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sábado, 29 de agosto de 2015

Eutanásia


               Tema de frequente discussão, por uns defendida, por outros objurgada, a eutanásia ou “sistema que procura dar morte sem sofrimento a um doente incurável" retorno aos debates acadêmicos, face à sua aplicação sistemática, por eminentes autoridades médicas, em crianças incapazes físicas ou mentais desde o nascimento, internadas em Hospitais Pediátricos, sem esperanças científicas de recuperação ou sobrevivência...

            Prática nefanda, que testemunha a predominância do conceito materialista sobre a vida que apenas vê a matéria e suas implicações imediatas, em detrimento das realidades espirituais, reflete, também, a soberania do primitivismo animal na constituição emocional do homem.

            Na Grécia antiga, a hegemonia espartana, sempre  armada para a guerra e a destruição, inseriu no seu Estatuto o emprego legal da eutanásia eugênica em referência aos enfermos, mutilados, psicopatas considerados inúteis, que eram atirados ao Eurotas por pesarem negativamente na economia do Estado.

            Guiados por superlativos egoísmo e prepotência, apesar das arremetidas arbitrárias do exagerado orgulho nacional, fizeram-se vítimas da impulsividade belicosa que cultivavam...

            Outros povos, desde a mais remota antiguidade, permitiam-se praticar esse “homicídio exercido por compaixão"... Em circunstância alguma, ou sob qualquer motivo, não cabe ao homem direito de escolher e deliberar sobre a vida ou a morte em relação ao seu próximo.

            Os criminosos mais empedernidos, homicidas ou genocidas dentre os mais hediondos não devem ter ceifadas as vidas, antes serem isolados da convivência social, em celas ou em trabalhos retificadores, nos quais se redimam sob a ação do tempo e da reflexão, que tarda mas alcança o infrator, fazendo-os expiar os delitos perpetrados. Mesmo em se tratando de precitos anatematizados por desconserto mental, não faltam nosocômios judiciários onde possam receber conveniente assistência a que tem direito, sem que sejam considerados inocentes pelos crimes perpetrados... Em recuperando a saúde, eventualidade excepcional que pode ocorrer, cerceados, pelo perigo de provável reincidência psicopática; poderão, de alguma forma, retribuir de maneira positiva à sociedade os danos que hajam causado.

            No que tange aos enfermos ditos irrecuperáveis, convém considerar que doenças ontem detestáveis, quanto incuráveis, são hoje capítulo superado pelo triunfo de homens-sacerdotes da ciência médica, que a enobrecem pelo contributo que suas vidas oferecem a benefício da Humanidade, sempre há, pois, possibilidade de amanhã conseguir-se a vitória sobre a enfermidade irreversível de hoje. Diariamente, para esse desiderato, mergulham na carne Espíritos missionários que se aprestam a apressar e impulsionar o progresso, realizando descobrimentos e conquistas superiores para a vida, fonte poderosa de esperança e conforto para os que sofrem, em nome do Supremo Pai.

            Diante das expressões teratológicas, ao invés da precipitação da falsa piedade em aliviar os padecentes dos sofrimentos, se há de pensar na terapêutica divina, que utiliza o presídio orgânico e as jaulas mentais para justiçar os infratores de vários matizes que passaram na Terra impunes, despercebidos, mas não puderam fugir às sanções da consciência em falta nem da Legislação superior, à qual rogaram ensejo de recomeço, recuperação e sublimação por que anelavam para a edificação da paz íntima.

            Suicidas - esses pobres revoltados contra a Divindade - que esfacelam o crânio, em arremetidas de ódio contra a existência, reencarnam perturbados pela idiotia, surdez-mudez, conforme a parte do cérebro afetada, ou por hidrocefalias, mongolismos; os que tentaram o enforcamento, reaparecem com os processos da paraplegia infantil; os afogados, padecem enfisema pulmonar; os que desfecharam tiros no coração, retornam sob o jugo de cardiopatias congênitas irreversíveis, dolorosas; os que se utilizaram de tóxicos e venenos, volvem sob o tormento das deformações congênitas, da asma respiratória, ou estertorados por úlceras gástricas, duodenais e cânceres devoradores; os que despedaçaram o corpo em fugas espetaculares, recomeçam vitimados por atrofias, deformações, limitações pungentes, em que aprendem a valorizar a grandeza da vida...

            Agressores, exploradores, amantes da rapinagem, das arbitrariedades, dos abusos de qualquer natureza, volvem aos cenários em que se empederniram, ou corromperam, ou infelicitaram, atingidos pelo sinete das soberanas leis da ordem e do equilíbrio, refazendo o caminho antes percorrido criminosamente e entesourando os sagrados valores da paciência, da compreensão, do respeito a si mesmos e ao próximo, da humildade, da resignação, armando-se de bênçãos para futuros cometimentos ditosos.

            Quem se poderá atribuir o direito de interromper lhes a existência preciosa, santificadora?

            As pessoas que se lhes vinculam na condição de pais, cônjuges, irmãos, amigos, também são lhes partícipes dos dramas e tragédias do passado, responsáveis diretos ou inconscientes, que ora se reabilitam, devendo distender lhes mãos generosas, auxílio fraterno, pelo menos migalhas de amor.

            Ninguém se deverá permitir a interferência destrutiva ou liberativa por meio da eutanásia ,em tais processos redentores. Pessoas que se dizem penalizadas dos sofrimentos de familiares e que desejam os tenham logo cessados, quase sempre agem por egoísmo, pressurosos de libertar-se do comprometida responsabilidade de ajudá-los, sustentá-los, amá-los mais.

            Não faltam terapêuticas médicas e cirúrgicas que podem amenizar a dor, perfeitamente compatíveis com a caridade e a piedade cristãs. A ninguém é dado precisar o tempo de vida ou sobrevida de um paciente. São tão escassos de exatidão os prognósticos humanos neste setor do conhecimento, quanto ocorre noutros! Quantos enfermos, rudemente vencidos, desesperados, recobram a saúde sem aparente razão ou lógica?! Quantos outros, em excelente forma, portadores de sanidade e robustez, são vitimados por surpresas orgânicas e sucumbem imprevisivelmente!?

            0 conhecimento da reencarnação projeta luz nos mais intricados problemas da vida, dirimindo os equívocos e as dúvidas em torno da saúde como da enfermidade, da desdita como da felicidade e contribuindo eficazmente para a perfeita assimilação dos postulados renovadores de que Jesus-Cristo se fez vexilário por excelência e o Espiritismo, o Consolador, encarregado de demonstrá-lo nos tormentosos dias da atualidade.

            Argumentam, porém, os utilitaristas que as importâncias despendidas com os pacientes irrecuperáveis poderiam ser utilizadas para pesquisas valiosas ou para impedir-se que homens sadios enfermassem, ou para assistir-se convenientemente os que, doentes, podem ser salvos.  E devaneiam, utopistas, insensatos, sem considerarem as fortunas que são atiradas fora em espetáculos ruidosos e funestos de exaltação da sensualidade, do custo exagerado, das dissipações, sem que lhes ocorram a necessidade da aplicação correta de tais patrimônios em medidas preventivas salutares ou socorro às multidões esfaimadas e nuas que enxameiam por toda parte, perecerão à míngua de uma migalha de pão, chafurdando no desespero pela ausência de uma gota de luz ou de uma insignificante contribuição de misericórdia.

            Cada minuto em qualquer vida é, portanto, precioso para o Espírito em resgate abençoado. Quantas resoluções nobres, decisões felizes ou atitudes desditosas ocorrem num relance, de momento?

            Peneirando-se o homem de responsabilidade e caridade, luarizado pela fé religiosa fundada em fatos da imortalidade, da comunicabilidade e da reencarnação, abominará em definitivo a eutanásia, tudo envidando para cooperar com o seu irmão nos justos ressarcimentos que a divina Justiça lhe outorga para a conquista da paz interior e da evolução.

Eutanásia
Joanna de Ângelis
por Divaldo Franco

Reformador (FEB) Setembro 1974

O Livro Branco da vida


            Muita gente aceita sem grande relutância a ideia da reencarnação. Ela é racional e lógica, e, como se diz hoje, ela se insere no contexto das doutrinas evolucionistas que dominam as principais tendências do pensamento. De fato, a reencarnação dos espíritos ao longo dos séculos e dos milênios, explica fenômenos que de outra forma estariam truncados e incompreensíveis, como a eclosão de fabulosas inteligências em certos seres e a terrível carga de idiotismo em outros, as simpatias e afinidades entre uns, que mal se conhecem, e antipatias gratuitas e inexplicáveis entre outros que deveriam estimar-se em razão de estreitos laços de parentesco ou de prolongada convivência. Há também sofrimentos e dores a atingirem criaturas boníssimas, há prêmios à maldade, há mágoas para quem, a nosso ver, não as merece, e alegrias para aqueles que não as conquistaram. A reencarnação explica essas aparentes incongruências e perplexidades. Somos seres em trânsito para o futuro e trazemos nos registros do espírito a memória oculta de antigas falhas, o resíduo ainda invencível de persistentes deficiências que nos condicionam o presente e nos ameaçam o futuro.

            Muitos ainda não estão preparados para enfrentar corajosamente as suas responsabilidades e fogem pelas evasivas que os exoneram da obrigação de pensar e construir no presente as bases da paz futura. Uma dessas fugas inconsequentes pode ser resumida na seguinte frase que nós espíritas sempre ouvimos:

            - Tudo isso é muito bonito e a reencarnação tem a sua lógica, mas como é que eu não me recordo das minhas possíveis existências anteriores?

            Entendem esses que seria muito mais racional que conservássemos ao renascer a memória das vidas passadas. Seria assim fácil programar a existência atual de modo a evitar a recaída em antigas faltas, a identificar com segurança velhos amigos tão caros ao nosso espírito e também adversários renitentes que nos perseguem através dos séculos com os seus ódios e sua vingança. Seria bom, por exemplo, sabermos que fomos no passado grandes médicos ou artistas eminentes e repetir com facilidade a experiência na qual fomos vitoriosos e brilhar novamente entre os homens, enobrecer a Humanidade de conquistas científicas ou artísticas.

            O raciocínio que nos leva a esses caminhos é simplista, quase simplório. O que enriquece a estrutura do espírito não é a repetição monótona de experiências nas quais já nos destacamos, mas a variedade e a universalidade do conhecimento que se vai acumulando lentamente em nossos arquivos mentais. Dessa forma, em cada nova existência as coisas se passam como se recebêssemos um livro em branco, no qual podemos escrever livremente a nossa história, vivendo-a no dia a dia das suas lutas e o do seu aprendizado. Escrever livremente, talvez seja força de expressão. Embora esquecidos do passado e livres para imprimir à nossa vida o rumo que desejarmos, trazemos no fundo da memória espiritual - esquecidos mas não ausentes - todos os condicionamentos que ali se depositaram em consequência das passadas experiências. O prêmio da vitória está em suplantar condicionamentos negativos, substituindo as paixões que nos infelicitaram, pelos impulsos de solidariedade, na conquista de novas posições espirituais.

            Para o livre exercício do arbítrio é bom que o nosso livro esteja em branco. Só assim, teremos o mérito das conquistas alcançadas, como também o ônus das concessões ao egoísmo e às paixões subalternas. Somos, assim, herdeiros de nós mesmos e construtores da nossa paz ou da nossa infelicidade. Amanhã, quando sofrermos aflição e angústias incompreensíveis, não culpemos o destino cego e cruel, nem um Deus vingativo que nos persegue - estejamos bem certos de que somente a nós mesmos devemos as nossas dores. O esquecimento do passado é, pois, uma bênção a mais que as leis de Deus nos concedem e não uma dificuldade em nosso caminho evolutivo. É bem melhor partir para a aventura maravilhosa de uma nova existência, esquecidos de antigas angústias, para que as novas aflições não se somem às que nos atormentaram no passado. É bom amar no filho difícil ou no companheiro incompreensível o antigo desafeto que estamos lentamente conquistando, em lugar de reconhecê-los na condição de inimigos da nossa paz, a quem é preciso neutralizar a todo custo. Nesses reajustes que se processam mais cedo ou mais tarde, agora ou daqui a séculos, é bom que aprendamos a identificar, na dor que nos assalta, a moeda com que resgatamos antigas faltas.

            É bom sabermos que nas futuras encarnações também não nos lembraremos das atuais aflições, nem teremos saudades das alegrias do presente. Receberemos outra vez o nosso livro em branco. Talvez então já estejamos prontos para escrever nele um longo poema de amor.
(Ext. do "Diário de Notícias", de 14/6/70.)

O Livro Branco da vida
por Hermínio C. Miranda

Reformador (FEB) Julho 1971 

Deus escreve certo por linhas certas



            Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas.

            Não podemos concordar com semelhante pronunciamento; e assim agimos porque as atitudes de Deus são, em primeiro lugar, perfeitas; se são perfeitas, são também absolutas; e, em segundo lugar, não nos cabe qualquer tentativa de julgamento desses procederes.

            Ora, o homem sempre sentiu o peso de suas faltas sobre o seu próprio coração, o jugo pesado de seus deslizes sobre si próprio. E esses erros, esses deslizes, foram produtos exclusivos de sua desídia, de sua revolta, de sua inconsequência. Se ele é desidioso, revoltado e inconsequente, convenhamos que quem é torto é precisamente ele. Por isso nossa discordância aqui apresentada. Deus escreve certo, por linhas certas.

            Ora, tudo isso veio em razão de algumas ilações em altas vozes que tivemos a oportunidade de ouvir e que, por certo, não passam de frutos de algum problema um pouco mais aflitivo, daqueles que fazem com que o indivíduo ache que tudo na Terra está errado e que “se houvesse acontecido assim, o resultado teria sido aquele outro”. Tenhamos cuidado antes da emissão de nossos conceitos, porque a sabedoria popular também afirma que a pressa é inimiga da perfeição. Aqui, sim, nada mais correto e lógico.

            O que ouvimos foi, simples e puramente, a afirmação categórica de que Allan Kardec deveria ter retornado à Terra bem antes de quando o fez, visando a evitar uma série de problemas que lhe entravaram a livre caminhada. Pensamento dez vezes errado. Qual espírita poderá contestar as pequenas provações a que somos diariamente submetidos, com vistas ao fortalecimento do autocontrole e da paciência? Logo, Allan Kardec - qualquer que fosse a época da sua feliz presença entre nós - encontraria óbices variados, comuns a todos os habitantes do planeta.

            No entanto, esse comentário que ouvimos levou-nos a pesquisar um pouco mais sobre a época do Codificador, as tensões, os desejos e as carências da sociedade do século XIX.

            Fomos buscar livros que bem retratassem o clima de ideias daqueles tempos e, dentre muitos, escolhemos para aqui focalizar a obra “A Propósito do Homem e o Desenvolvimento de suas Faculdades”, ou “Ensaio de Física Social”, elaborado por A. Quetelet, edição de Bachelier, Paris, 1835. O autor, assinando um prefácio aos 15 de abril do mesmo ano, ressalta a importância das pesquisas estatísticas para que bem se conheçam os anseios de uma época, bem como suas dificuldades. Diz ele: “Ouso acreditar em que encontraremos algum atrativo nessas pesquisas, bem como soluções naturais de muitos dos problemas e importantes questões que foram ventilados nesses últimos tempos.”

            De fato. Esse conhecimento é indispensável para o bom entendimento do homem em si mesmo. No século iluminado pelo Positivismo de Auguste Comte, aonde se ensaiava o férreo raciocínio de um Littré, as hipóteses absurdas eram rechaçadas. Mas não seria hipótese absurda o fato de que as ações humanas se acham submetidas a leis que as regulam. É o que o autor examina a páginas 4 da mencionada obra. Propõe, logo de início, sejam os diversos aspectos da coletividade examinados em seu conjunto, de modo que se tenha um acervo de fatos comprobatórios daquilo que se pretende demonstrar, sem que sobre o tema pairem dúvidas ridículas, de deficiente desenvolvimento do raciocínio empregado. (1) Eis o que nos diz Quetelet:

                (1) Método utilizado por Camille Flammarion: qualidade e quantidade.

            “Quais seriam nossos conhecimentos a propósito da mortalidade da espécie humana, se apenas houvéssemos observado alguns indivíduos? Ao invés de leis admiráveis, às quais essa mortalidade estaria submetida, mais não teríamos do que uma série de fatos incoerentes, que não permitiria qualquer suposição a respeito da marcha ordenada da natureza.”

            “O que dizemos da mortalidade humana também o dizemos das faculdades físicas do homem e até mesmo de suas faculdades morais. Se desejamos adquirir o conhecimento das leis gerais às quais essas últimas estão submetidas, precisaremos reunir grande número de observações.”

            Eis aí: leis morais sujeitas ao estudo da criatura humana; atitudes do indivíduo vinculadas diretamente a leis universais. Em resumo: a Lei da Evolução.

                Mais adiante, a páginas 13, o autor admite claramente o fato de que o homem se acha submetido a causas, em sua maior parte regulares e periódicas. Notem-se os programas da evolução do indivíduo e da sociedade, encarada em sua feição mais aberta e mais grandiosa. Essas causas regulares e periódicas nada mais são do que as tendências e características de cada espírito e, no plano social, o conjunto de tendências e de características dos grupos. Mais largamente seriam, ainda, as necessidades de toda a humanidade, estudadas as afinidades dos grupos humanos que a compõem.

            A preocupação com o índice de criminalidade é também clara, patente e inegável. E o que se observa e retira da exposição criteriosamente elaborada pelo autor (mapas, gráficos, estimativas) é o funcionamento da lei de conservação, em suas profundas vinculações com a lei de destruição, ambas - como as demais - estudadas com rara profundidade em “O Livro dos Espíritos”.

            Outro problema levantado com muita precisão é o da previsão de recursos humanos para o atendimento à demanda dessas mesmas leis em funcionamento, o que, de certo modo, percebe-se, atemoriza Quetelet. Como prevenir as dificuldades que o bom senso e a lógica apontavam como assaz próximas? O mundo começava, então, a viver uma época de renascimento espiritual.

            O que vemos atualmente - matanças, desastres que nos tocam o coração, fome em alto grau, neuroses diversas, fobias, desregramentos, inversão de valores - não são mais do que os últimos gemidos do inconformismo, os gritos derradeiros da rebeldia. Mas o renascimento de que falamos inicia-se precisamente com esses gritos, com essas fobias e com essa dilacerante inversão de valores. O renascimento, para que exista e seja operante, implica reforma autêntica, reforma íntima, desejo verdadeiro de viver os preceitos do Evangelho de Nosso Senhor Jesus-Cristo, em espírito e verdade.

            Por isso, não podemos dizer que a mudança operou-se em momento inoportuno. O que se observa, no sábio traçado do plano espiritual, é um recrudescimento das angústias e dos problemas e a subsequente vinda do Consolador prometido por Jesus: o Espiritismo, codificado pela nobre figura de Allan Kardec, um jato de luz nos anseios do mundo.

            Assim, o livro de A. Quetelet mostra, com insofismável clareza:

            1. que o século XIX foi importantíssimo ponto no desenvolvimento dos planos da Espiritualidade, sob o governo de Jesus, para o mundo;

            2. que esses planos são, de modo bem amplo, aquelas causas regulares e periódicas que influem sobre a espécie humana;

            3. que o alto grau de racionalidade do século foi condição “sine qua non” ao entendimento da Revelação do Espiritismo pelo homem;

            4. que essa Revelação, aproveitando-se do raciocínio positivista de Auguste Comte, lançou sobre ele o puro sentimento do Evangelho do Cristo, coibindo-lhe os abusos;

            5. que o estudo metódico das leis que regem a espécie humana é glorioso portão que mostra a luz de um sol de poucos ainda conhecido: o foco da Paz em Deus;

            6. que existe ordem no Universo e que essa ordem é total;

            7. que essa amplitude, refletindo na Terra, gera o desejo de conhecimento que caracteriza o homem.

            E a Revelação Espírita, que a obra reduzidamente analisada demonstra ser uma verdadeira necessidade, surge mais uma vez como resposta aos anseios e carências que, analisados pelo homem, em livros como o focalizado, respondem ao homem a realidade da vida: a própria vida.

            As preocupações do século XIX, que sempre foram as do mundo (o homem sempre almejou a paz, mas poucas vezes soube encontrá-la), encontram-se plenamente respondidas pela Doutrina Espírita, no momento exato, quando se  iniciou o renascimento espiritual da Terra. Esse renascimento prossegue; cooperemos com ele, porque o Senhor da Vida a ele preside.

            Logo, Deus escreve certo por linhas certas; os tortos somos nós; e Allan Kardec veio no momento exato, respondendo às diretrizes do Alto para o homem e pelo homem. Além disso, ele sempre estará conosco. E, além dele, e com ele, existe o Mestre dos mestres, aquele que nos espera.

            Sim... Deus escreve certo por linhas certas... Os tortos somos nós mesmos.

Deus escreve certo por linhas certas
Gilberto Campista Guarino

Reformador (FEB) Setembro 1974

sábado, 15 de agosto de 2015

As escolas da fé



"Pugnar pela laicidade absoluta do ensino mantido oficialmente, esclarecendo os estudantes, sejam crianças ou jovens, sempre que necessário, quanto à conveniência de se absterem, cordialmente, quando possível, das aulas de instrução que veiculem noções religiosas contrárias à Doutrina do Espiritismo. O Lar e o Templo são as escolas da fé."
                                   ‘Conduta Espírita’, de André Luiz, por Waldo Vieira, pág. 119, edição da FEB)

            A Doutrina Espírita é o poderoso instrumento da Providência Divina para a realização da maior e mais importante edificação de toda a história do Espírito nos planos da evolução terrestre: a do "reino de Deus" na consciência de cada um, mediante o progressivo conhecimento da verdade, individual e voluntariamente conquistável, que a todos finalmente tornará livres, segundo a palavra do Mestre Nazareno (João, 8:32).

            A transformação do mundo pelo aprimoramento espiritual dos indivíduos é meta programada que só será atingida plenamente, sem dolorosas dilações, se forem observadas a diretriz e a base do plano geral ora em curso de execução na crosta e nas zonas espirituais que lhe são próximas.

            Os Espíritos Superiores, sintonizados com a Terra há mais de cem anos, têm-nos orientado, de forma intensiva e ostensiva, pela via medianímica, sobre os métodos e os recursos, "lícitos e convenientes", de que devemos servir-nos conscientemente na integração solidária ao movimento evangélico de regeneração da Humanidade. "Jesus desempenhou o mais alto apostolado da Terra sem uma cátedra de academia mas não se projetou nos séculos sem as letras sagradas do Evangelho". "Judas era um discípulo fiel a Jesus, mas,) um dia, acreditou mais no poder frágil da Terra que na administração do Céu, e traiu a si mesmo" ("Falando à Terra", mensagens de Isabel de Castro e Demétrio N. Ribeiro, por Francisco Cândido Xavier, edição da FEB.)

            Se a Terceira Revelação, universal, progressiva e permanente, é dos Espíritos, não queiramos, na condição de aprendizes ou beneficiários, antepor-lhe ao roteiro seguro as nossas preferências pessoais, interferindo no âmbito das generosas e sábias decisões do Alto. "Não alcançaremos a libertação verdadeira sem abolir o cativeiro da ignorância no reino do espírito”. "A luz do espírito não se transmite nem por imposição nem por osmose. Quem aspire a entesourar os valores da própria emancipação íntima à frente do Universo e da Vida, deve e precisa estudar" ("Estude e Viva", de Emmanuel e André Luiz, por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, edição da FEB.)

            A fim de instruir-se, educar-se, aprimorar-se espiritualmente nas disciplinas que o conduzirão ao autoconhecimento de si mesmo, o Espírito vincular-se-á aos livros, para sempre.

            André Luiz, o esclarecido Espírito que tem ditado ao mundo obras tão notáveis nos últimos decênios, é claro na sua recomendação quanto à "laicidade absoluta do ensino", pela qual devemos pugnar, e categórico quando proclama que "o Lar e o Templo são as escolas da fé." É que existe todo um plano pedagógico, pujante e vivo, arquitetado nas Esferas Superiores e em fase de implantação na Terra, orientado segundo diretriz de eternidade e universalidade, diretriz esta vinculada às necessidades e interesses cármicos de indivíduos e coletividades, e conduzido com base no Evangelho do Divino Mestre. "Um templo espírita é, na essência, um educandário em que as leis do Ser, do Destino, da Evolução e do Universo são examinadas claramente, fazendo luz e articulando orientação, mas, por isso, não deve converter-se num instituto de mera preocupação academicista. Manterá o simpósio dos seareiros experientes, sempre que necessário, mas não o situará por cima da obra de evangelização popular" (obra "Estude e Viva", citada.)

            À luz de tais princípios, não é o caso de adquirir-se conhecimento doutrinário-cristão nas escolas humanísticas, mas de dotar os espíritas de conhecimento vivo do Espiritismo e do Evangelho, a fim de que a sua presença em todos os departamentos da cultura terrena possa influir na espiritualização das tendências e conceitos de inspiração materialista. Emmanuel, no livro "O Consolador", pág. 19, 5ª edição da FEB, respondendo à pergunta nº 1 ("Tem o Espiritismo absoluta necessidade da ciência terrestre?"), assim se expressa: "Essa necessidade de modo algum pode ser absoluta. O concurso científico é sempre útil, quando oriundo da consciência esclarecida e da sinceridade do coração. Importa considerar, todavia, que a ciência do mundo, se não deseja continuar no papel de comparsa da tirania e da destruição, tem absoluta necessidade do Espiritismo, cuja finalidade divina é a iluminação dos sentimentos, na sagrada melhoria das características morais do homem.”

            O Espiritismo não está na Terra para disputar com as correntes religiosas, filosóficas e científicas um "lugar ao sol", num incabível paralelismo, e isso muito natural e simplesmente porque ele é Sol de primeira grandeza, com luz suficiente para iluminar os lugares escuros em que tais correntes ainda se comprazem. Proclamando a superioridade da Revelação dos Imortais, não admitimos, por extensão, o que seria contra senso, quaisquer virtudes aos que lhe esposam os princípios.

            "Toda escola é centro indutivo". "O invento pede uso, a teoria espera demonstração. Assim também na experiência religiosa. Imaginemos se o Cristo, a pretexto de angariar contribuições para as boas obras, houvesse disputado a nomeação de Mateus para exercer as atribuições de chefe do erário, no palácio de Antipas; se, para garantir o prestígio do Evangelho, passasse a frequentar os corredores do Pretório, com o intuito de atrair as atenções de Pilatos; e, para favorecer a causa da Boa Nova, resolvesse adular os familiares de Anás, oferecendo-lhes passes magnéticos para curar-lhes as enxaquecas; ou se, para preservar-se na grande crise, tivesse provocado um entendimento com essa ou aquela autoridade do Sinédrio, acomodando-se ao mercado das influências políticas, junto do povo..." ("Justiça Divina", de Emmanuel, por Francisco Cândido Xavier, pág. 159, edição da FEB.)

            Na história da Igreja Cristã temos exemplos dos resultados desastrosos da ingenuidade dos que duvidaram da onisciência da "administração do Céu". Individualmente, "Judas traiu a si mesmo". Coletivamente, os cristãos, após a vitória do movimento, ao preço de sacrifícios imensos, por mais de 3 séculos, nos circos da demência humana, conseguiram "um lugar ao sol" a partir de Constantino (ln Hoc Signo Vinces). A seguir, a Igreja mudou de nome, trocou o Evangelho pela teologia que engendrou, esqueceu o programa e transformou-se em máquina infernal de opressão, sangue e sombra por cerca de 15 séculos, tudo pretensamente em nome do Manso Cordeiro de Deus. Com EscoIástica.

            A presciência do Cristo previra o advento de tais aberrações, e estas constituirão sempre experiência amarga, com sabor de advertência a todos nós.

            Em 1937, o Espírito Emmanuel, no livro intitulado "Emmanuel", nas últimas páginas (7ª edição da FEB), analisando as necessidades das reformas sociais em nossos tempos de indecisão espiritual, declara que elas deverão processar-se "sobre a base do Evangelho". "O plano pedagógico que implica esse grandioso problema tem de partir ainda do simples para o complexo. Ele abrange atividades multiformes e imensas, mas não é impossível". "Urge reformar, reconstruir, aproveitar o material ainda firme, para destruir os elementos apodrecidos na reorganização do edifício social. E é por isso que a nossa palavra bate insistentemente nas antigas teclas do Evangelho cristão, porquanto não existe outra fórmula que possa dirimir o conflito da vida atormentada dos homens". "Urge, sobretudo, a criação dos núcleos verdadeiramente evangélicos, de onde possa nascer a orientação cristã a ser mantida no lar, pela dedicação de seus chefes. As escolas do lar são mais que precisas, em vossos tempos, para a formação do espírito que atravessará a noite de lutas que a vossa Terra está vivendo, em demanda da gloriosa luz do porvir. Há necessidade de iniciar-se o esforço de regeneração em cada Indivíduo, dentro do Evangelho, com a tarefa nem sempre amena da autoeducação. Evangelizado o indivíduo, evangeliza-se a família; regenerada esta, a sociedade estará a caminho de sua purificação, reabilitando-se simultaneamente a vida do mundo". "As atividades pedagógicas do presente e do futuro terão de se caracterizar pela sua feição evangélica e espiritista, se quiserem colaborar no grandioso edifício do progresso humano". "A intelectualidade acadêmica está fechada no círculo da opinião dos catedráticos, como a ideia religiosa está presa no cárcere dos dogmas absurdos. Os continuadores do Cristo, nos tempos modernos, terão de marchar contra esses gigantes, com a liberdade de seus atos e das suas ideias. Pior enquanto, todo o nosso trabalho objetiva a formação da mentalidade cristã, por excelência, mentalidade purificada, livre de preceitos e preconceitos que impedem a marcha da Humanidade. Formadas essas correntes de pensadores esclarecidos do Evangelho, entraremos, então, no ataque às obras."

            Podemos observar, decorridas apenas três décadas do pronunciamento de Emmanuel, que a mentalidade cristã encontra-se, nos arraiais espiritistas, em fase de floração, prenunciando os frutos maduros do milênio vindouro que, segundo a revelação sempre reafirmada pelos Instrutores Espirituais, marcará indelevelmente a vida humana, quando a Terra, na escala hierárquica dos mundos, superando a atual de expiação, atingirá a categoria de orbe de regeneração. Sem Escolástica.

            A tarefa imensa é desafio a todos nós que desejamos sinceramente participar da caravana dos trabalhadores não constrangidos da grande seara do Senhor. Enquanto operamos e esperamos, porém, "não olvidemos os impositivos da aplicação com o Cristo, no santuário familiar, onde nos cabe o exemplo da paciência, compreensão, fraternidade, serviço, fé e bom ânimo, sob o reinado legítimo do amor, porque, estudando a Palavra do Céu em quatro Evangelhos, que constituem o Testamento da Luz, somos, cada um de nós, o quinto Evangelho inacabado, mas vivo e atuante, que estamos escrevendo com os próprios testemunhos, a fim de que a nossa vida seja uma revelação de Jesus, aberta ao olhar e à apreciação de todos, sem necessidade de utilizarmos muitas palavras na advertência ou na pregação" (Mensagem nº I, de Emmanuel, da obra "Luz no Lar", por Diversos Espíritos,
recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier, edição da FEB.)

            Confiamos hoje que, com o Espiritismo, não ocorrerá nada de semelhante ao que ocorreu com a igreja escolástica. eIe cumprirá fielmente seu destino, "com os homens, sem os homens e apesar dos homens".

As escolas da fé
por Francisco Thiesen

Reformador (FEB) Julho 1971 

Odioterapia


            A jovem viera de um sanatório.

            Ali, na singela sala do agrupamento espírita-cristão, revelava-se inquieta, irrequieta, músculos em contrações que prenunciavam agressividade, ríctus dolorosos que, entremeados com sorrisos, lhe deformavam a juvenil fisionomia.

            Afirmava-se incurável e, ao mesmo tempo, inconformada com o seu estado.

            Queria curar-se.

            Avizinhava-se de violenta crise.

            Somente a Misericórdia Divina, em nos conhecendo as fraquezas, a favorecia com o temporário equilíbrio, permitindo-nos o diálogo em que ela relatava os seus problemas interiores, algumas das torturas de suas noites de pesadelo.

            Trincando os dentes, informou:

            - E o médico me assegurou que a minha cura estará em eu reunir todas as pessoas com quem não simpatizo, e com as quais tenho divergência, e lhes dizer, a todas juntas, tudo o que sinto e penso delas.

            À afirmativa amargosa, inda juntou:

            - Tenho tanto ódio...

            Essa odioterapia sempre nos assombra!

            Cada caso que se repete, espanta-nos.

            Refletimos bastante sobre tais recomendações.

            Diante de quadros que são efeitos justamente do desencadeamento do rancor, do ódio trabalhado em múltiplas experiências reencarnatórias, da cólera cultivada nos espetaculosos duelos mentais em que nos conflitamos com os semelhantes - onde falha o eletrochoque, onde falece a insulina, temos recolhido essas soluções verdadeiramente mágicas de odioterapia, violência-terapia, vingança-terapia, quais remanescentes das atitudes brutais dos que faziam de honra a máxima: “Não leve desaforo para casa.”

            O infeliz enfermo, confiando-se ao conselho desesperado de seu orientador, provocará uma reação em cadeia: extravasando o rancor, recolherá rancor; distribuindo ódio e acumulando ódio, raramente se desvinculará das fichas que fazem o seu calendário de frequência nos sanatórios.

            A falsa-sensação de alívio que o bilioso diz experimentar, após suas indisciplinadas manifestações de rancor, logo após “dizer tudo o que pensa e tudo o que quer”, é sempre seguida de um agravamento do mal, agravamento este que a sabedoria popular define com profunda grandeza: “Quem diz o que quer, ouve o que não quer.”

            O parecer, distribuído a esmo, fatalmente induzirá o doente a sustentar, por tempo indefinido, a posição em que hiberna o seu senso moral: “a de vítima de um mundo que o não compreende”, distanciando-o daquele esforço indispensável de romper a cristalização do egoísmo em que se enclausura a sua alma.

            Haverá menos desajustados com Evangelhoterapia.

            A alma que se confia à sábia orientação do Senhor Jesus, ao sol de seu Evangelho, ter mina por abrir frestas na sua auto prisão, liberando-se do auto martírio a que se confia dolorosamente e, aí sim, criando condições ideais para seu alevantamento espiritual.

            Ninguém aniquila tiririca, semeando tiririca.

            Impossível acabar com pernilongos, promovendo o pântano.

            Drena-se o charco com água corrente e não com lama.

            Terrenos incultos serão ninhos de serpentes.

            Na certa que a recomendação espírita-cristã nem sempre é acolhida de bom ânimo por nós, doentes da alma, porque não corresponde à nossa ânsia de ódio, à nossa fome de vingança, aos nossos ensaios de rancor. Incomoda-nos, inclusive, por revelar a nossa autêntica posição, nos quadros da vida: a de algozes e não a de vítimas. Parece-nos menos eficiente, por apelar para sentimentos de fraternidade, de compreensão, de harmonia. Não tem o sabor fantasioso de soluções mágicas e nem fala por linguagem cabalística, mas nos aponta a urgência de nosso ajustamento às Leis Espirituais que nos regem a vida.

            É a recuperação de nosso deteriorado sentimento religioso, cuja pureza se diluiu, no escoar de milênios, sob a ganga de dogmas e rituais, paramentos e sacerdócio.

            Espiritismo é negação da odioterapia.
Odioterapia
J. Alexandre

Reformador (FEB) Maio 1970

Sementes de Paz



“Conversação sem proveito,
No espírito desatento,
É a maneira de apagar
As luzes do pensamento.”


Sementes da Paz
Toninho Bittencourt
por Chico Xavier

Reformador (FEB) Setembro 1970

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Mestres, Escolas e Escolástica


           Não restam dúvidas que o mundo anda cheio de mestres, e os dicionários terrestres, dando-nos o significado do termo, dizem-nos que mestre é “aquele que ensina ou é versado em uma arte ou ciência”. Assim, temos mestres de cerimônias, mestre-sala, mestre de dança, mestre-escola e até mesmo o mestre-cuca, isto é, o nosso cozinheiro. Em termos, pois, de práticas mundanas, louvem-se os mestres das várias profissões.

            E as escolas? Da mesma sorte que abundam os mestres, multiplicam-se as escolas. Assim, temos a Escola Ativa, Escola de Aeronáutica, Escola Lírica, Escola Livre, Escola Militar, Escola Naval, Escola Rural, Escola Normal, Escola Primária, Escola Profissional, Escola Média, Escola Superior, Escola de Samba, Escola Veterinária, etc.

            E a Escolástica? Segundo o Novo Dicionário Brasileiro Melhoramentos, a Escolástica é o “sistema teológico-filosófico surgido nas escolas da Idade Média e caracterizado pela coordenação entre Teologia e Filosofia; concordância do conhecimento natural com o revelado; argumentação silogística e reconhecimento da autoridade de Aristóteles e dos padres de Igreja. Manteve-se em alguns estabelecimentos até aos fins do século XVIlI”.

            Afinal de contas, que tem isso a ver com o Espiritismo?

            A análise do processo hodierno quanto ao chamado “movimento espírita” leva-nos a crer que, em muitos setores da atividade espírita, volta-se, novamente, e de forma imprudente, para os caminhos indebitamente percorridos pelos que, outrora, substituíram a revelação cristã pelos dogmas, frutos duma teologia acomodatícia, filha legítima dos “doutores” no assunto.

            O engano parece residir no que se entende como sendo a natureza e o objetivo do Espiritismo.

            Se aceitarmos o Espiritismo como a Revelação (e Revelação relacionada com as duas anteriores, de Moisés e Jesus, não se constituindo em obra humana, embora repousando nela a necessidade evolutiva do homem e da sua maturidade como Espírito Eterno) perguntaríamos: onde situar os mestres, em termos da Revelação?

            Quem se aventuraria, na Terra, a considerar-se professor de Espiritismo? Como encarar a evidência de que para cada mestre ou professor teríamos, necessariamente, uma  série infindável de discípulos, de cursos, de diplomas, de anéis de grau, etc?

            Nesse negativo aspecto ressaltaríamos o que de imediato nos sugere o aparecimento desses “mestres de Espiritismo”. Os mais cultos e os mais eruditos far-se-iam novos intérpretes da Revelação, e as escolas desses “novos sábios”, formariam, evidentemente, uma “nova escolástica”, agora já em termos de Espiritismo e fazendo valer o velho sistema medieval, de conformar o conhecimento natural (das ciências e filosofias humanas) com a Revelação Espírita; a argumentação silogística, isto é, o argumento baseado nas três famosas proposições: premissa maior, premissa menor e conclusão; e, finalmente, o reconhecimento da autoridade de Allan Kardec e dos sábios e professores do Espiritismo!

            Então, tudo estaria consumado!

            Parece-nos que estamos necessitando, pelo menos, de reaprender as lições vivas da própria História.

            Como somos reencarnacionistas, aceitamos a ideia de podermos ter contribuído, de certa forma, para que se plantassem na Terra, junto ao trigo puro do Evangelho de Amor e de Luz, as sementes infortunadas do joio de nossa eterna vaidade.

            Seria bem mais justo que nesse instante meditássemos, sobremodo, nas palavras de Jesus: “A ninguém chameis Mestre”.

            E, para não se alegar que estamos com ideias preconcebidas e movidos pelo desejo de simplesmente discordar daqueles que estão buscando fazer alguma coisa no movimento espírita, principalmente no terreno “educacional”, fazemos nossas as palavras do eminente  psicólogo Carl R. Rogers (in “On Becoming a Person”, Boston 1961, opúsculo que, traduzido para o português, tomou o nome de “O que Penso do Ensino e da Aprendizagem”), palavras que aquele estudioso dirigiu aos professores da Universidade de Harvard, falando a respeito do ensino apoiado no aluno. Eis as principais conclusões a que chegou Rogers:

            a) Para definir, desde logo, minha posição em relação ao tema proposto, começarei dizendo que: Minha experiência pessoal ensina-me que ninguém ensina a ninguém como ensinar. Considero, pois, pura perda de tempo a teimosia dos mestres nesse sentido.

            b) Acho, portanto, que o que quer que seja, que se consiga ensinar a outrem, não é o bastante para produzir resultados apreciáveis, e pouca ou nenhuma influência terá na conduta alheia. Chocante e descabida proposição. Ao formulá-la, não posso deixar de pedir-lhes seja ela anotada como questão que merece ser examinada em ulteriores debates.

            c) Constatei, outrossim, que o meu interesse pelo assunto é limitado e se restringe à aprendizagem que produz efeitos significativos na conduta. Admito; porém, que isso decorra de uma idiossincrasia pessoal.

            d) Logo, entendo que só existe uma aprendizagem capaz de exercer influência decisiva na conduta: aquela que o indivíduo sente como necessária e realiza por esforço próprio.

            e) O autodidata, que satisfaz suas carências através de experiências devidamente incorporadas, não fica contudo apto para transmitir diretamente a outrem o que aprendeu. Sempre que um indivíduo, com justificado entusiasmo, tenta comunicar suas experiências, armasse a conhecida posição de ensino. Irrelevantes, todavia, são os efeitos que em nós produz o conhecimento da experiência alheia, no que se refere às mudanças de atitude. Faz mais de um século, e isso é digno de nota, que um filósofo dinamarquês, Sõren Kierkegaard, chegou a essas mesmas conclusões a respeito de suas experiências pessoais. Vale, pois, invocarmos sua autoridade, para atenuarmos os efeitos de tão escandalosas afirmativas.

            f) Isso posto, concluí que: O mais acertado para mim, é não querer bancar o professor.

            g) Todas as vezes em que me meti a ensinar, e isso me ocorreu em muitas ocasiões, os resultados obtidos deixaram-me apreensivo. A rigor, não devemos dizer que os efeitos do ensino são nulos, já que, se nos atribuem alguma autoridade, influímos de fato na conduta dos outros. Mas acontece que, em todas as coisas em que pude aferir resultados acabei verificando que a minha interferência nos negócios alheios era sempre perniciosa. Dir-se-ia que o ensino leva o aluno a desconfiar de suas próprias experiências debilitando sua capacidade de aprender. Portanto: OU O ENSINO Ê INOPERANTE, OU PREJUDICIAL.

            h) Eis o que verifico invariavelmente, quando repasso os resultados da minha atuação como professor: ou perdi meu tempo, inutilmente, malhando em ferro frio ou causei sérios embaraços aos alunos, criando situações problemáticas desnecessárias. Natural, pois, que eu me sinta confuso.

            i) Daí a decisão que tomei de só me ocupar com a aprendizagem, optando sempre pelo que possa ter algum interesse imediato e que exerça influência significativa na minha conduta.

            j) Aprendi, que aprender é sobremodo compensador, tanto quando os aprendizes são os participantes de um grupo, como quando são o cliente de um lado e o clínico do outro.

            k) Descobri que o mais acertado embora seja um dos caminhos mais difíceis de trilharmos, é tentarmos refrear os mecanismos de defesa do eu, ainda que por um curto prazo, como esforço para vermos se conseguimos compreender o que pensam e sentem os outros a respeito de suas próprias experiências. Entretanto, quando me ponho a pensar nas consequências imediatas dessa minha atitude, chego a sentir calafrios e é então que percebo o quanto me afastei desse mundo convencional e pacato em que nos acomodamos para viver. Prevejo mesmo o que acontecerá, se outros mais corroborarem minhas experiências, admitindo a validez de minhas interpretações. Com isso teríamos:

            1) Em primeiro lugar, a supressão do ensino, porque as pessoas passariam a fazer reuniões para aprender em grupos.

            2) Não haveria mais exames, nem provas, uma vez que estes são instrumentos de avaliação daquele tipo de aprendizagem que consideramos inócua.

            3) Pelas mesmas razões, já não teria mais sentido fornecer certificados ou diplomas.

            4) Nem a graduação servirá mais como medida da competência, em parte pelo que já  se disse, em parte porque graduação significa arremate ou conclusão e a aprendizagem é um processo que não tem fim.

            5) E, como ninguém chega a aprender o bastante para considerar-se formado no que quer que seja, não haveria mais doutores.

            As experiências de Rogers encontram plena ressonância no Evangelho de Jesus. Basta, para tanto, que leiamos o cap. 23 do Evangelho segundo Mateus, principalmente quando o Cristo exprobra o comportamento dos escribas e fariseus. Dizem-nos os versículos 7 e 8:

            “E as saudações nas praças, e o serem chamados pelos homens - Rabi, Rabi. Vós, porém, não queirais ser chamado Rabi, porque um só é o vosso MESTRE a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos”.

            Falamos que o Espiritismo é a síntese preciosa de toda a sabedoria acumulada através dos anos incontáveis, todavia, esquecemos que o Espiritismo não significa tão somente a experiência acumulada pelos séculos, mas, e principalmente, transuda dos séculos, para ser filho legítimo da Eternidade e do Infinito.

            As suas luzes representam a antecâmara de um mundo regenerado e feliz, conduzindo os homens a uma concepção mais perfeita do significado da vida.

            É por tal razão que, segundo o espírito da Doutrina Espírita, há de se fazer um giro de cento e oitenta graus no ponteiro da nossa compreensão em todas as matérias, inclusive, e basicamente, quanto ao processo educacional.

            O Espiritismo, sendo o Cristianismo Redivivo, objetiva uma sociedade de irmãos que se amem e se auxiliem, e não de doutores que se digladiem e se odeiem.

            Não sejamos participes de movimentos que levem novamente a trair os postulados sublimes de Jesus, arremetendo-nos à sombria aventura de uma nova Escolástica, em detrimento das luzes abençoadas e eternas da Revelação Espírita.

            Em nosso entender, Rogers compreendeu, por antecipação, a sociedade humana no terceiro milênio. Sejamos nós, os espíritas-cristãos, os vanguardeiros dessa futura civilização.
 Mestres, Escolas e Escolástica
Abelardo Idalgo Magalhães

Reformador (FEB) Julho 1971