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terça-feira, 24 de março de 2015

Espiritismo e Espíritas

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Espiritismo
e Espíritas

Martins Peralva

Reformador (FEB) Fev 1962

            Qualquer movimento que possa constituir ameaça à integridade doutrinária e moral do Espiritismo encontra sempre os espíritas unidos, coesos, pensando em termos de homogeneidade, firmes, afinal, na defesa e na preservação dos seus augustos princípios.

            Toda vez que irmãos nossos, operosos e cultos e de cuja boa intenção e bons propósitos não temos o direito de duvidar, tentam introduzir na seara espírita certas inovações que estão em desacordo com os seus fundamentos, que, para todos nós, devem ter um sentido sagrado, porque divino, inclusive procurando misturar dois ingredientes que reputamos inconciliáveis, incompatíveis - Espiritismo e Política - a reação se faz, pronta, inevitável, imediata.

            Allan Kardec e quantos lhe seguem a orientação superior, sábia e ponderada, bem assim os legítimos Instrutores da Vida Mais Alta, são incansáveis em reiteradas afirmativas de que o Espiritismo é movimento espiritual.

            Doutrina essencialmente espiritualizante.

            O insigne mestre lionês define-o por filosofia que estuda as leis que regem o intercâmbio entre o mundo físico e o extra físico.

            Amigos espirituais categorizados conceituam-no como revelação divina para a renovação fundamental dos homens.

            Obreiros do campo terrestre, encarnados, apontam-no como doutrina iluminativa, destinada a encaminhar as criaturas para o Bem, para a Moral, para a Cultura superior, para os misteres da Fraternidade.

            Léon Denis declara que o Espiritismo abre perspectivas novas à Humanidade, iniciando-a nos mistérios da vida futura e do mundo invisível.

            Apesar disso, de vez em quando despontam iniciativas, que pessoalmente consideramos menos inspiradas, insinuando movimentos não só desnecessários, mas, sobretudo, inconvenientes, por sua manifesta e inequívoca incompatibilidade com o espírito da Doutrina.

            Tais iniciativas, esposadas, via de regra, por minoria aritmeticamente inexpressiva, são fatalmente rechaçadas, pelo menos assim o têm sido até hoje, nada restando aos seus propugnadores senão o retraimento, não sabemos nós se em recuo estratégico ou definitivo.

            Toda a família espírita levanta-se, altaneira e esclarecida, consciente e firme, para a decidida reação que repercute, vigorosa, por todos os rincões da Pátria do Evangelho.

            E a iniciativa, muita vez convertida em teses, é unanimemente rejeitada em congressos, concentrações, etc.

*

            Nessas horas de extrema gravidade para o Espiritismo e de indisfarçável responsabilidade para os espíritas, todos se unem.

            Todos se entendem, se harmonizam, se articulam para a negação in limine da ideia. A família espírita brasileira se manifesta como se fora uma orquestra muito bem ensaiada, onde cada músico, sob a batuta do maestro, desempenha o seu papel com engenho e arte, com aprumo e beleza.

            A orquestra é a Codificação, austera e respeitável.

            O maestro é Allan Kardec, o inconfundível discípulo de Nosso Senhor Jesus-Cristo. Os músicos somos nós, os espíritas, herdeiros do magnífico patrimônio.

            Numerosos companheiros comparecem às tribunas ou escrevem crônicas e artigos, moderados mas incisivos, nos quais proclamam, alto e bom som, que o Espiritismo e as instituições espíritas devem ficar à margem das organizações políticas, fora das atribuições  que competem a César, afastados de atividades que se não integram no corpo da Doutrina.

            A função do Espiritismo e dos Centros Espíritas é encaminhar as criaturas para Deus. Educá-las para a vida superior.

            Amparar-lhes o coração nas provas rudes, nos sofrimentos morais e físicos.

            Esclarecê-las, afinal, convenientemente, com base no Evangelho do Mestre, a fim de que possam elas dirigir seus próprios passos; proceder corretamente; disciplinar os sentimentos; conduzir-se dignamente na sociedade inclusive na esfera das atividades políticas.

*

            Em hipótese alguma devemos colaborar para a aproximação do Espiritismo com a Política, o que, a nosso ver, poderia representar um começo, sutil é bem verdade, de constantinização da Doutrina.

            Qualquer tentativa nesse sentido, agora ou mais tarde, deverá encontrar a coletividade espírita em posição de alerta, em fraterna observação.

            Movimentos dessa natureza, objetivando o matrimônio de elementos tão opostos, caracteristicamente antagônicos, deverão encontrar a família espírita sempre unida, solidamente congregada, não para condenar ou ferir o irmão que os aceita, mas, sim, para, estreitando-o ao peito, reconduzi-lo amorosamente ao pensamento justo, ao raciocínio adequado.

            Nessas horas, sabem os espíritas entender-se.

            Calam-se, de improviso, os pruridos pessoais.

            Cessam as divergências.

            Dissipam-se possíveis mal-entendidos, olvidam-se diversidades de interpretação doutrinária.

            Formam um só bloco, expressam um só pensamento, tomam a mesma atitude, o espírita religioso, o filosófico, o científico.

            Allan Kardec é o denominador comum.

            Jesus-Cristo é o Supremo Guia.

            Erguem a voz, todos, do Norte e do Sul, do Leste e do Oeste, para o não definitivo, embora fraterno.

            E completam: No Espiritismo não deve haver, jamais, lugar para movimentos que se assemelhem a ligas eleitorais.

            A Doutrina, que o missionário de Lyon codificou, sob o comando e supervisão dos Espíritos Superiores, prepostos do Cristo, é, substancialmente, de libertação individual.

            Sua finalidade, precípua, inconfundível, é quebrar os grilhões da ignorância e do atraso moral da Humanidade terrestre.

            Seu objetivo, indisfarçável, é destruir o formalismo, em qualquer de suas expressões e significados.

            O papel da Doutrina Espírita é operar, junto à inteligência e ao coração das criaturas humanas, no sentido de reconduzi-las ao Pai, pela superação de suas fraquezas.

*

            Aquele que deseje participar de atividades políticas, que o faça como cidadão comum, com a sua inteira e exclusiva responsabilidade pessoal.

            Todo brasileiro, inclusive o espírita, tem o dever de votar e o direito de ser votado. Dever e direito absolutamente pacíficos, porque constitucionais.

            Que exerça, no entanto, esse dever, e desfrute, igualmente, desse direito, por sua conta e risco.

            Filie-se ao partido que mais lhe convier, porém exclua o Espiritismo e suas instituições de qualquer participação no assunto.

            Inegavelmente, temos admiráveis companheiros em atividades parlamentares, nos âmbitos federal, estadual e municipal, nas quais ressalte-se, a bem da verdade - se comportam com dignidade, com bravura moral e com decência.

            Coerentes e sinceros no testemunho da fé espírita-cristã, proclamam-na, corajosamente, sempre que necessário.

            Engrandecem, por seu trabalho, por sua conduta, por seu idealismo em prol das causas nobres, o ideal que cultivam; todavia, nem por isso representam as instituições, nem traduzem o pensamento do Espiritismo, que é impessoal, divino, transcendente, sobrepondo-se, destarte, a pessoas, partidos e acontecimentos.

            Convém não confundir Espiritismo com espíritas.

            Assim sendo, não devem vicejar entre nós movimentos que visem, sutilmente, a comprometer a Doutrina Espírita.

*

            A autoridade moral de uma religião - é interessante nunca esquecer esta verdade histórica! - está na razão direta do seu distanciamento das vantagens humanas.

            Sua respeitabilidade é tanto maior quanto maior for a sua desvinculação dos interesses meramente terrestres, transitórios e perecíveis, em sua feição política ou financeira.

            Seu acatamento é tanto maior quanto mais ausente venha ela a encontrar-se dos banquetes de César.

            Essa autoridade, essa respeitabilidade e esse acatamento começariam a decrescer, a declinar, a empobrecer-se, a cadaverizar-se, a decompor-se, à medida que se fossem tornando comuns os interesses, que se tentasse amplexar César e Deus, num conúbio absurdo e detestável, num consórcio tão impossível, no atual estágio evolutivo da Humanidade, quanto a mistura da água ao óleo.

            Semelhante matrimônio - estranho, impossível mesmo de produzir bons frutos - assinalaria na história do Espiritismo uma página realmente lastimável, sob todos os aspectos. Um capítulo não só de angústia e tristeza, de mácula e retrocesso moral, mas, sobretudo, de desvirtuamento, de dissensões, de inevitáveis desavenças geradas pela paixão política, que os prélios eleitorais exacerbam, ampliam, cavando abismos entre os homens.

            Seria o melancólico começo do fim de um movimento espiritualista glorioso e respeitável, austero e acatado, como tem sido o Espiritismo, que há esparzido sobre a Humanidade, num mundo de incertezas e descrenças, de temores e lágrimas, as mais fecundas sementes de consolação e amor, de solidariedade e cultura.

            Seria, finalmente, a conspurcação da água cristalina que a Doutrina Espírita, nestes cento e quatro anos de Codificação, tem ofertado a todos os sedentos do caminho, encaminhando-lhes o pensamento, com segurança e lógica, para elevadas concepções de felicidade e progresso.

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