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domingo, 5 de abril de 2020

Allan Kardec



Allan Kardec
Editorial  
Reformador (FEB) 3 Outubro 1929

            Quando surgiram as primeiras obras de Allan Kardec, foram saudadas com a risota universal.

            Dir-se-ia que o humorismo francês, que pouco depois contagiava todas as outras partes do mundo, afogaria para sempre aqueles trabalhos que o Mestre, apresentava aos pósteros, como provenientes do Além. 

            E toda a gente ria. Nada havia que provocasse melhor o chiste, que desencadeasse o bon mot do que a ideia de que pudéssemos conversar com os mortos. Ora! Allan Kardec tinha a coragem inaudita de apresentar todo um código de moral e afirmava severamente, que os mortos é que lh'o haviam ditado.

            Ninguém podia conter-se, diante de tais afirmativas.

            E o mundo ria.

            Mas os tempos se passavam e as obras de Kardec não ficavam esquecidas nas prateleiras dos editores. Muito pejo contrário, as edições se esgotavam e se multiplicavam.

            E o mundo já não ria. E foram aumentando os que procuravam sofregamente aquelas páginas e nelas encontravam a explicação para os problemas do ser, do destino, da dor; o lenitivo para as mágoas, o esclarecimento das coisas do passado, a fé nas amarguras do presente, a confiança nos dias do futuro.

            A obra de Allan Kardec era traduzida em vários idiomas e se espalhava por toda a parte; cresceu, avolumou, espraiou-se a onda dos crentes e o Espiritismo plantou o seu lábaro sobre todos os cantos da terra.

            Tal o destino das obras que vêm de Deus!

            Hoje, a humanidade já não ri. Poucos são os que, descuidados e inconscientes, gracejam com assuntos de tal magnitude.

            A humanidade hoje chora. Chora as faltas cometidas no transcurso dos tempos; chora pelos dias que perdeu na ingratidão, na maldade, na injustiça, nas iniquidades do mundo; chora por ter desconhecido o Pai na sua misericórdia, por o ter injuriado, conspurcando os ensinamentos que Ele nos vem ditando por seus missionários; chora por não ter ouvido o conselho dos guias; chora por haver desprezado toda a riqueza de que dispusera - a riqueza do Espírito; chora por haver trocado essa riqueza pelos tristes ouropéis dos gozos mundanos.

            No meio, porém, dessas lágrimas de arrependimento, alguma coisa existe capaz de trazer a todos o bálsamo da fé e da esperança: são esses marcos que Allan Kardec plantou nos campos dos nossos destinos.

            Nesses campos intérminos, cujo princípio nossas vistas curtas não podem descortinar e em cujos horizontes se notam os clarões da redenção eterna, há um marco maior que todos e nele se lê o emblema que nos deve guiar sempre, sem nos deixar cair em meio da estrada, ou parar à borda do caminho. Esse emblema é o que se inscreve no pórtico do grande templo de Amor erigido pejo Espiritismo:

            “- Fora da caridade não há salvação.”

            Léon Hypolite Dénisard Rivail, que adotou o nome de Allan Kardec, ouviu pela primeira vez falar em mesas girantes no ano de 1854.

            Como toda gente, ele não acreditava que os Espíritos pudessem comunicar-se conosco.

            Começou, porém, a estudar os fatos, seguindo desta arte os sábios ensinamentos de S. Paulo, que mandava examinar tudo.

            Por algumas vezes, depois de já haver iniciado os seus estudos, tinha ímpetos de abandoná-los,

            Assaltava lhe o desânimo com que muitas vezes são experimentados os homens da melhor têmpera.

            Sustinham-no, porém, os Espíritos; davam-lhe coragem os companheiros da terra, como Carlotti, Taillandier, Manthèse, Sardou, Didier.

            E o Mestre continuava no seu fecundo labor, sem imaginar, mesmo, a grande revolução que aquele trabalho viria produzir nas ideias dos homens.

            E assim, a 18 de Abril de 1857, surgiu o seu primeiro livro, que tantos comentários teria de provocar, que tanta celeuma vinha produzir, que enormes diatribes deveria desencadear.

            Esse livro foi o Livro dos Espíritos.

            Ele vinha perturbar as consciências, destruir os dogmas, abalar os conhecimentos, derruir velhas teorias, reformar a moral, explicar os Evangelhos.

            Era bem uma revolução na filosofia, na religião e na ciência.

            Essa revolução não se poderia fazer sem levantar grandes protestos, ataques, insultos; ela fez erguer-se a maior campanha espiritual que já se tem visto.

            Mas não há reforma sem convulsões profundas. Hoje, todos os que pensam, todos os que sofrem e todos os que amam abençoam aquele que foi escolhido por Deus para trazer à face da Terra a Terceira Revelação.

sábado, 4 de abril de 2020

Surto do Espiritismo



Surto do Espiritismo
Arlindo Collaço
Reformador (FEB) 3 Outubro 1929

            Com justa razão se pode dizer que a melhor e maior propaganda do Espiritismo é feita pelos fatos.

            A sua enorme extensão pode ser explicada pela circunstância de nenhuma outra religião ter produzido fatos semelhantes aos seus, no terreno das curas e dos fenômenos psíquicos que são os seus predicados e o meio de sua dupla difusão, patrocinada pelos invisíveis.

            Os fatos estão bem registrados por sábios eminentes.

            Já não é justo duvidar-se de que o Espiritismo se propaga quotidianamente, tanto nas classes incultas, onde predominam a inteligência simples e retas, como nas elevadas, onde existem os homens de maior cultura.

            Pelo crescente número de adeptos todo os dias ingressados em seu campo, pode dizer-se, sem temor de contradita, que cada um deles vem do catolicismo (quase sempre); portanto, é um de menos nesse campo.

            Sem dogmas, sem ritos, porém com o braço forte dos fatos, à nova doutrina vem altissonante trazer o seu penhor de verdade à humanidade já cansada de tantas crenças caducas,

            Acaba agora de entrar nos arraiais das academias, com grande êxito, de lá vicejando pelo mundo, qual flor olorosa sobre as ruínas do materialismo agonizante.

            É maravilhoso, nesta época, ver o seu rápido progresso não obstante a coação, de um lado, dos semi sábios (isto é, dos de pouca ciência) dos quais o mundo atual é composto, e, do outro lado, a forte corrente dos interesses pecuniários em ação.

            Nada é mais impressionante; os dois gladiadores estão na arena, de gládio em punho. A quem caberá vitória? Não há dúvida: a verdade triunfa sempre.

            Os Victor Hugo, os Vacquerie, os Michelet hão de vir.

            Alerta! Alerta, pois, espíritas, mãos à charrua, sem olhar para trás. O futuro aí vem e com ele a vitória da doutrina de que A. Kardec for o missionário.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

A inexistência do inferno



A inexistência do inferno
Oswaldo Mello
Reformador (FEB) Setembro 1929


            Em “O Estado”, um dos diários de Florianópolis, número de 23 de Julho último, publicou o nosso estimado confrade Oswaldo Mello, presidente ali do Centro Espírita “Amor e Humildade do Apóstolo”, sob o título acima, o artigo que se vai ler, como resposta a um sermão pregado na catedral daquela cidade, pelo respectivo arcebispo, e divulgado, com retumbância, pelo “República”, outro diário da mesma capital.
                Transcrevendo-a nestas colunas, aliás, muito prazerosamente, o que pretendemos sobretudo, não é exalçar o bom trabalho do nosso confrade, nem o novo serviço que assim prestou à causa da verdade, porém, antes, evidenciar, ainda uma vez, quanto de mais em mais difícil se vai tornando, ao romanismo, sustentar os seus dogmas, com apoio na “letra que mata”, desde que haja de defrontar-se com a inteligência, em espírito e verdade, das palavras do divino Mestre, palavras que Ele próprio o disse, são espírito e vida e que, portanto, não podem valer para exprimir condenação e morte.

                É este o artigo:

            Não sei se haverá necessidade de fazer sentir, aqui, a todos quantos vão ler estas linhas, que elas são uma resposta, ao “pé da letra”, ao sermão do sr. arcebispo, pronunciado na catedral desta cidade e veiculado pelo “República”, na sua primeira página, em duas colunas, a 20 e 21 do corrente, S. Reverendíssima pregou a existência do inferno, firmando-se, como sempre, na “letra”, que é “morta”; eu provarei a inexistência desse inferno, tirando da letra “o espírito que vivifica”.

            E o faço, não pelo prazer de provocar uma polêmica; mas, tão somente, porque s. revdma, naquele sermão que fez publicar, e referiu, embora à pressa, a “supostas reencarnações”, falseando o verdadeiro sentido dessa lei divina e confundindo reencarnação com “castigo de Deus”, coisa que, por não ser verdade, não pode passar, assim, sem que se lhe ponham os pingos nos iis. Além disso, pensando S. revdma, que “em terra de cegos quem tem um olho é rei, cita, do Livro dos Espíritos (13ª edição, em português, p. 405) a resposta que um Espírito dá a quem o interroga, sobre as supostas “penas eternas”. E cita um trecho da resposta: “Porém a mais horrível consiste em pensarem que estão condenados sem remissão.” S. revdma. grifou quase tudo, só não grifou aquele “pensarem”. E, concluindo sua lógica, remata assim: “Além disso, quem mais insuspeito para julgar da justiça ou injustiça das penas do inferno, do que os próprios réprobos que lá estão e tiveram ensejo de manifestar-se?”

            Desse baralhar de ideias esdrúxulas e descompassadas resulta, pelo menos, que essa história de que aqueles que para o inferno entram não saem mais e lá ficam per secula seculorum, não passa de uma ficção, porque, se os condenados, aos quais S. revdma. chama cristãmente de réprobos, têm ensejo de se manifestar, é porque não ficam lá “eternamente.” São palavras de S. revdma. e não minhas, graças a Deus. Deixemos, entretanto, tais considerações, para tratar do assunto com mais clareza.

            O inferno pregado pelo Sr. arcebispo, se existisse, seria a negação completa da tão apregoada infinita misericórdia de Deus. Os pagãos tiveram os seus infernos, ora no tonel das Danaídes, ora na roda de Íxion, e, mesmo, no rochedo de Sísifo. O inferno católico ultrapassa todos aqueles pela perversidade e pelas torturas que comporta, em nome de uma Misericórdia e de um Amor que sabemos Perfeitos.

            Já na própria Bíblia encontramos, em Ezequiel, cap. XXXIII, v. 2, o seguinte: “Dizei-lhes estas palavras: Eu juro por mim mesmo que não quero a morte do ímpio, mas que o ímpio se converta, que abandone o mal caminho e que viva.”

            S. revdma fala em Geena e dá dois sentidos, para que se apliquem à palavra.         
            Geena, como qualquer pessoa de mediana cultura sabe, era um jorrar nos arredores de Jerusalém, um monturo onde se despejavam as imundícies da cidade. Era, assim, uma daquelas figuras fortes de que se valia Jesus, no seu tempo para impressionar as massas.

            Uma Geena espiritual, como a entende o Sr. Arcebispo?

            Ela existe dentro da consciência de cada um daqueles que erram, porque o inferno não é outra coisa, senão a consciência do mal e as torturas morais que daí advém.

            O que acontece, porém, como diz o Livro dos Espíritos, citado muito mal pelo arcebispo, é que esses Espíritos, que acreditaram no inferno e que, desconhecendo o seu estado de Espíritos, sofrem a consequência de seus erros, julgam ou pensam que estão, verdadeiramente, suportando os suplícios de que lhes haviam falado na Terra.

            As passagens citadas do Evangelho pelo Sr. arcebispo foram por ele mesmo interpretadas à letra.

            Ora, Jesus disse positivamente – “Minhas palavras são espírito e vida.” Necessitamos entender, assim, as palavras do Mestre e, nunca, a “letra”. Sabemos que, certa vez, o apóstolo Pedro pretendeu que Jesus esmorecesse na sua missão; e, quando Jesus se referia aos suplícios por que devia passar, o apóstolo disse que tal não sucederia. Qual foi a resposta de Jesus? Esta: “Retira-te de mim, Satanás.”

            Pergunta-se: - Pedro era Satanás? A palavra Satanás, pronunciada pelo Mestre, se referia à tentação. Caía por terra, destarte, a figura que o simbolismo criara e que figura como um dos dogmas da igreja católica de hoje, neste século das glórias positivas e das conquistas formidáveis, até então na penumbra pela tirania da Inquisição.

            Diz Kardec, na sua obra: “O Céu e o Inferno”, pág. 75, 7ª edição portuguesa: -

            “Admitindo-se que uma ofensa temporária pudesse ser infinita, Deus, vingando-se, por um castigo infinito, seria, logo, infinitamente vingativo; e, sendo infinitamente vingativo não pode ser ao mesmo tempo infinitamente perfeito, bom e misericordioso, visto que um destes atributo exclui o outro. Se não for infinitamente bom, é imperfeito e, sendo imperfeito deixa de ser Deus.

            “Se Deus é inexorável para o culpado que se arrepende, não é misericordioso, não é infinitamente bom.

            “E porque daria aos homens uma lei de perdão, se Ele próprio não perdoasse? Resultaria, daí, que o homem, perdoando ao seu semelhante, seria melhor do que Deus, o que é impossível!

            “Achando-se em toda parte e tudo vendo, Deus deve ver, também, as torturas dos condenados e, se Ele se conserva insensível aos gemidos por toda a eternidade, será, também, eternamente impiedoso; ora, sem piedade não pode haver bondade infinita.”

            E digo eu: - Havendo o inferno e tendo sido nele sepultados todos os que morrem em completo desacordo com o que manda a igreja católica, de que valem missas e todos os demais ofícios religiosos que, sabemos têm sido feitos em favor de inúmeras pessoas que, segundo a igreja, estão irremissivelmente condenadas”?

            Ficará sem resposta, por qualquer outro interesse, esta minha pergunta? Talvez, entretanto, os fatos que tenho registrado digam coisa muito diferente.  

            Para combater o dogma das penas eternas e a consequente existência do inferno, temos a nosso favor: primeiro, o nosso próprio raciocínio, que nos diz coisas que nenhuma teologia, por mais perfeita que queira ser, pode afirmar com maior força de convicção e lógica; temos, depois, no terreno da filosofia e da moral, razões sólidas, irrecusáveis, que não admitem contestações; e, por fim, os fatos positivos, que estão no domínio da observação.

            Pergunta-se: - a alma progride, ou não?

            Se, verdadeiramente, progride, a eternidade das penas é impossível. Comenta neste sentido, ainda, Kardec, na obra citada, O Céu e o Inferno, ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo: “A alma progride ou não? E poder-se-á duvidar desse progresso, vendo a variedade enorme das aptidões morais e intelectuais existentes sobre a Terra, desde o selvagem ao homem civilizado, aferindo a diferença apresentada por um povo de um e outro século? Se se admite não ser devido aos progressos das mesmas almas, é forçoso admitir que Deus criou almas em graus de adiantamento, segundo os tempos e lugares, favorecendo a umas e destinando outras a uma perpétua inferioridade, o que seria incompatível com a justiça, que, aliás, deve ser igual para todas as criaturas. É incontestável que a alma atrasada, moral e intelectualmente, como a dos povos bárbaros, não pode ter os mesmos elementos de felicidade, as mesmas aptidões para gozar dos esplendores do infinito, como a alma cujas faculdades estão largamente desenvolvidas. Se, portanto, estas almas não progredirem, não podem, em condições mais favoráveis, gozar na eternidade senão de uma felicidade, por assim dizer, negativa. Para estar de acordo completo com a mais rigorosa justiça, chegaremos, pois, à conclusão de que as almas mais adiantadas são as atrasadas de outros tempos, com progressos realizados.”

            E, neste ponto, Sr. arcebispo, chegamos, afinal, ao magno problema e teremos de entrar no terreno por onde s. revdma. não quer pisar, o da “pluralidade das existências”, que, para s. revdma. é a doutrina das supostas reencarnações, ou castigo de Deus, segundo as palavras mesmas de S. revdma., em seu sermão publicado.

            E porque, exatamente, s. revdma. Não quer entrar “por esta porta estreita” não pode compreender um Deus como o entendo, bom, sábio, justo, infinitamente amoroso e perfeito em todos os seus atributos; Deus, que não deve ser temido, mas amado, de todo o nosso coração, de todo o nosso entendimento e de toda a nossa alma, segundo palavras da Lei, confirmadas por Jesus.

            E para que esse Deus seja assim amado, adorado, entendido, tem que ser o “Deus dos vivos e não dos mortos”, o Deus que se não adora aqui ou ali, nem no monte, nem em templo algum, mas que deve ser adorado em espírito e verdade, ainda segundo a palavra do Mestre. E, para isso, se faz mister que tal Deus não seja uma figura inexpressiva, barbada, qual se encontra pintada nas cartilhas religiosas católicas, como S. revdma. sabe.

            Um Deus, enfim, que não haja nunca criado um inferno para nele fazer sofrer, “eternamente”, uma alma que Ele criou na sua onisciência, sabendo, pois, de antemão, qual seria o seu destino.          

Observações deste blog:

Do blog: eventosmitologiagrega.blogspot.com  A expressão “tonel das Danaides” passou a significar, figuradamente, o esforço infindável porque nunca termina; o trabalho feito repetidamente sem que nunca apresente um resultado proveitoso. Assim são as manias, obsessões patológicas que causam sofrimento e significativa queda no rendimento pessoal e perda de tempo.

Da mesma fonte: Íxion foi o primeiro homem a assassinar um de seus parentes sobre a Terra.

Da Wikipedia: Sísifo foi condenado a, por toda a eternidade, rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido

Dia dos Mortos



Dia dos Mortos
Leopoldo Machado
Reformador (FEB) Novembro 1929

            O 2 de Novembro é o Dia dos Mortos. Os corações cristãos, cheios de piedade e de fé, contritos e saudosos, tiveram flores, lágrimas e preces para os seus defuntos. E
pelas necrópoles, e pelos lares, e pelas igrejas, perpassou um forte sopro de saudade e devoção; devoção para com Deus, a cuja guarda se entregavam, pela prece, as almas religiosas da Terra; saudade dos que se foram para nunca mais voltarem, segundo alguns credos religioso-filosóficos; para voltarem metidos noutras vestes carnais, pela reencarnação, realizando a perfectibilidade humana, conforme o Espiritismo, esta doutrina lógica, toda consolação e amor.

            Dois de Novembro, como Primeiro de janeiro, são datas atestantes do interesse, embora ainda vacilante, valendo mais pela intenção, que a Humanidade começa a ter pelas coisas espirituais: a primeira vale por um pouco de sua gratidão para aqueles que no passado, lhe fizeram o bem, preparando-lhe facilidades para a Vida; a segunda, lhe vale, ao menos como ensaio do sentimento de fraternidade universal, que a todos nós deve unir um dia, embora num futuro longínquo para a confirmação do “Amai ao próximo como a vós Mesmos”, do Cristo.

            É pois, Dois de Novembro, o dia da gratidão, o dia do reconhecimento para os que, célebres ou obscuros, grandes ou pequeninos, viveram antes de nós, contribuindo, no passado, para as maravilhas desse progresso material intelectual-moral que, de qualquer forma, hoje, nos beneficia. A recordação dos mortos é, para todos os credos religioso-científico-filosóficos, um culto que se impõe à preocupação constante dos vivos. Augusto Comte, o gênio criador do Positivismo, confirmou uma grande verdade quando estabeleceu, como princípio filosófico, que os vivos hão de ser, sempre, governados pelos mortos. Não há uma grande obra de progresso, um sistema científico, uma revelação Pujante de beleza lítero-artística, uma concepção filosófica, por onde não passasse a inspiração, o trabalho, a mão, em suma, de um finado. Desde o ateísmo-científico, (para Lamark a morte é o recomeço das fases evolutivas da agregação biológica) até os espiritistas, para quem a morte é, apenas, o regresso à verdadeira vida, ainda que tenha, mais vezes, de ingressar à matéria, a memória dos mortos impõe-se ao respeito, àá veneração dos vivos.

            Consagra-se mais o Dia de Finados àqueles que, obscuros pela humildade de bens materiais, de poder mundano ou de inteligência, não deixaram a efígie esculpida no mármore das estátuas; não deixaram o nome perpetuado na História, no livro, na obra de arte.

            O culto dos mortos vem da mais longínqua antiguidade. Os druidas, primitivos sacerdotes bretão-gauleses ouviam, a certas ocasiões, gemer o espírito de seus mortos nas folhas farfalhantes dos carvalhos. No Egito, consagravam-se aos defuntos ilustres um culto sagrado perante suas múmias; instituíram, mais tarde, o Dia dos Mortos, quando faziam a análise de suas vidas, numa justa espécie de gratidão para com eles e de exemplo educativo para os presentes. Adornavam as casas onde haviam nascido, ou viviam e, na praça pública, apregoavam à mocidade que se educava, as suas virtudes, os seus feitos. Os romanos levavam-lhes os retratos, as imagens, os bustos pelas ruas até o Forum, onde se lhes oficiava o Epicedio, salientando suas qualidades todas. Os gregos faziam a seus grandes mortos exéquias suntuosas, diante de suas ossadas, se eram vítimas de guerras. Péricles mesmo, no esplendor máximo de suas glórias, orou na praça pública pelos mortos na guerra do Peloponeso, assim como o grande Demóstenes pelos valentes sacrificados nas batalhas de Chersoneso. Ainda hoje, no China, sepultam-se cadáveres em jardins floridos, em cujas sepulturas ficam, em certos dias, os chinos (chineses?) em contato espiritual com os mortos, Os japoneses consideram o Dia de Finados o melhor, o mais belo do ano: festejam-no a banquetes, a danças e cantos, que se prolongam por toda uma semana do mês de Agosto.

            Atualmente, quem passa pela Avenida dos Campos Elíseos, em Paris, lá para o fim, sob o Arco do Triunfo, vai dar com o túmulo do Soldado Desconhecido, homenagem que as nações empenhadas na hecatombe mundial prestam aos heróis e pequeninos que, pela humildade de sua posição, não puderam sobressair, mas que, sem eles, não haveria glória  para os Alexandres, para os Napoleões. Que soldado é esse? Em que país nasceu? Não é ninguém, porque é parcela valiosa de todos os exércitos; não é filho de país algum, porque é o de todas as nações; é um elemento útil da Humanidade; sua pátria é o Universo. No seu túmulo não há uma ossada; na lápide, apenas isto: Ao Soldado Desconhecido.

            Eis aí uma bela homenagem absolutamente espiritual, como deviam ser, de resto, todas as que se fazem no Dia de Finados.

            O Catolicismo, com Felix I e Paulo II, estabeleceu se comemorasse a memória dos mortos a 2 de Novembro. Os chineses, que não são católicos, comemoram-na a 3 de Março, e com a ceia lauta, precedida de longo jejum.

            Para os gregos ortodoxos, seu dia de finados é a 14 de Novembro. A Argentina, além de 2 de Novembro, consagra o último dia de Outubro aos seus heróis, tirando daí motivos para a educação dos moços.

            Para nós, consagrou-se, por lei, o Dia de Finados com o decreto nº 155 B de 14 de Janeiro de 1890, mandando a lei se estendesse a solenidade desse dia, à família, à pátria, à humanidade.

            Pena é que se não dê a esta solenidade o cunho essencialmente espiritual, expurgando-a de toda a materialidade a que, parece, ela mais se refere. O homem não é a carta putrefata, que está na sepultura; não são as ossadas, que jazem nos cemitérios; é o elemento vital, inteligente, que animava a matéria envolvente daquelas ossadas; e este elemento vital é imperecível: atravessa, num crescendo sempre de perfeições e conhecimentos, as gerações, as idades. Os iogues, da Índia, têm razão quando, para distinguir a matéria do que, para eles, é, a rigor, a criatura, dizem, exprimindo qualquer necessidade fisiológica: Meu corpo tem fome, meu corpo tem sono.

            Só empregam – Eu – a respeito de qualquer necessidade de caráter espiritual porque o homem é, para sua compreensão, aliás, lógica a seu tanto, o espírito, que não sente necessidades materiais, que é imortal.  

            De futuro, quando esta religião amor e verdade - o Espiritismo - tiver aberto todas as consciências, tiver esclarecido todas as inteligências, comemorar-se-ão os que se foram antes de nós, para o outro lado da vida, não mais à beira de sepulcros, que guardam, apenas imprestáveis despojos, mas em espírito, pela prece, pelo pensamento de amor, ungidos de espiritualidades...


quinta-feira, 2 de abril de 2020

02 de Abril - nasce Chico Xavier...

Repetindo uma postagem de 2015...



Chico Xavier



Xavier, o Poeta 
 Xavier, o Médium

            O nosso bom Chico Xavier retornou à pátria espiritual. Deixou um legado que será difícil igualar. São poucos os que doam sua vida inteirinha pelo bem dos outros como o bom Chico fez por todos nós. Nossa homenagem não busca o velhinho, ossos doídos, vista cansada, alquebrado pelos anos de trabalho mas sim aquele jovem, cheio de vigor e vontade que em 1° de Junho de 1932 se apresentava ao público de Reformador, órgão oficial da FEB.

            Curiosamente, sua primeira obra publicada neste veículo não foi uma psicografia mas sim lindos versos, de sua própria autoria, que apresentamos abaixo:

Da Treva à Luz
Esqueçamos um instante as lutas terrenas
E voemos no Azul de deífica harmonia:
Contemplaremos pois a luz de um novo dia
Sublimado e feliz de sóis primaveris.
Sigamos. Já não são os doloridos ais
Desferidos na terra em forma de agonia;
São poemas de amor, de paz e de alegria
Que ouvimos no esplendor das luzes imortais.
E após despertar desse estágio sublime,
Traremos conosco as dúlcidas lembranças
Desse eterno fulgir que o homem não traduz.
Voltamos bendizendo a dor que nos redime,
Divinizando o céu das nossas esperanças,
A marcharmos com ardor das trevas para a luz!

            Assim vibrava o coração do bom Chico aos 22 anos de idade.

            Que promessa! Que certeza!


O Polígrafo




            No início era o Xavier. Chegou de mansinho como sempre foi o seu jeito de ser. Seu primeiro trabalho mediúnico publicado foi o livro "Parnaso de Além-Túmulo" que, em Abril de 1932, quando ainda estava no prelo, já merecia rasgados elogios de parte de Manoel Quintão, através do periódico Reformador, da FEB.

            "Parnaso ... " apresenta uma coletânea de poesias de autores famosos, já desencarnados à época da publicação. A variedade de estilos literários inibia qualquer possibilidade de ser contemplada a hipótese de fraude. Os trabalhos apresentados eram tão semelhantes à obra deixada pelos desencarnados que o fraudador teria de ser um gênio para alcançar tal capacidade de reprodução de tantos estilos de diferentes autores. Chico silenciou as elites culturais e aos formadores de opinião da época. Daqueles, muitos foram os que reformularam seus conceitos espirituais e tomaram a trilha consoladora do Espiritismo. Manoel Quintão assim exprimiu-se sobre o tema:

            "Admitimos que, com tempo, paciência e aptidões necessárias, possa alguém apossar-se da técnica de um grande escritor a ponto de iludir os menos argutos, conhecedores do mister.
            De um, mas não de muitos escritores, entenda-se, e isto na prosa porque, no verso, a empresa se torna quase senão de todo, insuperável.
            Depois, há de convir, na mais otimista das hipóteses que, a quem dispusesse de tais virtudes e habilidade melhor e mais prático lhe fora construir obra sua do que atribuí-la a outrem.
            ... sobre o médium polígrafo Xavier, haveríamos de o supor, antes de tudo um tolo, deslocado do seu tempo e do seu meio, e depois de tudo, um velho faiscador de não menos velhos patrimônios literários. Mineração passadista, ao demais inútil, porque nem admite proventos pecuniários, de vez que ele, de tudo cedeu e concedeu a beneficio da Federação, com vistas à propaganda. E Xavier é jovem, é mesmo muito jovem e pobre de bens materiais.
            ... Curioso, interessante, magnífico; guarde-se o leitor para a surpresa que nos destinam de bem alto, como verdadeiro maná neste deserto árido em trânsito para a Terra da Promissão."

            Os anos se passaram, Xavier se fez Chico e, através dele, cerca de 400 livros foram a nós enviados pelo Plano Maior. Deus o abençoe e no regaço de Maria, sua mãezinha querida, aceite nossas lágrimas de reconhecimento e agradecimento pelo seu trabalho de amor e renúncia por todos nós.   A equipe do Blog

Manoel Quintão

quarta-feira, 1 de abril de 2020

O verdadeiro espírita



O verdadeiro espirita
por Orville Derby A. Dutra
Reformador (FEB) Julho 1941
  
            O espírita ou espiritista sincero, de convicções enraizadas, não faz espiritismo por passatempo. Para ele, a doutrina é o que de mais sublime lhe foi dado conhecer, pois o consubstancia um ideal divino. Tem-na como um porto seguro, onde pode lançar tranquilo a âncora da sua fé, produtiva de bons atos. Sente-se feliz, reconhecendo nela uma obra que traz o selo da sabedoria do Senhor, porque doutrina que não vem de Deus não pode encarar de frente a razão em todas as épocas da humanidade, como o faz o Espiritismo que, portanto, não se pode confundir com essas árvores que o Pai não plantou e que, em consequência, serão, como o diz o Evangelho, arrancadas e lançadas ao fogo.

            Por isso mesmo, o espiritista convicto, compenetrado que se acha de seus deveres, consagra os maiores esforços a cumpri-los e trabalha com ardor e confiança pela doutrina que professa, certo de que, obedecendo aos preceitos do Evangelho, tudo mais lhe será dado de acréscimo e por misericórdia.

            Não se preocupa com o fazer, seja o que for, para ser visto por olhos humanos, nem para receber os galardões do mundo, cuidando unicamente de que os seus atos sejam dignos de patentear-se aos olhos de Deus, que tudo vê de quanto obramos e pensamos, e, para esse efeito, tudo o que pratica em silêncio, procurando que nem o seu nome jamais apareça.

            Desde que, porém, precise assumir ostensivamente a responsabilidade de suas ações, ele não se esconde, antes se apresenta leal e sinceramente a se mostrar responsável pelos atos de que se trate.

            Assim como pela sua vida pública, ele também se caracteriza e qualifica pela sua vida particular.

            São sempre calmas e ponderadas as suas resoluções e, acima de tudo, sinceras e francas.

            Como pregador, a sua atitude é nobre, embora modesta e a substância de suas alocuções tira-as dos ensinos contidos nos Evangelhos do Mestre. Jesus, não descurando jamais de realizar em si os ensinamentos que constituam objeto de suas pregações.

            Humano, como é, também tem direito e procura sem prejuízo das obrigações que lhe correm, divertimentos que lhe recreiem o espírito, repousando-o das cogitações sérias. De nenhum, porém, se torna escravo ou fanático e nenhum busca o que não condiga com a elevação de seus sentimentos ou da tarefa em que se considere investido.

            Encara tranquilamente a vida, com seus altos e baixos, sem se perturbar com as suas vicissitudes e sem se deixar tomar de desanimo ante as decepções e amarguras que ela lhe reserve, recebendo com paciência e submissão à justiça divina a dor e o sofrimento que o atinjam, pois que bem lhes conhece as causas e origens.

            Se se lhe impõe a necessidade de discutir em sustentação da doutrina, ou para retificar a interpretação de algum de seus pontos capitais, mantém o debate em terreno elevado, exemplificando serenidade e tolerância; em vez de humilhar, esforça-se por elevar o adversário.

            No centro ou agremiação a que pertença, quer como membro da sua diretoria, quer como simples associado, mostra-se solícito para com todos, respeitador de todas as normas e resoluções em vigor e cônscio de suas responsabilidades.

            Em nenhuma ocasião, nem mesmo em simples palestras, graves ou alegres, usa de palavras ou expressões pesadas ou, sequer, pouco delicadas.

            É sempre comedido e criterioso no falar, lembrado de que o Evangelho diz que a boca fala aquilo de que está cheio o coração.

            Enfim, soldado do Evangelho, sempre resoluto e firme no seu posto, luta de contínuo contra o mal, empunhando as únicas armas de que pode utilizar-se o verdadeiro cristão, revelando-se de bom ânimo em todas as circunstâncias e alegre, tomado dessa alegria sã, que lhe advém de estar conscientemente a serviço do Senhor dos senhores, dignificando-se para ser por ele qualificado de - amigo.

Nova cruzada contra os Espíritas



Nova Cruzada contra os Espíritas
Túlio Tupinambá (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Maio 1957

            Em Janeiro deste ano, terminou o Encontro Sacerdotal de Confraternização e Estudos, com uma reunião no Seminário Central da Imaculada Conceição do Ipiranga em S. Paulo. Um os temas, já se sabe, foi o Espiritismo considerado “perigo grave”. Foram, então, segundo a palavra de “piedoso” frei, assentados planos para que a campanha de revivescência inquisitorial iniciada e mantida contra o Espiritismo seja revigorada. Disse um jornal paulista, noticiando o “acontecimento”; “Tal campanha deverá atingir um máximo de intensidade este ano, quando a 18 de Abril, data que coincide com a quinta feira santa, os espíritas comemorarão o primeiro centenário da Codificação Kardecista. Em sua comunicação, frei Boaventura, traçou algumas normas para essa campanha entre as quais citamos: o reconhecimento leal, pelos sacerdotes, do Espiritismo como um perigo grave para a vida cristã no Brasil; que os padres se dirijam aos católicos, excluindo os espiritas; que não tomem atitude de ataque ao Espiritismo e sim de defesa do Cristianismo que está sendo atacado pelos espíritas; que estudem o Espiritismo e, sobre ele, falem com o necessário conhecimento. Considera ele, ainda, as manifestações espíritas como de puro paganismo, sem distinguir, entre umbanda, quimbanda, alto ou baixo espiritismo, citando, a propósito, sessões a que assistiu, por ocasião da passagem do ano, em praias do Rio, como Leblon e Ipanema, com as conhecidas cerimônias da oferta de flores e prendas à Iemanjá..” (“'Diário da Noite”, S. Paulo, 7-1-57)

*

            Tudo isso é monótono, enfadonho, soporífero. A falta de argumentos sólidos e inteligentes, repisa o clero a mesma lengalenga. Ao dize que o Espiritismo é um grave perigo para a Vida “Cristã”, houve um eufemismo intencional: ele quis dizer “é um grave perigo para a vida católica”. Sim, porque o Espiritismo, sendo o Cristianismo em sua pura forma primitiva, não pode ser ameaça para a vida cristã, que ele estimula e esclarece. Mas, sendo o Catolicismo uma deturpação clerical do Cristianismo, tem de temer o Espiritismo, expressão moderna do Cristianismo do Cristo. Esta é a verdade. Quem ouve O. F. M. dizer aos padres: “não tomem atitude de ataque ao Espiritismo e sim de defesa do Cristianismo, que está sendo atacado pelos espíritas", tem de sorrir, inevitavelmente. Os ataques aos espíritas são permanentes, dissimulados ou ostensivos, conforme as circunstâncias. Ao mentir que os espíritas atacam o Cristianismo, O.F.M. o que faz é atacar os espíritas... Nós não atacamos o Cristianismo, porque porfiamos em ser verdadeiramente cristãos. Não atacamos sequer o Catolicismo, mas nos defendemos de suas invencionices a nosso respeito e restabelecemos a verdade, da qual eles procuram ausentar-se imperiosamente, a todo momento.

            Se os padres católicos fossem cristãos, os brasileiros não estariam contemplando o espetáculo cotidiano de intolerância que eles dão nos jornais, no rádio, na TV e no púlpito. Dizem-se cristãos, quando já não o são há multo tempo. Um cristão ama a doutrina do Cristo e não a deturpa por cálculo, ferindo o preceito “amai-vos uns aos outros". Consideram o Espiritismo “puro paganismo”, quando não temos cultos, não idolatramos imagens, não inventamos dogmas irracionais, não sujeitamos ninguém a crer no que não compreende. Jesus não criou igrejas nem sacerdotes.

            O Catolicismo copiou do paganismo a adoração de imagens, a idolatria. Falseou o Cristianismo (veja-se a obra magnífica do Padre Alta - "O Cristianismo do Cristo e o dos seus vigários”), usando Jesus como bandeira, mas não lhe respeitando o Evangelho. E como prova do que afirmam aí está a intolerância com que são tratados os espíritas, o ódio com que esses santíssimos sacerdotes se referem ao Espiritismo, as afirmativas inverdadeiras que repetem, absolutamente colidentes com a ética do Cristo.

            Um outro livro que pode elucidar bem o leitor é “Cristianismo e Espiritismo”, de Léon Denis. Em sua introdução, diz o famoso autor de “Depois da Morte”: “Conhecemos tudo o que a doutrina do Cristo encerra de sublime; sabemos que ela é por excelência a doutrina do amor, a religião da piedade, da misericórdia, da fraternidade entre os homens. Mas a doutrina de Jesus é a que ensina a Igreja Romana? A palavra do Nazareno nos foi transmitida pura, sem mescla, e a interpretação que dela nos dá a Igreja é isenta de todo elemento estranho ou parasita?”

            Não pode haver comparação entre o Cristianismo dos espíritas, fundado nos ensinamentos evangélicos, o Cristianismo primitivo, de que o Espiritismo é a real expressão nos tempos atuais, e o “cristianismo” dos que se intitulam “vigários de Cristo”, mas não se mantêm fiéis aos preceitos divulgados por Jesus e por ele transmitidos aos apóstolos. Nosso desejo sincero é que todos aqueles que se dizem cristãos respeitem os que também são cristãos. Jesus não pregou a desarmonia entre os homens, mas o amor. Se o fez, querendo que todos se amassem, com muito maior razão não aprova que a Igreja Católica, que se diz cristã e constantemente se confunde, denominando-se Cristianismo, falte aos mais elementares princípios da doutrina do Cristo. Como se pode ser cristão cultivando a desarmonia, o ódio, a malquerença, a intriga, a mentira, a calúnia, e desprezando o amor, a tolerância, a caridade? Não é possível. Ou se é cristão com o Evangelho de Jesus ou não se é cristão. Os espíritas têm a consciência tranquila porque são cristãos e procuram realizar o máximo para se conservarem fiéis às lições evangélicas. E lamentam que haja tantos cristãos sem Cristo, que amam a política, o poder, o fausto, preterindo tudo isso à humildade de que Jesus foi o exemplo máximo.

            Permaneçamos, ó espíritas, resguardados na serenidade da nossa fé. Não podemos temer essa nova “cruzada” contra nós, porque nenhum mal fazemos a quem quer que seja e só o bem procuramos praticar. Não usamos em vão o nome de Deus e de Jesus. O nosso crime é mostrar ao povo as belezas morais do Espiritismo cristão. A nossa culpa está em que o povo cada vez mais nos compreende, cada vez mais nos apoia, cada vez mais busca no Espiritismo o consolo e a esperança que a nossa Doutrina pode dar.

            A Humanidade sabe de que lado está a boa causa.

"Cruzada gloriosa" contra os Espírtas



“Cruzada gloriosa” contra os Espíritas
Túlio Tupinambá (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Janeiro 1958

            Quando dizemos da nossa convicção de que hoje, ainda mais que no passado, os pretensos herdeiros de Jesus estão irremediavelmente afastados do Cristianismo, afirmamos irretorquível verdade. E não é preciso esforço algum para evidenciar essa convicção. O Espiritismo, que constitui expressão do verdadeiro Cristianismo em sua forma primitiva, pois não tem sacerdotes, não tem rituais nem dogmas ininteligíveis e não exige de seus profitentes uma fé cega e escravizante, constitui a maior vítima da intolerância dos que não compreendem o reinado sincero do Evangelho, pregado e exemplificado da melhor maneira possível pelos espíritos.  

            O Catolicismo, na impossibilidade de conter o crescimento do Espiritismo, lança emissários para, faltando à fé do Evangelho, dizerem falsidades dos espíritas, acirrando o ódio da ignorância contra nós, como sucedeu em Junho último, na cidade de Aparecida, em São Paulo, quando o Centro Espírita Apóstolo Paulo foi depredado. As paredes do humilde centro foram pichadas e na foto estampada pelo jornal “Última Hora”, de S. Paulo, edição de 18 daquele mês, está escrito na parede: “Viva Nossa Senhora da Aparecida. Rei.” A  emissora de rádio local diariamente, em todas as horas, desde que fora anunciada a inauguração do Centro, instigava os malfeitores a uma atitude violenta. O jornal católico “Santuário de Aparecida”, órgão oficial da basílica do mesmo nome, publicou, entre outras coisas, um trecho que é, em síntese, o seguinte: “Não houve vítimas pessoais, e nem havia congregados marianos participando das “manifestações”. É possível que houvesse alguns deles no meio da multidão, mas, em absoluto, eles participaram das depredações. Aconselhamos as demais religiões que se abstenham de tentar instalar-se em Aparecida, para que não haja outra manifestações da mesma natureza.”

            Depois do ataque referido, feito por assaltantes em número superior a duzentas pessoas (a multidão a que se refere o jornal católico), houve um banquete homenageando os atacantes pela “vitória conquistada”, uma espécie de “cruzada”, a que não deve ter faltado o “Deus o quer!” das lutas sangrentas contra os... ímpios. Conceituada família local comemorava, assim, festivamente, essa prova dolorosa de desconhecimento dos deveres cristãos, de desrespeito ao princípio de liberdade religiosa determinado pela Constituição Brasileira.

            Os argumentos sugeridos pelo clero local baseiam na presunção de que Aparecida é uma cidade inteiramente católica. Se isso fosse realidade, o Centro Espírita “Apóstolo Paulo” não teria adeptos.  O que exacerbou os sentimentos anticristãos desses cristãos sem Cristo foi o acolhimento simpático e a solidariedade que o Centro encontrou em Aparecida. Esse triste episódio de intolerância, que não foi o primeiro e desgraçadamente não será o último, deve chegar ao conhecimento das autoridades da ONU, para que se verifique que, no Brasil, apesar das franquias constitucionais, ainda prevalece, em certas cidades, graças à influência do clero católico, a sombria mentalidade medieval.

            Um outro jornal católico - “Fátima Paulista” -, do mesmo citado mês, referindo-se a centros de Umbanda, disse que são “casos de polícia”. Aludiu à adoração de “deuses de pau, feitos pela mão do homem”, como se as imagens, também de madeira ou de barro, usadas em certos templos de uma religião decaída, que todos conhecemos, não fossem também feitas pela mão do homem, a fim de satisfazerem a preceitos e conveniências herdadas do Paganismo...

            A incongruência é grande. Nós, no entanto, sabemos encará-la com o espírito de tolerância que o Evangelho de Jesus recomenda. No Espiritismo, legado por Allan Kardec, como mandatário do Espírito de Verdade, não temos igrejas, sacerdotes, liturgia, nem construímos templos inacabados, que são fontes inexauríveis de renda. Lemos, não faz muito tempo, que as torres da Catedral de S. Paulo, estão neste caso. Foram arrecadados cinquenta e cinco milhões para atender a essas obras, numa época em que tanta gente vive morrendo de fome pelas ruas... E ainda são pedidas contribuições, como em anúncio publicado sobre uma “novena”, onde se diz que, para uma alma subir mais depressa aos céus, os interessados devem contribuir com alguma coisa de tangível...

            Ó Jesus! Ó Jesus! Derramai, sobre esses pobres irmãos perturbados pela cegueira sectária, mais um pouco de luz, a fim de que eles, pelo menos honrem o vosso Evangelho, respeitando os ensinamentos nele contidos! Que lhes seja dada essa Boaventura um dia!

            Quanto ao que tem feito contra o Espiritismo e os Espíritos, “perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem”!..

Alunos Rebeldes



“Alunos” rebeldes
Túlio Tupinambá (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Agosto 1958

            Entre os benefícios que o Espiritismo vem prestando à Humanidade, há também os que contribuem para ajudar religiões anestesiadas por absurdos dogmas ou entorpecidas por tradições ronceiras (que se negam a evoluir), sempre nocivas aos povos por lhes impor a fé naquilo que não compreendem, mas que aceitam em virtude de não lhes permitirem a liberdade de discernir. O Espiritismo e os espíritas têm sido vítimas de implacável perseguição do Catolicismo que, apresentando sempre a imagem do Cristo, nem sempre se lembra de apresentar, concomitantemente, o sentimento de tolerância inseparável da verdadeira doutrina de Jesus. Não obstante isso, os espíritas continuam ajudando o Catolicismo a se repor nas andas que lhe dão a sensação de invulgar prestígio no mundo de hoje.

            Sempre os espíritas demonstraram a inconveniência das missas em latim, porque os adeptos do Catolicismo acompanhavam o terço sem saber porquê. Um belo dia, surgiu a notícia de que as missas seriam, salvo um ou outro caso, em português, isto é, na língua vernácula. Em junho último, segundo lemos no vespertino carioca ‘O Globo’, do dia 23, frei Hildebrando P. Martins, O.S.B., nesta frase que deve ter causado inveja ao pendor sensacionalista de muito apurado técnico de publicidade – “a mais recente novidade para o Brasil, no domínio espiritual” – anunciou que, de acordo com o novo ritual bilíngue, serão ditos em português, daqui por diante, os sacramentos do batismo, da extrema-unção (exceto a oração) e do matrimônio (exceto o “Ego Conjugo” e a bênção das alianças). E isto, acrescentou, para maior compreensão e aumento de piedade do nosso povo.

            Como se vê, nós, os “demônios”, continuamos a ser úteis à igreja, abrindo-lhe os olhos. Há pouco tempo, ela decidiu que, em vez de “Padre Nosso”, seja dito nas igrejas e nos ambientes católicos, “Pai Nosso”, consoante antiquíssima prática espírita. Portanto, como já dissera Pangloss, “tudo vai bem, como nos melhores mundos possíveis”. O Espiritismo vai realizando, sem alarde, sem pretensão, sua obra de reforma, educação e esclarecimento do mundo. E o Catolicismo tem-se beneficiado dessa obra, procurando também reformar-se...

            Uma outra notícia de “0 Globo” de 20 de Março, telegrama dessa data, da U.P. apresenta título curioso: “O alto clero cubano não consegue harmonizar seus pontos de vista.”

            E no corpo do telegrama lê-se o seguinte: A Igreja Católica, única força que ainda pode apresentar uma fórmula que evite a continuação da luta fratricida, não definiu sua atitude depois de pedir um Governo de unidade nacional e após ter fracassado a gestão de sua missão conciliadora. A Igreja Católica, o episcopado cubano, toma suas decisões por acordo unânime de cinco bispos e o cardeal Manuel Arteaga. O certo é que alguns bispos  tendem a identificar-se com a oposição, outros com o Governo e alguns preferem que a Igreja mantenha uma atitude de neutralidade. Assim, não existe acordo.” Todos os grifos são nossos. Ninguém se entende no alto clero cubano. Isso é velho. Naturalmente, consoante uma praxe tradicional da Igreja, seu clero se divide de caso pensado, porque, assim, estará sempre com o grupo vencedor. O essencial é poder ficar de mãos dadas com o poder dominante. Sempre foi assim e naturalmente continuará sendo assim . Basta correr os olhos pela História e recordar um pouco o passado.
           
            Evidentemente, essa atitude não se coaduna com as lições do Cristo e também não está de acordo com o que ensina o Espiritismo, que é o Cristianismo redivivo. Acontece, porém, que no mesmo mês de Março deste ano publicou ainda “0 Globo”, do Rio, um telegrama de São Paulo, datado do dia 20, com este título saborosamente cinematográfico, que honra o “sense of humour” do redator respectivo: “Padre e prefeito entraram em luta com C. Camilo Peppone”. Como a nota anteriormente mencionada, essa também em três colunas. Como não temos muito espaço, transcreveremos somente o seguinte: “Por interferência do Juiz de Direito da Comarca, Sr. Renato Torres, estabeleceu-se uma trégua na luta, pela imprensa e através do púlpito, que vinham travando, há tempos, o Prefeito Jaime Regalo Pereira e o Padre José Canônico, da cidade de Descalvado, no interior do Estado. Como noticiamos, a população local dividiu-se, acompanhando vivamente interessada o desenrolar dos debates, quando ataques cerrados e, por vezes, contundentes foram feitos pelo prefeito ao pároco, principalmente depois do tríduo carnavalesco,  durante o qual, com autorização do Vigário, foram realizados bailes na Casa Paroquial.”  Os grifos continuam sendo nossos.

            A confusão vem de longe e irá longe. Como se poderia esperar que um padre, principalmente sendo “canônico”, mandasse realizar bailes carnavalescos na Casa, Paroquial? Se isso não fosse publicado por um jornal autorizado e respeitável, como “O Globo”, francamente, não acreditaríamos. Enfim, s padres precisam ler mais um pouco do que publica o Espiritismo. É para seu bem que o dizemos...

            Tenhamos esperança, porém. As coisas já estiveram piores. Nem todos os alunos apresentam o mesmo índice de elevado aproveitamento do que se lhe ensina. É preciso, porém, ter paciência e, sobretudo, pertinácia. E da edificante comunicação que o luminoso Espírito de Emmanuel transmitiu Francisco Cândido Xavier, sob o título “Educação”, recordemos aqui esta frase: “O Espiritismo, sobretudo, é obra de educação.”