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quinta-feira, 19 de março de 2015

A Dor é instrumento da lei divina - Parte 4 e final

A dor é
instrumento da lei divina
Parte 4 e Final

Indalício Mendes

Reformador (FEB) Abril 1973


            Deixamos claro, em artigo anterior, pela palavra do douto Emmanuel, que Jesus não veio à Terra como um enviado qualquer, mas como o Grande Enviado, o maior de todos, por ser o Governador do Planeta, cuja criação e desenvolvimento, inclusive o aparecimento e a evolução da vida em suas múltiplas formas, orientou. Os emissários que o precederam deixaram ensinamentos valiosos, proporcionais ao entendimento da humanidade de cada era, foram seus mandatários, incumbidos de aclarar o caminho dos homens, de lhes oferecer oportunidades para crescerem moral e espiritualmente. Mas não lhe foram superiores, nem sequer iguais, embora tais ensinamentos estejam, em muitos pontos, conformes com a essência do Evangelho. Não poderia deixar de ser assim, sendo eles, como o foram, seus enviados. As crenças existentes, os ritos estabelecidos, as interpretações dadas à origem do Homem e à sua vida, assim como ao problema teleológico, diferem, em muitos casos, por haverem sofrido a influência restritiva de pontos de vista humanos e também porque se ressentiram de princípios destinados a atender a conveniências e interesses de grupos religiosos, dogmáticos e prisioneiros do sectarismo, empenhados em assegurar o poder e a sobrevivência de suas "religiões". Verificar-se-á, entretanto, haver uma certa unidade nessa enorme diversidade, porque muitos são os caminhos que levam a Deus, assim como inumeráveis os modos de compreender, assimilar e sentir a Verdade.

            O princípio comum a todas as religiões é o BEM. A finalidade de todas elas é conduzir o homem à felicidade, através do progresso moral e espiritual. Todavia, nada se consegue sem o disciplinamento do caráter do homem, de sua educação, de sua preparação para entender a razão de sua estada na Terra, o motivo de sua vinda e de sua volta ao termo de cada encarnação. A dor é instrumento da Lei Divina e o seu meio de fazer justiça é o Carma, convém repetir. Sendo a Terra um mundo de provas e expiações, nela encontra o Espírito falido, pela oportunidade da reencarnação, o ensejo de trabalhar por seu próprio progresso, colaborando, ao mesmo tempo, para o progresso alheio. "Só a dor, efetivamente, pode consumir e destruir os germes impuros, os fluidos grosseiros que tornam pesado o ser psíquico e lhe retardam a elevação. Considerando este ponto de vista, a doutrina dias reencarnações restabelece a justiça e a harmonia no mundo moralSendo, como é, o mundo regido por leis ordenadoras, pode dar-se que no mundo psíquico só haja desordem e confusão, conforme ressalta da crença humana numa vida única para cada um de nós? A filosofia das vidas sucessivas  vem restabelecer o equilíbrio e mostrar-nos que a mesma ordem admirável se verifica nas duas faces do universo e da vida, que se reúnem e fundem numa unidade perfeita" - pondera Léon Denis, em "O Além e a Sobrevivência do Ser", p. 93. Não há justiça com egoísmo, tanto que, procurando reparar o mal, corrigindo-o, a Lei torna evidente a necessidade do bem, deixando à inteligência humana compreender, a princípio intuitivamente, que não há efeito sem causa e que toda causa traz consigo fatalmente um efeito.

            F. Kastberger apresenta algumas noções gerais do Carma, mostrando que os hindus também creem na existência de outros mundos, para onde são transferidos os Espíritos recalcitrantes e endurecidos, quando não mais lhes for permitido continuar refratários às normas divinas, por haverem esgotado as oportunidades que tiveram para se reabilitarem de erros e infrações graves. Há mundos em que as condições de vida são muito piores do que as da Terra, como outros há, do mesmo modo, bem melhores, mais avançados, para onde se dirigirão os Espíritos redimidos, merecedores, por isto mesmo, de incentivos maiores à continuação de sua marcha ascendente para Deus.

            Tais ideias são perfeitamente aceitáveis pelos espíritas, embora outras, como a metempsicose, por exemplo, não mereçam a sanção da Doutrina dos Espíritos, codificada por Allan Kardec. " ... nós, todos, exceto aquele que foi e será desde e por toda a eternidade, todos fomos, na nossa origem, essência espiritual, princípio de inteligência independente, capaz de raciocínio, Espírito em estado de formação; todos hemos passado por essas metamorfoses, por essas transfigurações e transformações da matéria, para chegarmos à condição de Espírito formado, de inteligência independente, capaz de raciocínio,  com a consciência da sua vontade, das suas faculdades e de seus atos, por efeito do livre arbítrio, condição de criatura independente, livre e responsável. O que voo revelamos não é metempsicose. O que pomos sob os vossos olhos é a lei natural, é a igualdade perante Deus, de tudo o que existe, de tudo que vos pode ferir os sentidos". (1)

            O budismo lamaísta é reencarnacionista e apresenta alguns pontos de contato com o Espiritismo. Acha, no entanto, que "é somente o Carma que sobrevive, e aciona, é o nó, em redor do qual se agrupam os fatores da nova existência, dado que não haja uma consciência propriamente dita que se radicaria numa alma substancial que tampouco existe". (2) A linguagem é confusa e difusa, mas permite inferir que o Carma permanece em ação enquanto o Espírito não se liberta totalmente das responsabilidades contraídas. Nos livros ditados pelo Espírito André Luiz ao nosso Chico Xavier, encontraremos, em linguagem clara e simples, a explicação espírita sobre a mecânica da justiça divina, principalmente em "Ação e Reação". Dada a natureza do assunto, os textos devem ser facilmente compreensíveis. "A missão de André Luiz é ( ... ) a de revelar os tesouros de que somos herdeiroa felizes na Eternidade, riquezas imperecíveis, em cuja posse jamais entraremos sem a imdispensável aquisição de Sabedoria e de Amor"." "A morte a ninguém propiciará passaporte gratuito para a ventura celeste. Nunca promoverá compulsoriamente homens a anjos. Cada criatura transporá essa aduana da eternidade com a exclusiva bagagem do que houver semeado, e aprenderá que a ordem e a hierarquia, a paz do trabalho edificante, são característicos imutáveis da Lei, em toda parte. - Emmanuel." (3)

            Os hindus admitem uma "causalidade retribuidora" - acrescentamos a título 
de complemento ao que dissemos acerca do Carma -, na qual "está radicada a ideia de que a ordem cósmica é simultaneamente uma ordem moral e nessa lei moral todo o fato, palavra e pensamento devem encontrar uma retribuição condigna - a que supõe adequada causalidade que funciona automaticamente como lei cósmico-moral". (4) Estamos concordes com esse pensamento hindu. Mas os tibetanos afirmam que "o Espírito não é um “indivíduo" distinto do corpo que o acompanha. Isso é o que o diferencia da alma, tal como os ocidentais a concebem. O Espírito depende do corpo para sua existência". ( 5 )

             Rejeitamos tal opinião, por considerarmos indiscutível a individualidade do Espírito, da alma, conforma ensina a Doutrina Espírita: "As almas não são senão os Espíritos. Antes de se unir ao corpo, a alma é um dos seres inteligentes que povoam o mundo invisível, os quais temporariamente revestem um invólucro comum para se purificarem e sclarecerem." (6) A frase "o Espírito depende do corpo para sua existência" é inverídica. O Espírito somente depende do corpo para a sua existência material, terrena. É o veículo de que ele se utiliza para poder permanecer no plano físico, desempenhando as funções inerentes à vida neste planeta. Fora disso, porém, o Espírito tem vida independente e imortal. O corpo, sim, não pode prescindir do Espírito para assegurar a sua sobrevivência material. E como matéria está sujeito ao fenômeno a que denominamos morte, que ocorre desde o momento em que o Espírito abandone definitivamente o veículo carnal.

            Para os chineses taoístas, "o homem contém, localizadas em seu corpo, diversas almas, entre elas três almas superiores, os houen, e sete almas inferiores, os p’o. (7) Pela morte do homem, essas diferentes almas se dispersam, sem, entretanto, deixar de existir. Essa opinião é, porém, contestada por outra corrente, que diz ser precisamente tal dispersão a causa da morte... A nossa Doutrina, como se vê, é cristalinamente intuitiva, não tem complexidades, superfluidades, extravagâncias nem absurdos. Os Espíritos superiores nos deram uma síntese prodigiosa, evitando a floresta espessa das dificuldades subjetivas, conservando-se claros, lúcidos, compreensíveis e objetivos. E Allan Kardec mostrou-se à altura da missão que lhe coube, revelando extraordinária capacidade de compreensão e transmissão das mensagens que, depois do seu trabalho codificador, se transformaram na Doutrina que nos ilumina e conforta, que nos esclarece e prepara para a Vida. Por isso, e também por não dispormos de espaço, eximimo-nos de esmiuçar tais doutrinas, embora as respeitemos, pois têm muita coisa de útil. Ficamos com a nossa, que é maravilhosamente simples e perfeita em seu contexto, como inteligível, lógica e perfeita em suas consequências.

            Dispensamo-nos também de examinar a teoria de que os animais estejam sujeitos igualmente à lei cármica, pela razão óbvia de não possuírem o “estado de consciência” que alcança o “livre arbítrio” pelo exercício do qual somos responsáveis pelo que pensamos, dizemos e fazemos. O “livre arbítrio” é apanágio do ser humano, privilégio do seu elevado estágio evolutivo. Nos animais prepondera o instinto, embora eles possuam notória inteligência, principalmente determinadas espécies.mas não podem ser nivelados ao homem, que pensa, reflete, pondera, julga e decide.

(1) J.-B. Roustaing - "Os Quatro Evangelhos", I tomo, pp. 306/7.
(2) F. Kastberger - "Léxico da Filosofia Hindu", p. 143.
(3) André Luiz - "No Mundo Maior", ed. FEB, 1947, p. 9.
(4) F. Kastberger - Ob. cit., p, 14.
(5) A. D. Neel - "Immortalité et Réincarnation", p. 43 (nota).
(6) Allan Kardec - "O livro dos Espíritos", p, 100.

(7) A. D. Neel - Ob. cit., p. 10. 

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