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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Liberdade de Expressão


Liberdade de Expressão
Editorial
Reformador (FEB) Agosto 1974

            Foi a liberdade de expressão que respaldou a Doutrina Espírita, assegurando-lhe a oportunidade de ser conhecida, divulgada, estudada, discutida e aceita. Sem ela, Kardec não teria podido publicar “O Livro dos Espíritos”, nem a “Revue Spirite”; estaria a civilização ainda manietada pelas grilhetas e algemas aquecidas na tirania obscurantista que fez as Cruzadas, a Noite de São Bartolomeu, a Inquisição, o Auto-de-fé de Barcelona. Foi a liberdade de expressão que plantou as sapatas do movimento enciclopedista, erguendo às alturas da igualdade e da fraternidade o edifício majestoso da Declaração dos Direitos Humanos! Foi ainda ela que deu asas à egéria castro-alvense, no audacioso voo do homem feito condor! Ela fez a Independência do Brasil, fez a Abolição, fez a República, fez a redemocratização do após-guerra. É aqui também que se há de medir o diâmetro da esférica grandeza da liberdade de imprensa. Andam mal inspirados os que pretendem arbitrar quanto se deve informar aos espíritas, sob a alegação de que os fatos, por contraditórios, criam fricção e divisão. Ora, Kardec sempre pautou seus atos pelo critério oposto. A “Revue Spirite” foi veículo de todas as críticas, apreciações, comunicados, reprimendas, advertências, réplicas, enfim, de quaisquer assuntos alusivos à Doutrina. Nem podia ser outro o procedimento do Codificador, que ofereceu ao mundo exatamente as luzernas que clarificariam os desvãos difusos onde até hoje se encapuzam os que se arrogam a posse exclusiva da verdade, criadores dos índices, dos mistérios, dos conciliábulos ou das conversas e resoluções intramuros. Kardec abordou com coragem e desassombro todos os fatos, bons ou maus. Deve-se seguir lhe o exemplo, nessa indisfarçável comunhão com as virtudes da liberdade de expressão. Os espíritas têm
o direito de saber tudo, desde que se não invada a vida íntima de ninguém. São eles, afinal, a razão do movimento e não teria sentido serem arrastados como carneiros, reservando-se o exame dos seus problemas e as decisões que eles impliquem às discussões de campanário, debatidas apenas “sous Ia coupole” (sob a cúpula), Esse critério recriaria uma sistemática esotérica ou iniciática, dentro do mais novo e requintado “esprit de clocher”(estreiteza de espírito). A pretexto de evitar dissensões - que, se existentes, não se volatilizarão com o silêncio das lideranças -, intenta-se ocultar à opinião pública a realidade do que se passa.

            A luz da conceituação hegeliana, que é de citar, “a liberdade é anulada tanto em quem a destrói noutrem, quanto nos que não a possuem”. E, no campo específico da imprensa, vale recordar o pensamento do jornalista norte-americano James Gordon Bennett, fundador do “New York Herald” e o primeiro a empregar o telégrafo para o noticiário jornalístico: “Um jornal pode mandar mais almas para o céu e mais salvar do inferno do que todas as igrejas e capelas de Nova York.” Na verdade, foi o que fez a “Revue Spirite”, para não falar em honra própria e não citar a mais antiga revista espírita do Brasil... Por isso mesmo, na quadra limitada do movimento espírita (que é a semente da civilização futura), a Casa-Máter faz questão de respeitar a opinião de todas as publicações especializadas que se editam dentro e fora do país, não poucas delas posicionadas em frontal hostilidade à sua linha. É, porém, desse caldo de cultura, vivificado pelas expressões divergentes, antagônicas, conflitantes, que germinará a opção racionalizada e raciocinada, forjadora duma opinião pública abalizada, adulta, responsável, livre. Nenhuma instituição, talvez, tenha mais autoridade do que a FEB para clamar por tão legítima liberdade. Vigorosamente criticada, combatida, injustiçada durante longos anos, nem por isso se permite a infelicidade maior da tola pretensão de impedir tais manifestações, ainda que para isso tivesse algum poder. Graças a Deus não o tem, salvo o de reivindicar o dever de nada ocultar ao público do seu órgão oficial, dentre outras razões, pelo respeito que lhe tem.
           
            Quando o Cristo chegou a Jerusalém para pregar abertamente a Boa Nova, despreocupado de agradar ou desagradar seja a quem for, os príncipes e fariseus se irritaram com a aclamação dos seus discípulos e exigiram do Messias que fizesse calar a multidão. Mas ele definiu para a eternidade o valor e o poder das verdades insopitáveis, acentuando a inutilidade das mordaças:


            “Ainda que se calem, as próprias pedras clamarão pelos caminhos ...” 

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