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quinta-feira, 28 de maio de 2015

O pior cego é aquele que não quer ver


            Não é de hoje que o Espiritismo observa, de quando em quando, o irrompimento de tentativas divisionistas, partidas de elementos que nele ingressaram sem sinceridade no coração, mas com planos vastos no cérebro. Indivíduos provindos de outras crenças, onde também não se adaptaram, resolveram de um momento para outro tornar-se espíritas e como tal se intitulam, alguns deles até criando centros onde dominam e realizam uma misturada de catolicismo e espiritismo, comprometendo, por ignorância ou não, os altos objetivos morais do credo espírita.

Ninguém é verdadeiramente espírita sem o respeito às normas que Kardec codificou. Ser espírita por opinião, não é ser espírita, porque só o é aquele que se mostra empenhado em conhecer e seguir os preceitos doutrinários. Há pessoas que frequentam sessões espíritas como frequentam missas católicas, cultos protestantes, sessões do chamado esoterismo. Querem variar, percorrer lugares diferentes, para recreio de seu espírito volúvel. No fundo, não são de má fé. Todavia, entre essas, há as que andam à cata de algo que dê alguma vantagem, seja de que espécie for. Se material, melhor ainda, porque os tempos estão cada vez mais bicudos... Tentam imiscuir-se no ambiente que lhes parece mais fácil de penetrar e menos difícil de iludir as criaturas.

            Quando, há dias, uma senhora nos disse que gostava do Espiritismo, mas tinha medo de Espíritos, nós lhe dissemos que estudasse a Doutrina e nada temesse dos Espíritos desencarnados, mas se acautelasse dos encarnados e de outras cores... ideológicas, principalmente as furta-cores, porque fazem confusão e se assemelham com todas, acabando por não ser nenhuma ...

            O número de desiludidos vai aumentando na medida em que se desenvolve o trabalho de sedução. Tudo, porém, tem um motivo justificado. Quando se acusa a Federação de estar inativa, é porque não compreendem a natureza da atividade que ela desempenha. Essa inatividade parece real, porque a Federação não faz uso da propaganda, quer pela imprensa, quer pelos microfones, do que realiza. Trabalha, serve, de modo que não saiba a mão esquerda o que faz a direita, Demais, fiel aos princípios morais do Espiritismo Cristão, a Federação não é casa de negócio, não pertence a ninguém, mas a todos os espíritas que com ela comungam na propagação dos princípios da Codificação de Kardec. Não tem chefe perpétuo, o seu corpo diretivo é escolhido em assembleia, livremente, democraticamente, espiriticamente. A força da Federação está na sua fidelidade à Doutrina Espírita. Não explora a credulidade pública, mas esclarece, orienta, instrui o homem, para que ele saiba que há na vida terrena grandes riquezas morais e espirituais, às quais vale a pena sacrificar prazeres mundanos e vantagens de ordem material, que não sejam indispensáveis ao bem da família e ao equilíbrio social.

            Temos o dever de respeitar outros credos, assim como a liberdade de pensamento é sagrada para nós. "A cada um, segundo suas obras", diz o Evangelho. Nem por isto, porém, devemos ficar indiferentes à situação daqueles que, cegos e surdos ao bom-senso, se aproximam do perigo e se deixam arrastar por ele. Nosso dever de caridade é alertar o ameaçado, procurando salvá-lo, enquanto é tempo. Desde que nossa advertência seja desprezada, cumpra-se a vontade dos que preferem as aventuras arriscadas e contraproducentes ao viver tranquilo e consciente de quem sabe separar o joio e o trigo, pensando no futuro.

            O pior cego é ó que insiste em não querer enxergar. E ficamos penalizados com isso, porque, às vezes, uma criatura de boa-fé se deixa enlear de tal maneira que se vê dominada pelo farisaísmo irmanado a interesses que não se coadunam com os preceitos cristãos. Como cada qual é responsável pelos seus atos, nada há que fazer, senão prece pelos que erram e persistem no erro. Maior responsabilidade, sem dúvida, assumem os que tomam a si a tarefa de iludir o próximo em proveito de objetivos que não estão de acordo com as lições do Mestre. "Nem todos os que dizem: Senhor! Senhor! entrarão no reino dos céus; apenas entrará aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, nesse dia, me dirão: Senhor! Senhor! não profetizamos em teu nome? Não expulsamos em teu nome o demônio? Não fizemos muitos milagres em teu nome? Eu então lhes direi em altas vozes: Afastai-vos de mim, vós que fazeis obras de iniquidade." (Mateus, VII, v. 21-23.)

            Do mesmo modo, aqueles que a todo instante e sem motivo justificável repetem o nome de Deus, devem lembrar-se do que está em Êxodo, cap. 20, v. 7: "Não tomarás o nome de Jeová teu Deus em vão, porque Jeová não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão."

            Cedo ou tarde, os esforços da mistificação serão destruídos pela verdade, pois esta resiste a todas as simulações. Pode demorar, mas revive sempre, porque não há poder na Terra que a derrote.

O pior cego é aquele que não quer ver
Percival Antunes / (Indalício Mendes)

Reformador (FEB) Junho 1957

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