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quarta-feira, 29 de julho de 2015

O Essencial

             O  núcleo espírita é fundamental em nosso movimento.

            Por vezes nos confundimos, diante das solicitações ou necessidades do meio, e transferimos todo o nosso tempo, todos os recursos, toda a energia, para a concretização de grandes obras assistenciais, esquecendo-nos ou descurando da célula-mater da Doutrina.

            Um hospital é magnífico. O abrigo para criancinhas, louvável. A casa de velhinhos, admirável. O trabalho a benefício da gestante, notável.

            Tudo isso, porém, perde o seu significado doutrinário se não for, realmente, uma extensão do núcleo espírita, onde a Doutrina é estudada e onde sofremos um processo de reeducação de profundidade ainda não bem compreendida por nós.

            Desligar as tarefas doutrinárias das obras ou atividades assistenciais, a breve tempo nos coloca a copiar as instituições congêneres, não espíritas, centralizando nossos cuidados apenas sobre o organismo perecível ou oferecendo auxílio apenas para um efeito transitório, sem cuidar da sua causa.

            A premência de grandes verbas, para alimentar uma organização que se encontra além de nossos recursos, amiúde leva-nos a firmar convênios. Por muito respeitáveis que sejam, com o fluir do tempo tais eventos obrigam a desvincular a Doutrina Espírita do socorro ao assistido.

            Quem dá, sempre pede alguma coisa.

            Não raro, também, quem recebe se escraviza.

            Sem liberdade, voltamos a repetir os enganos iniciais da Casa do Caminho, onde os apóstolos de Jesus recebiam grandes parcelas de moeda do povo para manter a assistência fraternal, tornando-se tão subordinados a todos e tão ocupados com o complementar que olvidavam a propagação do próprio Evangelho.

            Há, também, o perigo da profissionalização.

            Uma casa de desobsessão, a exemplo, que deveria ser fundada com a participação de médico espírita, pode transformar-se num suntuoso hospital de psiquiatria. Aparecem, então, os facultativos profissionais, enfermeiros e funcionários que se regem pela legislação trabalhista e pelo nível salarial. Desaparece toda e qualquer atividade gratuita...

            O estranho, a partir de então, é o espírita. Ele se torna uma espécie de fantasma, a perambular pelos corredores do palácio de seu ideal. Termina sempre na sala de administração, com finalidade única de canalizar recursos financeiros para manter a organização vitalizada materialmente e, algumas vezes, lutando e chorando para conservar no frontispício do prédio a adjetivação de Casa Espírita.

            Uma vítima da precipitação!

            Todos os credos religiosos, até os materialistas, agem da mesma forma, seja em nome da caridade, seja no desdobrar de suas atividades profissionais, pura e simplesmente.

            O Espiritismo não é o fundador de tais movimentos.

            Enquanto isso, atividades específicas fenecem.

            O núcleo despovoa-se de seus cinco ou seis frequentadores habituais. A dona Maria, lavadeira de muitos anos, já não é agasalhada com o carinho fraterno, porque sua bolsa é minguada... e já não há tempo para essas coisas do passado religioso, ingênuo e místico!
           
            O socorro espiritual dilui-se, afogado por outras solicitações. A experiência de administrar por amor perturba-se frequentemente. O estudo e a transmissão dos princípios doutrinários passam a ser utópicos ou encargos de mera rotina.

            É preciso distinguir o principal do complementar.

            O núcleo espírita, obscuro, ignorado pela sociedade, que não faz passarela nas manchetes de jornais, algumas vezes perseguido ou mal compreendido, frequentado pelo “seu” Dito, pela dona Joana, pelo Neco e pelo Zé, é o centro de luz para o novo mundo.

            No desdobramento de suas atividades cristãs, no afã de corporificar o Evangelho, surgem, como acessório, as instalações apropriadas para as atividades assistenciais.

            A assistência é um compartimento do núcleo.

            Toda vez que a subversão se processar, fazendo com que o complemento assuma a posição do principal, cavamos um pouco mais o abismo que já existe entre movimento espírita e doutrina espírita, patrocinando um divórcio de dolorosas consequências.

            Vale, pois, refletir, vez por outra: - “O que estamos fazendo como movimento espírita é doutrina espírita; estamos ajustados ao objetivo, ao propósito, ao campo do Espiritismo?”

O Essencial
Roque Jacintho

Reformador (FEB) Agosto 1971




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