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domingo, 26 de março de 2017

Divisionismo e Espiritismo



Divisionismo e Espiritismo 
C.M.
Reformador (FEB) Dezembro 1956



            É comum encontrarmos pessoas bem dotadas de Inteligência e espírito inquisitivo que experimentam dificuldade em aceitar fatos convincentes e comprovados. Ainda há pouco estive lendo um livro escrito por um desses homens inteligentes e de grande cultura humanística. Ele procurava demonstrar, a certa altura, que não existem raças inferiores e, por conseguinte, o mito da superioridade racial é outra tolice. Sua argumentação se desenvolve por páginas e mais páginas, citando, entre outros. o caso do grande negro americano George Washington Carver, que dedicou sua vida e sua inteligência a serviço da Humanidade, descobrindo, além de outras coisas, cerca de 300 aplicações diferentes para um simples produto da terra, o amendoim. Milhares de exemplos semelhantes poderiam ser citados, pois a História está cheia deles. Em nosso próprio país, encontraremos figuras como a de Machado de Assis, de origem humílima, doentio mas iluminado pela fulguração do gênio. Encontraremos José do Patrocínio, dono daquela inteligência magnífica, que tanto fez pelos homens de sua raça. E quantos outros? Nem todos usam seus talentos na direção inequívoca do bem. mas a grande maioria realiza, de um modo ou de outro, as coisas que estavam em seu poder e em sua compreensão realizar. Muitos argumentos poderão ser alinhados contra a teoria absurda e desumana da desigualdade racial.  

            O argumento máximo porém, e irrespondível, é fornecido pela Doutrina Espírita. O corpo branco, negro ou amarelo - é mera vestimenta designada por Deus. Os Espíritos não têm cor, nem nacionalidade, nem raça, nem mesmo religião, tomada no estreito sentido com que nos acostumamos a equacionar esse problema. Sua nacionalidade é universal, sua raça emana do tronco único, da única fonte criadora que é Deus. Sua religião, antes de ser católica, protestante, judaica ou budista é o culto supremo de Deus, a prática permanente da caridade, o exercício constante do amor ao próximo.

            Muitas vezes temos ouvido que todas as religiões são boas e todos os caminhos levam a Deus. Há mais verdade nisso do que se pensa. Mas há também alguma incompreensão. Todos os caminhos, de fato, levam a Deus, porque Ele está sempre no
horizonte, no ponto de convergência de nossas vidas. Para Ele caminhamos todos, só que uns levam mais tempo que outros. Uns conseguem enxergar mais claro as veredas e atravessam logo o espaço que os separa de Deus. Outros se perdem na noite do pecado e do crime e vagueiam desorientados pelos atalhos. Levam muito mais tempo, mas, afinal de contas, que é a fração de tempo de nossas existências terrenas, comparada com o maravilhoso desdobramento da eternidade?

            Todos esses caminhos estão abertos à nossa frente. Nenhuma religião pode arvorar-se em proprietária absoluta da verdade. O proprietário da verdade é Deus e Ele jamais cuidou de fundar religiões. Nem mesmo Jesus-Cristo, seu enviado especial à Terra. preocupou-se em fundar mais uma religião. Basta ler com atenção seus ensinamentos.

            Que dizia ele?

            Que não vinha destruir ou reformar a lei antiga, Vinha reforçá-la. Vinha abrir os olhos dos povos, vinha reavivar nos corações embotados o senso da verdadeira religiosidade.

            No fundo de seu ser, o homem anseia por Deus, como a mais forte de suas necessidades espirituais. Não é o homem que bate no peito e diz Senhor, Senhor, que irá para a glória, dizia o Cristo, mas todo aquele que ouve a palavra de Deus. Quanto aos ritos e fórmulas cabalísticas, não lhos interessavam porque ele sabia, na luminosidade de seu espírito, que os homens estavam dando mais importância às fórmulas que ao conteúdo de sua religiosidade.

            Curar no sábado? Pecado, diziam os ortodoxos. Colher trigo no sábado? Sacrilégio, resmungavam os hipócritas. Mas a palavra de Jesus foi clara e continua clara, dois mil anos depois: o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. Essa frase ainda possui o mesmo significado hoje. As fórmulas não importam, o que importa é a legitimidade do sentimento cristão. Então, deixa-se morrer a criatura humana porque é pecado curar no sábado?

            Ninguém vai para o céu ou para o inferno pelo simples fato de ter praticado esta religião em lugar daquela outra. Na verdade, as grandes religiões do mundo fundamentam-se em princípios gerais, como a prática do bem, a existência de um ente supremo, o aperfeiçoamento moral e espiritual. Se despojar-nos as grandes religiões de suas fórmulas e de seu processamento exterior, veremos que, fundamentalmente, elas têm surpreendentes semelhanças. Um estudo mais profundo talvez revelasse que emanam todas da mesma fonte suprema, embora sob inspiração às vezes diversa.

            O certo seria - e lá chegaremos um dia. - que as religiões vivessem em co-existência harmoniosa, completando-se, trabalhando pelo objetivo comum que é o aperfeiçoamento do Espírito e sua preparação para novos e mais altos desígnios. Há uma tremenda perda de energia nessas questiúnculas e polêmicas teológicas e filosóficas.

            Em vez de se combaterem inutilmente em pura perda de energia deveriam unir-se contra inimigos comuns a todas as religiões - o crime, o erro, a dissolução social, os transviamentos políticos, a cegueira espiritual, o ateísmo. Esse sim é o objetivo das religiões autênticas, dignas do legado espiritual que receberam.

            A diferença entre elas é mais aparente que real. O que as torna antagônicas, por vezes, não é a força que as inspirou e as estabeleceu no plano da Humanidade, mas os homens que vieram depois e se confundiram em interpretações contraditórias da mesma verdade eterna. Quiseram explicar o que já estava explicado. E em explicações de explicações, nos perdemos pelos caminhos.

            A verdade absoluta está certamente mais na singeleza poética dos Evangelhos, que nos rótulos eventualmente adotados pelas di versas interpretações que se chamam religiões.

            Até lá, continuemos nosso trabalho silencioso, despretensioso, sem a preocupação de sermos os únicos proprietários da verdade, porque, do outro lado da vida, sabemos que vamos encontrar junto ao trono de Deus todos os bons católicos, os bons judeus, os bons maometanos, os bons protestantes. Lá estarão também os que em sua passagem pela Terra tiveram peles brancas, pretas, amarelas ou mestiças. Todos os bons Espíritos, enfim, purificados e evoluídos na prática do bem.

            A casa do Senhor tem muitas mansões, dizia o Mestre, Haverá, certamente, lugar para todos os que legitimamente aspirarem à glória e trabalharem para obtê-la.



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