Translate

domingo, 24 de maio de 2015

A Vida Solidária do Médium


            Em qualquer atividade humana, é imprescindível o método de trabalho, a anotação dos resultados conseguidos, das falhas ocorridas, apesar das previsões feitas, e a análise rigorosa das observações positivas, neutras e negativas. Assim, fácil se tornará estabelecer uma comparação que nos elucide acerca do grau de aproveitamento do esforço empregado e permita pesquisar as causas da esterilidade desse esforço e das modificações havidas no curso das tarefas.

            Dentro do Espiritismo, mais do que em qualquer outro setor, esses cuidados são indispensáveis. Deve haver método no trabalho dos médiuns, nas atividades coletivas dos grupamentos espíritas, na distribuição dos encargos, enfim, em todo e qualquer dos diferentes e múltiplos campos de ação. Rigor nos trabalhos e, sobretudo, rigor nas observações de quanto neles se passa. Não devemos esperar que os nossos encarniçados adversários nos indiquem os meios de controle a efetuar nas sessões mediúnicas. Pelo contrário, temos de ser os primeiros a nos cercar de todas as cautelas e de exercer a mais severa vigilância, porque não nos interessou jamais nem nos interessa senão a realidade espírita. Desde que a ela nos dediquemos devotadamente, com a maior sinceridade e o mais exigente escrúpulo, estaremos com a consciência tranquila diante dos negadores impenitentes, dos que reclamam provas sobre provas, dos que nos atribuem comércio com entidades diabólicas (?) e nos assacam injúrias pesadas e nos cobrem de mentiras soezes e ridículas. Na verdade, não nos interessa perder tempo com essa gente, que persiste no erro e nega a existência da luz, porque permanece de olhos fechados. O Espiritismo não força ninguém a aceitá-lo, não se impõe cegamente a quem quer que seja, não ilude nem faz proselitismo. Aqueles que o aceitaram e o seguem, podem testemunhar como se tornaram espíritas, porque aceitaram a Doutrina de Kardec, quais os motivos que os levaram a renunciar a antigos e falidos credos, para se iniciarem no estudo do Espiritismo e em sua prática, usufruindo o bem-estar físico e moral decorrente da compreensão legítima da vida terrena e dos motivos das lutas e provações, dos desenganos e dos sofrimentos que marcam o itinerário humano.

            O Espiritismo nada pode fazer em favor de religiões que hoje se encontram em irremediável decadência, sem autoridade moral nem amparo espiritual. Elas falharam à sua missão e respondem pelas consequências, segundo a Lei de Causa e Efeito ou Lei de Ação e Reação.

            Aos médiuns cabe importantíssimo papel no movimento espírita. Mas eles somente desempenharão bem o seu trabalho, se se mantiverem fiéis aos ensinamentos de Allan Kardec, evitando tudo quanto possa concorrer para o enfraquecimento de seu caráter e de sua mediunidade. Nada mais perigoso para o médium do que a vaidade. Ele precisa não esquecer jamais que não é um semideus, mas um homem e justamente um homem (ou mulher, conforme o caso) com responsabilidade determinada pelo mediunismo que possui. Não deve supor que ser médium é trazer uma missão à Terra. Ser médium é trazer maior responsabilidade, porque, além da responsabilidade natural que o ser encarnado tem em face do mundo físico e do mundo espiritual, o médium tem esta outra responsabilidade, grave e, portanto, digna da melhor consideração: o exercício dos dons mediúnicos de
forma a satisfazer a compromissos assumidos no plano invisível, antes de retomar à peregrinação carnal.

            A responsabilidade do médium, consequentemente, é extraordinária. E justamente porque  tem mediunidade, deve estar vigilante, por isso que em seu derredor fervilham as seduções, a possibilidade de queda está sempre presente e sua exemplificação responde por seu futuro na Terra e no Espaço.

            Muitos médiuns se queixam da morosidade com que se desenvolvem. Outros, apressados, põem-se a assumir responsabilidades de trabalhos para os quais ainda não se encontram amadurecidos. Muitas vezes, o vagar resulta justamente da falta de trabalho metódico, da orientação imperfeita, da invigilância, da ausência de autocontrole, não apenas nos momentos em que os médiuns atuam nas instituições espíritas, mas fora delas também, na vida comum de relação, campo mais amplo e mais perigoso para as experiências da reencarnação.

            Na vida profana é que o médium passa pelos "tests" mais positivos e definitivos. Sua maneira de agir, de se comportar diante dos semelhantes, das reações que oferece nos momentos críticos e dramáticos, traça o nível da sua personalidade mediúnica, ou, melhor dizendo, traça o nível da sua personalidade espiritual em face de seus deveres mediúnicos, porque o médium não deixa de o ser quando ausente do exercício dos trabalhos de mediunidade. Ele é médium sempre e por isto precisa estar atento em todos os momentos de sua existência. Quando afirmamos que "ele é médium sempre" não estamos dizendo que o médium conserva indefinidade sua capacidade mediúnica, porque a mediunidade pode falhar, pode oferecer aspectos de intermitência e, em casos tais, às vezes até o próprio médium é iludido quando toma e confunde animismo com mediunismo. Isto é assunto que se encontra bem debatido em "O Livro dos Médiuns", de Allan Kardec.

            Supor que a condição de médium possa dissociar-se da condição de criatura humana sujeita a constantes provas, desde que se levanta, pela manhã, até que se recolhe ao leito, à noite, é outro erro em que incidem muitos médiuns. Já o dissemos que o indivíduo provadamente dotado de mediunidade está mais exposto a provas do que aquele que não é médium ou possui a mediunidade ainda em estado latente. Vale repetir: médium não o é apenas quando se concentra e realiza os deveres medi únicos; o mundo profano influi poderosamente na sua constituição moral, afeta a sua personalidade espiritual, interessa sobremaneira à sua organização material e, tudo isso junto, repercute profundamente em sua posição mediúnica. Daí a necessidade de vigilância permanente. Os maiores perigos não deve o médium procurá-los longe de si, mas em si mesmo. Torna-se, pois, evidente a importância fundamental do respeito e da exemplificação cotidiana do Evangelho e da Doutrina Espírita, numa palavra, de "O Evangelho segundo o Espiritismo", o Livro Branco da Terceira Revelação.

            A vida do médium é solidária com o meio ambiente terreno em que se desenvolve e - reflitam bem - com o meio ambiente espiritual, porque sua função mediúnica conserva-o ligado a entidades invisíveis.

            São enormes e progressivas as responsabilidades do médium. Mas, pela observância fiel dos princípios doutrinários e evangélicos, poderá ele, entretanto, resguardar-se e dominar os perigos que o rodeiam.

A Vida Solidária do Médium
Indalício Mendes

Reformador (FEB) Junho 1957

Nenhum comentário:

Postar um comentário