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sexta-feira, 10 de março de 2017

O Espiritismo perante o Evangelho


O Espiritismo ante o Evangelho 
Vinélius di Marco (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Setembro 1959

            Sempre recusamos aceitar a ideia de que o Cristianismo torna o homem abúlico e apático. Isso demonstra desconhecimento ou incompreensão do Evangelho. O que pode tornar o homem desvirilizado mentalmente, despersonalizado e incapaz de atitudes enérgicas são os dogmas criados por aqueles que se fizeram herdeiros das verdades evangélicas, mas as enfurnaram em ocultos arquivos, criando para seu uso um "evangelho" adequado aos fins que tiveram e têm em mira. O que o Evangelho do Cristo faz é tornar o homem mais humano, mais consciente de seus deveres perante os seus semelhantes, tirando-lhe o pendor para as soluções violentas e ensinando-o
a proceder com esclarecida tolerância e maior espírito fraterno. Essa tolerância, porém, não lhe mata no íntimo a energia para profligar erros e faltas, não manda que ele se converta,  por omissão voluntária, em cúmplice de atos ofensivos à dignidade da espécie humana. Ao contrário de ser um código de passividade o Evangelho é um código de sadia atividade.  Percorram-se os textos evangélicos com atenção e procure-se examinar mais fundamente o espírito de seu conteúdo, desprezando o véu da letra, e ver-se-á que foi o Catolicismo quem desnaturou o Evangelho, com uma interpretação diversa, provocada por dogmas estreitos, destinados a obscurecer a mente humana e tornar os homens meros joguetes das ambições do clero.

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            Ouvimos de um engenheiro que o Sermão da Montanha é o hino à humilhação do homem, que aprende a ser conformado e não sente mais o desejo de lutar pelo próprio erguimento, sujeitando-se, sem reação, às vicissitudes, às injustiças, à miséria. Passa a ser na vida uma criatura sem outra aspiração na Terra, senão a de, um dia, gozar no Céu as delícias da bem-aventurança. Sua resignação adquire caráter mórbido e, desta maneira, ele desaparece como homem, curvando-se a todos e a tudo, porque, de outra forma, estará contrariando a vontade de Deus. Assim, vai engrossando a caravana dos místicos, que consideram até que uma topada ou uma dor de cabeça nada mais é do que expressão da vontade de Deus...

            Semelhante raciocínio é, além de absurdo, completamente errado. Foi a Igreja que lançou morbidez em tudo quanto se refere a Jesus. E até hoje prefere apresentá-lo ao mundo como uma vítima inerme da maldade humana, o rosto marcado pelo sofrimento, com o sangue, que flui dos ferimentos provocados pela coroa de espinhos, a correr-lhe tragicamente pela face.

            O Espiritismo é diferente, porque diferente também é a sua interpretação do Evangelho. Quando neste se lê: "Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados . Bem-aventurados os famintos e os sequiosos de justiça, pois serão
saciados. Bem-aventurados os que sofrem perseguição pela justiça, pois que é deles o reino dos céus
" - deve-se compreender, espiriticamente, que o Cristo não está querendo que se adote uma atitude de renúncia à vida. Está consolando o homem, para que ele não se entregue ao desespero, não perca a esperança de ver mitigadas a sua fome e sede de justiça, assim como a certeza de que a justiça humana nem sempre é justa, mas acima dela está a justiça de Deus, que jamais deixa de se fazer sentir. Nem está apregoando as vantagens da miséria, ao afirmar: "Bem-aventurados vós, que sois pobres, porque vosso é o reino dos céus." Quer dizer que os que são pobres não devem entristecer-se com isto, se, infelizmente, não possuem meios de se libertarem da pobreza. Incute neles o bálsamo da serenidade, que é "o reino dos céus" para quem compreende a situação em que se encontra, sem se abismar na desesperação.

            O Sermão da Montanha educa o homem para a vida terrena: "Bem-aventurados os que têm puro o coração", "Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos", "Bem-aventurados os que são misericordiosos", etc... Nada mais é que um método superior do que hoje chamamos "relações humanas"; Nem outro é o fim do Espiritismo senão proporcionar à criatura humana a possibilidade real da auto-reforma. Terá de partir do próprio indivíduo o trabalho árduo do aprimoramento moral, segundo o preceito - "Ajuda-te a ti mesmo, que o céu te ajudará." Que é esta recomendação senão um estímulo ao trabalho à reação da criatura, que não deve esperar por milagres, mas cuidar de resolver por si mesma os problemas que lhe surgirem? "Ajuda-te a ti mesmo”: age, trabalha, tem iniciativa, rompe os liames que te impedem o avanço! “ “Que o céu te ajudará.”- tem fé no esforço que vais realizar. Não significa outra coisa senão - está em "O Evangelho segundo o Espiritismo" - "o princípio da lei do trabalho e, por conseguinte, da lei do progresso, porquanto o progresso é filho do trabalho, visto que este põe em ação as forças da inteligência".

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            Outro argumento falso é o que afirma ser o homem compelido pelo Evangelho à indolência, porque nele está: “Não vos inquieteis por saber onde achareis o que comer para sustento da vossa vida, nem de onde tirareis vestes para cobrir o vosso corpo", etc. Preferimos transcrever o que a respeito ensina "O Evangelho segundo o Espiritismo", livro magistral, onde se encontra a mais racional interpretação dos textos evangélicos: "Interpretadas à letra, estas palavras seriam a negação de toda previdência, de todo trabalho e, conseguintemente, de todo progresso. Com semelhante princípio, o homem se limitaria a esperar passivamente. Suas forças físicas e intelectuais se conservariam inativas. Se tal fora a sua condição normal na Terra, jamais houvera ele saído do estado primitivo e, se dessa condição fizesse ele a sua lei para a atualidade, só lhe caberia viver sem fazer coisa alguma. Não pode ter sido esse o pensamento de Jesus pois estaria em contradição com o que disse, de outras vezes, com as próprias leis da Natureza. Deus criou o homem sem vestes e sem abrigo, mas deu-lhe a inteligência para fabricá-las. Não se deve, portanto, ver, nessas palavras, mais do que uma poética alegoria da Providência, que nunca deixa ao abandono os que nela confiam querendo todavia, que esses, por seu lado, trabalhem. Se ela nem sempre acode com um auxílio material, inspira as idéias com que se encontram os meios de sair da dificuldade.”

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