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sexta-feira, 10 de julho de 2015

Marcus: 9-40, in dialogus


            Motes há, que, pela sua sutileza, sugerem particular cautela para serem feridos. Eles figuram no índex de alguns confrades e, cem olhos, como os do gigante Argos (da mitologia grega), os rebuscam nas publicações espíritas, a fim de serem imediatamente criticados, se chegam a ser abordados. Um caprichoso tabu faz com que se transformem em tema sacrílego, por isso conservados atrás de simplégadas (Da Mitologia - eram rochas móveis no Bósforo que impediam, com seus repentinos choques, que os barcos, passando por elas, atingissem as águas do Ponto.) que fecham a passagem ao articulista audaz, esmagado sistematicamente, sempre que pretende invadir o Ponto Euxino (O mar Negro era originalmente chamado de Ponto Euxino) em que são conservados. Abordá-Ios, portanto, é temeroso. Todo cuidado é pouco. Esse cuidado, todavia, pode ir, se se quiser, desde a fábula até a parábola, a paródia, ou o diálogo. Eis os recursos para se tratar de determinados motes, sem deixar em pânico alguns de nossos vigilantes leitores.

            Platão foi o gênio do diálogo e ninguém, entre os gregos, o excedeu. Luciano - meu xará dos idos do século 11 - foi o inventor do diálogo humorístico. Wieland imitou-o, conferindo à técnica os ancenúbios (sinônimo de nuance) da comicidade e da sátira. Erasmo de Roterdã fê-la famosa e inesquecível. Na Alemanha, comprouveram-se no diálogo as inteligências de Mendelssoln e Engel. Entre os italianos, notabilizaram-se Petrarca, Maquiavel, Gelli e Gozzi. Produziram também notáveis obras em diálogo os ingleses Berkeley, Hurd, Lyttelton e Addison. Mas foi da França que despontaram os maiores gênios, depois naturalmente das gloriosas expressões da Antiguidade: Pascal, Malebranche, Fénelon, Fontenelle, Montesquieu, Renan e esse incrível Voltaire!

            Emprestando-lhe necessária extensão filosófica, assim registra o tradicional “Grand Larousse”: “On comprendra l'importance philosophique du dialogue si l’on songe que Ia «dialectique», méthode de connaissance qui permet de s'élever à Ia contemplation de
l'absolu, n'est autre chose à l'origine que l'art de díaloguer”. (Entende-se a importância filosófica do diálogo, se considerarmos que a “dialética" - método de conhecimento que permite se eleve até à contemplação do absoluto, não é outra coisa que a origem da arte do diálogo – acataremos traduções melhores)

            Tenho pois todas as razões para escudar-me nessa parma (escudo romano) estilística, se me aventuro a reproduzir a intimidade de agradável dialogismo (figura de estilo que consiste em apresentar as ideias das personagens em forma de diálogo), a travar-se num anfiteatro qualquer da antiga Cencréia (cidade próxima a Corinto), onde Paulo raspou a cabeça por fidelidade doutrinária, ignorando que o Cristianismo iria acabar sendo um dia praticado dentro dos rigores da nova e nossa codificação kardequiana, sem vinho, sem jejum, sem batismo, sem lava-pés, etc. Acompanhemos portanto a conversação de Minos e Anaetes.

*

            - Meu bondoso Anaetes, que me dizes desse sincretismo estranho em que desejam os menos estudiosos enredar o Rivailismo, nosso movimento de salvação espiritual?

            - Referes-te certamente, Minos, às ideias extravagantes que emergem da plebe e que buscam imiscuir num só bloco a eles, espíritos incultos, ignaros e involuídos, conosco, da alta intelectualidade e de superiores noções da verdadeira iniciação...

            - Pois já viste tamanha estultícia?

            - Devo dizer-te, meu conspícuo confrade, que guardo comigo, sobre o tema, algumas preciosas reservas...

            - Mas como? Tu, Anaetes?! Não me deixes supor que perdeste o juízo! Cáspite!

            - Não é bem isso, Minos. Deixa que me confesse ao teu judicioso coração de irmão e compreenderás minhas preocupações.

            - Se isto te vale de consolo...

            - Pois bem. Fui noutro dia numa dessas reuniões e...

            - Tu?! “Pelo Cão!”

            - Escuta-me, por Deus, antes de me criticares a ação! Fui lá e verifiquei algumas
distorções dolorosas, como rituais, símbolos, cantochões, etc, Mas, - curioso - Espíritos havia que se manifestavam e, tanto quanto nós registramos em nossas tertúlias intelectivas, procuravam ali conduzir aquela gente à prática do Bem, à crença em Deus, ao conhecimento das leis fundamentais da nossa Pura Doutrina, tais como a reencarnação, a comunicação entre mortos e vivos, a pluralidade dos mundos habitados, etc.

            - Mas isto não basta, meu caro Anaetes!

            - Sim, porém o difícil me parece que está justamente nesse verbo: bastar. Afinal, que é que basta?

            - Ora, é claro que é preciso mais: é preciso ler os compêndios básicos e assimilar as lições dos tratadistas; é preciso livrar-se da superstição, dos rituais exóticos, das danças bárbaras, das crenças toscas, etc.

            - No entanto, como induzir criaturas que se encontram naquela faixa evolutiva a passarem para a nossa? Como é mesmo, meu caro Minos, aquele axioma da natureza que não dá saltos..?

            - Pelos nossos Guias! É fácil! Vamos até a esses locais e ali preguemos a alvinitente singeleza da Doutrina!

            - Meu bom amigo, não se me afigura assim tão fácil a solução. Conto-te mais um pedaço da minha incursão àquele érebo (sombra, escuridão profunda). Um medianeiro incorporado, vendo-me a um canto, chamou-me. Não tive como escapar e, embora, já bem vês, bastante a contragosto, postei-me à frente dele, depois que me obrigaram a tirar as sandálias. Aí, disse-me a entidade que se manifestava: “Pois é, meu irmão, com você posso falar normalmente, mas com eles aqui tenho de assumir outras personificações, senão acham que sou obsessor e nem me querem ouvir. Mandam-me logo embora e começam a rezar para eu melhorar”. Ou, então, acham que o meu intermediário está mistificando ou que a manifestação não passa de puro animismo. Não tem jeito, não, meu filho. Tenho mesmo de enrolar a língua e ir levando a coisa. Assim, pelo menos, me ouvem e eu posso habilmente ir conduzindo essa gente à prática do Bem”...

            - Ora vejam só...

            - Pois é o que te conto. Disse-me mais a tal entidade: que se ele cometesse a “ousadia” de dizer que a simbologia não vale nada, logo lhe chamariam inimigo da Luz e seriam até capazes de surrar o médium para por fim à “mistificação”.

            - Estou perplexo! Quase aterrado com tuas palavras. Porém, sei-as sinceras e, sendo tu quem as usa, não posso deixar de aceitá-las. Mas, convenhamos, pelo menos que se dê a isso tudo outro nome. Isso não é Rivailismo e não devemos sequer citá-los!

            - Aqui não te compreendo, meu leal Minos. Afinal, quando aportam nestas glebas cientistas estudiosos dos fenômenos psíquicos, logo te apressas em convidá-los à intimidade do nosso areópago para falarem às nossas hostes. Estes, no entanto, não menos do que aqueles, estão afastados da nossa ortodoxia, por princípios fundamentais. E não deveríamos também citar em nossos trabalhos e estudos doutrinários os nomes dos investigadores clássicos da fenomenologia rivailista, porque jamais foram ou se disseram rivailistas. Todavia, as pesquisas que fizeram não serão por acaso Rivailismo? E os médiuns profissionais das terras dos “goidels” (celtas) e dos “britanos” (britânicos?), que andarão fazendo por lá: Rivailismo ou materialismo? No mais, hás de convir comigo que em esferas altamente superiores estarão Espíritos ainda mais evoluídos do que nós e os quais certamente também já não compreendem e dispensam a música das materializações, a água da terapêutica fluídica, os nomes materialmente deixados sobre as mesas de trabalhos para efeito de socorro, ou mesmo o magnetismo da imposição das mãos. Será que lá em cima, nas culminâncias da evolução, também eles estarão querendo desligar-se completamente de nós, a dizerem que o que fazemos não é pureza doutrinária?

            - Anaetes! Tu me confundes!

            - Perdão, meu bom amigo. Acho que tu te confundes a ti mesmo.

            - Além de tudo, esqueces-te de que o termo Rivailismo foi criado especificamente para nomear a nossa Doutrina!

            - Para replicar-te não creio sequer necessária a “Arte de Glauco” (divindade marinha). Dás importância ao que não tem. Sabes muito bem que o termo “ectoplasma” é acadêmico, pertence à Biologia e foi criado para nomear a membrana que envolve o citoplasma. E daí? Nós por isso não poderemos usá-lo, emprestando-lhe acepção mais larga? Penso, meu estimado confrade, que esse termo “rivailismo” já não pertence exclusivamente a nós. Disse o Mestre, aliás, que rivailista é todo “aquele que crê nas manifestações dos Espíritos”. Ademais, também não poderíamos chamar-nos a nós mesmos “cristãos”, que longe, muito longe estamos de proceder rigorosamente como o Cristo doutrinou... Finalmente, peço-te que atentes para o seguinte: se só pudesse ser considerado “rivailista” quem segue severamente a Doutrina Rivailista, nem eu, nem tu, nem ninguém sê-lo-ia de verdade. E cristãos, por seu turno, só poderíamos contar algumas raríssimas exceções humanas.

            - É incrível! Porém de certo modo óbvio... Talvez tenhas alguma razão,  Anaetes. Qual deverá ser, então, nosso comportamento diante dessa gente?

            - Acima de tudo, entendê-la. Um dia compreenderão muitas coisas, como já compreendemos nós outros. A vida é uma escada, cujos degraus representam ciclos evolutivos e conquistáveis passo a passo. Lá entre aquela gente, como aqui entre nós, e como além de nossa evolução, está o Espírito. E onde estiver o Espírito está o Rivailismo. Há Espíritos que se ignoram como tais, quer no corpo, quer fora do corpo. Manifestam-se. Deixará de haver Rivailismo nessas manifestações? Não é a ignorância ou o conhecimento das coisas que dá existência à Revelação. Ela existe por si, como uma Verdade independente de tudo. Da mesma forma não nos importa se alguém crê ou não no Espírito: a verdade é que afirmaremos e demonstraremos sempre que esse alguém é um Espírito!

            - Teus argumentos têm lógica, Anaetes. Confesso-me perturbado.

            - Acalma-te, Minos... É preciso que te acalmes. Do contrário serão capazes de dizer que já não és mais rivailista, pelo simples fato de que já pensas como eu...

            - Apenas para terminarmos, resume para mim tua belíssima conceituação, Anaetes.

            - Que seja. Anota isto, Minos: tudo é Rivailismo; mas nem tudo é Doutrina Rivailista.

            E encerro aqui a reprodução do diálogo que ouvi em Cencreía, e cujo mote, por reproduzi-lo, certamente me levaria a ser esmagado entre as terríveis simplégadas, se Jáson não me houvesse confidenciado, em tempo, a mágica de Medéia, para que eu vencesse o dragão da intolerância ortodoxa... Praza aos céus que também eu tenha conseguido fixar para sempre o movimento daqueles rochedos, deixando doravante o mar aberto a todos, ainda que nele se tenha de entrar sob a proteção estilística do diálogo que Platão e outros imortalizaram...

“Marcus: 9-40, in dialogus”
por Luciano dos Anjos

Reformador (FEB) Abril 1971

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