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sexta-feira, 10 de julho de 2015

Tendes por templo o universo



            Torna-se deveras necessária uma explicação mais extensa e satisfatória em torno da produção de Léon Denis.

            Filósofo dos mais profundos, mestre do pensamento esclarecido e dono da palavra  sadiamente empolgada, não se pode dirigir a obra do escritor a determinadas faixas etárias, uma vez que  tem a caracterizá-la a universalidade de ensinos; ela não se acha adstrita a particularismos grupais.

            Mas, como nos dizem os Espíritos amigos, "a verdade está na síntese" - assertiva essa já proclamada a viva voz por grande número de filósofos. Por isso mesmo, o perigo de distorção da produção de Denis está exatamente na interpretação que mentes imaturas lhe podem dar.

            Já de imediato, como entender a unidade de problemas suscitada pelo filósofo quando, a páginas 54 do livro "O Problema do Ser, do Destino e da Dor", edição de 1961, colocamo-nos face a face com a seguinte asserção:

            "O primeiro problema que se apresenta ao pensamento é o próprio pensamento", ou seja, "o primeiro problema que se apresenta ao ser pensante é o próprio pensamento." E, mais adiante: "O problema do ser e o problema da alma fundem-se num só." Vamos, como pensadores evangelizados, dissecar a peça anatômica que se apresenta à nossa frente.

            Inicialmente, o que é a UNIDADE, ou a UNICIDADE suscitada por Denis? Certamente, se pusermos em movimento toda a nossa capacidade de compreensão, entenderemos a Unidade como uma interligação mental, e portanto, interior, com reflexos na vida exterior, isto é, na vida de relação, e não uma vinculação interna totalmente desmembrada do exterior.

            No entanto, como dissemos, nem sempre é fácil interpretar o pensamento de Denis. O seu vocabulário riquíssimo e belo esconde uma profundidade e complexidade (esta, em relação ao nosso parco entendimento) plenamente justificáveis face à amplitude da visão espiritual do filósofo.

            Assim é que boa parte da juventude entende Denis como um grande "reacionário", ou um socialista extremado, dentre outros qualificativos, como o de pessimista no que toca aos destinos da sociedade terrena. Um segundo Nietzche, enfim.

            A maioria, após a leitura (não o estudo) de suas obras, enterra-se em um castelo de sólidas rochas, reagindo egoisticamente no que concerne aos problemas do mundo - que também são dela - e adota a filosofia do protesto pela não intervenção no campo prático da coletividade.

            Refutam usos e costumes; atacam maciçamente o arcabouço que lhes foi legado ou que por eles foi herdado, esquecendo-se de que "renovar não é destruir" (André Luiz, "Agenda Cristã", FEB, psicografia de Chico Xavier) e de que o marasmo não cria. Com tal proceder, fatalmente surge a piora de uma situação que podemos classificar como negra, acionando os mecanismos da Lei de retorno, gerando o verdadeiro caos social. Cultiva-se, de tal modo, a desordem mental, que os Espíritos amigos sempre condenaram, condenam e condenarão com veemência. E muitos, meus amigos... muitos justificam suas posições irrefletidas neste ou naquele volume de Léon Denis!..

            E, o que é pior, muita gente dentro da própria Doutrina Espírita procura combater a orientação segura do Alto, resguardando-se no socialismo, no não conformismo e em tantos outros "ismos", "que Léon Denis proclamou no livro tal, à página tal", ou, então, "com base no que ele afirmou na mensagem que o médium Y recebeu no Centro Z".

            Por aí se compreende que uma pequena frase de uma simples página, de um só livro do grande batalhador espírita é o bastante para abarcar uma série de problemas que se apresentam jungidos uns aos outros, formando uma unidade, e que existirão ainda por muito tempo. Além disso, esquecem-se os arautos desses "ismos" de que o nosso mundo ainda precisa depurar-se. A maioria dos espíritos que aqui reencarnam trazem profundos débitos de vidas pregressas, que se manifestam sob a forma de expiação e de prova por encarnações inteiras. De tal modo, o entrelaçamento de fios vinculatórios de uma causa às demais exterioriza-se como uma verdadeira teia, onde a aranha venenosa (o embotamento total do homem pela própria culpa) é suprema dominadora.


            Denis mostra claramente - muito embora, repetimos, não seja um Nietzche - que essa realidade dominadora se projeta a terrenos afastados, ameaçando minar toda uma estrutura cristã. E um dos campos mais propícios às suas sinistras investidas é o dos jovens, esclarece-nos.

            "Nos meios universitários, reina ainda a mais completa incerteza sobre a solução dos mais importantes problemas com que o homem jamais se defrontou em suas passagens pela Terra."

            Aqui ressurge a mencionada unidade, como produto mesmo da própria natureza gregária do Homem. A juventude não deve e não pode passar à crisálida do insulamento, alegando um choque de gerações e, suas desilusões, gerando a descrença e, consequentemente, o medo. Tudo isto nos esclarece Léon Denis.

            Ainda em "O problema do Ser, do Destino e da Dor", Denis enfoca, à plena luz de sua compreensão, o problema do jovem no mundo moderno, aludindo inclusive à obra de Carl du Prel, "La Mort et l'au delà", onde, a páginas 7, o conhecido mestre nos diz que a Filosofia não auxiliava a resolver o problema da mortalidade
que afligia a idade adulta e, ainda mais, os jovens.

            Fruto de uma visão falha, que não prepara a juventude para a vida, embasava-se ela no Naturalismo de um Hegel, no Positivismo de um Auguste Comte ou, o que é pior, no Materialismo de um Stuart Mill, tudo isso na busca de um ideal "incerto" e "flutuante". Denis nos mostra, com uma clareza meridiana, que a descrença gera o medo, que embota toda e qualquer perspectiva mais ampla, mais acalentadora. Esta é, aliás, a tônica da obra de Denis. O pessimismo e o fanatismo contribuem ainda mais para a descrença na Força Maior que dirige o Universo inteiro, chegando-se ao ápice da negação com a frase, ou melhor, a sentença "Deus está morto", com o que Nietzche consubstanciou a sua posição de negador de si mesmo, porque nenhum homem que negue a Deus pode reconhecer-se a si próprio.

            Raoul Pictet, que Denis também cita com frequência, afirma que "o desânimo precoce e o pessimismo dissolvente são ameaças terríveis para o futuro".

            A mocidade, cultuando, quer o êxito e a riqueza, quer o protesto contra o estabelecido de há muito - que lentamente irá mudando -, não atingiu ainda a posição de síntese que nos é apresentada pela Espiritualidade Maior. Em ambas as posições configura-se a descrença na Providência Maior e nas próprias forças que ela nos outorga. Cultua-se o acaso e a influência de condições primárias, em que a vontade não intervém, conforme nos elucida Raoul Pictet em sua obra "Étude Critique du Matérialisme et du Spiritisme par Ia Physique Expérimentale".

            Ressalte-se ainda uma posição muito em voga, adotada por criaturas de todas as idades, segundo a qual a existência deve ser considerada como mero caso fortuito,
produto, tanto ela quanto o Universo, de uma gigantesca explosão que teria lançado
os corpos celestes em movimento de rotação em torno de um centro, que para o nosso sistema planetário seria o Sol. Parece-nos, sem dúvida, ter havido semelhante explosão, mas... perguntaríamos se se poderia prescindir de um motor inicial que movimentasse os corpos e provocasse a própria explosão. Mais uma vez, vamos beber ensinamentos na opulenta obra de Denis, que nos informa que o choque interatômico das moléculas que, segundo Kant, teria ocasionado a movimentação é totalmente improcedente, uma vez que a energia desprendida por tal explosão é igual em todos os sentidos, o que, como facilmente se depreende, não estaria em condições de gerar movimento. Além disso, vamos lembrar a resposta de Albert Einstein, quando inquirido sobre o acaso:

            - "Não creio no acaso porque igualmente não creio que Deus pudesse jogar
dados com o Universo."

            Seria necessário mais algum depoimento?

            Naturalmente, alguém há de alegar que Einstein estaria fora de suas faculdades quando assim disse. Quanto a estes, deixemos que novas luzes se façam para eles.

            Tal é a situação de grande parte dos moços na atual vida terrena... e talvez ainda o seja por muitas encarnações. Descrentes de si mesmos, tudo negam, tudo rebatem e atacam; não percebem, entretanto, que, ao negar a Deus, negam-se a si mesmos e a toda a humanidade, à Natureza, enfim, à própria vida de que somos o exemplo mais gritante, uma vez que já estamos investidos do livre arbítrio e, conseguintemente, já nos encontramos raciocinando.

            Se a essência espiritual veio do reino mineral, passou pelo vegetal, animal... se
no vegetal só possuía sensação e no animal adquiriu instinto... do mesmo modo, no estágio humano conscientizou-se de uma liberdade maior, muito embora a igualdade perante Deus imponha determinadas restrições, em benefício da própria harmonia universal. É essa harmonia que os jovens negam, isolando-se em castas e em seitas utópicas, onde podem viver plenamente as ilusões do clima em que gravitam... ilusões das quais não são os exclusivos culpados, uma vez que, indubitavelmente, o meio influencia aqueles que ainda não se encontram embasados no Santo Evangelho do Cristo de Deus!

            Não obstante, conforme nos diz Léon Denis, "as potências da alma são inúmeras e somente esperam o alarma vitorioso para que entrem em funcionamento, criando, modificando e extinguindo situações", tudo para melhor.

            Por isso, os Espíritos amigos não se cansam de nos aconselhar o estudo e o raciocínio. Denis assim também o faz.

            Antes de vermos em suas obras monumentais o socialista intransigente, entendamos seus propósitos primeiros. Como todo verdadeiro espírita, como o próprio Cristo o fez, Denis é socialista na medida em que acha que devemos dar a cada um pouco do que é nosso, principalmente nossos valores morais: nosso amor, nosso carinho, nossa compreensão, nosso alento e nosso discernimento.

            Não vamos, é imprescindível, misturar política com Doutrina Espírita! ... Se
compreendermos Denis, compreenderemos também que não podemos mudar o mundo, que não podemos destruir sem construir; que não nos achamos, mesmo, em condições para assim agir. Deixemos que o progresso se faça aos poucos. Não vamos simplesmente afirmar que Denis dá ao substantivo pobreza sempre e sempre o sentido material. "Entre nós sempre haverá pobres", diz-nos Antônio Luiz Sayão, a páginas 433 de seu "Elucidações Evangélicas".

            Haverá sempre a pobreza moral e, mesmo quando esta houver desaparecido, haverá sempre espíritos mais evoluídos que outros; assim sendo, sempre existirão os mais pobres. E, materialmente falando, o mesmo Sayão, a páginas 434 da mesma obra, nos diz: "O desaparecimento, a cessação completa da pobreza material, de maneira que cada um viva folgadamente do seu labor, será um sonho, enquanto a nossa depuração moral não nos houver suavizado as futuras expiações."

            Novamente perguntamos:

            Será necessário mais algum testemunho?

            Tudo isto que vimos dizendo, nesta exposição, traduz o pensamento de Léon Denis quanto aos problemas do mundo. A idade adulta, ele pede um pouco mais de paciência e compreensão; um pouco mais de esclarecimento e lealdade para com a juventude. A esta, ele pede um pouco mais de calma, de perseverança, de raciocínio, de entendimento das premissas maiores de espiritualização.

            Relembremos as palavras do filósofo:

            "As potências da alma são inúmeras e somente esperam o alarma vitorioso para que entrem em funcionamento, criando, modificando e extinguindo situações, tudo para melhor."

            Não são poucos os amigos da Espiritualidade Maior que se manifestam em apoio às palavras de Denis, com esclarecimentos que são da própria Doutrina Cristã.

            Bezerra de Menezes chama a atenção para a presença do Evangelho na vida de
cada um, inclusive como medida de levantamento das forças íntimas, de que Denis
tanto nos fala. Assim:

            "Sobrevém a queda, acarretando sérias consequências àquele que conhece as forças que traz em si e que cai, fragorosamente, esquecido do Evangelho."

            Do mesmo modo, externa-se o venerável Bittencourt Sampaio, lembrando ao homem que a lei é evolução e que o marasmo é o câncer da alma:

            Dentro das possibilidades de cada um, manifesta-se o manancial de forças espirituais.

            "Mesmo assim, nada obsta a que o esforço próprio venha acentuar a evolução,
desenvolvendo aos poucos a vista espiritual."

            Ainda Eurípedes Barsanulfo assevera:

            "Lutemos com todas as forças que nos são próprias e que dormitam em nosso imo, encaminhando-as para a ação paulatina e franca nas searas do Mestre."

            Mesmo ante todos estes testemunhos, corroboradores da mensagem de Léon Denis, há os que objetam que a tendência do Espírito é o que verdadeiramente atua, cerceando todos os esforços dirigidos a mais além. Concordamos em parte com semelhante tese. É bem verdade que as tendências espirituais são dominantes, não podendo ser imediatamente transformadas.

            Mas, relembramos novamente o filósofo do Espiritismo quando, dirigindo-se a todas as idades, fala da vontade, potência-chave da alma, que pode elevar, se assim o quisermos, bem como obrigar-nos ao estacionamento, se assim o desejarmos. "A vontade", assevera Denis, "é um meio para pormos em movimento as demais forças pelo uso persistente e tenaz desta faculdade soberana que nos há de permitir modificar a nossa natureza, vencer todos os obstáculos, dominar a matéria, a doença e a morte." ("O Problema do Ser, do Destino e da Dor", pág. 305.)

            Ainda a esse propósito, manifestou-se com muita sabedoria o Espírito Ubaldo Ramalhete, relembrando com todo o seu carinho uma frase de Suffis Ferdousis, que se acha contida na obra de Denis e que bem expressa o descaso da humanidade pelos tesouros eternos do espírito:

            "Vós viveis no meio de armazéns cheios de riqueza e morreis de fome à porta."

            Como abrir essas portas do tesouro eterno? Como possibilitar a exteriorização da alma, rasgando o véu que encobre o firmamento de glórias sublimes?

            Não pelo ódio ou pelo rancor; muito menos pela inveja ou pelo prazer fútil. Mas, sim, diz-nos Léon Denis, "pelo amor e compreensão que alcançamos pela dor, essa revelação que a natureza guarda e contra a qual tanto nos debatemos". Mais adiante, visivelmente inspirado pelo Alto, prossegue: "Abri o vosso ser interno, abri as janelas da prisão da alma aos eflúvios da vida universal e, de súbito, essa prisão encher-se-á de claridade, de melodias... um mundo todo de luz penetrará vosso ser!"

            Frequentemente, escutamos as mais bizarras interpretações das assertivas de Denis. No entanto, os Espíritos amigos sempre nos lembram a paciência e a tolerância, como apanágio do verdadeiro espírita... E, relembrando o próprio Cristo, nunca tivemos notícia de que ele tenha abandonado a cruz ao meio do caminho para entrar em luta com a multidão. Cabe-nos apenas transmitir a mensagem de amor que a Espiritualidade Maior derrama sobre todos nós, relembrando sempre que o homem progride, malgrado as aparências ... que tudo isto é necessário à caminhada (Denis assim também o afirma). "A todo homem é dada a ventura da elevação espiritual. Esta é um progresso contínuo, ininterrupto, porque é essencialmente vida, ainda que a aparência seja de natureza contrária para nossos modestos sentidos." (Bittencourt Sampaio.)

            Para que todos entendam em espírito e em verdade a obra de Léon Denis, é apenas necessário que consigamos, pela vontade e pelo amor, dizer o "abre-te, Sésamo" que nos mostrará a mais intensa claridade do "entendimento com Jesus".

A Problemática
da juventude
na obra
de Léon Denis

Gilberto Campista Guarino
Reformador (FEB) Dezembro 1972



Marcus: 9-40, in dialogus


            Motes há, que, pela sua sutileza, sugerem particular cautela para serem feridos. Eles figuram no índex de alguns confrades e, cem olhos, como os do gigante Argos (da mitologia grega), os rebuscam nas publicações espíritas, a fim de serem imediatamente criticados, se chegam a ser abordados. Um caprichoso tabu faz com que se transformem em tema sacrílego, por isso conservados atrás de simplégadas (Da Mitologia - eram rochas móveis no Bósforo que impediam, com seus repentinos choques, que os barcos, passando por elas, atingissem as águas do Ponto.) que fecham a passagem ao articulista audaz, esmagado sistematicamente, sempre que pretende invadir o Ponto Euxino (O mar Negro era originalmente chamado de Ponto Euxino) em que são conservados. Abordá-Ios, portanto, é temeroso. Todo cuidado é pouco. Esse cuidado, todavia, pode ir, se se quiser, desde a fábula até a parábola, a paródia, ou o diálogo. Eis os recursos para se tratar de determinados motes, sem deixar em pânico alguns de nossos vigilantes leitores.

            Platão foi o gênio do diálogo e ninguém, entre os gregos, o excedeu. Luciano - meu xará dos idos do século 11 - foi o inventor do diálogo humorístico. Wieland imitou-o, conferindo à técnica os ancenúbios (sinônimo de nuance) da comicidade e da sátira. Erasmo de Roterdã fê-la famosa e inesquecível. Na Alemanha, comprouveram-se no diálogo as inteligências de Mendelssoln e Engel. Entre os italianos, notabilizaram-se Petrarca, Maquiavel, Gelli e Gozzi. Produziram também notáveis obras em diálogo os ingleses Berkeley, Hurd, Lyttelton e Addison. Mas foi da França que despontaram os maiores gênios, depois naturalmente das gloriosas expressões da Antiguidade: Pascal, Malebranche, Fénelon, Fontenelle, Montesquieu, Renan e esse incrível Voltaire!

            Emprestando-lhe necessária extensão filosófica, assim registra o tradicional “Grand Larousse”: “On comprendra l'importance philosophique du dialogue si l’on songe que Ia «dialectique», méthode de connaissance qui permet de s'élever à Ia contemplation de
l'absolu, n'est autre chose à l'origine que l'art de díaloguer”. (Entende-se a importância filosófica do diálogo, se considerarmos que a “dialética" - método de conhecimento que permite se eleve até à contemplação do absoluto, não é outra coisa que a origem da arte do diálogo – acataremos traduções melhores)

            Tenho pois todas as razões para escudar-me nessa parma (escudo romano) estilística, se me aventuro a reproduzir a intimidade de agradável dialogismo (figura de estilo que consiste em apresentar as ideias das personagens em forma de diálogo), a travar-se num anfiteatro qualquer da antiga Cencréia (cidade próxima a Corinto), onde Paulo raspou a cabeça por fidelidade doutrinária, ignorando que o Cristianismo iria acabar sendo um dia praticado dentro dos rigores da nova e nossa codificação kardequiana, sem vinho, sem jejum, sem batismo, sem lava-pés, etc. Acompanhemos portanto a conversação de Minos e Anaetes.

*

            - Meu bondoso Anaetes, que me dizes desse sincretismo estranho em que desejam os menos estudiosos enredar o Rivailismo, nosso movimento de salvação espiritual?

            - Referes-te certamente, Minos, às ideias extravagantes que emergem da plebe e que buscam imiscuir num só bloco a eles, espíritos incultos, ignaros e involuídos, conosco, da alta intelectualidade e de superiores noções da verdadeira iniciação...

            - Pois já viste tamanha estultícia?

            - Devo dizer-te, meu conspícuo confrade, que guardo comigo, sobre o tema, algumas preciosas reservas...

            - Mas como? Tu, Anaetes?! Não me deixes supor que perdeste o juízo! Cáspite!

            - Não é bem isso, Minos. Deixa que me confesse ao teu judicioso coração de irmão e compreenderás minhas preocupações.

            - Se isto te vale de consolo...

            - Pois bem. Fui noutro dia numa dessas reuniões e...

            - Tu?! “Pelo Cão!”

            - Escuta-me, por Deus, antes de me criticares a ação! Fui lá e verifiquei algumas
distorções dolorosas, como rituais, símbolos, cantochões, etc, Mas, - curioso - Espíritos havia que se manifestavam e, tanto quanto nós registramos em nossas tertúlias intelectivas, procuravam ali conduzir aquela gente à prática do Bem, à crença em Deus, ao conhecimento das leis fundamentais da nossa Pura Doutrina, tais como a reencarnação, a comunicação entre mortos e vivos, a pluralidade dos mundos habitados, etc.

            - Mas isto não basta, meu caro Anaetes!

            - Sim, porém o difícil me parece que está justamente nesse verbo: bastar. Afinal, que é que basta?

            - Ora, é claro que é preciso mais: é preciso ler os compêndios básicos e assimilar as lições dos tratadistas; é preciso livrar-se da superstição, dos rituais exóticos, das danças bárbaras, das crenças toscas, etc.

            - No entanto, como induzir criaturas que se encontram naquela faixa evolutiva a passarem para a nossa? Como é mesmo, meu caro Minos, aquele axioma da natureza que não dá saltos..?

            - Pelos nossos Guias! É fácil! Vamos até a esses locais e ali preguemos a alvinitente singeleza da Doutrina!

            - Meu bom amigo, não se me afigura assim tão fácil a solução. Conto-te mais um pedaço da minha incursão àquele érebo (sombra, escuridão profunda). Um medianeiro incorporado, vendo-me a um canto, chamou-me. Não tive como escapar e, embora, já bem vês, bastante a contragosto, postei-me à frente dele, depois que me obrigaram a tirar as sandálias. Aí, disse-me a entidade que se manifestava: “Pois é, meu irmão, com você posso falar normalmente, mas com eles aqui tenho de assumir outras personificações, senão acham que sou obsessor e nem me querem ouvir. Mandam-me logo embora e começam a rezar para eu melhorar”. Ou, então, acham que o meu intermediário está mistificando ou que a manifestação não passa de puro animismo. Não tem jeito, não, meu filho. Tenho mesmo de enrolar a língua e ir levando a coisa. Assim, pelo menos, me ouvem e eu posso habilmente ir conduzindo essa gente à prática do Bem”...

            - Ora vejam só...

            - Pois é o que te conto. Disse-me mais a tal entidade: que se ele cometesse a “ousadia” de dizer que a simbologia não vale nada, logo lhe chamariam inimigo da Luz e seriam até capazes de surrar o médium para por fim à “mistificação”.

            - Estou perplexo! Quase aterrado com tuas palavras. Porém, sei-as sinceras e, sendo tu quem as usa, não posso deixar de aceitá-las. Mas, convenhamos, pelo menos que se dê a isso tudo outro nome. Isso não é Rivailismo e não devemos sequer citá-los!

            - Aqui não te compreendo, meu leal Minos. Afinal, quando aportam nestas glebas cientistas estudiosos dos fenômenos psíquicos, logo te apressas em convidá-los à intimidade do nosso areópago para falarem às nossas hostes. Estes, no entanto, não menos do que aqueles, estão afastados da nossa ortodoxia, por princípios fundamentais. E não deveríamos também citar em nossos trabalhos e estudos doutrinários os nomes dos investigadores clássicos da fenomenologia rivailista, porque jamais foram ou se disseram rivailistas. Todavia, as pesquisas que fizeram não serão por acaso Rivailismo? E os médiuns profissionais das terras dos “goidels” (celtas) e dos “britanos” (britânicos?), que andarão fazendo por lá: Rivailismo ou materialismo? No mais, hás de convir comigo que em esferas altamente superiores estarão Espíritos ainda mais evoluídos do que nós e os quais certamente também já não compreendem e dispensam a música das materializações, a água da terapêutica fluídica, os nomes materialmente deixados sobre as mesas de trabalhos para efeito de socorro, ou mesmo o magnetismo da imposição das mãos. Será que lá em cima, nas culminâncias da evolução, também eles estarão querendo desligar-se completamente de nós, a dizerem que o que fazemos não é pureza doutrinária?

            - Anaetes! Tu me confundes!

            - Perdão, meu bom amigo. Acho que tu te confundes a ti mesmo.

            - Além de tudo, esqueces-te de que o termo Rivailismo foi criado especificamente para nomear a nossa Doutrina!

            - Para replicar-te não creio sequer necessária a “Arte de Glauco” (divindade marinha). Dás importância ao que não tem. Sabes muito bem que o termo “ectoplasma” é acadêmico, pertence à Biologia e foi criado para nomear a membrana que envolve o citoplasma. E daí? Nós por isso não poderemos usá-lo, emprestando-lhe acepção mais larga? Penso, meu estimado confrade, que esse termo “rivailismo” já não pertence exclusivamente a nós. Disse o Mestre, aliás, que rivailista é todo “aquele que crê nas manifestações dos Espíritos”. Ademais, também não poderíamos chamar-nos a nós mesmos “cristãos”, que longe, muito longe estamos de proceder rigorosamente como o Cristo doutrinou... Finalmente, peço-te que atentes para o seguinte: se só pudesse ser considerado “rivailista” quem segue severamente a Doutrina Rivailista, nem eu, nem tu, nem ninguém sê-lo-ia de verdade. E cristãos, por seu turno, só poderíamos contar algumas raríssimas exceções humanas.

            - É incrível! Porém de certo modo óbvio... Talvez tenhas alguma razão,  Anaetes. Qual deverá ser, então, nosso comportamento diante dessa gente?

            - Acima de tudo, entendê-la. Um dia compreenderão muitas coisas, como já compreendemos nós outros. A vida é uma escada, cujos degraus representam ciclos evolutivos e conquistáveis passo a passo. Lá entre aquela gente, como aqui entre nós, e como além de nossa evolução, está o Espírito. E onde estiver o Espírito está o Rivailismo. Há Espíritos que se ignoram como tais, quer no corpo, quer fora do corpo. Manifestam-se. Deixará de haver Rivailismo nessas manifestações? Não é a ignorância ou o conhecimento das coisas que dá existência à Revelação. Ela existe por si, como uma Verdade independente de tudo. Da mesma forma não nos importa se alguém crê ou não no Espírito: a verdade é que afirmaremos e demonstraremos sempre que esse alguém é um Espírito!

            - Teus argumentos têm lógica, Anaetes. Confesso-me perturbado.

            - Acalma-te, Minos... É preciso que te acalmes. Do contrário serão capazes de dizer que já não és mais rivailista, pelo simples fato de que já pensas como eu...

            - Apenas para terminarmos, resume para mim tua belíssima conceituação, Anaetes.

            - Que seja. Anota isto, Minos: tudo é Rivailismo; mas nem tudo é Doutrina Rivailista.

            E encerro aqui a reprodução do diálogo que ouvi em Cencreía, e cujo mote, por reproduzi-lo, certamente me levaria a ser esmagado entre as terríveis simplégadas, se Jáson não me houvesse confidenciado, em tempo, a mágica de Medéia, para que eu vencesse o dragão da intolerância ortodoxa... Praza aos céus que também eu tenha conseguido fixar para sempre o movimento daqueles rochedos, deixando doravante o mar aberto a todos, ainda que nele se tenha de entrar sob a proteção estilística do diálogo que Platão e outros imortalizaram...

“Marcus: 9-40, in dialogus”
por Luciano dos Anjos

Reformador (FEB) Abril 1971

Uma pequena mensagem




"Quem não preza compromissos
Cria a própria desventura;
A vida fornece à vida
A vida que se procura."


Lições da Estrada (trecho)
Gastão de Castro
por Chico Xavier

Reformador (FEB)  Junho 1970

Oremos

            Senhor!
           
            Não te pedimos isenção das provas necessárias, mas apelamos para tua misericórdia, a fim de que as nossas forças consigam superá-las. Não te rogamos a supressão dos problemas que nos afligem a estrada; no entanto, esperamos o apoio de teu amor, para que lhes confiramos a devida solução com base em nosso próprio esforço.

            Não te solicitamos o afastamento dos adversários que nos entravam o passo e obscurecem o caminho; todavia, contamos com o teu amparo de modo que aprendamos a acatá-los, aproveitando-lhes o concurso.

            Não te imploramos imunidades contra as desilusões que porventura nos firam, mas exoramos o teu auxílio a fim de que lhes aceitemos sem rebeldia a função edificante e libertadora.

            Não te suplicamos para que se nos livre o coração de penas e lágrimas; contudo, rogamos à tua benevolência para que venhamos a sobrestar-lhes o amargor, assimilando-lhes as lições!...
           
            Senhor, que saibamos agradecer a tua proteção e a tua bondade nas horas de alegria e de triunfo; entretanto, que nos dias de aflição e de fracasso, possamos sentir conosco a luz de tua vigilância e de tua bênção!...

Oremos
Emmanuel
por Chico Xavier

Reformador (FEB) Setembro 1970

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A Doutrina Espírita


            
                Das obras de Allan Kardec e outras subsidiárias recolho a seguinte síntese da Doutrina Espírita:

            - Deus é a inteligência suprema do universo, causa primária de todas as coisas. Deus é eterno, imutável, único, uno, todo poderoso, soberanamente justo e bom. Deus cria sem cessar e de toda a eternidade.

            - Adora-se a Deus por meio da prece e pelo cumprimento de todos os deveres que nos são impostos pela moral cristã.

            - A prece só é útil quando parte do coração. É ineficaz quando pronunciada apenas pelos lábios.

            - Não existem fórmulas mais ou menos convenientes para se orar. Seria o mesmo que admitir conveniência boa ou má em orar neste ou naquele idioma.

            - Jesus é o ser mais puro que até hoje se manifestou na Terra. Jesus não é Deus.

            - A moral espírita é a moral do Cristianismo.

            - Os maiores inimigos do homem são o orgulho, a vaidade, o egoísmo, a inveja e a ignorância.

            - O mérito nosso está no sacrifício e praticamente deixa de existir quando o bem nada custa ou é feito sem trabalho.

            - O trabalho é uma lei natural de Deus e o meio imposto ao homem para aperfeiçoar a sua inteligência, assegurar o seu progresso, o seu bem-estar e a sua felicidade.

            - Infringe a lei de Deus quem usa de sua autoridade para impor aos seus inferiores um trabalho excessivo.

            - O matrimônio monogâmico é lei natural de Deus e representa progresso da sociedade.

            - Não tem mérito o celibato voluntário, pois não aproveita a ninguém.

            - As mutilações do corpo do homem e dos animais é inútil. Para dominar a matéria terrestre basta praticar a caridade.

            - Todos os homens têm igualmente o direito de usar os bens da Terra. Quem os amontoa para conseguir o supérfluo, em prejuízo dos que carecem do necessário, é egoísta e responderá pelas privações que fez sofrer.

            - Deus pôs no homem o instinto de conservação para que o sustivesse nas provas, pois sem isso ele descuidaria da vida.

            - O predomínio das paixões ou da natureza animal sobre a espiritual é que induz o homem à guerra.

            - Quem tira a vida a outrem corta uma existência de expiação ou de missão e é culpado perante Deus.

            - Duelar é crime, sendo costume digno somente de povos bárbaros. O chamado ponto de honra, com que o querem justificar, não passa de orgulho e vaidade.

            - A pena de morte é contrária à lei de Deus e um dia desaparecerá da legislação humana.

            - Todos os homens devem concorrer para o progresso, ajudando-se mutuamente. O homem pode às vezes retardar, mas jamais impedir a marcha do progresso.

            - Todos os homens são iguais perante Deus, tem um mesmo princípio e um mesmo destino.

            - É impossível estabelecer a igualdade absoluta das riquezas. A diversidade das faculdades e dos caracteres opõe-se a isso.

            - O homem e a mulher são iguais perante Deus e tem os mesmos direitos. A Natureza dotou o homem com mais força para que ele a proteja e não para que a escravize.

            - Uma legislação para ser justa deve consagrar a igualdade de direitos ao homem e à mulher, mas não a igualdade de funções, pois é preciso que cada qual tenha as operações que lhe são próprias e segundo as suas aptidões.

            - O desejo do próprio morto de perpetuar com monumentos fúnebres a sua memória é o seu último ato de orgulho.

            - Toda e qualquer crença é respeitável quando é sincera e conduz à prática do bem. Mas a melhor doutrina é a que faz mais homens de bem e menos hipócritas.

            - A base da justiça fundada na lei natural está na afirmativa do Cristo: "Desejai para os outros o que desejardes para vós mesmos".

            - O primeiro de todos os direitos naturais do homem é o direito à vida.
            - Somente é legitima a propriedade que se adquire por meio de trabalho e sem prejuízo de outrem.

            - A melhor das virtudes é a que estiver fundada na caridade mais desinteressada.

            - O homem não pode, na Terra, gozar a perfeita felicidade; mas depende dele dulcificar os seus males.

            - Não há motivo para se ter medo da morte. A morte não existe. A doutrina materialista é a sanção do egoísmo, fonte de todos os vícios.

            - O homem não tem direito de dispor da sua vida. O suicídio é o maior crime contra si próprio e contra Deus.
(Ext. do "Diário de Notícias" de 28/7/70)

A Doutrina Espírita - Parte 1
por Luciano dos Anjos
Reformador (FEB) Setembro 1970



            Prossigo hoje na coletânea dos princípios e postulados tomados às obras de Allan Kardec  e outras subsidiárias, os quais dão corpo à Doutrina Espírita.

            - Coexistem no homem 3 princípios: o corpo ou soma, animado pelo fluido vital; a alma ou Espírito encarnado, de natureza indefinível; e o perispírito, laço fluídico intermediário (espécie de invólucro semi material) que liga o corpo à alma.

            - Alma é um Espírito que encarnou.

            - O Espírito nunca perde a sua individualidade, quer antes de encarnar, quer estando encarnado, quer depois da desencarnação.

            - A alma manifesta a sua individualidade, no mundo dos Espíritos, por meio do perispírito, que se modifica de acordo com o progresso de cada um.

            - No momento da morte a alma experimenta sensação agradável ou desagradável, conforme houver sido a sua conduta durante a vida material.

            - O conhecimento do Espiritismo influi sensivelmente na duração e extensão da crise da morte.

            - Os pais transmitem aos filhos apenas caracteres morfológicos e hereditários, pois a alma é indivisível.

            - A paternidade é uma missão. Os filhos são colocados sob a tutela dos pais para que estes os guiem no caminho do bem.

            - Os animais também possuem uma alma, que se manifesta principalmente através dos instintos e do raciocínio elementar.

            - Espírito é o princípio inteligente do Universo. Os Espíritos estão em toda parte e nada de natureza física lhes obsta a movimentação.

            Exceção feita daqueles que, involuídos, se supõem ainda sujeitos às contingências da materialidade.

            - Todos os Espíritos foram criados por Deus simples e perfectíveis.

            - O inferno e o paraíso não existem como lugares de castigo e de recompensa. É contrária a Deus a noção das penas eternas. O milagre também não existe.

            - O demônio, no sentido que se liga a essa palavra, é pura fantasia. Se existisse seria obra de Deus e, assim, Deus não teria procedido com justiça e bondade, criando seres consagrados eternamente ao mal.

            - Os Espíritos podem permanecer estacionários na sua evolução, mas nunca retrocedem. A metempsicose (transmigração da alma dum ser humano para um animal irracional) não tem fundamento.

            - Todos os Espíritos possuem livre-arbítrio para seguir o bem ou o mal. A ideia do fatalismo é falsa; existe porém um determinismo decorrente dos nossos próprios atos e da nossa própria liberdade de agir.

            - Todas as percepções são atributos do Espírito e dele são parte integrante.

            - O corpo material é sempre um obstáculo, à livre manifestação das faculdades do Espirito, mas no Espaço ele recorda, se assim o desejar, as suas existências passadas.

            - Anjo de Guarda nada mais é que um Espírito de ordem elevada que nos assiste a permanência como encarnados na Terra e que nos aconselha através da nossa consciência.

            - A vida espiritual é uma atividade constante. A ociosidade angelical seria um contrasenso diante da incessante dinâmica universal.

            - Nenhum sofrimento é eterno. Por isso Jesus afirmou que nenhuma das ovelhas se perderia.
                                                            Ext. do "Diário de Notícias" de 9/8/70)





A Doutrina Espírita - Parte 2
por Luciano dos Anjos
Reformador (FEB) Outubro 1970
            

                
               Apresento finalmente a última parte da sinopse que venho fazendo da Doutrina Espírita, na conformidade das obras codificadas por Allan Kardec com a assistência do Espírito da Verdade, bem como de outras obras subsidiárias:

            - Médium é uma pessoa apta a receber comunicações dos Espíritos, seja pela escrita, pela audição, pela vidência ou por qualquer outro meio.

            - A mediunidade é útil não apenas à pessoa que a possua, mas a todos a quem ela propicia ensinamentos e ajuda.

            - Qualquer Espírito pode comunicar-se, desde que esteja em condições para isso e que Deus o permita. Aos maus é dado se comunicarem para que sirvam de lição aos homens, revelando-se no seu estado de dor, e para que, através da prece e do contato mais material recebam o influxo dos sentimentos bons que lhes podem ser oferecidos pelos encarnados.

            - Os Espíritos maus, atrasados e imperfeitos devem ser tratados exclusivamente com amor, tolerância e muita paciência. A violência, a intimidação, a linguagem áspera nada conseguem.

            - Os principais tipos de mediunidade são: a tiptologia ( comunicações por pancadas), a sematologia, também chamada de efeitos físicos (movimentação de objetos), a audiência (percepção de vozes e ruídos espirituais), a vidência (visão do perispírito das entidades), a psicografia (através da escrita) e a de materializações (combinação de fluidos do Espaço com os do médium provocando a aparição da entidade em forma visível e tangível).

            - Ectoplasma é o nome que se dá ao fluido, de natureza psicossomática, oriundo dos médiuns de materialização, e do qual se servem os Espíritos para tornar-se visíveis e tangíveis aos olhos e ao tato humanos.

            - A mediunidade foi praticada sempre em todos os tempos. Moisés, no Velho Testamento, proibiu o seu abuso.

            - Abusa-se do Espiritismo se se procede a evocações para divertimento ou simples curiosidade, e ainda se, pelo seu exercício, o médium ou terceiros recebem algum pagamento.

            -Só se deve assistir a reuniões das quais participem pessoas sérias, preocupadas apenas com o bem. Concorrem para o êxito duma sessão: o recolhimento, a prece, a paz de consciência, o estudo e o desejo de fazer o bem.

            - Os Espíritos, bons ou maus, podem influenciar as pessoas mesmo fora das reuniões espíritas, agindo diretamente sobre o nosso pensamento.

            - Os bons Espíritos estão sempre dispostos a proteger-nos, desde que entremos em sintonia mental com eles e os escutemos.

            - Obsessão é a influência de Espíritos maus sobre qualquer pessoa, visando a atormentá-la e fazê-la praticar atos ridículos e maléficos. Nessas condições, tal pessoa fica como se fosse atacada de demência. Toda obsessão, porém, é recíproca, dividindo-se a sua culpa entre o agressor e o agredido.

            - A obsessão cessa através da prece e precipuamente da moralização tanto do obsessor como do obsidiado, mediante os trabalhos práticos das sessões espíritas.

            - A bênção somente pode alcançar aquele que se tornou digno dela; a maldição também não produz efeito senão sobre aquele que se tornou mau.

            - Reencarnação é a lei que determina venha um Espírito habitar sucessivamente vários corpos. Somente ela explica as diferenças materiais, intelectuais e morais entre os homens. Somente ela engrandece Deus e torna perfeita a Sua justiça.

            - A reencarnação é aceita e ensinada desde os mais remotos tempos. A Bíblia a atesta em muitas passagens. Jesus-Cristo pregou-a no seu Evangelho.

            - Os selvagens são Espíritos pouco evoluídos, que um dia alcançarão o nosso progresso. Todos nós também já passamos por aquele estágio.

            - A reencarnação visa ao nosso aperfeiçoamento e ao resgate de nossas faltas pretéritas.

            - O Espírito, ao reencarnar, esquece as suas vidas anteriores, constituindo-se esse esquecimento numa das maiores bênçãos de Deus, a fim de que possa seguir sua trajetória sem problemas conscienciais que certamente o atormentariam ou o fariam falir novamente.

            - O arrependimento favorece a melhora do Espírito, mas é preciso expiar as faltas cometidas. As faltas só podem ser redimidas pela reparação delas, não por privações pueris nem mediante donativos para depois da morte. A rigor, somente a prática do bem repara os nossos pecados.

            - A reencarnação pode dar-se na Terra ou em qualquer outro mundo, dentre os bilhões a que chamamos planetas e estrelas.

            - O Espaço é infinito. O vácuo absoluto não existe. Os mundos são formados pela condensação do fluido cósmico disseminado por tudo o que ‘é’.

            - Difere muito a constituição física dos mundos. Todos os corpos celestes podem ter sido, podem ser ou poderão vir a ser habitados e habitáveis, pois Deus nada cria inutilmente e a Terra não é nenhum astro especial ou privilegiado dentro da Criação Divina.

            - O esquecimento e o perdão das ofensas são próprios das almas elevadas, que estão fora do alcance do mal. A caridade é a virtude por excelência que deve conduzir todos os povos à felicidade . A virtude é o conjunto de todas as qualidades essenciais do homem de bem. A paciência é a resignação e a submissão a todos os sofrimentos, tanto físicos como morais. A probidade faz parte da justiça. A indulgência é um sentimento doce que faz esquecer as faltas e os defeitos do nosso próximo. O perdão é divino. Para o homem, a cólera, o orgulho, o egoísmo, a avareza e a inveja são mais fatais e muito piores do que o frio, a fome e a sede. O fumo é mau porque estraga a saúde que deve ser conservada para o cumprimento de nossas tarefas na Terra. A bebida só é útil quando na dose estritamente necessária à manutenção do equilíbrio do organismo; em excesso é vício repugnante. O jogo é uma paixão funesta que pode arrastar o homem até ao suicídio e fazer que ele se converta num dos seres mais egoístas da Terra. Em resumo, fora da caridade não há salvação e só se conhece o verdadeiro espírita pela sua transformação
moral.

            - A Revelação Espírita está contida em "O Livro dos Espíritos", de Allan Kardec. A Doutrina Espírita está contida nesta obra e ainda em "O Livro dos Médiuns", "O Evangelho Segundo o Espiritismo", "O Céu e o Inferno" e "A Gênese".

            - Allan Kardec é pseudônimo do eminente professor francês Hyppolyte Léon Denizard Rivail, encarnado em Lyon, em 3 de outubro de 1804, e desencarnado em Paris, em 31 de março de 1869.
(Ext. do “Diário de Notícias" de 13/9/70)


A Doutrina Espírita - Parte 3
por Luciano dos Anjos

Reformador (FEB) Novembro  1970



Preparo para a vida

           A luta pela vida começa cedo. Mal a criança principia a andar e falar e já se lhe dá um encaminhamento, que pode ir desde o Jardim da Infância até os estudos mais altamente graduados, na escala dos conhecimentos superiores.

            Constitui mesmo um espetáculo à parte, embora diariamente repetido, a ida dos colegiais às escolas. Dá gosto vê-los, tomando de assalto, por assim dizer, a condução ou postados nas dependências dos educandários, quais bandos de aves que pousassem em revoada em um só local. Palradores e bulhentos, sorridentes e brincalhões, lá se vão eles, os estudantes, de portes e tipos diferentes, sobraçando pastas e porta-cadernos, merendeiras e bolsas. Voltam alegres como foram, movimentando o centro e os bairros da cidade, nos turnos da manhã, da tarde e da noite.

            É o preparo para a vida. Há pais que deixam de vestir-se bem, de alimentar-se melhor só para terem o prazer de ver seus filhos graduarem-se nos estudos. Raiam, por vezes, pelo sacrifício as epopeias de luz que são descritas pelo heroísmo paternal, levados a extremos de dedicação inimaginável.

            Selecionam-se cursos, destacam-se nomes e endereços de colégios e professores, recortam-se anúncios de explicadores especializados, consultam-se fontes autorizadas quanto a programas e horários de ensino de maior confiança e eficiência, tudo para facilitar a criança e o adolescente nos domínios do aprendizado. Rios de dinheiro são gastos com a instrução dos filhos.

            Amanhã, eles estarão bem situados na vida. Serão autênticos representantes da Cultura. Exercerão as mais variadas funções nos múltiplos setores das atividades humanas. Falarão línguas. Escreverão com raro brilhantismo. Discursarão com facilidade e felicidade. Conceberão coisas impressionantes. Farão planejamentos maravilhosos. Formularão programas ousados. Terão seus nomes em evidência na imprensa. Ocuparão com frequência os microfones. Ver-se-ão procurados e preferidos pelos lançadores de cartazes, como “homem do dia” ou “figura do momento”.

            O público terá conhecimento de suas andanças, de suas entrevistas, de suas palavras, de suas decisões. São os homens de hoje aquelas crianças de ontem. Estudaram. Aprenderam e subiram. Guindaram-se a altas posições. Galgaram postos representativos. Fizeram-se porta-vozes de suas classes. Tornaram-se autoridades na ordem de assuntos que dominam. Temos, enfim, as grandes capacidades: técnicos, especialistas, doutores e publicistas, cultores das Armas, Ciências, Letras e Artes.

            Consistirá, porém, apenas nisto o preparo para a vida? E o objetivo de ser bom? e o ideal de tornar-se melhor? e a obtenção do grande tesouro da Educação?

            Onde a formação do caráter, a purificação do íntimo, a dignificação do sentimento, a iluminação do entendimento, o acrisolamento da consciência, o aperfeiçoamento da mente, a sublimação de tudo quanto é do Espírito?

            Geralmente os pais não pensam nisto. Bem poucos são os que olham este segundo lado da questão, enquanto quase todos por pouco não ficam alucinados de preocupações pelos resultados da outra parte.

            É que eles apenas situam as coisas no terreno das temporalidades. A seu ver, tudo se reduz a uma questão de dinheiro no bolso. Tendo este, o mais virá como consequência inevitável.

            No entanto, assim não é, nunca foi e jamais poderá ser. Já devemos ter o necessário amadurecimento para compreender que os destinos do Homem e do Mundo são intimamente entrelaçados nos meandros da Cultura e da Educação.

            Preparemos, pois, nossos filhos não só para viver bem, mas, sobretudo, para bem viver. Tanto quanto a Inteligência, o Coração também precisa de alimentos e elementos para sustentar-se e sustentar outros dentro da Vida.

            A Terra só será realmente um planeta feliz quando seus filhos, além de intelectualizados, forem verdadeiramente bons.

Preparo para a Vida
Alberto Nogueira da Gama

Reformador (FEB) Setembro 1970