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sexta-feira, 9 de março de 2012

20 'Doutrina e Prática do Espiritismo' por Leopoldo Cirne





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            Ao lado do nome ilustre de Oliver Lodge cumpre colocar o de William Crookes, o eminente físico, a quem se deve, entre outras valiosas descobertas, a do quarto estado da matéria, ou "estado radiante", verdadeira precursor de Roentgen, Curie, etc., e que, solicitado há 45 anos pelo ruído que causavam os inusitados fenômenos, empreendeu em sua própria casa, com a jovem médium Miss Florence Cook, uma série de experiências que o levaram a comprovar, desde a deslocação e movimentos de objetos sem contato, até a completa materialização, tornada célebre, do espirito de Katie King, por ele submetido a várias provas, inclusive a da fotografia.

            "Há quatro anos - disse ele na publicação que fez de tais experiências no QUARTERLY JOURNAL OF SCIENCE, de janeiro 1874 - tive a intenção de consagrar um ou dois meses apenas ao trabalho de me certificar se certos fatos maravilhosos, de que ouvira falar, poderiam resistir à prova de um exame rigoroso. Mas, tendo logo chegado à mesma conclusão, como todo pesquisador imparcial, isto é, de que "ali havia alguma coisa," não podia mais eu, estudante das leis da natureza, me recusar a prosseguir essas pesquisas, qualquer que fosse o ponto a que elas me pudessem conduzir.

                "Foi assim que alguns meses se tornaram em alguns anos e, se eu pudesse dispor de todo o meu tempo, é provável que ainda continuasse tais pesquisas".

            Em setembro de 1898, no discurso que proferiu perante o Congresso da Associação Britânica, teve o ilustre sábio ocasião de se referir às mesmas investigações nos seguintes termos, desfazendo o boato, que adversários gratuitos do Espiritualismo propalavam, de que ele se havia retratado de suas afirmações:

            "Trinta anos se passaram, depois que publiquei as atas das experiências tendentes a mostrar que, fora dos nossos conhecimentos científicos, existe uma força posta em atividade por uma inteligência diversa da inteligência comum a todos os mortais. Nada tenho que retratar dessas experiências e mantenho as minhas verificações já publicadas, podendo mesmo a elas acrescentar ainda muita coisa (1)."

            (1) Ver 'FATOS ESPIRITAS observados por WILLIAM CROOKES e outros sábios', tradução de Oscar d' Argonnel, Livraria da Federação Espírita Brasileira .      

            O grande naturalista inglês Alfredo Russell Wallace, digno emulo de Darwin nas pesquisas da ORIGEM DAS ESPECIES, em que chegou como este, simultaneamente, aos mesmos resultados, sem terem tido entre si nenhuma troca de ideias, foi mais longe nas conclusões que William Crookes.

            Ao fim de muitos anos de estudo e observação, lançou a público a obra MIRACLES AND MODERN SPIRITUALlSM (Os milagres e o moderno Espiritualismo), em que fez intrepidamente a sua profissão de fé espírita, confessando:

            "Eu era tão convencido materialista que não admitia absolutamente a existência espiritual, nem qualquer outro agente do universo além da força e da matéria. Os fatos, entretanto, são coisas pertinazes.
               
                “A minha curiosidade foi primeiramente excitada por alguns fenômenos ligeiros, mas inexplicáveis, que se produziam no seio de uma família amiga; o desejo de saber e o amor à verdade me forçaram a prosseguir as investigações.

            "Os fatos se tornaram cada vez mais positivos, mais variados, cada vez mais distanciados de tudo quanto a ciência moderna ensina e de todas as especulações filosóficas dos nossos dias e venceram-me afinal. Eles me forçaram a aceita-los como fatos, muito antes de eu admitir a sua explicação espiritual; não havia a esse tempo, em meu cérebro, lugar para essa concepção; pouco a pouco o lugar se fez, não por opiniões preconcebidas ou teóricas, mas pela ação contínua de fatos sobre fatos, dos quais ninguém, se poderia desembaraçar de outra maneira (1)."

            (1) Ver FATOS ESPÍRITAS, tradução de Oscar d'Argonnel.

            Tendo assim terminado por aceitar os princípios , a poder de provas documentais, é com incontestável  autoridade que ele afirma em outro lugar (2):

            (2) Léon Denis, No INVISÍVEL, pág.- 384.

            "O Espiritismo está tão bem demonstrado como a lei da gravitação."

            É também dele esta frase, que não tem apenas o valor de um depoimento pessoal, mas que define bem as consequências e o alcance moral desta doutrina para todo aquele que, com sinceridade, adote os seus príncípios:

            "Desde que me tornei espírita, sinto que meu caráter melhora dia a dia."

            Poderíamos encerrar aqui esses testemunhos de notabilidades cientificas em favor do Espiritismo. Como homenagem, porém, à nobre sinceridade com que, a exemplo de tantos outros, terminou por se declarar espírita convicto, ao fim de dezoito anos de sucessivas, posto que intermitentes observações, sentimos o dever de mencionar ainda o nome de Cesar Lombroso, o eminente criminalista, chefe da escola antropológica italiana, que teve a fortuna de transpor os umbrais da eterna pátria, iluminado pela certeza imortalista.  

            É curioso e, ao mesmo tempo, edificante, acompanhar a evolução do seu espírito, desde a obstinada resistência em admitir sequer a possibilidade dos fenômenos, até a aquisição daquela certeza inabalável, prêmio e coroamento lógico de sua perseverante honestidade,

            Ao publicar seu livro PAZZI ED ANOMALI, profundamente imbuído das concepções materialistas, ele foi de extrema severidade a respeito dos espíritas, verberando com rudeza a sua credulidade inconcebível.

            Mas, já em 1891, tendo assistido pela primeira vez, a convite de Ercole Chiaia, a experiência com o médium Eusápia Paladino, em companhia de seus colegas Tamburini, Virgílio, Bianchi e Vizzioli, alienistas como ele, escrevia ao amigo Ernesto Ciolf (1), em data de 25 de junho:

             (1) Ver FATOS ESPÍRITAS, págs. 135.

            "Sinto-me envergonhado e pesaroso de ter combatido com tanta insistência a possibilidade dos fatos espíritas : digo fatos, porque ainda fico oposto à teoria."

            Nessas disposições de espírito, publicava ele, em 12 de março 1892 (2), a narrativa de tais experiências, acompanhada de uma explicação a que a psiquiatria e a neuropatologia emprestavam os principais argumentos, rematando-os contudo por esta advertência:

            (2) Ver LE PROFESSEUR LOMBROSO ET LE SPIRITlSME, versão francesa de artigos publicados no REFORMADOR do mesmo ano editada em folheto, págs. 8 a 16.

            "Estudemos, pois, observemos, como na nevrose, nas convulsões, no hipnotismo, o individuo mais que o fenômeno, e acharemos a explicação deste mais completa e menos maravilhosa do que ao começo parecia. Por enquanto, desconfiemos dessa presumida argúcia, que consiste em ver simuladores por toda parte, e em nos acreditarmos os únicos sábios, ao passo que precisamente essa pretensão nos poderia mergulhar no erro."

            Cinco anos mais tarde, respondendo ao tradutor dos FATOS ESPIRITAS, a que temos feito referência, o qual lhe pedia a opinião sobre tais fatos, era esta a sua linguagem:

            "Respondo-lhe o mesmo - dizia ele - que tenho respondido a muitos outros: que sem duvida os fenômenos espíritas são verdadeiros e que é impossível lhes dar uma interpretação.
                "A ciência fisiológica é absolutamente impotente para isso; mas a ciência humana tem limites bastante restritos.
                "Quem se não riria, há poucos anos, do fenômeno que hoje todos verificam: os raios Roentgen?"

            Era o desmoronamento, lealmente confessado, das suas teorias favoritas em presença desse novo e insuspeitado cIclo da verdade eterna, para cuja investigação começava ele a sentir-se arrastado "como a pedra que rola do alto da montanha", segundo a expressão de que se utilizou numa publicação posterior, até que em novembro de 1906, agradecendo ao professor Vincenzo Tummolo a oferta do livro que este recentemente publicara, SULLE BASI POSITIVE DELLO SPIRITUALlSMO, lhe dizia:

            "Apresento-vos os mais cordiais agradecimentos por vossa estimada carta e pelo importante livro a favor elo Espiritismo, que tivestes a coragem de publicar e no qual acumulastes tanto vigor de lógica e tamanha variedade de fatos, que poderá convencer até os mais  recalcitrantes." E mais adiante: "Eu espero concluir a minha carreira com um estudo em que o vosso interessante e erudito livro me será de grande, auxilio."

            E cumpriu a sua promessa. Ao desencarnar, em 19 de outubro de 1909, deixou no prelo a derradeira obra, RICERCHI SUl FENOMENI IPNOTICI E SPIRITICI, com que encerrava a sua missão na terra, e na qual, fazendo a sua definitiva profissão de fé espírita, referia, entre outros interessantes fenômenos, as sucessivas aparições do espírito de sua mãe, verificadas em sessões com o médium Eusápia Paladino.

            Assim, corno uma grande, luminosa, irresistível avalanche, a verdade espírita, ao começo embrionária, isto é, restringida ao conceito da nossa natureza espiritual e da imortalidade do ego consciente, numa sorte de percurso invertido, tem caminhado, através dos séculos; desde a consciência obscurecida do homem inculto, em forma de instinto, sancionado pelas aparições intermitentes, contemporâneas de todas as idades, até a mente esclarecida dos familiares da ciência, mediante a comprovação de fatos sistematicamente observados. Não tardará que se imponha universalmente a todas as mentalidades, vencendo as derradeiras hesitações do cientificismo negativista e franqueando em todas as almas livre curso às concepções espiritualistas em que se desdobra e que, acerca da vida, do universo e do seu recôndito Autor, dormiram nos santuários da antiguidade, palpitaram nos ensinamentos dos grandes Instrutores, que têm dominado as eminências da história, fulgiram nos atos do mais doce e maior de todos eles - Jesus Cristo - e vieram finalmente a ser derramadas, como uma grande aurora, sobre o mundo pelas vozes anunciadoras dos Espíritos, portadores da Revelação que tem seu nome.

            Estabelecida positivamente a realidade da vida post-mortem, obtida, pelas manifestações dos que a desfrutam, a certeza do universo espiritual que nos rodeia, cumpre fazer aplicação dos ensinos, que nos trazem, à compreensão da vida e do destino humanos, desde os sucessos imediatos e ambientes às suas mais remotas consequências no futuro, relacionando-os com os seus antecedentes no passado.

            É o que nos propomos sucessivamente empreender nos capítulos seguintes.




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