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sábado, 30 de maio de 2015

Instituições em Crise

              A Doutrina Espírita provoca nos que lhe transpõem os umbrais imediato desejo de transformação. Isso é muito compreensível, já que este é o objetivo primordial da Doutrina: transformar o homem. Kardec, por isso mesmo, afirma: "Conhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral."

            Assim, com os primeiros adeptos que surgiram no nosso país, veio a ideia de que a Doutrina exige de todos a aplicação imediata de seus conceitos. Ainda mais que a bandeira do Espiritismo é a CARIDADE, a virtude por excelência, conforme Paulo.

            Surgiu daí, pois, a ideia da criação de casas assistenciais, com os mais diversos objetivos, para o amparo das criaturas necessitadas da Terra. Vieram os asilos, os lares, as creches, os orfanatos, as casas de saúde, os hospitais, os sanatórios, casas de sopa, casas de mãe pobre, educandários, etc ... Foi uma proliferação de entidades por todo o Brasil, fazendo com que o Espiritismo ficasse assentado sobre sólidas bases assistenciais. Era a manifestação patente de que o Espiritismo é Jesus de novo, o Consolador prometido, trazendo bálsamo para os humanos sofrimentos.

            Louve-se aqui o trabalho dos pioneiros da Doutrina, que se lançaram a esta faina, enfrentando tudo e todos, para introduzir o Espiritismo no Brasil. Achamos, mesmo, que de outra forma a Doutrina não se teria implantado em nossa nação.

            Passada esta fase, contudo, os pioneiros começaram a voltar ao plano espiritual, deixando na retaguarda os seus continuadores, para a conservação e ampliação do trabalho edificado.

            Com o surgimento das novas gerações de espíritas ocorreram, porém, os primeiros choques; os mesmos que explodiam entre as gerações da sociedade. E os choques surgiram porque os pioneiros construíram antes as obras de ação social, e deixaram para depois a edificação do novo homem recomendado pelo Codificador.

            Dizendo isto, não estamos criticando os precursores do atual movimento doutrinário, já que eles realizaram a sua missão aqui na face da Terra. Estamos tentando analisar a causa da crise que está rondando as nossas entidades assistenciais. Crise porque se cuidou de edificar as paredes, fizeram-se campanhas as mais diversas para colocar a cobertura, "bolaram-se" os planos mais diferentes para a pintura e para o acabamento, mas esqueceu-se do recheio que deve ser colocado dentro das entidades espíritas: exatamente o Espiritismo.

            Vemos, então, o presidente que briga com os novos profitentes por causa dos azulejos que "ele fez campanha para colocar". Vemos o dirigente do Centro que doou o terreno para a edificação da entidade e quer ser agora o presidente vitalício do grupo. Vemos o confrade que coloca a sua opinião acima da própria sociedade que o elegeu, ou o dirigente que faz questão do seu cargo, como autoridade máxima. Enfim, briga-se por tudo. Cada qual achando que é dono disso ou daquilo, quando não acha que é "dono" da Doutrina Espírita e que sua palavra é lei.

            Mas, não é o cúmulo?

            Vemos, pois, que a crise das entidades espíritas não é propriamente delas, isto é, não lhes falta o alimento, não lhes falta o remédio, não lhes faltam os recursos monetários; faltam-lhes os verdadeiros espíritas, que vivam o que ensinam.

            Achamos que já passou a hora de vivermos em choque, acreditando que algo que tenhamos edificado, reunido ou criado seja realmente nosso. Tudo vem de Deus, que nos deu as chances de trabalhar para o aprimoramento e adestramento espirituais.

            Quer dizer, não podemos esquecer-nos de que o principal de uma obra assistencial espírita é a Doutrina Espírita, sentida por todos os diretores, associados, participantes e beneficiados.

            Às vezes, um confrade nos mostra extensa lista de pessoas assistidas: 12.000 pessoas, 1.000 famílias, 20.000 quilos de arroz ... e tudo o mais. E nós perguntamos: e quanto de Espiritismo foi distribuído? Junto do pão material, quanto do pão espiritual foi ofertado?

            Enfim, precisamos nos preocupar com o principal de uma entidade assistencial espírita: a Doutrina Espírita. Seja exemplificando-a no exercício dos cargos para que fomos eleitos, seja mostrando-a aos que procuram a entidade como meio de salvação, isto é, como meio de redenção da criatura. Em suma: é a vivência do Evangelho, que tanto pregamos e que tão pouco exercitamos...

            Mesmo porque, podemos levantar inúmeras obras assistenciais espíritas, sem ter incutido o Espiritismo em nós mesmos.

            Afinal, de que nos adiantará construir uma obra espírita se ainda não vencemos os nossos maiores inimigos: o orgulho, a vaidade, o egoísmo, a presunção, o autoritarismo, a cólera, a inveja ... e tudo o mais?

Instituições em crise
Filipe Salomão

Reformador (FEB) Outubro 1972

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