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domingo, 26 de março de 2017

O Demônio da Dúvida

O demônio da dúvida 
Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB) Julho 1954

            Escreve-nos uma leitora estudiosa, dizendo que não pode compreender suas próprias dúvidas.
            Conhece bem os fenômenos espíritas e sabe que eles são universais e eternos: todos os povos bárbaros e primitivos conheceram tais fenômenos e sobre eles fundaram suas mitologias, suas diversas formas de religião.
            Sabe que esses fenômenos estão relatados na Bíblia, nos Vedas, no Alcorão, em todas as obras fundamentais das grandes religiões, bem como na literatura profana de todos os povos e de todos os tempos.
            Não desconhece que as sessões experimentais de espiritistas e metapsiquistas confirmam sobejamente, com rigoroso controle científico, tudo que as literaturas antigas das religiões e dos poetas afirmam sobre a existência de um mundo espiritual, habitado por seres bons e maus que espelham muito bem as virtudes e defeitos da Humanidade.
            Ela mesma possui faculdades mediúnicas, embora pouco desenvolvidas, que lhe têm prestado relevantes serviços e demonstrado a sobrevivência.
            Não pode duvidar da probidade das pessoas que têm publicado relatos de fenômenos espíritas, porque os depoimentos dessas pessoas se confirmam uns aos outros em escala mundial.
            Observa a concordância planetária dos depoimentos dos Espíritos sobre os pontos fundamentais como a sobrevivência da alma.
            Não encontra nenhuma brecha aberta, dentro da mais rigorosa lógica, para a descrença: sente-se cercada de provas por todos os lados; mas tem, apesar de tudo, momentos de dúvidas atrozes, durante os quais pensa que tudo é ilusão e fantasia e que a morte é o fim de tudo para o ser humano e que só os materialistas têm razão.
            Interroga-nos como se podem explicar essas contradições em seu espírito; como consegue o demônio da dúvida apossar-se dela e fazê-la sofrer pavorosamente?
            Quando se deixa dominar pela descrença, sofre profundamente, porque sente perdidos para sempre os seres bem-amados que a morte já lhe tragou: esposo, filhos, pais, amigos caros que viu partir para sempre.
            Supondo que o assunto possa interessar a outras pessoas que sofrem semelhantes crises de descrença, pareceu-nos conveniente responder à consulta, neste artiguete.
            Todos nós temos faculdades mediúnicas, a capacidade telepática, mais ou menos desenvolvida de receber pensamentos e sentimentos de outras pessoas, sejam estas Espíritos encarnados ou desencarnados. Vivemos cercados de Espíritos sofredores, materialistas, ateus, tanto visíveis como invisíveis, com os quais infelizmente temos afinidade pela nossa condição de Espíritos igualmente atrasados e inferiores.
            Pelos nossos próprios conhecimentos já não podemos duvidar mas há uma verdadeira multidão de pessoas que ainda não possuem os nossos conhecimentos nem procuram esclarecer-se sobre a eternidade da vida. São materialistas
completos e integrais, embora quase sempre nominalmente filiados por tradição a uma igreja espiritualista, como o Judaísmo, o Catolicismo, o Protestantismo. Quer estejam desencarnados, como Espíritos perturbados que não compreendem seu próprio estado, quer ainda encarnados, esses Espíritos emitem pensamentos e sentimentos negativos e que nós recebemos como se fossem nossos.
            Muitos desses Espíritos são cientistas, inteligentes e instruídos em coisas materiais que raciocinam com energia e projetam nas almas alheias suas convicções materialistas.
            A Irmã que nos escreveu viveu sempre cercada de admiradores da sua beleza rutilante e também de mulheres invejosas e ciumentas. Uns e outras pensaram sempre muito nela, de modo material e apaixonado. Só na velhice  veio ela a conhecer o Espiritismo e a criar outra roda de relações mais espiritualistas.     Remeteu-nos uma fotografia antiga, na qual vemos uma jovem belíssima e pomposamente ornamentada.
            A beleza física e a riqueza são provas duríssimas para o Espírito, porque engendram tentações e orgulho. Criar hoje outro mundo mental, espiritualista, eternista, rompendo com as relações do passado, com as atrações e repulsões que inspirou durante decênios, é tarefa difícil, mas necessária. A luta vai ser longa,
mas a velhice ajudará muito a obra da construção do seu futuro sobre as bases sólidas da espiritualidade superior.
            No estudo do Espiritismo vemos outra categoria de pessoas que encontram tremendas dificuldades a vencer e por vezes invencíveis numa encarnação: são os sábios, os professores universitários da ciência oficial materialista.
            Passaram a mocidade lendo e admirando obras de mestres materialistas.   Formaram com seus mestres, colegas e alunos um mundo materialista orgulhoso e fechado ao Espiritismo.  Quando tomam conhecimento dos fenômenos espíritas, estão repletos de preconceitos materialistas e captando inconscientemente, por afinidade, a inspiração de outros materialistas encarnados e desencarnados .
            Uns negam tudo, até os fenômenos mais verificados, e permanecem indiferentes a esse grande ramo de conhecimentos. Outros admitem os fenômenos, como René Sudre, Morselli, Von Schrenck-Notzing, Henry Price, mas negam sua origem espírita e ficam no ar, admitindo as mais absurdas hipóteses naturistas para fugirem da verdade, tão simples e inevitável, que os Espíritos nos ensinam.
            Todas essas pessoas terão longas lutas que se poderão estender por uma série de encarnações; mas a verdade virá a triunfar em suas almas, em seus corações, com a continuidade do estudo e com as mudanças de meio que os Guias saberão empregar sabiamente em beneficio delas e com a repetição sempre crescente do fenômenos que põem em evidência a imortalidade da alma.
            A nossa encantadora missivista já iniciou essa luta; a mudança de meio já começou a processar-se em seu benefício na atual existência; mas ainda conserva o velho hábito de sentir-se superior a toda a gente que a cerca. Falta-lhe ainda a humildade indispensável a sintonizá-la com as esferas mais elevadas e mais felizes do amor divino.
            A jovem bela, rica, inteligente, enérgica e por tudo isto orgulhosa e ousada, vai-se transformando na anciã intelectual, estudiosa, instruída e orgulhosa de sua nova superioridade sobre toda a gente inculta que a cerca.
            Em qualquer de suas formas o orgulho fecha as portas de nossa alma à instrução superior e nos lança nas vibrações inferiores e negativas dos sofredores. Mas na eternidade temos tempo para tudo...


Ismael Gomes Braga

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