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domingo, 8 de março de 2015

A Era Kardequiana


Vale a penar comemorar de novo...


                       A Era Kardequiana 
                          Parte 1 de 2 Partes

                                Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB)  Abril 1956

            Os espíritas brasileiros, e provavelmente os de todos os outros países onde a Codificação se acha divulgada, já iniciaram seus movimentos para comemorar o PRIMEIRO CENTENÁRIO DA CODIFICAÇÃO DO ESPIRITISMO, no dia 18 de Abril de 1957, data do aparecimento de "O Livro dos Espíritos", no século passado.

            Um século de agitação e lutas, guerras e revoluções, não deu tempo à Humanidade de ler e compreender a obra maior que já foi realizada na superfície da Terra. A Codificação permanece desconhecida da imensa maioria dos homens, porque realmente eles não se acham em condições de compreende-la e muito menos ainda de vive-la, de atingir a felicidade que ela lhes pode proporcionar. Ela permanece de braços abertos esperando a Humanidade para salva-la, como o Cristo no madeiro, há quase dois mil anos, mas o pobre terrícola, atormentado pelas paixões, pela ignorância, pela fome, pelo medo, continua correndo atrás de suas ilusões ou fugindo de seus pavores, sem serenidade para buscar a paz, para estudar a vida que tanto horror lhe causa, quando só lhe deveria proporcionar júbilo e esperanças bem fundadas, segurança no porvir e desprezo às ilusões e ao medo que tanto o infelicitam. 

            Detenhamo-nos por um momento para meditar sobre a obra de Allan Kardec que iremos comemorar em 1957, quando teremos que ouvir muito repetido que Allan Kardec se chamava Hippolyte Léon Denizard Rivail, que encarnou em 3 de Outubro de 1804, e desencarnou em 31 de Março de 1869, que foi estudante precoce e educador emérito, havendo reformado muitos pormenores do ensino oficial em sua Pátria, que possuía bem o francês e o alemão, e tantas outras coisas mundialmente corriqueiras que se dizem de todos os grandes homens, mas são de pouco valor ao serem aplicadas a um Grande Missionário que veio transformar o Mundo.

            Tentemos fugir um pouco deste ramerrão tão superficial e pensar mais seriamente na obra do Codificador.  Os fenômenos espíritas são de todos os tempos e todos os lugares. Não houve lugar no mundo antigo nem no moderno em que não ocorressem os mesmos fatos, sobre os quais se fundaram todas as formas de mitologia, fetichismo e religiões que chegaram até nós, pelo menos em parte, através da literatura profana e sagrada.

            Deixando de parte o fetichismo, por ser de mais difícil verificação literária, e examinando somente as mitologias e religiões, notamos que todas elas se fundaram pela observação de manifestações do mundo espiritual, e se fundaram em regiões
completamente isoladas umas das outras. Bem conhecidas são as mitologias romana, grega e escandinava, criadas em tempos remotos, quando nenhuma relação existia entre esses três grupos humanos; no entanto, elas três têm grandes analogias entre si, como as tem com as crenças dos antigos egípcios, dos povos orientais e só isso bastaria para demonstrar uma origem comum. 

            Em todas as diversas mitologias, os Espíritos se intitulavam deuses: havia os deuses do bem e os do mal, deuses e deusas. Todos e todas com as mesmas paixões e limitações humanas. Era justamente como compreendemos hoje: Espíritos adiantados e bons e outros atrasados e maus, de homens e de mulheres.

            Mais um passo para a frente e entramos no domínio religioso, ainda muito nebuloso, dos judeus. Lá vemos Jacó lutando corporalmente com um "deus" que foi por ele vencido e desde aquela noite célebre passou ele a chamar-se o campeão de deus, isto é, Israel. (Gênese 32:22 a 28).

            Foi esse deus, ou Espírito materializado, quem deu a Jacó o nome de Israel, o pai dos israelitas. Este episódio é um traço de união entre as mitologias e as religiões antigas, em parte até hoje existentes no mundo.

            Por todo o Velho Testamento encontramos manifestações de Espíritos. Quem ditou a Lei a Moisés foi um Espírito que se nomeou o deus de Israel. Hoje ele se diria o Espírito protetor dos hebreus.

            Igualmente o Novo Testamento se baseia em fenômenos espíritas, alguns grandiosos como a Transfiguração (Mat., 17:1 a 6), na qual Jesus conversa com Moisés e Elias, materializados diante de três discípulos, e assim também as aparições de Jesus, depois de sepultado.

            Os fenômenos são universais e eternos e sempre serviram de base a mitologias e religiões; mas estas os colheram ao acaso, sem método de comparação e análise, de
modo que não provaram cientificamente suas teorias. Impuseram-se aos homens como dogmas de fé, sem demonstração completa e convincente.

            Recolhendo fatos materiais, relacionando-os, descobrindo as leis que os regem e as relações que os ligam entre si, foi surgindo a pouco e pouco a ciência materialista do nosso tempo.

            Baseada em fatos que se repetem com certa regularidade e podem ser por todos observados, a Ciência formulou teorias que se impõem a todos os estudiosos; mas estas teorias, fundadas exclusivamente sobre a observação de fatos materiais, não entraram pelos domínios da Religião, permaneceram no estudo da matéria. Seu estudo da vida se limitou às manifestações físicas dessa mesma vida.

            A Religião entrou em conflito com a Ciência toda vez que esta ousou negar um de seus dogmas, por mais absurdo que fosse o dogma, como o eram o da inexistência de antípodas, o de girar o Sol em torno da Terra, etc. Os argumentos da Igreja, em nome da Religião, foram a masmorra, o cavalete da tortura, as fogueiras da Santa Inquisição. Convenhamos: argumentos sem valor algum probativo e que a ninguém convenceram. Travou-se assim a grande luta entre os defensores da Religião dominante e os da Ciência nascente. Uma dispondo de dogmas, de palavras, de sanções cruéis, e a outra apoiada na observação de fatos da Natureza.

            É evidente que o Sol não se intimidou diante das fogueiras inquisitoriais e nem a Terra deixou de girar em torno de seu eixo, pelos decretos eclesiásticos; mas cavou-se um abismo entre Ciência e Religião. Uma tem dogmas humaníssimos, a outra por fatos da Natureza. Como a Natureza é o Livro de Deus, aberto aos homens, segue-se que a Ciência, apesar de materialista aparência, é divina, e que a Religião ortodoxa se tornou diabólica, apesar de se dizer espiritualista e crente em Deus.

            Passaram as palavras a ter sentido oposto à sua etimologia.

            A falta de base científica para os dogmas religiosos, lançou-os no descrédito
popular. A Humanidade passou a crer unicamente na Ciência que, apesar de todas suas falhas, apresenta grandes verdades e corrige seus erros humanos, logo que descobre.

            Entrou-se em cheio no materialismo científico e abandonou-se por completo a religião, apesar das tradições enraizadas que se conservaram em prática, mas inoperantes na vida.

            Em outro artiguete completaremos nossas reflexões sobre o sentido da Era Kardequiana.

Fim da parte 1


A Era Kardequiana 
 Parte 2 de 2 Partes
Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB)  Maio 1956


            Vencida pelos fatos da Ciência, a Religião perdeu toda a sua força orientadora na sociedade humana e passou a crer somente no poder do Estado, a quem recorreu para impor seus dogmas aos homens. Vemo-la admitindo de público sua incapacidade e exigindo que a lei civil sancione seu Sacramento do Matrimônio, proibindo o divórcio. Por outras palavras, vemos a Igreja crente apenas nas forças materiais e descrente de todo o poder espiritual.

            É o reinado do Materialismo absoluto, do Ateísmo completo. A crença na imortalidade da alma e em prêmios e castigos após a morte passou a ser tratada como simples superstição de idades tenebrosas.

            É nessa penosa situação que surge a Codificação do Espiritismo, ainda hoje pouco conhecida do mundo, apesar de seus quase cem anos de existência.

            Reunindo os fenômenos espíritas pelo mesmo método de análise comparada que adota a Ciência, Allan Kardec demonstrou que a Religião, do mesmo modo que a Ciência, se baseia em fatos naturais invencíveis pela sua repetição universal e eterna e, portanto, que o Materialismo é apenas passageiro eclipse na vida da Humanidade.

            Cumpria apenas reunir fatos em grande escala, relacioná-los entre si, para dar à Religião uma base científica inabalável.

            Tais fatos existiam, existem, existirão sempre e nenhuma força humana poderá impedir-lhes as repetições presentes que confirmam o passado e as futuras que confirmarão o presente. Impossível destruir para sempre a verdade natural que se baseia em fatos. A Religião só teria que seguir o mesmo caminho modesto, sério, lento e seguro da observação científica dos fenômenos, interpretados em CONJUNTO, não insuladamente em suas aparências externas.

            A um século de distância da Codificação do Espiritismo, podemos vê-la um pouco melhor do que o puderam os contemporâneos de Allan Kardec, e verificar que ela está destinada a triunfar mundialmente, mesmo que contra ela se reacendam as fogueiras de novas Inquisições com outros rótulos; porque neste século decorrido multiplicaram-se por toda a parte os fatos em que ela se baseia, e foram submetidos ao mais rigoroso controle científico, para sua perfeita aprovação.

            Essa repetição constante dos fenômenos, confirmando sempre a Codificação, demonstra sobejamente a solidez granítica da edificação kardequiana. Não importa que a Humanidade se conserve de olhos fechados e ouvidos tapados para os fatos que mais lhe interessaria conhecer.

            Pobre Humanidade! Ela sofre tanto! A fome, o medo, as paixões, a ignorância a enlouquecem, e não lhe deixam calma para meditar um momento sobre si mesma, sobre seu porvir.

            Ela não é livre; é governada,  escravizada, torturada pelas suas próprias criações de tempos bárbaros. Pertence ao Estado, e faz a guerra que detesta, porque o Estado lhe impõe. Pertence às organizações econômicas e se apavora diante do espectro da fome que a ameaça. Teme a vida e teme a morte, o nada ou o inferno.

            Corre louca em busca de sensações que a levem a esquecer seu desespero. Quer ser compreendida e justifica-se a cada passo, porque teme os juízos alheios. Teme o presente e o futuro e desconhece o passado.           

            Não pode ainda estudar a Codificação e conhecer o grandioso porvir que a aguarda. É pequeno, muito limitado o número de pessoas que já se libertaram parcialmente das aflições ambientes para estudar e viver a Codificação. Quem ganha terreno mais rapidamente é o Materialismo, porque vivemos dentro das mais cruéis realidades materiais.

            Mas o tempo não importa. O eclipse pode ser longo. Depois ressurgirá o sol da Verdade, para brilhar e iluminar eternamente a Humanidade redimida do futuro.

            A Codificação nos prova primeiramente a continuidade da vida, as possibilidades de intercâmbio entre os vivos e os supostos mortos, e o prova com uma pirâmide imensa de fatos inabaláveis. Depois nos ensina os processos de conquistarmos a paz, a harmonia, a felicidade aquém e além da morte do corpo. E tudo ela nos prova sempre sobre a base dos fatos estudados, comparados, controlados com rigor perfeitamente científico.

            Demonstra-nos a lei das encarnações sucessivas e a responsabilidade que temos em preparar para nós mesmos encarnações felizes ou desditosas.

            Revela-nos a assistência permanente que podemos receber de seres mais sábios e melhores do que nós, desde que afinemos com eles os nossos sentimentos para podermos captar lhes as inspirações. 

            Esclarece-nos sobre a consoladora verdade da salvação universal e a continuidade do amor através das mundos e dos evos, como lei de atração universal que une os seres e os mundos na mais bela harmonia.

            A Codificação, formando a Terceira Revelação, parte dos fatos materiais para conduzir-nos em ascensão aos páramos do mais puro idealismo.

            Ela nos esclarece sobre todos os acontecimentos da História passada e presente e justifica todos os acontecimentos, conduzindo-nos assim a tudo perdoar e a tudo amar.

            Mostra-nos já redimidos pela dor os maiores monstros da antiguidade e nos ensina a amar igualmente a Jesus, Judas, Barrabás, Herodes, Pilatos e Caifás; porque todos eles já venceram e se acham em nossa frente, mais úteis e mais felizes do que nós.

            Antes do triunfo da Era Kardequiana a pobre Humanidade terá que vencer duras provas, fazer muitas reformas penosas em suas organizações já bárbaras e antiquadas. Tais reformas custarão muita dor, mas hão de preparar o mundo para a harmonia, a beleza, o amor, a justiça, para o triunfo em toda a sua plenitude da Religião em suas novas formas. Virá a Religião do Amor Universal a todos os seres, encarnados e livres, na Terra e nas Esferas superiores.

            Tudo poderá passar, mas a Era Kardequiana será inevitável, porque ela se funda sobre fatos eternos e universais que se repetirão sempre até despertar os corações de pedra.

            Nossas comemorações do Primeiro Centenário da Codificação fornecerão o ensejo de examinarmos as realizações de um século e planejarmos o trabalho que nos cumpre fazer no futuro milênio. Em cada século a Humanidade estará mais bem aparelhada para compreender e pôr em prática a Codificação.

Ismael Gomes Braga


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