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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A Palavra de Bittencourt Sampaio - 1


Vozes do Infinito...
Bittencourt Sampaio (Esp.)
Página recebida no Grupo Ismael, da FEB, em 19--11-1914 
publicada em Reformador (FEB) em 16-12-1914

(Bittencourt Sampaio nasceu em 1º de fevereiro de 1834 
e desencarnou no Rio de Janeiro em 10 de outubro de 1895,
Homem público de grande projeção ao tempo do Segundo Reinado,
foi presidente da então província do Espírito Santo e diretor da Biblioteca Nacional.
Co-fundador do Grupo Espírita Fraternidade junto com Antônio Luís Sayão 
e o médium Frederico Júnior. Notável médium curador.
Publicou a obra "Jesus perante a Cristandade" e "De Jesus para a Criança", entre outras.
Destacou-se ainda como médium receitista, ou seja, receitava homeopatia sob inspiração mediúnica.)


Salve, caros amigos.
            Só a misericórdia de Deus é capaz de tranquilizar o mundo e dar calma aos espíritos violentamente sacudidos em todos os sentidos pelo formidável tufão das paixões humanas.
            Que atmosfera irrespirável, capaz até de asfixiar os próprios espíritos!
            Que caos horrendo, formado pelo choro, os gemidos e os gritos lancinantes daqueles que ruem nesta hecatombe formidável!
            Outrora, quando hecatombes semelhantes avassalavam as cidades e os países, diziam os antigos: "É a cólera de Deus!"
            Correm os séculos, caminha a civilização e progridem os espíritos, cientificamente falando; mas, pelo seu desejo de saber, pelo seu orgulho desmedido e pela sua vaidade
incontida, abafam os sentimentos mais nobres e mais dignos, a caridade e a fé, únicos capazes de fazer a felicidade de suas almas.
            Esquecem-se eles de que todos tem um destino, que é velado pelos Espíritos prepostos.
            Não se pode mais empregar a cólera de Deus segundo o sentido das gentes daqueles tempos. Dizemos hoje: a lei das provas; lei que atinge as individualidades, como as
coletividades e os mundos, como todo o Universo.
            E dentro de tudo isso, nesse turbilhão infernal destaca-se sempre o fator dessas calamidades, o espírito humano.
            Ouço a cada instante dizer-se: Para quem apelar?
            Como remediar este mal e restabelecer o equilíbrio na sociedade? Como conciliar os grandes interesses em jogo?
            A alguns tenho respondido por intuição: Implantando na terra o reinado da fraternidade. Vou mais além. Alguns me perguntam o que é a fraternidade. E eu respondo-lhes: fraternidade resume-se nos dois grandes mandamentos da Lei, que vos esquecestes de praticar: amar a Deus sobre todas as coisas; amar ao próximo como a si mesmo.
            Eis a tarefa máxima do espírita, do homem moderno e do representante desse edifício carcomido pela ação do tempo, que tudo destrói - menos as verdades divinas -, mas sim do portador da paz e da fraternidade no meio de seus irmãos, espalhando entre eles, a mancheias, a misericórdia que o Criador, em catadupas, diariamente lhes prodigaliza.
            O que vos digo aqui, amigos e velhos companheiros, neste recanto, nesta pequena oficina, dentro em breve será dito nas praças públicas.
            Se para o espírita convergem os ódios e as paixões dos infelizes que não querem enxergar a luz divina e que debalde procuram por todos os meios destruir o homem,
julgando que por essa forma destroem a idéia, é que esses infelizes são loucos!
            Por outro lado, o espírita deve sentir-se satisfeito quando tem cumprido o seu dever, porque sabe que não é mais do que mero representante ou intérprete da vontade de Deus, que procura fazer, dos coxos e estropiados, discípulos do seu amado filho, e, portanto, arautos da verdade.
            Em uma parte do planeta, na velha Europa, o sangue corre a jorros, os gemidos formam coro infernal, o ambiente não se pode respirar; as belezas daqueles céus desapareceram. Faz meses que o Sol não brilha naquelas paragens, como que dando uma demonstração de sua grande tristeza.
            Campos devastados, atividades perdidas; em suma: horrores sobre horrores!
            No outro lado, no outro canto do planeta, ouvem-se cantos sonoros e as harmonias deliciosas, como que desferidas por instrumentos mágicos, e os hinos de glórias, como demonstrando alegrias eternas. Os campos como que dormem esperando ocasião oportuna para que a atividade humana os vá acordar.
            Não se fala em guerra nem dela se cogita.
            Há uma ânsia natural de procurar o caminho da verdade. Embora sacudido se ache esse torrão pelas paixões políticas, que em parte avassalam esse mesmo povo, ainda assim é nesse torrão que está plantado o estandarte da Cruz. Ela chama-se Brasil.
            Para aqui concorrem os olhares e as atenções daqueles que procuram se evadir ou evitar os horrores da grande calamidade.
            Vede, pois, espíritas e caros amigos, quanta responsabilidade pesa sobre aqueles
que dirigem a propagação do Espiritismo na vossa terra.
            É preciso tomar a sério esse compromisso.
            Eu desejo vos ter a postos, custe o que custar. Desejo trocar idéia convosco todas as vezes que for possível e tudo farei quanto ao meu alcance estiver porque devemos contar
sempre com a misericórdia de Deus para atender a todas as nossas solicitações, procurando tanto quanto possível dissipar as dúvidas dos nossos espíritos.
            Penso, por esta forma, ter respondido às interrogações que constantemente vejo formadas em vossos espíritos, e vos peço, então, tenhais paciência. Esperai um pouco, estou esboçando a minha estátua. 1
            Apanhei um madeiro tosco e preciso fazer dele alguma coisa.
            Tenho fé em Deus e Jesus que havemos de conseguir o que desejamos.
            E para esse desideratum conto também convosco.
            Agora, prossigamos nos nossos trabalhos de hoje."

Bittencourt

(1) O Espírito em comunicação refere-se ao médium que por ele está sendo desenvolvido.



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