa de Lima?

            Alguma jovem doidivana, causadora de males e crimes? Uma daquelas malvadas abadessas que mandavam envenenar ou esconder nos cárceres dos conventos as freiras que lhes faziam inveja, ou recusavam sujeitar-se aos agrados dos confessores privilegiados?

            Não sabemos dizê-lo. Que Deus a tenha conduzido já para a verdadeira mansão, de onde nos possa auxiliar para nossa instrução e aperfeiçoamento. E, se ainda não terminou o resgate da dívida, que Deus a ajude a satisfazer a lei inexorável. Porque a lei é essa. Disse o Cristo que da prisçao não sairíamos sem haver pago até o último ceitil (Mat. V, 26).

            Corremos muitas vezes o risco de ficar devendo milhares de ceitis, porque Espíritos atrasados e cegos (quiçá inimigos adquiridos em outras encarnações) tentam perturbar-nos, ou se aproveitam das oportunidades para nos causar males e retardar o nosso progresso espiritual.


            Na vida de Santo Antonino, arcebispo italiano, nascido em 1389, fundador da “Congregação dos Homens Bons”, que parece ainda existir em Florença, há um caso típico. Antonino era médium vidente e audiente. Certa vez, quando ia para a sua catedral, em via de festa solene, enxergou, sobre o teto de uma pequena casinha da rua de Santo Ambrósio, vários Espíritos de Luz. Diante de tão estranho contraste, entrou para ver quem vivia ali, capaz de atrair tais Espíritos. Deparou com uma pobre viúva, rodeada por três filhas, mal vestidas, descalças, que trabalhavam por necessidade, para fora, até nos dias de festa. Mais admirado ficou, verificando que mãe e filhas eram virtuosas, cheias de verdadeira fé, resignadas, quase contentes com a vida que tinham. Por isso, depois de exortá-las a prosseguirem no bom caminho que trilhavam, auxiliou-as com bastante dinheiro, a fim de que não mais sofressem tão duras necessidades.

            Porém, qual não foi o espanto de Santo Antonino quando, ao passar, tempos depois, pela casinha da viúva, divisou, não mais os Espíritos de Luz da visão anterior, mas Espíritos da Treva, verdadeiros obsessores. Penetrou no prediozinho.  A transformação era completa. As jovens, outrora esfarrapadas e descalças, estavam garridamente cobertas de enfeites e falavam, não mais a linguagem humilde e harmoniosa da fé, mas a dos louvores aos divertimentos e folganças.

            Ante a perplexidade de Antonino, o seu Guia lhe deu a intuição de que não devemos SUPRIMIR as provações de ninguém, e sim apenas atenuá-las, tornando-as mais suaves, e ajudar as criaturas a vencê-las. Mas, Antonino, sem compreender toda a extensão da lei que rege as vidas sucessivas, ficou perplexo ainda, buscando atingir a incógnita daquele complexo problema.

            Servindo-se da sua faculdade de médium audiente, rogou ao Espírito protetor que lhe ensinasse a melhor perceber a lição recebida.

            E o Guia lhe revelou que, no caminho do aperfeiçoamento, vários são os meios de atingi-lo. Fê-lo saber que, ali mesmo, naquela cidade, havia um humilde operário ao qual estava reservada tanta glória no Espaço, quanto a ele, arcebispo, que procurava, por outros processos, servir também a Deus.

            E Santo Antonino procurou conhecer o operário.

            Era um remendão, alfaiate de escassos recursos, pois, inábil na sua arte, não auferia dela senão parcos proventos. Mesmo assim, reservava para si apenas o estritamente indispensável à alimentação e à vestimenta, que era sempre dos mais grosseiros tecidos e do mais módico preço. O resto distribuía-o em esmolas com os mais pobres. Quando não tinha trabalho, ia para um modesto hospital chamado de S. Paulo, ajudar, gratuitamente, no cuidado aos doentes. E mais ainda. Tinha em seu paupérrimo abrigo um leproso, a quem tratava com evangélica paciência, e bem evangélica, porque o lázaro, falhando na provação escolhida, era um revoltado contra a doença, e injuriava com impropérios o seu caridoso amigo e enfermeiro.

            Admirável lição esta, que nos integra nas verdades do Evangelho: os humildes serão os exaltados.

            João Batista nasceu no conforto do lar de um grande sacerdote, e foi apenas um precursor; Jesus tomou corpo deitado nas palhas de uma tosca manjedoura e era o Enviado de Deus!

            Bem haja o sofredor resignado, que sorri na dor, na desventura, cheio de força e de  luzes espirituais, que lhe mostram as realidades das provações nas vidas sucessivas e o futuro que o aguarda; ditoso aquele que antes de suplicar o pão, que lhe mitigue a fome da carne, sabe esperar a paz da Alma, orando para que lhe venham as bênçãos, os auxílios, os fluidos benéficos dos nossos Guias do Espaço.

            Quem fora o obscuro alfaiate, que um Espírito-Guia declarou maior do que o arcebispo?

            Não se pode responder. Sabe-se apenas que do alfaiate nem o nome a História registou, enquanto que do arcebispo se fez um - santo - para os altares da Igreja de Roma.

            Estranho e curioso contraste, que vemos ainda, em nossos tempos!
            Os médiuns, quando pertencem à Igreja, são santos; quando professam o Espiritismo, são loucos, visionários, ou possuídos de Satanás...

            Para Teresinha de Jesus, a freira, cânticos e louvores, altares e incenso, para Ana Prado, a médium, risotas e insultos, a sepultura e o esquecimento!..

Parte 2

            S. Sérvulo, que se celebra a 28 de Dezembro, “era um mendigo, e desde a sua infância tinha sido atacado de paralisia, de modo que nunca podia firmar-se em pé, chegar a mão à boca, nem voltar-se de um lado para o outro.“

            Sua mãe e um irmão seu o levaram para o pórtico da igreja de S. Clemente, em Roma, onde vivia das esmolas que ajuntava.

            Quanto podia poupar do seu sustento distribuía pelos mais pobres. As penalidades e  o abatimento de seu estado e condição foram meios de que fez excelente uso para a santificação da sua alma e exercício constante da humildade, paciência, mansidão, resignação e penitência.

            Costumava pedir aos devotos que o iam visitar, que lhe lessem a Escritura Sagrada, e com tal atenção a escutava, que chegou a aprendê-la de cor e a entendê-la segundo a sua capacidade.

            No meio dos incômodos e das dores contínuas, não cessava nunca de dar graças a Deus de o ter reduzido àquele estado e passava os dias e as noites a entoar salmos, hinos e cânticos em sua honra.


            Depois de vários anos consumidos nestas fadigas, apoderando-se a sua enfermidade das partes mais essenciais à vida, conheceu que se aproximava o seu fim.

            Nos seus últimos momentos, pediu encarecidamente que aqueles infelizes que antes haviam sido participantes da sua caridade se ajuntassem com ele, para levantarem a voz em hinos de louvor e de amor; e, com efeito, estando na companhia destes, exclamou: “Escutai, não ouvis a suave melodia e os louvores que ressoam nos céus?”

            Pouco depois de haver pronunciado estas palavras, expirou, sendo levada a sua alma pelos anjos em as eras de 590. O corpo de São Sérvulo foi enterrado na igreja de S. Clemente e honrado com milagres, segundo o “Martirológio Romano”.

            Comentando estas palavras, no próprio livro oficial da Igreja, do qual as transcrevi, diz o autor: “Eis aqui o bom uso que se deve fazer das doenças e especialmente daquelas que duram longo tempo e deixam livre o entendimento, segundo o exemplo deste Santo Paralítico, isto é, primeiramente, considerá-las como uma graça que o Senhor nos faz para santificarmos a nossa alma... porque, por meio das tribulações e enfermidades suportadas com paciência, purifica Deus a alma dos seus defeitos e pecados e a enriquece de merecimentos e de virtudes” .

            À inteligência de quem lê este comentário surge a pergunta: “que pecados podia ter o paralítico de nascença, se ele foi crente, caritativo, resignado e santo?”

            Se aquele que nasceu sofrendo desde a primeira hora da vida terrena sofreu para purificar-se de pecados, esses pecados são da existência atual - em que não foram cometidos - ou de outras encarnações?

            A Igreja não nos diz que sim, mas abençoada seja a criatura que enxergar a verdade escondida nos subterfúgios católicos, sufocada pelas conveniências de uma instituição que se diz infalível; verdade negada pelos que mais dela necessitam, porém, ainda assim, surgindo, espocando através da letra astuta, mostrando-se aos olhos de todos que tenham olhos para ver e ouvidos para ouvir. Porque, só a lei da reencarnação explica esses padecimentos físicos e morais atingindo criaturas que, aparentemente ao menos, não merecem as desventuras que as colhem.

            Que teria feito, por exemplo, que se saiba, esse martirizado Alfredo Dreyfus, o capitão francês acusado injustamente de traidor da sua pátria e que, apesar de inocente, sofreu as maiores humilhações, as mais terríveis dores morais que um homem de sentimentos delicados pode amargar?

            Que horrível falso testemunho teria ele erguido contra um seu irmão, para que duramente viesse expiar a sua falta, aqui, em outra encarnação?

            O Espiritismo não pode comprovar com documentos insofismáveis esses casos que se desenrolam às nossas vistas; mas, feliz da criatura que, meditando sobre eles, tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, feliz o Espírito que aprende nesses fatos a lição que nos ensina a  evitar a prática do mal e nos poupa a sofrimentos bem terríveis.

            Essa lição é de todas as épocas e surge entre todos os povos.

*

            Entre os heróis cearenses, que muito trabalharam para constituir a Confederação do  Equador, houve, em 1824, um pardo, alfaiate, Félix Arerê, que, preso no combate de Santa Rosa, veio em algemas para Fortaleza, onde foi processado e devia sofrer a pena de morte. Quem conhece a História daqueles tempos, bem se recorda da execração em que incorriam todos aqueles ousados rebeldes à autoridade d'El rei e as injúrias e sofrimentos a que ficavam expostos nas mãos das autoridades encarregadas de “vingar” a afronta de tais rebeldias.

            Não eram malvados os executores da lei, mas criaturas presas aos preconceitos da época, preconceitos tão terríveis que permitiram fosse salgada a cabeça de Ratcliff e remetida de presente à rainha Carlota, em Portugal.


            Pessoas amigas intervieram em favor do alfaiate, porém, conseguiram apenas a oferta de ser a condenação comutada em açoites, o que era naquele tempo castigo infamante para os homens de cor.

            Repelindo tal benevolência, o intrépido cearense atraiu todos os rigores, antipatias e malquerenças das autoridades e conheceu as torturas escolhidas para esmagar os rebeldes, e sofreu a pena de morte.

            No cumprimento de ingrato dever funcional, uma comissão militar, nomeada pelo governo do Império, dirigiu todas as punições e cruezas praticadas contra os infelizes sonhadores da Confederação do Equador.

            Quem chefiava essa comissão militar?

            O tenente-coronel de engenheiros, Conrado Jacob de Niemeyer.

            Não é curioso que, decorrido um século, precisamente, um Conrado de Niemeyer tenha sofrido trágico gênero de morte, percorrendo, para alcançá-la, a distância entre uma alta janela do edifício da Central de Polícia e as pedras do calçamento da rua?

            O Conrado Niemeyer de 1925 não será a reencarnação do tenente-coronel que em 1824, cumprindo a lei dos homens, mandou matar irmãos? O Conrado de Niemeyer de 1824 não terá voltado para, em 1925, cumprir as leis espirituais do Espaço - Dente por dente, olho por olho? - Quem com ferro fere, com ferro será ferido?

            Não seria o resgate, a provação escolhida pelo seu Espírito?

            Feliz o que pode conhecer a verdade e que tem olhos de ver e ouvidos de ouvir! ...

*

            Santo Aleixo era filho do Eufemiano, rico e poderoso senador de Roma, do tempo do imperador Valentiniano I, época em que se deu a cisão entre a igreja ariana ou grega e a católica ou latina.

            Não há, infelizmente, que se saiba, nos arquivos das comunicações espíritas, a revelação de quem fora este Espírito; refletindo-se, porém, sobre a provação escolhida e atentando-se no poder do Guia que o amparou, temos de reconhecer que fora grande culpado, ou que veio dar um eloquente e admirável exemplo a quantos desejem e precisem saber como pode um homem executar as lições da palavra e da vida do Cristo; reconhecer que poderoso era o seu Espírito-Guia, para dar-lhe forças e coragem sobre-humanas, capazes de o fazer suportar e cumprir até o fim as amarguras físicas e morais que foram a sua vida terrena nessa reencarnação.

            Não há doutrina de seita alguma que explique - racionalmente - como e porque um jovem rico, sem desgosto algum, sem causa que o determine, abandona todos os confortos da existência e prefere a vida miserável de mendigo.

            Se alguma houver, fora do Espiritismo, que apareça, pois vale a pena aprendê-la. Vindo ao mundo quando seus pais haviam perdido a esperança de um filho, Santo Aleixo foi o enlevo e a alegria daquele lar piedoso, onde eram socorridos e alimentados diariamente mais de 400 pobres.

            Crescendo, o seu talento se revelou logo, permitindo-lhe assimilar, com admirável rapidez e engenho, todos os conhecimentos que afamados mestres lhe transmitiam. Mas, a despeito disso, suas acentuada ojeriza aos gozos mundanos, ruídos e festas era tão profundo, que seus pais pensaram em casá-lo, escolhendo para esse projeto uma donzela nobre, bela e rica.

            Santo Aleixo ficou desolado; mas, filho carinhoso e obediente, que era, não escandalizou os pais com oposições e recusas. Submeteu-se e, na própria noite dos esponsais, quando tudo eram pompa, alegrias, festas, dirigiu-se à câmara nupcial e ali ofertou à esposa riquíssima joia, rogando que as recebesse em sinal de muito afeto.

            Em seguida, retirando-se, disfarçou-se, saiu do palácio e, metendo-se a bordo de um navio que partia para Laodiceia, antiga cidade da Ásia Menor, costa da Síria, seguiu para ali, de onde, temendo ser reconhecido, rumou para Edessa, a algumas milhas de distância.

            Aí, despojando-se de tudo quanto possuía ainda e distribuindo com os pobres, entregou-se à providência de Deus.

            Para residir, escolheu o átrio descoberto de uma igreja; para alimentação, as poucas esmolas que lhe davam. Escassas eram elas porque, mal visto, olhado com desprezo, pelo esfarrapado da roupa, pelo ar humilde e simples, o insultavam com injúrias deprimentes, tomando-o por homem vagabundo, peregrino ocioso.

            Mas, Aleixo exultava e, mais, nas suas preces agradecia a provação, que lhe arruinava o corpo e o desfigurava a tal ponto que familiares, emissários enviados a procurá-lo em todo o mundo passaram por ele, deram-lhe esmola e não o reconheceram.

            Assim viveu 17 anos. No fim desse tempo, a sua resignação e fé haviam sido notadas e começara a formar-se novo conceito em torno da sua pessoa, principalmente porque o sacristão da igreja afirmava ter ouvido diversas vezes uma voz do céu dizer-lhe ser aquele pobre desconhecido um grande servo de Deus e cujas orações eram muito atendidas na presença do Senhor.

            Tão logo Aleixo notou e soube de tal, temeroso das consequências resultantes de veneração e homenagens à sua pessoa, meteu-se a bordo de um navio que estava de viagem para Laodiceia (onde desembarcara), pedindo a Deus que o conduzisse ao lugar em que devesse terminar a sua provação.

            Deus o ouviu, porque furiosa tempestade açoitou o barco e, em vez de ir a Laodiceia, foram bater às praias da Itália, próximas de Roma.


            Aleixo meditou no desígnio do Alto e, inspirado pelo seu Espírito-Guia, dirigiu-se à casa paterna.

            Encolhido a um canto da entrada, aguardou. Quando o pai regressava do Senado ao  palácio, saiu-lhe ao encontro, dizendo: “Compadecei-vos, senhor, deste pobre de Cristo, dando-lhe para recolher-se um cantinho no vosso palácio; e o céu não deixará de recompensar-vos este grandioso benefício”.

            Eufemiano, o senador, ouvindo aquela voz humilde e serena, contemplando tanta miséria, sentiu as lágrimas lhe correrem dos olhos. Chamando um criado, recomendou que abrigasse o pobre e lhe desse carinhoso conforto.

            Quem sabe se pelo Espírito do desolado senador não passara naquele instante a lembrança do filho querido!?..

            Perder um filho - único - é rasgar o coração e, dentro do coração aberto pela dor de perder um filho assim, cabem todos os sofrimentos de uma vida inteira! Ó mães e pais, que muito amastes os filhos que se foram, a misericórdia de Deus seja convosco, derramando sobre a ferida da vossa amargura o bálsamo do Espiritismo, que ensina a ver, com os olhos da alma, o Espírito desencarnado - vivendo no Espaço e ouvindo as nossas preces!

            O criado do senador, contrariadíssimo com a obrigação nova que lhe trazia o desconhecido, conduziu-o para os baixos da escada principal do palácio, atirando ao hóspede importuno injúrias e mais injúrias. Transmitiu aos outros fâmulos a sua raiva, passando Aleixo a ser considerado escravo fugido, ou indivíduo da mais ínfima ralé social.

            Quanto mais dócil, humilde, paciente, inalterável se mostrava Santo Aleixo, mais o desprezavam e cobriam de ofensas, porque atribuíam tais atitudes à estupidez, baixeza de caráter, insensibilidade moral.

            Mas não consistia só nisso a tortura de Santo Aleixo. Maior era a de ver chorar sua mãe, que jamais o esquecera; era ver o semblante tristonho do pai, que suspirava pelo filho desaparecido; era olhar os apagados fulgores da beleza da esposa abandonada, carpindo o esvaído sonho da sua juventude ...

            Não há, de certo, fora do Espiritismo, fora da lei da reencarnação, das provações, fora da assistência de um Guia do Espaço, explicação para tanta coragem, tanta fortaleza de ânimo, para suportar tão rudes padeceres sem causa, espontaneamente. É' verdade que Aleixo sentia fracas, às vezes, as energias; mas, orava, orava muito e do Alto lhe vinham os socorros. Sentia-se feliz, porque o cárcere terrível de suas provações tinha janelas para o Infinito, através das quais ele via a região encantada e luminosa, donde o seu Protetor lhe enviava, a sorrir, as doiradas mariposas da Esperança, a adejarem fulgentes na treva transitória da vida terrena.

            Assim sofreu outros 17 anos.

            Um dia, seu Anjo de Guarda o avisou da próxima libertação. Aleixo escreveu então o suficiente, para que ficasse provada a sua identidade, e, fechando em uma das mãos esse papel, começou a derradeira prece. E, a orar, deixou a Terra. Ninguém lhe viu a morte, ninguém dela soube.

            Na manhã seguinte, o senador foi à igreja de S. Pedro, onde pontificaria o papa Inocêncio I, com a assistência do imperador Honório e de toda a corte. Ia o ato em meio, quando uma voz, que não era humana, disse: Na casa do Senador Eufemiano, morreu um grande servo de Deus!

            Não se descreve o assombro que isto causou, mormente quando explicava o senador, ao imperante, a existência do piedoso hóspede em seu palácio.

            Terminada a missa, diz a História, o papa, o imperador, os nobres, seguidos da plebe, em extenso e majestoso cortejo, foram ao palácio de Eufemiano e ali acharam o morto, com o papel na mão, escrito que só depois de fervorosa oração, feita de joelhos, por todos, se conseguiu retirar de entre os dedos do cadáver.

            Não há expressões que possam dar ideia da cena emocionante que se desenrolou em tal momento, quando a infeliz mãe, voltando suas queixas para Deus, exclamou: “E foi possível que eu tivesse este pobre diante dos meus olhos, tanto tempo, sem conhecer que era o meu querido filho!”

            Correu a notícia e veio gente, milhares de pessoas, para ver, beijar o corpo do - santo  e obter milagres... Foi preciso que a polícia viesse montar guarda, até organizar-se a procissão, que o papa e o imperador deviam encabeçar, para conduzir aquele mísero resto de matéria à igreja de S. Bonifácio, onde lhe fizeram suntuoso mausoléu.

            Mas a História não nos diz que se tivesse aproveitado o exemplo para tirar a lição espiritual; que aquela gente aprendesse a amar e invocar o Espírito de Aleixo, a fim de que sobre a inteligência dos seus derramasse a luz da Verdade e sobre os corações as bênçãos do Senhor.

            Quantos estrangeiros expatriados, pelos quais passamos indiferentes, sem suspeitar que alguns bem podem ser uma parecença de Aleixo, o filho do senador romano? Quantos chagados, paralíticos e morféticos existem, cumprindo provação escolhida, purgando a culpa de haverem maltratado, desprezado, assassinado - por maldade ou impaciência, pobres e infelizes doentes confiados à sua má guarda e criminosos cuidados?

            Se tivessem vivido em outros tempos, quiçá a glória das Crônicas lhes fosse envolver o nome; hoje, coitados, tem por pedestal de anônima sagração o leito da enfermaria pública, ou as pedras das ruas! ...

            Se chegarem à vala comum, depois da hora regimental marcada nos regulamentos dos cemitérios, terão talvez por derradeiro troféu o mau humor de um coveiro cansado e exausto pelas duras lidas do dia, resmungando:

            - Porque este diabo não veio mais cedo?

Parte 3 e final

            Santa Marinha viveu há dez para doze séculos. Seu pai, enviuvando e desgostando-se do mundo, entrou para um mosteiro a 10 léguas de Alexandria, e entregou a filha que lhe ficara ainda em idade mui tenra, aos cuidados de seus parentes. Passado algum tempo, porém, sentiu grande saudade e mágoa pelo abandono dessa filha querida e passou a viver em grave tristeza.

            Certo dia, interrogado pelo superior, confessou que deixara um FILHO - exposto aos perigos do mundo e com isso muito sofria e se preocupava. O abade lhe aconselhou então que trouxesse o - jovem - para "O convento, a fim de ser ali instruído e guiado convenientemente. Assim se fez, porque Eugênio, esse era o nome do frade,  determinou à filha que ocultasse o seu verdadeiro sexo, para que pudesse viver - fingindo monge - no meio dos homens.

            Deste modo, com o nome de frei Marinho, passou a moça algum tempo ignorada, humilde, silenciosa, sem erguer os olhos para ninguém, sem pronunciar palavras oito dias a fio.

            Aos 17 anos de idade, ficou órfã, mas a assistência do pai já não lhe era necessária, porque tanta confiança granjeara no conceito da comunidade, que foi feita provisora do mosteiro, incumbida de ir ao mercado fazer as respectivas compras. E, porque este ficasse à distância de três léguas de maus caminhos e começasse muito cedo, o nosso fradezinho pernoitava numa estalagem próxima do dito mercado, para acorrer à hora própria.


            Ora, aconteceu que a filha do estalajadeiro, tendo sido seduzida por um soldado com quem namorava, vendo-se descoberta e ameaçada pela ira do progenitor, lançou as culpas para o suposto frei Marinho, acusando-o de autor da sua desgraça, servindo-se da coincidência do tempo - seis meses - em que o frade começara a pernoitar na estalagem.

            Conhecido o escândalo e levada a queixa ao abade, o efeito foi terrível no ânimo dos monges. O superior chamou o acusado e o increpou.

            Santa Marinha, sublime no cumprimento da provação que escolhera, não se defendeu. Curvou ainda mais a cabeça e disse: “Um tal fato, verdadeiro, faz indigno do hábito àquele que o veste. Dá-me a penitência e eu a cumprirei”. A resposta era dúbia, sutil, mas o abade não reparou em tal e, cheio de revolta, expulsou do mosteiro o acusado, lançando lhe em rosto o feio crime que a tantos feria e desolava.

            Durante três anos a heroica mocinha viveu na porta do convento, exposta ao sol e à chuva, prostrada na terra dura, alimentando-se com as fatias de pão que por esmola lhe davam ali. A quantos entravam e saíam ela suplicava a única esmola que pedia - uma prece em seu favor. E ainda aumentou a provação, porque, ao nascer o filho da sua acusadora, trouxeram-lho para que o criasse, para que cumprisse a obrigação de pai.

            A resignada virgem, sempre escondendo o seu verdadeiro sexo, aceitou mais esse sacrifício e começou a repartir com a criança a sua parca fatia de pão!

            É preciso ser - mulher - para possuir uma coragem destas!

            Decorridos três anos, os frades, penalizados de tanto sofrimento e paciência, rogaram ao abade que acolhesse de novo o monge repudiado, lembrando a parábola do Filho Pródigo narrada no Evangelho de Lucas, capítulo XV, 1 a 32.

            O abade, embora com repugnância, aquiesceu, impondo, porém, que o culpado se submetesse aos mais pesados e mesquinhos afazeres do mosteiro. Devia carregar toda a água necessária, varrer os compartimentos, limpar as sandálias dos frades e servi-los como se fosse o mais ínfimo dos fâmulos.

            Marinha, além dos trabalhos de cuidar do neto do estalajadeiro, aceitou e cumpria corajosamente a sua tarefa. Mas, as fadigas foram superiores às forças do corpo material. O Espírito protetor da virgem mártir achou que o resgate da dívida estava feito, até nos juros, e com usura.

            Marinha adoeceu e tocou rápida os transes da morte. O abade, ao sabê-lo, disse aos monges: Vede, meus irmãos, tão grande foi o seu pecado, que Deus não lhe deu tempo para resgatá-lo. Vamos cumprir o dever de caridade de assisti-lo e enterrá-lo.

            Mas, ao chegarem junto de frei Marinho, quedaram-se atônitos de espanto, vendo o júbilo, a alegria estampada naquele rosto moribundo. Dir-se-ia que ali estava uma criatura no momento mais ditoso da existência.

            Só os verdadeiros espíritas compreendem a felicidade do Espírito quando, cumprida a provação, vai deixar o corpo.

            E a sorrir, a sorrir, a virgem espirou venturosa.

            Mas, quando foram lavar o cadáver (oh! dor, remorso eterno!), verificaram a verdade: o frade acusado de sedutor era mulher!


            Gritos atroaram no convento e o superior, chorando, atirou-se aos pés daquele corpo inerte, suplicando perdão pelo amor de Jesus-Cristo, perdão pela falta, pela injustiça, pelo crime que cometera, implorando que não o acusasse perante Deus.

            Ao dia seguinte, quando a perversa acusadora soube do acontecimento, foi tomada por um Espírito obsessor (talvez o mesmo que lhe sugerira a terrível calúnia contra Santa Marinha) e arrojada no chão, em convulsões terríveis. Tudo despedaçava em torno de si, e não houve força, nem cordas, que a contivessem, pois a estas, diz a narrativa oficial da Igreja, “todas o Demônio arrebentava”. Foi preciso conduzir a obsidiada até junto do cadáver da virgem morta. Só aí, com orações, mediante a confissão feita pela acusadora, que então declarou o nome do sedutor, cessou a obsessão e, sem dúvida, podemos dizer, porque o Espírito recém-desencarnado veio afastar a alma trevosa que perseguia a infeliz caluniadora.

            Magnífico exemplo, eloquente lição, para mostrar a fraqueza dos juízos humanos, que se encarniçam a apedrejar inocentes e não enxergam a verdade, só porque essa verdade não está nua diante dos olhos daqueles que ainda não aprenderam a ver também com os olhos da alma.

            Eloquente exemplo, lição magnífica, ensinando como se cumpre a lei das provações, pela reencarnação, e como se devem abençoar e receber as dores e as humilhações que foram escolhidas no Espaço, quando o Espírito para aqui veio resgatar um passado de culpas.

            Destes exemplos encontraremos às centenas na História de todas as épocas e de todos os povos.

            Se a nossa vida na Terra é uma única, se a lei do resgate das culpas é uma ilusória burla, se Deus conduz pela mão as criaturas e d'Ele depende que sejamos bons ou maus, felizes ou infelizes, por que motivo Camilo Flammarion viveu mais de 80 anos, tranquilo, respeitado, cheio de glória, e porque esse desditoso príncipe Luís Filipe, de Portugal, caiu, em pleno esplendor da mocidade, varada pelas balas assassinas do Buíça e seus loucos companheiros?

            Porque a rainha Vitória, da Inglaterra, empunhou por mais de meio século o cetro de um trono poderoso, e a czarina da Rússia foi selvagemente trucidada com os inocentes filhos, pela fúria do bolchevismo sanguinário?

            Por que motivo Léon Tolstoi pode, septuagenário, atacar com a formidável mansuetude das suas doutrinas o poderio e a crueldade das leis da sua pátria russa, e Jean Jaurés, o ardoroso socialista francês, tombou assassinado, quando a sua palavra ia acender, talvez, as energias cívicas da mocidade contra as baionetas alemãs?

            Por que motivo Teixeira Mendes, o pontífice positivista brasileiro, conservou, até à derradeira hora, toda a lucidez do seu intelecto erudito, e Benjamim Constant Botelho de Magalhães, pontífice positivista igualmente, se afundou na treva da loucura?

            Qual a razão por que Machado de Assis nos pode legar, através das cãs honradas de uma vida modelar, esses imperecíveis mármores de estilo vernáculo, e Euclides da Cunha, que estava fadado a encher de glórias por séculos a nossa literatura, encontrou cedo a morte, no revólver de um colega de classe?

            E porque existem mulheres que dão o paraíso num beijo, e há bocas corroídas pelo cancro?

            Porque há crianças que fazem piruetas encantadoras e outras que se arrastam paralíticas?

            Como se explica o delicioso papaguear de certas criaturinhas, comparado à mudez de outras que, à semelhança da girafa, não podem articular um som sequer?

            Quem explica que Artur Napoleão, até aos 60 anos, lesse as partituras abertas na estante do seu piano - enquanto que Ladário Teixeira, o mágico inexcedível, que tira sons de violoncelo e de flauta do seu saxofone encantado, não tenha olhos para contemplar as belezas gráficas de uma página de música, da música que ele interpreta e executa com os risos e as lágrimas da sua alma de artista?


            Apontando agora, rapidamente, duas ou três figuras de entre os chamados santos, tenho, dentro do escasso tempo de uma palestra, o propósito de mostrar como é que o Espiritismo interpreta hoje os fatos tidos por milagres, como é que o Espiritismo encara certas criaturas que nos vieram mostrar a verdade da reencarnação e não foram compreendidas, porque as julgaram fora da craveira humana, quase divinas.

            E isso porque a nossa miopia espiritual é enorme e difícil de se ajeitar às lentes da Fé, aos aros do Evangelho. Interpretamos as imagens, as coisas da vida com o erro ótico dos míopes e forcejamos mesmo por preencher com a prática de atos materiais o grande vácuo que o desconhecimento das leis do Espírito abre e cava em nosso cérebro. Entendemos a letra, a palavra na sua acepção imediata e não lhes descobrimos o espírito e verdade.

            A Santo Antônio de Pádua, o maior médium da sua época, apresentou-se certa vez um rapaz, que o ouvira pregar e ficara tocado de grande aflição e remorso. Confessou a Santo Antônio que, cheio de ira, dera um pontapé em sua própria mãe, atirando-a por terra. Antônio de Pádua mostrou-lhe então quanto era grave e repugnante a falta praticada e, servindo-se da lição de Marcos (cap. IX, 44), que diz: “E se o teu pé te escandaliza, corta-o; melhor te é entrar na vida eterna coxo, do que, tendo dois pés, ser lançado no fogo do inferno” - acrescentou: “O pé que insulta um pai ou mãe deveria ser cortado desde logo.”

            O rapaz foi para casa e cortou o pé.

            É assim que muitas criaturas entendem as lições dos Espíritos.

            Um desencarnado aparece, durante o sono ou em vigília, a crentes de igrejas? Está pedindo cânticos, hinos, missas ou velas!

            A pessoa a quem o Espírito se manifestou não é católica romana, nem protestante? Então é arte de Satanás.

            Poucas, infelizmente, são aquelas criaturas que divisam a verdade, Deus, através dos fatos espíritas.

            Por isso, preciso se faz repetir, sem cessar, o mesmo ensino, a mesma explicação.

            Não temamos os Espíritos; encaremo-los tais quais são e se apresentam aos nossos olhos, ao nosso entendimento.

            Não há santos; não há diabos. Diabólicas são as paixões ruins de que não nos libertamos na Terra e que nos acompanham para o Espaço, de onde continuamos a praticar o mal, por intermédio das criaturas atrasadas que vivem junto de nós.

            Mas, principalmente, não há santos, há Espíritos de Luz, evoluídos, capazes de produzir fenômenos que nos enchem de admiração e nos deixam perplexos.

            Santos são todos os entes que, percorrendo a escala do aperfeiçoamento espiritual, adquirem faculdades e forças que a maioria das criaturas ainda não pode adquirir.

            Em outras épocas, quando os conhecimentos eram menos completos e a Humanidade via a cada passo milagres e mistérios, os santos surgiam em profusão. Hoje é diferente. As canonizações se tornam mais raras, porque, em nossos dias, os chamados milagres são produzidos pelos médiuns e os médiuns são criaturas iguais a nós outros. Outrora, o médium tinha o nome de - santo - e ia esconder-se entre as paredes de um mosteiro, para estar em contato com o céu; atualmente, não. Em qualquer associação espírita, os nossos irmãos do Espaço vêm fazer os milagres de outros tempos: curam os enfermos, saram os paralíticos, dão vista aos cegos, raciocínio aos obsidiados tidos por loucos, fazem os analfabetos falar como se fossem sábios e escrever como se fossem calígrafos.

            Materializam-se em corpo palpável e nos deixam, à semelhança de João, o Espírito familiar da inesquecível médium Ana Prado, de Belém do Pará, provas indestrutíveis da sua presença e do seu poder maravilhoso, quais esses moldes feitos em parafina fervente - obtidos diante de auditórios insuspeitáveis - moldes onde até as linhas quiromânticas da mão ficam indelevelmente impressas.

            Deixemos, pois, os santos em paz. Acreditemos, sim, que muitas dessas criaturas são reencarnações de Espíritos superiores, com poderes de fazer algum benefício aos seus irmãos aqui na Terra. Invoquemo-las, não como sendo santos, porém Espíritos evoluídos, mais felizes do que nós outros, que ainda não tivemos a felicidade de pisar os primeiros degraus da escada simbólica, cheia de flores, de que nos fala o Velho Testamento. E aprendamos principalmente, na lição dos chamados santos, a cumprir as leis de Deus e a suportar com coragem as provações das nossas existências.

            Oremos sempre, para que os Espíritos missionários e protetores das criaturas de boa vontade nos encham de fé, coragem, resignação, a fim de que possamos atingir depressa o fim da viagem e para que, durante o percurso, sejamos protegidos contra os nossos irmãos atrasados e cegos (pobres infelizes que ainda não aprenderam a orar e a descobrir a luz divina no Espaço onde vivem), que tentam arrastar-nos para o erro e para a iniquidade.

            O Espiritismo não pretende com isto derruir as crenças de ninguém. Quer apenas que, dentro de qualquer crença, a criatura se volte, para o Alto e se desprenda das coisas da Terra.


            Acreditemos no poder de um - santo -, mas acreditemos no Espírito e não na imagem que é feita pelas nossas mãos. Tenhamos a nossa fé, mas em Deus, que é o soberano senhor de todos os mundos. Oremos as nossas preces, mas não confundamos no mesmo louvor criaturas que se arrogam poderes e virtudes que não podem ter, porque perfeito e INFALIVEL - só Deus. Tenhamos a nossa preferência por um templo, mas não odiemos, nem persigamos os nossos irmãos pelo fato de não acompanharem as nossas simpatias nesse particular. Adotemos o rótulo religioso que quisermos, mas pratiquemos sempre, dentro desse rótulo, os Dez Mandamentos da lei de Deus e pratiquemos os ensinos de Jesus-Cristo.

            Esta é a lição do Espiritismo, lição que veio do Espaço e que do Espaço nos é repetida continuamente e comprovada pelos fatos espíritas que hoje se registam até nos templos católicos romanos, conforme se viu, em Maio último, na igreja de Capanema, lugar bem vizinho de Belém, capital do Pará, onde uma fotografia, tirada após certa cerimônia do mês de Maria, registou a presença do Espírito - materializado - de Agostinho Meireles - ajoelhado junto do altar. Esta é a lição que vem endereçada diretamente às mães, à mulher.

            À mulher, sim, porque o Espiritismo reivindica e aponta ao mundo a proeminência da mulher na missão de regenerar a Humanidade.

             Todos os ensinamentos que nos vêm do Espaço são unânimes em colocar a Mulher no posto de pioneira do futuro, pois é dos lares, e não das igrejas, que há de surgir fraternidade entre as criaturas sobre a Terra.

            É do ensino nos lares, da formação das almas das crianças que hão de surgir os seguidores de Jesus-Cristo, habituados desde a tenra infância a ouvir as sãs doutrinas e a ver os bons exemplos. Ensinados pelas mães, os homens das gerações de amanhã serão melhores e semearão menor número de males, vícios e crimes.

            E vós, a quem me dirijo neste momento, vós todas que tendes sob o domínio do vosso afeto, sob o poder do vosso sorriso, sob a prisão das vossas palavras meigas, sob as cadeias floridas das vossas carícias, um ser que vos obedece e ama - vós todas, tomai em vossos fortes ombros a nova cruz do Senhor, para nos conduzir a um outro calvário - o da Salvação.

            Mudai a fórmula dos vossos ralhos. Não digais mais: “Deus castiga”. Dizei: “Sofrerás a consequência do teu erro”. Ensinai corajosamente dentro dos vossos lares a verdade da reencarnação.

            Ensinai às criancinhas que o avozinho, daqui ausente para a outra vida, continua do espaço olhando os netinhos que aqui ficaram; convencei às criancinhas que o irmãozinho, que Deus levou, lá do alto sorri, quando elas são boas, obedientes, carinhosas e puras; mostrai às criancinhas que os sofredores são culpados de outras existências, purgando as culpas e que esse será o nosso destino, se formos maus e voltarmos as costas às leis que Jesus nos deu; habituai as criancinhas a serem fortes nas contrariedades e encarar com alegria tudo que Deus nos dá; comunicai às criancinhas o amor dos vossos corações, exemplificando que as palavras de carinho, de tolerância, de perdão e de piedade vencem todas as tempestades desencadeadas pelas iras alheias.

            Pregai a verdade da lei das recompensas espirituais.

            O Papai Noel é um símbolo, não é uma burla. Todos teremos o nosso Natal, vindo de Deus. Nos velhos sapatinhos dos maus sentimentos, que atirarmos ao desprezo do arrependimento e do olvido, Jesus colocará as luminosas quinquilharias das suas bênçãos, que são a saúde plena do corpo e da alma, a paz do Espírito, as abundâncias de todas as coisas que Ele prometeu seriam acrescentadas (Mateus, VI, 33).

            E, à semelhança do que hoje se faz na festa de Dezembro, agitaremos, felizes e contentes, as dádivas do Senhor, se soubermos conseguir os velhos sapatinhos feitos das imperfeições tiradas da nossa alma.

            Palavras a que eu quisera dar a beleza esplêndida das auroras que surgem no horizonte, depois das grandes tempestades, cheias de trevas, quando os coriscos parecem sinistras cusparadas do céu sobre a face corrupta da Terra.

            Sois escrínios de joias espirituais e eu não possuo senão os diamantes brutos de uma palavra por lapidar.

            Sei, mas não tenho expressões que vo-lo digam, que podeis realizar o prodígio desta campanha abençoada, cuja bandeira luminosa o Espiritismo vos entrega.

            Mesmo torturada pelas brutalidades dos homens, com o sorriso apagado pela feroz ingratidão dos lobos humanos, com o coração cheio do fel derramado pelos enganos e ciladas dos malvados, desesperada pelos vícios e pela condenação dos maus, desprezando com horror certa vida de sofrimentos, mesmo assim, a mulher é bem melhor do que o homem, porque, através de todos os vendavais mundanos, a mulher guarda sempre um pouco de amor e de piedade e é capaz de espargir consolo e ventura em torno de si.

            Mesmo a última das mulheres é capaz de um grande amor e de sorrir com a mesma graça ingênua da primavera da vida.

            Só a Mulher teve o privilégio de ser perfeita na vida de Jesus, não o esqueçamos e tiremos daí a lição.

            O Cristo expulsou os vendilhões do templo; mas, quando à sua frente surgiu a perseguida adúltera, toda a majestade da sua divina força, toda a luminosa pureza do seu coração sem mácula, toda a autoridade da sua doutrina se ergueram para defender a Mulher, dizendo: “Aquele de vós que se julgar sem culpa, que lhe atire a primeira pedra”. (João, cap. VIII, 7).

            E, no caminho do Calvário, quando todos abandonaram o Mestre, quando os discípulos apavorados diante das espadas dos centuriões fugiam e o negavam, quando o peso do madeiro lhe esmagava os delicados ombros e o suor da agonia, misturado ao sangue que os espinhos faziam brotar da fronte, escorria por aquele rosto angustiado, foi a coragem sem precedente de uma piedosa mulher que estendeu a bendita carícia das suas mãos para lhe enxugar o rosto desfigurado.

            E depois, junto da cruz, quando soldados ébrios, sem freio e sem outra lei que a da crueldade com que deviam ser tratados - igualmente - Jesus, os dois ladrões e todos os que discípulos do Mestre fossem, a quem coube a indescritível coragem de afrontar a brutalidade dos algozes?

            Foi Maria Madalena, aquela que abandonara tesouros e prazeres, sedas e joias, para ajoelhar-se aos pés do mais pobre desses tesouros da Terra.

            E regou o chão com as lágrimas escorridas daqueles olhos que dominavam, que haviam escravizado os mais poderosos homens do seu tempo, deslizadas por aquelas faces mais belas do que pétalas viçosas de flor e que para serem beijadas muitos homens dariam todas as riquezas que possuíssem.

            E ali também se viu a meiga e mansueta Maria, a Mãe sofredora, que sempre, em ignorado silêncio, sofreu por aquele filho que nem ao menos podia chamar seu, porque viera de Deus e não pertencia a este mundo de provações.

            Recebei, pois, e cumpri fielmente a delegação que o Espiritismo vos entrega e que vem do Alto.

            Meditai com atenção sobre as lições do Evangelho. Maria foi bendita entre as mulheres; vós sois as escolhidas entre as criaturas.

            Para reivindicar as verdades deturpadas do Velho Testamento, Deus não se serviu dos homens, quando enviou Jesus ao nosso mundo; para ressuscitar o Evangelho, afogado em 19 séculos de mentiras, ódios, sangue e cobiça, Deus escolhe de novo a Mulher, porque as leis divinas se apoiam no Amor e só as mulheres sabem amar verdadeiramente.


            Amar e sofrer.

            E nós, os homens, precisamos aprender convosco a amar e a sofrer, porque as provações mais duras e terríveis se abrandam, quando na hora triste do sofrimento temos a carícia doce de um sorriso, uma palavra de terno encorajamento, o suave contato das mãos benditas da mulher que nos ama.

            E que Deus nos possa conceder a todos os que aqui estamos o início de uma nova existência. Que seja esse o fruto das pobres palavras que eu vos disse. Que estas palavras, pequenas quanto uma pequena semente, germinem pela misericórdia do Senhor em frondosas árvores de bênçãos, saúde, paz e prosperidades.

            Que Deus grave no íntimo dos nossos corações o desejo de melhorar e progredir espiritualmente, e que um laço de amizade nos ligue a todos, fazendo com que os nossos pensamentos se unam no mesmo anelo de subir ao Espaço para atrair aos nossos lares a proteção dos Espíritos perfeitos, os fluidos poderosos dos bons Guias.

            Eu, de mim direi sempre, com a minha alma voltada para Deus:

            Pai de infinita bondade, corrige os males da Terra; dá aos sofredores o consolo de um Espírito amigo; -- mas abençoa, guia e protege as Mães, Senhor, e deposita em seus corações o poder bastante para tornar os homens dignos da Tua misericórdia e transformar os lobos da Terra em cordeiros do Céu.

A Escolha das Provações  
segundo os fatos e a lição dos Espíritos

por Almerindo Martins de Castro

 Reformador (FEB) Abril - Maio - Junho 1970

Conferência pronunciada na Federação Espírita Brasileira,

em 11 de Dezembro de 1927.

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