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sexta-feira, 10 de julho de 2015

A Problemática da Juventude na obra de Léon Denis



            Torna-se deveras necessária uma explicação mais extensa e satisfatória em torno da produção de Léon Denis.

            Filósofo dos mais profundos, mestre do pensamento esclarecido e dono da palavra  sadiamente empolgada, não se pode dirigir a obra do escritor a determinadas faixas etárias, uma vez que  tem a caracterizá-la a universalidade de ensinos; ela não se acha adstrita a particularismos grupais.

            Mas, como nos dizem os Espíritos amigos, "a verdade está na síntese" - assertiva essa já proclamada a viva voz por grande número de filósofos. Por isso mesmo, o perigo de distorção da produção de Denis está exatamente na interpretação que mentes imaturas lhe podem dar.

            Já de imediato, como entender a unidade de problemas suscitada pelo filósofo quando, a páginas 54 do livro "O Problema do Ser, do Destino e da Dor", edição de 1961, colocamo-nos face a face com a seguinte asserção:

            "O primeiro problema que se apresenta ao pensamento é o próprio pensamento", ou seja, "o primeiro problema que se apresenta ao ser pensante é o próprio pensamento." E, mais adiante: "O problema do ser e o problema da alma fundem-se num só." Vamos, como pensadores evangelizados, dissecar a peça anatômica que se apresenta à nossa frente.

            Inicialmente, o que é a UNIDADE, ou a UNICIDADE suscitada por Denis? Certamente, se pusermos em movimento toda a nossa capacidade de compreensão, entenderemos a Unidade como uma interligação mental, e portanto, interior, com reflexos na vida exterior, isto é, na vida de relação, e não uma vinculação interna totalmente desmembrada do exterior.

            No entanto, como dissemos, nem sempre é fácil interpretar o pensamento de Denis. O seu vocabulário riquíssimo e belo esconde uma profundidade e complexidade (esta, em relação ao nosso parco entendimento) plenamente justificáveis face à amplitude da visão espiritual do filósofo.

            Assim é que boa parte da juventude entende Denis como um grande "reacionário", ou um socialista extremado, dentre outros qualificativos, como o de pessimista no que toca aos destinos da sociedade terrena. Um segundo Nietzche, enfim.

            A maioria, após a leitura (não o estudo) de suas obras, enterra-se em um castelo de sólidas rochas, reagindo egoisticamente no que concerne aos problemas do mundo - que também são dela - e adota a filosofia do protesto pela não intervenção no campo prático da coletividade.

            Refutam usos e costumes; atacam maciçamente o arcabouço que lhes foi legado ou que por eles foi herdado, esquecendo-se de que "renovar não é destruir" (André Luiz, "Agenda Cristã", FEB, psicografia de Chico Xavier) e de que o marasmo não cria. Com tal proceder, fatalmente surge a piora de uma situação que podemos classificar como negra, acionando os mecanismos da Lei de retorno, gerando o verdadeiro caos social. Cultiva-se, de tal modo, a desordem mental, que os Espíritos amigos sempre condenaram, condenam e condenarão com veemência. E muitos, meus amigos... muitos justificam suas posições irrefletidas neste ou naquele volume de Léon Denis!..

            E, o que é pior, muita gente dentro da própria Doutrina Espírita procura combater a orientação segura do Alto, resguardando-se no socialismo, no não conformismo e em tantos outros "ismos", "que Léon Denis proclamou no livro tal, à página tal", ou, então, "com base no que ele afirmou na mensagem que o médium Y recebeu no Centro Z".

            Por aí se compreende que uma pequena frase de uma simples página, de um só livro do grande batalhador espírita é o bastante para abarcar uma série de problemas que se apresentam jungidos uns aos outros, formando uma unidade, e que existirão ainda por muito tempo. Além disso, esquecem-se os arautos desses "ismos" de que o nosso mundo ainda precisa depurar-se. A maioria dos espíritos que aqui reencarnam trazem profundos débitos de vidas pregressas, que se manifestam sob a forma de expiação e de prova por encarnações inteiras. De tal modo, o entrelaçamento de fios vinculatórios de uma causa às demais exterioriza-se como uma verdadeira teia, onde a aranha venenosa (o embotamento total do homem pela própria culpa) é suprema dominadora.


            Denis mostra claramente - muito embora, repetimos, não seja um Nietzche - que essa realidade dominadora se projeta a terrenos afastados, ameaçando minar toda uma estrutura cristã. E um dos campos mais propícios às suas sinistras investidas é o dos jovens, esclarece-nos.

            "Nos meios universitários, reina ainda a mais completa incerteza sobre a solução dos mais importantes problemas com que o homem jamais se defrontou em suas passagens pela Terra."

            Aqui ressurge a mencionada unidade, como produto mesmo da própria natureza gregária do Homem. A juventude não deve e não pode passar à crisálida do insulamento, alegando um choque de gerações e, suas desilusões, gerando a descrença e, consequentemente, o medo. Tudo isto nos esclarece Léon Denis.

            Ainda em "O problema do Ser, do Destino e da Dor", Denis enfoca, à plena luz de sua compreensão, o problema do jovem no mundo moderno, aludindo inclusive à obra de Carl du Prel, "La Mort et l'au delà", onde, a páginas 7, o conhecido mestre nos diz que a Filosofia não auxiliava a resolver o problema da mortalidade
que afligia a idade adulta e, ainda mais, os jovens.

            Fruto de uma visão falha, que não prepara a juventude para a vida, embasava-se ela no Naturalismo de um Hegel, no Positivismo de um Auguste Comte ou, o que é pior, no Materialismo de um Stuart Mill, tudo isso na busca de um ideal "incerto" e "flutuante". Denis nos mostra, com uma clareza meridiana, que a descrença gera o medo, que embota toda e qualquer perspectiva mais ampla, mais acalentadora. Esta é, aliás, a tônica da obra de Denis. O pessimismo e o fanatismo contribuem ainda mais para a descrença na Força Maior que dirige o Universo inteiro, chegando-se ao ápice da negação com a frase, ou melhor, a sentença "Deus está morto", com o que Nietzche consubstanciou a sua posição de negador de si mesmo, porque nenhum homem que negue a Deus pode reconhecer-se a si próprio.

            Raoul Pictet, que Denis também cita com frequência, afirma que "o desânimo precoce e o pessimismo dissolvente são ameaças terríveis para o futuro".

            A mocidade, cultuando, quer o êxito e a riqueza, quer o protesto contra o estabelecido de há muito - que lentamente irá mudando -, não atingiu ainda a posição de síntese que nos é apresentada pela Espiritualidade Maior. Em ambas as posições configura-se a descrença na Providência Maior e nas próprias forças que ela nos outorga. Cultua-se o acaso e a influência de condições primárias, em que a vontade não intervém, conforme nos elucida Raoul Pictet em sua obra "Étude Critique du Matérialisme et du Spiritisme par Ia Physique Expérimentale".

            Ressalte-se ainda uma posição muito em voga, adotada por criaturas de todas as idades, segundo a qual a existência deve ser considerada como mero caso fortuito,
produto, tanto ela quanto o Universo, de uma gigantesca explosão que teria lançado
os corpos celestes em movimento de rotação em torno de um centro, que para o nosso sistema planetário seria o Sol. Parece-nos, sem dúvida, ter havido semelhante explosão, mas... perguntaríamos se se poderia prescindir de um motor inicial que movimentasse os corpos e provocasse a própria explosão. Mais uma vez, vamos beber ensinamentos na opulenta obra de Denis, que nos informa que o choque interatômico das moléculas que, segundo Kant, teria ocasionado a movimentação é totalmente improcedente, uma vez que a energia desprendida por tal explosão é igual em todos os sentidos, o que, como facilmente se depreende, não estaria em condições de gerar movimento. Além disso, vamos lembrar a resposta de Albert Einstein, quando inquirido sobre o acaso:

            - "Não creio no acaso porque igualmente não creio que Deus pudesse jogar
dados com o Universo."

            Seria necessário mais algum depoimento?

            Naturalmente, alguém há de alegar que Einstein estaria fora de suas faculdades quando assim disse. Quanto a estes, deixemos que novas luzes se façam para eles.

            Tal é a situação de grande parte dos moços na atual vida terrena... e talvez ainda o seja por muitas encarnações. Descrentes de si mesmos, tudo negam, tudo rebatem e atacam; não percebem, entretanto, que, ao negar a Deus, negam-se a si mesmos e a toda a humanidade, à Natureza, enfim, à própria vida de que somos o exemplo mais gritante, uma vez que já estamos investidos do livre arbítrio e, conseguintemente, já nos encontramos raciocinando.

            Se a essência espiritual veio do reino mineral, passou pelo vegetal, animal... se
no vegetal só possuía sensação e no animal adquiriu instinto... do mesmo modo, no estágio humano conscientizou-se de uma liberdade maior, muito embora a igualdade perante Deus imponha determinadas restrições, em benefício da própria harmonia universal. É essa harmonia que os jovens negam, isolando-se em castas e em seitas utópicas, onde podem viver plenamente as ilusões do clima em que gravitam... ilusões das quais não são os exclusivos culpados, uma vez que, indubitavelmente, o meio influencia aqueles que ainda não se encontram embasados no Santo Evangelho do Cristo de Deus!

            Não obstante, conforme nos diz Léon Denis, "as potências da alma são inúmeras e somente esperam o alarma vitorioso para que entrem em funcionamento, criando, modificando e extinguindo situações", tudo para melhor.

            Por isso, os Espíritos amigos não se cansam de nos aconselhar o estudo e o raciocínio. Denis assim também o faz.

            Antes de vermos em suas obras monumentais o socialista intransigente, entendamos seus propósitos primeiros. Como todo verdadeiro espírita, como o próprio Cristo o fez, Denis é socialista na medida em que acha que devemos dar a cada um pouco do que é nosso, principalmente nossos valores morais: nosso amor, nosso carinho, nossa compreensão, nosso alento e nosso discernimento.

            Não vamos, é imprescindível, misturar política com Doutrina Espírita! ... Se
compreendermos Denis, compreenderemos também que não podemos mudar o mundo, que não podemos destruir sem construir; que não nos achamos, mesmo, em condições para assim agir. Deixemos que o progresso se faça aos poucos. Não vamos simplesmente afirmar que Denis dá ao substantivo pobreza sempre e sempre o sentido material. "Entre nós sempre haverá pobres", diz-nos Antônio Luiz Sayão, a páginas 433 de seu "Elucidações Evangélicas".

            Haverá sempre a pobreza moral e, mesmo quando esta houver desaparecido, haverá sempre espíritos mais evoluídos que outros; assim sendo, sempre existirão os mais pobres. E, materialmente falando, o mesmo Sayão, a páginas 434 da mesma obra, nos diz: "O desaparecimento, a cessação completa da pobreza material, de maneira que cada um viva folgadamente do seu labor, será um sonho, enquanto a nossa depuração moral não nos houver suavizado as futuras expiações."

            Novamente perguntamos:

            Será necessário mais algum testemunho?

            Tudo isto que vimos dizendo, nesta exposição, traduz o pensamento de Léon Denis quanto aos problemas do mundo. A idade adulta, ele pede um pouco mais de paciência e compreensão; um pouco mais de esclarecimento e lealdade para com a juventude. A esta, ele pede um pouco mais de calma, de perseverança, de raciocínio, de entendimento das premissas maiores de espiritualização.

            Relembremos as palavras do filósofo:

            "As potências da alma são inúmeras e somente esperam o alarma vitorioso para que entrem em funcionamento, criando, modificando e extinguindo situações, tudo para melhor."

            Não são poucos os amigos da Espiritualidade Maior que se manifestam em apoio às palavras de Denis, com esclarecimentos que são da própria Doutrina Cristã.

            Bezerra de Menezes chama a atenção para a presença do Evangelho na vida de
cada um, inclusive como medida de levantamento das forças íntimas, de que Denis
tanto nos fala. Assim:

            "Sobrevém a queda, acarretando sérias consequências àquele que conhece as forças que traz em si e que cai, fragorosamente, esquecido do Evangelho."

            Do mesmo modo, externa-se o venerável Bittencourt Sampaio, lembrando ao homem que a lei é evolução e que o marasmo é o câncer da alma:

            Dentro das possibilidades de cada um, manifesta-se o manancial de forças espirituais.

            "Mesmo assim, nada obsta a que o esforço próprio venha acentuar a evolução,
desenvolvendo aos poucos a vista espiritual."

            Ainda Eurípedes Barsanulfo assevera:

            "Lutemos com todas as forças que nos são próprias e que dormitam em nosso imo, encaminhando-as para a ação paulatina e franca nas searas do Mestre."

            Mesmo ante todos estes testemunhos, corroboradores da mensagem de Léon Denis, há os que objetam que a tendência do Espírito é o que verdadeiramente atua, cerceando todos os esforços dirigidos a mais além. Concordamos em parte com semelhante tese. É bem verdade que as tendências espirituais são dominantes, não podendo ser imediatamente transformadas.

            Mas, relembramos novamente o filósofo do Espiritismo quando, dirigindo-se a todas as idades, fala da vontade, potência-chave da alma, que pode elevar, se assim o quisermos, bem como obrigar-nos ao estacionamento, se assim o desejarmos. "A vontade", assevera Denis, "é um meio para pormos em movimento as demais forças pelo uso persistente e tenaz desta faculdade soberana que nos há de permitir modificar a nossa natureza, vencer todos os obstáculos, dominar a matéria, a doença e a morte." ("O Problema do Ser, do Destino e da Dor", pág. 305.)

            Ainda a esse propósito, manifestou-se com muita sabedoria o Espírito Ubaldo Ramalhete, relembrando com todo o seu carinho uma frase de Suffis Ferdousis, que se acha contida na obra de Denis e que bem expressa o descaso da humanidade pelos tesouros eternos do espírito:

            "Vós viveis no meio de armazéns cheios de riqueza e morreis de fome à porta."

            Como abrir essas portas do tesouro eterno? Como possibilitar a exteriorização da alma, rasgando o véu que encobre o firmamento de glórias sublimes?

            Não pelo ódio ou pelo rancor; muito menos pela inveja ou pelo prazer fútil. Mas, sim, diz-nos Léon Denis, "pelo amor e compreensão que alcançamos pela dor, essa revelação que a natureza guarda e contra a qual tanto nos debatemos". Mais adiante, visivelmente inspirado pelo Alto, prossegue: "Abri o vosso ser interno, abri as janelas da prisão da alma aos eflúvios da vida universal e, de súbito, essa prisão encher-se-á de claridade, de melodias... um mundo todo de luz penetrará vosso ser!"

            Frequentemente, escutamos as mais bizarras interpretações das assertivas de Denis. No entanto, os Espíritos amigos sempre nos lembram a paciência e a tolerância, como apanágio do verdadeiro espírita... E, relembrando o próprio Cristo, nunca tivemos notícia de que ele tenha abandonado a cruz ao meio do caminho para entrar em luta com a multidão. Cabe-nos apenas transmitir a mensagem de amor que a Espiritualidade Maior derrama sobre todos nós, relembrando sempre que o homem progride, malgrado as aparências ... que tudo isto é necessário à caminhada (Denis assim também o afirma). "A todo homem é dada a ventura da elevação espiritual. Esta é um progresso contínuo, ininterrupto, porque é essencialmente vida, ainda que a aparência seja de natureza contrária para nossos modestos sentidos." (Bittencourt Sampaio.)

            Para que todos entendam em espírito e em verdade a obra de Léon Denis, é apenas necessário que consigamos, pela vontade e pelo amor, dizer o "abre-te, Sésamo" que nos mostrará a mais intensa claridade do "entendimento com Jesus".

A Problemática
da juventude
na obra
de Léon Denis

Gilberto Campista Guarino
Reformador (FEB) Dezembro 1972



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