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terça-feira, 7 de outubro de 2014

0. O que nós estamos lendo?





‘Titânica Tarefa’
Tasso Porciúncula / (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Fevereiro 1962

            A literatura espírita tem progredido extraordinariamente no Brasil, graças, em grande parte, aos esforços despendidos pela Federação Espírita Brasileira. Obras de caráter científico, religioso, doutrinário e literário têm saído das oficinas do Departamento Editorial da FEB, oficinas que já não dão conta dos trabalhos que se acumulam, aguardando impressão. Isto quer dizer que o movimento espírita continua crescendo e crescendo muito depressa. Tão depressa que os recursos materiais da Federação Espírita Brasileira, requisitados para a ampliação do Departamento Editorial, não bastam para satisfazer as exigências normais do movimento.

            Muitas vezes a FEB se vê impossibilitada de reeditar obras importantes, de cunho científico, doutrinário ou literário, por não haver espaço e máquinas disponíveis. Em certos casos urgentes, a FEB tem recorrido a tipografias particulares, mas semelhante providência encarece sobremaneira as obras, dificultando o programa estabelecido pela FEB.

            Não obstante isso, conseguiu o Departamento Editorial liberar uma grande obra que aguardava sua vez de reedição. Referimo-nos ao monumental trabalho de

                                               Epes Sargent,
            intitulado “Bases Científicas do Espiritismo”,

cuja primeira edição em nosso idioma foi impressa em Paris, há muitos anos, e estava completamente esgotada.

            A nova edição foi cuidadosamente revista, segundo a edição original norte-americana. Traz esclarecimentos oportunos, além de informações biográficas a respeito do insigne Epes Sargent, tão pouco conhecido nos meios espíritas de hoje.

            É preciso que os espíritas levem em conta os esforços e os sacrifícios da Federação Espírita Brasileira em reeditar obras antigas, indispensáveis à sobrevivência da cultura espírita, como tem feito e continua fazendo. Estão nesse caso, além de “Bases Científicas do Espiritismo”, estes livros:
           
                                   “Animismo e Espiritismo”, de Alexander Aksakof;
                                   “O Espiritismo”, de Paul Gibier;
                                   “O Fenômeno Espírita”, de Gabriel Delanne;
                                   “Um caso de desmaterialização”, de Alexander Aksakof;
                                   “A Morte e seu Mistério” (3 volumes) e
                                   “O Desconhecido e os Problemas Psíquicos”, de Camille Flammarion,

            etc. Isto sem se falar em outras de cunho doutrinário e evangélico, como

                                   “No Invisível”,
                                   “O Problema do Ser, do Destino e da Dor”,
                                   “Cristianismo e Espiritismo”, essas e outras de Léon Denis;

                                   “A Psicografia ante os Tribunais”, de Miguel Timponi, cuja primeira edição se intitulava “O Caso Humberto de Campos”;

                                   “Os Quatro Evangelhos”, de Roustaing, etc.

            Muitas obras de feitura e conteúdo científicos têm de sobreviver em reedições periódicas, para que as novas gerações se ponham a par dos fatos e das ideias discutidos e comprovados no pretérito. Um livro como “Física Transcendental”, de Frederico Zollner, ou estas de Delanne:

                                   “O Espiritismo perante a Ciência”,
                                   “A Evolução Anímica” e
                                   “Reencarnação” têm de fazer obrigatoriamente parte da biblioteca dos estudiosos, daqueles que, além dos conhecimentos doutrinários e evangélicos do Espiritismo, queiram estimular sua cultura com as obras de divulgação científica.
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E o Blog pergunta... O que estamos lendo?





segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Incompreensão


Incompreensão
José Augusto Romero
Reformador (FEB) Fevereiro de 1962

Disse-lhes Jesus:
"Sei que sois filhos de Abraão,
mas procurais tirar--me a vida,
porque a minha palavra não cabe em vós." João 8:37

            As lições do Evangelho continuam superando todas as concepções humanas, por muito avançadas que pareçam. Nenhuma dessas concepções conseguiu, até o presente, melhorar a situação da Humanidade, que avança como um barco sem bússola, açoitado por violentos vendavais, que se tornaram Incontroláveis - É a ressaca representada pelo materialismo irresponsável e sombrio. É a incompreensão dos homens a cerca das verdades celestes, inalteráveis no tempo e no espaço.

            A palavra do Plenipotenciário Celeste continua incompreendida. Não coube na consciência das gerações passadas e ainda não cabe na consciência da presente geração. Somente uma pequena minoria da Humanidade hodierna comporta a alta sabedoria das lições do Evangelho.

            A grande maioria vive obnubilada pelo materialismo. Permanece amortalhada nas teias da incompreensão. Vive no casulo da materialidade grosseira. Vive ainda na órbita da animalidade. O estado desesperador que flagela o mundo atual constitui séria advertência para os homens em geral. Apesar disso, eles continuam indiferentes. Não procuram meditar seriamente sobre o estado caótico da presente geração. Não procuram descobrir a causa que gerou tão espantoso desequilíbrio.

            Tudo isso decorre da incompreensão. É que a palavra do Cristo continua sendo repelida pela razão humana.

            A hora que passa é apocalíptica. Ninguém pode contestar tamanha verdade.
Não há quem tenha sossego, Todos os povos estão intranquilos. A inquietação é geral. O pavor tange a geração martirizada para o desconhecido. As armas nucleares continuam a ser fabricadas febrilmente. É a corrida para o extermínio. É a marcha irrefreável para o aniquilamento. Todas essas coisas nos fazem lembrar as alegorias do Apocalipse, apresentadas por Jesus ao Vidente de Patmos. É preciso que os homens compreendam isso e se voltem para o Cristo, enquanto resta um pouco de tempo.

            Os principais responsáveis pelo destino dos povos ameaçam saltar no escuro, ignorando em que precipício cairão. Porque não refletir? Ainda é tempo de evitarem a catástrofe. Procurem situar a palavra do Cristo no coração e o perigo passará.


            Diz o sábio Espírito de Emmanuel que “a Doutrina Espírita, em sua essência, é universidade de redenção”. Ela é realmente universidade de redenção porque se inspira nas lições do Evangelho. A Doutrina Espírita, a mais recente demonstração da bondade de Deus para com os homens, está trabalhando intensamente para libertar o homem planetário das garras do materialismo. Sucede, porém, que a palavra da Doutrina Espírita ainda não cabe na razão da maioria. Repete-se, assim, a sentença messiânica: “Procurais tirar-me a vida, porque a minha palavra não cabe em vós.

Da religião



           A religião não é matéria para ser considerada uma ou duas vezes por semana, é uma atividade integral, de todos os instantes da vida. Deus está em toda a parte e não somente nas igrejas.


Hermínio Miranda
Do artigo sob o título ‘Lendo e Comentando’
in ‘Reformador’ (FEB) Junho  1961


Antropomorfismo


Antropomorfismo

Lincóia Araucano / (Ismael Gomes Braga)
Reformador (FEB) Julho 1961

            Em bela carta cheia de considerações judiciosas, o velho espírita esperantista inglês Alexandre Guilherme Thompson, mais conhecido, mundialmente pelo pseudônimo de Avoto, lembra-nos a imensa dificuldade que o mundo tem para aceitar hoje as ideias religiosas e também o Espiritismo, por causa do grosseiro Antropomorfismo introduzido em religião pelas igrejas.

            Pensamos que uma gloriosa missão do Espiritismo será precisamente a de libertar a Humanidade desse Antropomorfismo grosseiro que engendra o ateísmo ilógico e frio, que priva o homem de manter, pela meditação e pela prece, um convívio espiritual consciente e muito benéfico para ele mesmo e para os seus amigos desencarnados, dando e recebendo auxílio, como ocorre com os religiosos de qualquer crença.

            Dá-se o nome de Antropomorfismo ao erro de imaginar Deus com formas e qualidades humanas. É erro grosseiro, porque nossas noções de bem e de mal são incompletas, provisórias, mutáveis no tempo e no espaço: o que parece bom em um tempo e lugar passa a ser considerado mau em outro tempo ou no mesmo tempo em outro lugar, portanto, a perfeição de Deus ficaria sujeita à evolução do homem e até a seus pontos de vista e de classes sociais.

            Emprestando a Deus as qualidades humanas de uma certa época, em outra época, mais esclarecida e mais moralizada, Ele será considerado um monstro detestável, no qual os homens não poderão crer, e tornam-se ateus, irreligiosos, com grande prejuízo para eles mesmos; mas na verdade não deixaram de crer em Deus, deixaram apenas de crer num erro puramente humano que inventara um deus à imagem e semelhança do homem, um deus antropomorfo que nunca existiu.

            O modelo perfeito desse Antropomorfismo é o deus dos antigos, o deus dos judeus, que mandava exterminar com requintes de crueldade os povos vencidos na guerra e tomar-lhes as terras para o povo "eleito"; que mandava matar por apedrejamento o blasfemo, isto é, quem ousasse dizer palavra contra algum dos dogmas do Judaísmo. Era uma concepção judaica e racista de Deus, imaginando um deus puramente judaico. Jesus reformou essa concepção errada, mas não foi aceito, e vimos ressurgir no mundo que se dizia cristão os mesmos crimes com outros nomes, como a Guerra das Cruzadas que durou duzentos anos e as fogueiras da Inquisição para queimar vivos os hereges, ou seja, qualquer pessoa que descobrisse alguma coisa em desacordo com os dogmas da religião, ou melhor, da igreja dominante.

            Os representantes desse Antropomorfismo cometeram e cometem os mais horríveis erros políticos da História. É realmente impossível crer neles e em seu deus, e assim a Humanidade caiu no ateísmo absoluto, previsto pelos Espíritos desde 1856. Mas o ateísmo é inaceitável, porque tudo na Natureza revela planejamento inteligente, finalidades a alcançar, força executiva; inteligência, finalidades e força completamente diferentes e infinitamente maiores do que as humanas.

            Se uma semente nos revela um planejamento sábio, para ser executado em curto tempo, uma nebulosa revela um planejamento igualmente sábio para cumprir-se em milhões de séculos ou de milênios.

            A semente e a nebulosa revelam planejamento no mundo físico; o progresso intelectual e moral do homem revela planejamento no mundo espiritual.

            Nada ocorre por mero acaso; tudo se realiza de conformidade com leis sábias da Natureza.

            Há uma Inteligência, uma Força que criou e comanda as leis da Natureza.

            O Espiritismo nos revela que de toda a eternidade surgiram seres inteligentes, que estes seres progridem sempre; portanto, há seres espirituais infinitamente mais sábios e poderosos do que os homens da Terra. Esses altíssimos Espíritos governam os mundos, aplicando as leis de Deus, mas são apenas criaturas de Deus, executores de Seus desígnios.

            Os antigos pensavam que esses Espíritos fossem deuses e assim criaram o Politeísmo.
           
            Os judeus supuseram que um desses Espíritos era o deus de Israel e depois o promoveram a deus universal e único, criando a ideia feliz do Monoteísmo, mas entronizando como deus único o deus dos judeus, com todos os seus defeitos, com todo o seu feroz racismo.

            O Espiritismo eleva ao infinito a ideia de Deus, colocando-o acima e fora de toda a nossa capacidade de julgamento, e, mais ainda, demonstra-nos que a nossa atual inteligência é incapaz de compreender até mesmo os grandes Espíritos que executam os desígnios de Deus.

            Tenhamos, pois, a humildade de reconhecer a nossa pequenez diante do Criador, sem ousarmos emprestar-Lhe nossas infantis e mutáveis qualidades humanas, e tentemos apenas descobrir Lhe as leis postas na Natureza e aplicá-las em nós mesmos, porque nós também somos parte da Natureza, da Criação de Deus.

            O Antropomorfismo é monstruosidade que conduz o homem a outra monstruosidade, ao Ateísmo, em contradição com tudo que nos cerca e nos envolve nos planos materiais e espirituais, porque tudo nos revela aspectos da sabedoria divina, absolutamente superior e diferente da sabedoria humana. Não ousemos enquadrar Deus nos limites estreitos de nossas classificações.

            Quando o Espiritismo vencer o Antropomorfismo, a Humanidade terá dado um grande passo em seu progresso espiritual. Nesse dia não haverá mais ateus: toda a Humanidade terá uma religião que será "verdadeira, grande, bela e digna do Criador" como foi dito a Allan Kardec em 30 de Abril de 1856. Nessa comunicação há um tópico que desejamos reproduzir aqui, no original, sem alterar uma letra, porque é profecia que se está cumprindo em nossos dias e nossa tradução poderia ser influenciada pelos acontecimentos de hoje. Copiamo-lo em "Oeuvres Posthumes", de edição anterior ao início das revoluções atuais, edição de 1912, páginas 316 e 317:

            “Quand le bourdon sonnera, vous le laisserez; seulement vous soulangerez votre semblable; individuellement vous le magnétiserez afin de le guérir. Puis, chacun à son poste préparé, car il faudra de tout, puisque tout sere détruit, surtout pour un instant. Il n'y aura plus de religion, et il en faudra une, mais vraie, grande, belle et digne du Créateur... "

            É maravilhosa a síntese dessas poucas linhas, recebidas em 30 de Abril de 1856, em casa do Sr. Roustan, por Allan Kardec, por intermédio da médium Senhorita Japhet. Previa que viriam as dolorosas revoluções e aconselhava a não tentar impedi-las, deixá-las fazer sua obra, apenas tratar individualmente dos enfermos, curando-os com o magnetismo curador. Cada um deverá ficar em seu posto previamente preparado, porque se precisaria de tudo, pois que por algum tempo tudo seria destruído. A religião desapareceria; seria preciso uma nova religião, mas não igual às passadas. A nova teria que ser sem antropomorfismo, verdadeira, bela e digna do Criador.

            Isso foi escrito há mais de cem anos e tudo se vai cumprindo: o "pau está cantando" nas costas dos homens; tudo vai sendo arrasado para ser reconstruído; a religião desapareceu até dentro das igrejas, que perderam a fé; a nova religião surgiu com Allan Kardec, como fica profetizado, pouco abaixo das linhas transcritas, com as poucas palavras seguintes:

            "Les premiers fondements en sont déjà posés... Toi, Rivail, ta mission est là."

            E ele cumpriu essa missão, mas o mundo ainda não a aceitou, porque ainda está na fase de arrasamento e reconstrução puramente material. Aqui no Brasil já demos um passo à frente: o Espiritismo vai tomando as formas preditas de uma religião verdadeira, grande, bela e digna do Criador.

            Vamo-nos esforçando para construir algo destinado ao futuro, à fraternidade que deverá reinar sobre todo o planeta. Nossos instrumentos então simbolizados no triângulo E E E (Evangelho, Espiritismo, Esperanto). O Evangelho resolverá todos os problemas humanos pelo amor universal; o Espiritismo estenderá nossa "sociologia" às duas partes da Humanidade, à encarnada e à desencarnada, que vivem em incessantes mudanças de posição; o Esperanto servirá à colaboração fraterna em toda a superfície do Planeta e em suas vizinhanças espirituais. Nenhum Antropomorfismo tem cabimento em nosso programa.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Pedro Richard - peregrino do Evangelho - parte 4 e final


Inauguração da sede da FEB no Rio de Janeiro (Av. Passos, 28-30) em 10-12-1911


Pedro Richard  – Peregrino do Evangelho
4
por  Indalício Mendes
Reformador (FEB) Julho 1977

O bordão do peregrino

            Há no "Reformador" de 1º de novembro de 1918 uma sinopse biográfica de Pedro Richard, que parece haver sido escrita por Manuel Quintão, pois não traz assinatura. Presumimo-lo pelo fato de conter o episódio da visita de Quintão a Richard, quando este se achava perto da transposição para o Além, já mencionado linhas supra. Reportemo-nos a alguns trechos, apenas:

            "Aos 65 anos de idade de uma existência acidentada, mas sempre profícua e modelar do ponto de vista espírita, depôs o seu bordão de peregrino na Terra aquele companheiro por tantos títulos querido, que se chamou entre os homens Pedro Richard. O que foi essa individualidade, o papel que ela representou no desdobramento da nossa doutrina, aqui e algures, não pode ser dito em simples artigo periódico, nestas linhas rápidas, ao demais traçadas em momento aflitivo e afanoso, qual o que nesta hora e nesta casa atravessamos, por força da tempestade negra que desabou sobre a população da nossa urbs, obrigando-nos a cuidados e vigílias mais que dobrados, aliás - nunca é demais repeti-lo - com muitas e verdadeiras graças do céu" (referia-se à chamada "gripe espanhola", que dizimou milhares e milhares de pessoas no Rio). ( ... ) "Era o Tesoureiro da sociedade. Tesoureiro, só? Não. Era a sua alma, porque, como depois observamos, o seu critério prático, o seu bom senso nos negócios o elevavam naturalmente a conselheiro obrigatório da confraria e não só da confraria como de quantos eventualmente embaraçados necessitavam de uma voz desinteressada, para opinião segura. De uma feita - a certo interlocutor - ouvimos-lhe responder - meu amigo, tudo o que não possa ser afirmado e feito publicamente é condenável dentro do Evangelho."

            O bordão desse peregrino espírita foi a caridade. Foi nesse bordão que ele apoiou toda a sua atividade, buscando dar de si o máximo, em favor dos necessitados do corpo e da alma. Ninguém a ele recorria, mesmo para uma simples opinião, que não regressasse satisfeito, convencido de que dele ouvira o que realmente necessitava ouvir.

Sempre com o Evangelho

            "Defendendo-se em um processo iníquo e injusto que lhe moveram e do qual saiu limpo de mácula, muita vez o ouvimos orar pelo contendor feroz e ingrato, dizendo - O Cristo disse: "a quem te pedir a capa, dá também a túnica." E era invariavelmente assim: para todos os percalços e imprevistos da vida de relação, ele tinha nos lábios, ou antes, no coração - o ensino profundo e apropositado do Divino Mestre. E eis como oscilante entre a mediania de recursos e a sua carência absoluta, provendo a educação de uma família exemplar, lutando materialmente com mil tropeços fáceis de imaginar num meio social de intensa concorrência de atividades, ele deixa uma memória imarcescível, dessas de que o mundo diz - foi um caráter honrado. Era o homem."

Criador da Assistência

            E adiante: "Criador da Assistência aos Necessitados deste instituto (referia-se à FEB) que há sido em nosso programa o maior e o mais eficiente veículo de propaganda, o companheiro só deixou a Tesouraria depois de concluir o edifício da nossa Sede - tornou-se o diretor deste departamento e, como tal, o organizador dos seus serviços ainda agora unanimimente proclamados beneméritos na pandemia que nos assola (4), imprimindo-lhes esse cunho de ordem, disciplina e moralidade, que eram a característica dominante do seu espírito. E era para todos nós mais novos, ultimamente, um gosto vê-lo chegar pontualmente, religiosamente com arrastado passo, cansado mas satisfeito, em demanda à banca do receituário. Aí, o seu coração de crente humilde se exaltava e tinha timbres e tonalidades extraordinários, porque - importa dizê-lo para que fique como exemplo a seguir - o velho companheiro de Bezerra não limitava a sua tarefa à prescrição do remédio que cura o corpo: ele ia além, ele lidava para aplicar o remédio que cura a alma. E então, conforme o caso que defrontava, era a exortação meiga, que arrancava lágrimas, era o conceito profundo, que fazia pensar e era também o verbo veemente, que fazia tremer. De qualquer forma, entretanto, viva, palpitante, ardente, transbordava a Fé, aquela fé que tão bem lhe assentava ao nome. Mas onde, sobretudo, a sua assistência mediúnica se afirmava extraordinária, era na predileção pelas criancinhas, diante de cujos sofrimentos quase sempre lhe afloravam lágrimas, lágrimas puras, porque sentidas, que ele sabia oferecer à Virgem, em transportes de inefável carícia. Era a mesma afeição amorosa, raiando às vezes pela ingenuidade, que o levara a fazer da família um culto e do lar um templo. Era o médium."

            (4) Referia-se à grande epidemia de "gripe espanhola", em 1918.

O doutrinador

            Pedro Richard serviu 35 anos à Federação Espírita Brasileira, ao Espiritismo, isto é, desde a fundação da Casa de Ismael. Embora, diz a nota, não fosse escritor e muito menos literato, ele escrevia corretamente e colaborou muito tempo no "Reformador". Mas ninguém o excedia no conhecimento e na prática da Doutrina e dos Evangelhos, pois não foi mero predicador evangélico, mas exemplificador. "Há mais de um ano, prossegue a nota do "Reformador", alquebrada pela enfermidade, deixara ele de auxiliar as nossas sessões doutrinárias, nas quais, outrora, a sua palavra concisa e profundamente convicta era ouvida sempre com grande satisfação e acatamento." Compilou magnífica obra didática intitulada "Grupos Espíritas", que foi distribuída a todas as sociedades adesas à Federação, além de outros escritos, alguns de repercussão entre os espíritas.

Na Espiritualidade

            Sua desencarnação ocorreu a 25 de outubro de 1918. Deixou a Terra com a consciência absolutamente tranquila do dever cumprido. Logo a 27, mandou a sua primeira mensagem mediúnica, que justificou a seguinte observação na nota referida:
"Um dos nossos companheiros recebeu espontaneamente a seguinte comunicação, que damos como testemunho da lucidez do amigo que se foi e sobre cuja autenticidade não nos sobram dúvidas, tanto aí se destacam frases peculiares e sinais outros indicativos da sua individualidade.

            Ei-la:

            "Meu amigo, obrigado pelos teus sentimentos carinhosos para comigo. Aqui estou, graças à Nossa Mãe Santíssima, ao teu lado e ao de todos os que trabalham nesta casa sob o olhar de Jesus.
            "Que de bênçãos, meu amigo, jorram do seio amoroso do Divino Mestre sobre os seus servos humildes! Trabalha, trabalha com ardor ao lado de todos os teus companheiros na seara do Senhor do Mundo e o teu espírito sentirá os eflúvios do seu amor puríssimo.
            "Rogando por todos os amigos e companheiros e pedindo para mim a graça de ampará-los na medida de minhas forças nesta jornada difícil, aguardo, cheio de alegria, o momento em que possa de viva voz reafirmar lhes o meu afeto e entoar com todos vós hosanas a Jesus." - 27 de outubro de 1918."

Advertência preciosa

            Ainda hoje, Pedro Richard , de quando em quando, se manifesta no Grupo Ismael. Suas mensagens são sempre repassadas de vigilância e ungidas de amor evangélico. Numa delas faz a seguinte preciosa advertência aos espíritas:

            "Montai guarda, meus companheiros, à tradição desta Casa; defendei os princípios que nortearam a fundação deste templo. Guardai dentro de vós a simplicidade dos verdadeiros discípulos do Evangelho. (...) Convosco estarão todos os que servem a esta Casa, amparados pelos seus maiores, sob as vistas de Ismael. Quando lá fora fordes batidos pelos ventos da adversidade, procurai o aconchego deste templo, orai dentro dos seus muros. Esse o bálsamo que tantas vezes me deu forças para dominar o meu alquebramento. Nunca olvideis o Espírito da Virgem. Deixai que o mundo, que os desorientados vos critiquem. Não vos importeis. Cultuai a Virgem dentro dos vossos corações, certos de que, a uma simples invocação desse Espírito excelso, vossas almas sentirão no seu íntimo profunda mutação, por penetrá-las um eflúvio divino. Amai a Virgem, pela sua pureza, pela sublimidade dos seus sentimentos amorosos, todos vós que desejais servir a seu Filho."

Autodidata laborioso

            Uma das particularidades mais notáveis na personalidade de Pedro Richard que nos coube, por generosidade do Alto, rememorar nestas linhas sem a ousadia de biógrafo, era, como temos dito, a humildade. Não se tratava, porém, de uma atitude convencional, mas de uma expressão íntima da sua alma. E se por vezes deixamos trair a nossa admiração por seus exemplos, por tanta gente testemunhados, é porque achamos necessário que todos nós, que tentamos seguir lhe os passos, sentindo as dificuldades do esforço, saibamos que não é pensando em nós que serviremos a Jesus, a Ismael, ao Espiritismo Cristão. E o fazemos porque a nossa consciência de aprendiz da Doutrina e do Evangelho nos tranquiliza. Pedro Richard não está encarnado, não vive fisicamente entre nós, para se sentir envaidecido com o que dissemos a seu respeito. Nem, na Espiritualidade, de onde frequentemente nos envia as luzes da sua experiência terrena e do seu culto ao Evangelho, receberá nossas palavras como louvaminha ou pretexto para encher as páginas desta revista. Ele, mais evoluído que nós, e já nas graças das bênçãos do Mestre na mansão celeste, sabe, como bem o disse o exemplar Bittencourt Sampaio, outro vulto que dignificou a espécie humana e valorizou o trabalho espírita na Terra, que "o espírita não necessita da lisonja, nem de outro estímulo, senão o de sentir-se em paz com a sua consciência, no exame de seus próprios atos à luz do Evangelho. Esse o maior estímulo que terá, agindo bem."

            Não teve ele oportunidade de realizar, desde cedo, estudos normais metódicos, que lhe assegurassem uma base cultural indispensável a grandes manifestações intelectuais. Considerava-se inculto, embora, pelo esforço e a tenacidade, conquistasse conhecimentos valiosos, através de um autodidatismo fecundo. Num livro assaz interessante - "Les Autodidactes", Benito Cáceres realça os sacrifícios, a força de vontade, as dificuldades de compreensão e assimilação enfrentadas pelos autodidatas para alcançarem uma soma de conhecimentos que satisfaça sua sede de saber. Sem terem podido seguir uma educação escolar normal, metódica e extensa, os obstáculos a vencer são gigantescos. Eles tem, por si mesmos, de lançar os alicerces da cultura que perseguem, tem de ser, como o nome o indica, mestres de si mesmos, colhendo, nas experiências e alternativas da existência, os elementos que lhes darão, mais tarde, fundamento para expressarem ideias e defenderem conceitos e pontos de vista. Os autodidatas predominam no mundo, por não pertencerem, a não ser em casos especiais, à elite cultural dos homens. Mas quantos deles, quantos!, possuem reservas de conhecimentos sólidos, formados duramente na vida, que nem todos os grandes expoentes das letras conseguem acumular!

            Pedro Richard foi, repetimos, um autodidata. Reconhecia não ter condições para apresentar-se como literato, e isso não fazia parte das suas aspirações. Todavia, escrevia corretamente, sabia transmitir a outrem as suas ideias, os seus pensamentos. A sua meta era o conhecimento evangélico. Sabia que o Espiritismo tem uma finalidade altamente didática e ele mesmo o disse, numa mensagem enviada, pelo médium Celani, em agosto de 1940:

            "Se o Espiritismo não regenera o homem, se não lhe dá coração capaz de sentir e compreender a ciência divina, em suas manifestações de sabedoria e justiça perfeitas, então ele não é o Consolador prometido. Toda a sua obra tem que ser, sobretudo, de educação, para que o homem possa regenerar-se e realizar em si mesmo seus ensinos transcendentes, apesar de simples."

Sobretudo, um conciliador

            Sempre evitou controvérsias inúteis. Estudava "Os Quatro Evangelhos", com acendrado carinho. E aconselhava: "Não é, meus caros companheiros, revidando às paixões que os espíritas afirmam a sua qualidade de discípulos do Divino Mestre. A irritação não concilia e nada produz de útil. O Mestre, o modelo, nos deu inúmeros exemplos, em todas as oportunidades. Humildade, sempre humildade. Pela humildade conquistou ele as consciências dos que o servem com a sinceridade nos corações. O Espiritismo não é uma doutrina para entusiasmos; é, sim, uma escola de sacrifícios. Ninguém segue ao Cristo, sem partilhar do seu madeiro."        

            Como na Terra, adverte ele da Espiritualidade: "Irmãos, amigos bem-amados, sede intransigentes em tudo quanto diga respeito à orientação espírita, na certeza de que o Espiritismo é evangélico, ou não é Espiritismo."

            E relembrava:

            "Todos vós que convivestes comigo na minha última jornada, sabeis que, quando me defrontava com essas controvérsias, costumava perguntar: quem apareceu primeiro, a galinha ou o ovo? Homem inculto, mas capacitado de que a minha necessidade primordial era o melhoramento do meu eu, para poder agasalhar a intuição vinda de Deus, porque também há a que vem da treva, dediquei-me de preferência a estudar o Evangelho, rogando sempre ao meu Guia que me abrisse a inteligência para aprender a sutileza dos seus ensinos, o espírito sob a letra; enfim, para sentir aquilo que eu precisava realizar em mim próprio, a fim de guardar as máximas do mesmo Evangelho.
            Podeis debater essas questões, desde que o façais de coração aberto, humilde, ávidos de compreende-las, sem olvidar, porém, que qualquer quebra dos princípios de fraternidade concorre para estabelecer a confusão nos Espíritos, em prejuízo da finalidade da vossa reunião."

            Eis aí a grandeza desse homem que deixou exemplo vivo do que pode o Espiritismo, bem compreendido, bem seguido e bem sentido, realizar pela valorização moral e espiritual do homem. Ao escrever sobre ele, ainda que sem palavras que reflitam fielmente todos os aspectos do seu caráter modelar, queremos honrar todos quantos seguiram os mesmos rumos traçados pelo Evangelho e a Doutrina, e que, do mundo espiritual, continuam trabalhando pelo bem da humanidade, sofrendo com a nossa incompreensão, com a indiferença que ainda mostramos pelas coisas divinas e pelo apego que ainda nos escraviza aos preconceitos terrenos.

Sempre servindo...

            Tal como acontece com outros antigos e exemplares obreiros que passaram pela Federação Espírita Brasileira, honrando sua encarnação e semeando as verdades que podem fazer o homem feliz, Pedro Richard volta e meia nos manda também o incentivo de que todos necessitamos para melhorar o nosso padrão moral e espiritual. E confirma que, depois da chamada morte, o Espírito não se entrega à ociosidade paradisíaca com que lhe acenam outros credos, não se submete à voluptuosidade que tanto mal lhe fez na Terra, desde que queira trabalhar, desde que procure prosseguir no esforço para mais se aproximar de Deus.

            Numa de suas comunicações mediúnicas, chama-nos a atenção de que poderemos colaborar na obra do Mestre, secundando os esforços de Ismael:

            "Tais como os homens, os Espíritos adstritos à atmosfera da Terra colaboram na sua evolução, cada um na medida da sua capacidade intelectual e moral. Daí a necessidade das criaturas darem muita atenção à educação dos seus sentimentos, para poderem estar em comunhão com os Espíritos propensos ao bem, em vez de o estarem com aqueles que se constituem instrumentos do mal."

Conclusão

            Humberto de Campos, já famoso antes de desencarnar, reafirmou seu prestígio de escritor primoroso, após haver ingressado na Espiritualidade, com diversos livros, vindos até nós por meio da mediunidade de Chico Xavier. São livros que podemos reler sem cansaço, antes com renovado prazer, quer pelo estilo leve e agradável do imortal escritor, sob o pseudônimo de Irmão X, quer pelos temas edificantes que abordou com elegância e sabedoria. Enquanto outros não nos chegam, enfatizando os méritos do autor espiritualizado, repassemos os olhos e o sentimento pelas obras já divulgadas, pois assim estaremos beneficiando a nós mesmos.

            "Crônicas de Além-Túmulo", por exemplo, é um livro precioso. Um de seus capítulos tem o título "A Casa de Ismael". São seis páginas de encantamento. Não iremos transcreve-las na íntegra, pois somente reproduziremos as linhas que se referem a Pedro Richard, tal a justiça, peregrina justiça, que Humberto de Campos (Espírito) faz ao bem-amado ancião da FEB:

            "Ainda há poucos dias, enquanto a Avenida Passos fervilhava de movimento, vi às suas portas uma figura singela e simpática de ve lhinho, pronto para esclarecer e abençoar com as suas experiências.

            - Conhece-o? - disse-me alguém, rente aos ouvidos.

            - ?..

            - Pedro Richard ...

            Nesse ínterim, passa um companheiro da humanidade, cheio de instintos perversos, que a morte não conseguiu converter à piedade e ao amor fraterno.

            E Pedro Richard abre os braços paternais para a entidade cruel.

            - Irmão, não queres a bênção de Jesus? Entra comigo ao seu banquete!..

            - Por quê? - replica-lhe o infeliz transbordando perversidade e zombaria. - Eu sou ladrão e bandido, não pertenço à sociedade do teu Mestre.  

            - Mas, não sabes que Jesus salvou Dimas, apesar das suas atrocidades, levando em consideração o arrependimento de suas culpas? - diz-lhe o velhinho com um sorriso fraterno.

            - Eu sou o mau ladrão, Pedro Richard... Para mim não há perdão nem paraíso.

            Mas, o irmão dos infelizes abraça em plena rua movimentada o leproso moral e lhe diz suavemente aos ouvidos:

            - Jesus salvou o bom ladrão e Maria salvou o outro...

            E o que eu vi foi uma lágrima suave e clara rolando na face do pecador arrependido.

            Senhor, eu não estive, aí no mundo, na companhia dos teus servos abnegados e nem comunguei à mesa de Ismael, onde se guarda o sangue do teu sangue e a carne da tua carne, que constituem a essência de luz da tua doutrina.

            Eu não te vi senão como Tomé, na sua indiferença, e como os teus discípulos no caminho de Emaús, com os olhos enevoados pelas neblinas da noite. Todavia, podia ver-te na tua casa, onde se recebe a água divina da fé, portadora de todo o amor, de toda a crença e de toda a esperança. Mas, não é tarde, Senhor! ... Desdobra sobre o meu espírito a luz da tua misericórdia e deixa que desabroche, ainda agora, no meu coração de pecador, as açucenas perfumadas do teu perdão e da tua piedade, para que eu seja incorporado às falanges radiosas que operam na tua casa, exibindo com o meu esforço de espírito a mais clara e a mais sublime de todas profissões de fé. (12 de junho de 1936)."

FIM

Pedro Richard - peregrino do Evangelho - parte 3


Pedro Richard e sua esposa Dna. Mariana


Pedro Richard  – Peregrino do Evangelho
3
por  Indalício Mendes
Reformador (FEB) Julho 1977

Discípulo de Max

            Adolfo Bezerra de Menezes, exemplo de simplicidade e amor ao próximo, deixou na Terra extenso rastro de luz, com o seu sincero comportamento cristão. Até hoje esse rastro de luz serve de orientação para os que buscam o Cristianismo puro, sem atavios e exterioridades mundanas. O Bem é eterno, porque é fruto do amor. Um obreiro como Bezerra de Menezes, considerado, como justa homenagem à sua personalidade moral e à sua incomparável fidelidade aos deveres doutrinários - o Kardec Brasileiro, foi a bússola de Pedro Richard nos difíceis caminhos da peregrinação terrena.

            Sua admiração por Bezerra de Menezes transformou-o num fervoroso adepto dos Evangelhos, pois era neles que Pedro Richard buscava e encontrava os rumos que deveriam levá-lo à condição de discípulo humílimo, sim, mas consciente de suas responsabilidades perante Jesus. E por isso, sem a mais mínima intenção de vaidade ou orgulho, que nunca lhe entraram no coração, assinava seus escritos como "Discípulo de Max", pois Max era o pseudônimo de Bezerra de Menezes em "O Paiz", jornal austero, que desfrutava de enorme prestígio em sua época, onde colaborou intensamente, defendendo o Espiritismo e pregando a Doutrina espírita cristã. E esse "Discípulo de Max" foi, efetivamente, discípulo de Bezerra de Menezes, pois seguiu-lhe a trilha de humildade, amor ao próximo, caridade e de disseminador da paz.

            Ele, que tinha na prece o seu maior ponto de apoio, viu a mediunidade de cura desenvolver-se bastante em si mesmo, e isto a lhe permitir ser eficaz instrumento dos Espíritos que laboram incansavelmente na seara de Jesus, para aliviar os sofrimentos da humanidade.

Palavra mansa e firme

            Conhecedor, como poucos, dos Evangelhos e da Doutrina, Pedro Richard se impusera uma rigorosa disciplina de trabalho. Amigo da pontualidade, cioso dos deveres que lhe cabiam, estava sempre a postos, quer para colaborar voluntariamente na cura de um enfermo do corpo quer, pela palavra mansa e persuasiva, sempre firme, para socorrer os doentes da alma, os fracos de vontade, os tíbios e os tímidos.

            Muitas curas puderam ser alcançadas pelo Alto, através da sua mediunidade. Ao orar, sua voz assumia tonalidade comovente, principalmente quando se dirigia a Jesus e a Maria Santíssima. Quantas vezes, no curso da prece, as lágrimas lhe traíram a emoção e lhe percorreram as faces marcadas pelo tempo, mas assinaladas pela fé indestrutível. Sua força não era sua, dava a entender sempre, porque promanava da Espiritualidade. Por si só, não faria quanto fez, no apostolado mediúnico. Não era médium de se envaidecer com os resultados do seu trabalho. A humildade natural era-lhe barreira a qualquer sentimento que pudesse, ao de leve, ferir os princípios que recomendam aos médiuns a compreensão de que a mediunidade não é mais do que uma oportunidade para o trabalho de resgate que devem executar, por imposição de graves compromissos não satisfeitos no passado.

                                                                       Luz perene

            É necessário, de quando em quando, reviver os exemplos de espíritas que corresponderam à expectativa de Mais Alto. Há tantos nomes a reverenciar, não por mero culto ao personalismo, que isto não seria incumbência aceitável por quem pretende seguir a Doutrina, mas para a edificação e o escarmento das novas gerações de espíritas que devem louvar-se nos testemunhos incontestáveis desses humílimos e eficientes servidores de Jesus, a fim de não se desviarem da trilha certa que a luz dos Evangelhos aclara.

            Pedro Richard foi digno integrante da falange admirável que Jesus permitiu viesse à Terra, tendo luminares como Bezerra de Menezes, Bittencourt Sampaio, os irmãos Sayão, Fernandes Figueira, Romualdo Seixas, Geminiano Brazil, Maia de Lacerda, e tantos, tantos trabalhadores que fizeram jus ao salário divino, para assentarem os alicerces sólidos do Espiritismo Cristão. Não são as nossas palavras encomiásticas que vão valorizar a superioridade moral que esses homens eminentes construíram à custa de trabalho contínuo, sob a influência do Alto, dentro das normas dos Evangelhos e dos preceitos da Doutrina. Não. Eles estão muito acima do que possamos dizer para enaltecer-lhes o mérito. Todavia, não temos outro meio de destacar-lhes a obra, senão expandindo o sentimento de admiração e amor fraterno por tão ilustres predecessores, tão grandes perante nós, que nos confundimos com a poeira da estrada. Mas é imprescindível se diga algo do que eles fizeram, para que a conduta terrena que adotaram encoraje os que ainda não puderam experimentar o arrepio da emoção que causa a só referência a esses nomes dignos do nosso respeito e da nossa admiração, pelo que realizaram, pelo que foram e pelo que são, sem dúvida, nos iluminados caminhos do Além.

            Bittencourt Sampaio tem razão. Disse ele, numa das muitas mensagens que costuma dar no "Grupo Ismael":

            "O homem moralizado pelo Evangelho irradia de si mesmo o respeito que contém a distância a maldade humana e toda obra espírita que não tenda para essa finalidade não é obra espírita, uma vez que o Consolador não veio para ensinar somente ciência, mas ciência e moral" (sessão de 28-5-1941, médium J. Celani).

            No seu caminhar pelas sendas deste planeta, foi diuturna a semeadura que fez. Pode-se dizer que somente cessou quando a enfermidade o atingiu com a parada compulsória, determinante do retorno ao Além.

Obreiro de muitas obras

            Já dissemos que ele seguia um regime muito severo para consigo mesmo, pois porfiava no viver o Evangelho. Reconhecia as limitações humanas, sabia que a vigilância tem de ser de segundo a segundo, sem solução de continuidade, e que mesmo assim surgem hiatos traiçoeiros, perigosos como a ação do cupim, que silenciosamente realiza sua obra daninha.

            Companheiro de Bezerra, dos dois irmãos Sayão, de Maia de Lacerda, etc., primava por não ser jamais, em concerto de tamanha magnitude, nota dissonante. Substituiu o velho Sayão na direção do "Grupo Ismael". Alma mística, voltada para Deus, Jesus e Maria, transformava em ânimo e força de vontade a modéstia do seu comportamento. Não queria ser melhor do que ninguém, porém se esforçou a vida inteira para não estar entre os piores, escorado na fé e levando sempre consigo a lanterna cuja luz abençoada jamais se apaga: o Evangelho. Quando falava, parecia por nos lábios o coração. Sua palavra doutrinária tinha o poder de ficar na lembrança dos que o ouviam. Era a palavra simples do pregador que dá um recado, mas não se considera senão o transmissor da mensagem encorajadora. Nas reuniões públicas da Federação, ouvia-se lhe o verbo com a seiva da  verdade cristã. Recebera do Cristo a incumbência, dada a tantos, de ser um dos semeadores. Fazia-o sem nenhuma pretensão, mas com humildade, porque estava a serviço do Mestre, o que dava era d’Ele e os resultados que permitiriam a futura colheita também a Ele deveriam ser creditados.

            Passava horas e horas, na sede da FEB, atendendo aos que o procuravam, solicitando um auxílio, um conselho, um passe, uma prece ou uma receita. Problemas, os graves problemas de todos os dias da vida humana, eram-lhe levados diariamente, na esperança de uma solução salvadora, Pedro Richard , paciente e bondoso, vertia ternura, sempre reiterando serem devidos à misericórdia divina os benefícios que pudessem colher. Era apenas, dizia, como uma ponte, com a mediunidade que lhe fora concedida. Mas, do outro lado dessa ponte, estava Jesus, e d’Ele emanavam todas as bênçãos, todos os alívios, todos os esclarecimentos. Seu trabalho era intenso e excessivamente fatigante, mas sentia-se feliz. Mesmo em sua residência, na Rua Santa Alexandrina, 39, no Rio Comprido, dedicava todas as manhãs ao atendimento de necessitados da caridade do Mestre, dando receitas mediúnicas e até remédios, já dinamizados, tal como outrora se fazia na Federação. Auxiliava sua filha Felismina, preparando as doses medicamentosas.

            Richard tinha grande veneração por Maria Santíssima - como, aliás, Bezerra, Bittencourt Sampaio, Antônio Luiz Sayão, Guillon Ribeiro, Manuel Quintão, Wantuil de Freitas, etc. Ficava extasiado ao orar ao Espírito excelso, a quem se dirigia nas situações de maior gravidade, penetrado de contagiante e robusta fé e acendrado amor.

O testemunho de Quintão

            Em "Cinzas do meu cinzeiro", livro delicioso, escrito por Manuel Quintão, naquele seu estilo inimitável, dá ele comovente testemunho de dor, ao saber achar-se agonizante o grande amigo Pedro Richard:

            "Quando, à tarde desse 23 de outubro de 1918, regressamos exausto ao lar também improvisado em hospital familiar, disseram-me que alguém viera prevenir que o velho Richard estava agonizante, não passaria daquela noite. O conselheiro e melhor companheiro que já encontramos na vida, o maior amigo de Jesus Cristo que já se nos deparou na exemplificação evangélica - Pedro de nome e na fé - estava, efetivamente, a termo de peregrinação, longa e edificante. Não era a pandemia que o levava, era a enfermidade natural, que de há muito o vinha minando e lhe servira de pretexto a magníficas lições de humildade cristã.
            Assim o defrontamos, varonil e arquejante na sua cadeira de braços, pernas inchadas, inertes sobre almofadas e envolto num grosso xale escuro, que mais lhe destacava o semblante macilento.
            Ao avistar-me, sorriu, num sorriso luminoso de lábios contraídos... Mais que os lábios, contudo, falava-lhe o olhar translúcido. E logo nós:
            - Amigo, não viemos aqui orar por ti, mas contigo, a recordar o dia longínquo em que o fizeste pela primeira vez em nossa casa, e com lágrimas, por aquela filhinha que partia...
            E oramos, então, os dois, àquela Virgem que, dizia ele, nunca o deixara de mãos vazias e se lhe fizera, por isso, fanal único no tormentoso roteiro da vida de relação.
            Quando terminávamos a súplica, ó maravilha! - o companheiro com voz sumida e entrecortada pedia por nós, pelos que ficavam, bracejando nas trevas do mundo!
            E aquelas palavras, como que vindas de outro mundo, para vivificação deste mundo, ainda as oiço repetidamente: - obrigado... vai cumprir o teu dever...

*

            No dia seguinte, olhos enxutos e coração magoado, beijei-lhe no esquife enflorado as mãos frias e generosas... Sim, mãos que só se estendiam para suplicar, dar, abençoar..."

            Que belíssimo exemplo da alta evangelização que havia atingido Pedro Richard! As portas da passagem para o Além, ele orava, pedia, não para ele, mas pelos que ficavam na Terra, "bracejando nas trevas do mundo! Assim foi, realmente, Pedro Richard. Testemunha ocular de tantos fatos com ele relacionados, Manuel Quintão também deixou enorme bagagem de serviços ao Cristo, no campo do Espiritismo evangélico. O episódio a que Quintão se referiu acima, a respeito de sua filhinha Chicha, merece mais clara explanação. Nas páginas 372 e 373, do "Reformador" de 1.0 de dezembro de 1918, no artigo "In Memoriam", Manuel Quintão descreveu a angústia vivida ante a agonia de Maria das Dores (Chicha) , a quem amava profundamente. O estado da menina era gravíssimo, mas ele ainda alimentava a esperança de uma "ressurreição", de um "milagre". Mas nada mais seria possível, a não ser mesmo o "milagre". 

            Relembrando aquelas horas de aflição, diz ele, no artigo, ao amigo que partira:

            "O milagre, como o entendia eu no meu egoísmo cego, evaporou-se. A fé que abala montanhas não derroga leis de Soberana Justiça... Entretanto, o milagre qual o entendias se fez. Levaste ao lar aflito em alvorada de lágrimas um culto novo, e no afervoramento desse culto as nossas almas se compreenderam para sempre." Depreende-se dessas palavras do amoroso amigo Quintão que, graças a isso, o Espiritismo ficou no seu lar para sempre. Ele compreendera que as leis de Deus são inderrogáveis, razão pela qual o milagre só é possível quando não fere nem tenta ultrapassar essas leis. A quem conhece a Doutrina Espírita e já perlustrou as páginas luzentes do Evangelho, a justiça de Deus está presente em todos os instantes do viver humano. A desencarnação é um processo liberatório, porque restitui a alma ao meio de onde proviera, por imposição cármica. E Quintão, que de tudo isso já sabia, envolvera-se num imenso amor paternal. Mais tarde, em caso semelhante a que atendera, como médium, percebeu que a doente não sobreviveria à agonia cruciante, que representa o processo de desligamento moroso do Espírito: "Eu nunca vira uma agonia assim. Lembrei-me, porém, do velho Richard quando dizia: a prece é a alavanca da Fé, com que se escava a mina do céu"...

            Aí está a palavra de respeitável testemunha ocular do comportamento irrepreensível de Pedro Richard, testemunha que também deixou enorme bagagem de serviços ao Cristo, no campo do Espiritismo evangélico.

Trabalhadores da vinha...

            Foi com enorme emoção que nos dispusemos a escrever estas linhas sobre a personalidade cristã de Pedro Richard. Foi um exemplo. Justiça se faça, no entanto: ele acatava os demais trabalhadores da vinha do Senhor. Reconhecia que, fazendo cada qual sua tarefa, para um fim predeterminado; a obra progride mais depressa e com maior solidez. Todos cumpriam seu dever, porque todos sabiam que, embora na Terra, estavam empenhados numa obra de procedência divina. Companheiro de Bezerra de Menezes, que foi o seu paradigma, na marcha que encetara no Espiritismo, sempre timbrou de fazer o melhor que pudesse. Entretanto, boníssimo e tolerante, condescendente e compreensivo, era também enérgico quando necessário se tornava manifestar-se para conter um erro, sanar uma omissão ou impedir deficiências e excessos que pudessem de qualquer modo afetar a diretriz ou os créditos da Casa de Ismael. Era pronto no dizer "sim", mas era preciso e justo ao exclamar "não". Solidário e fraterno, não somente acudia aos seus compromissos, como ajudava, solicitado ou não, o companheiro que, por qualquer motivo, revelasse dificuldades. Tinha forte autoridade moral.

            Todos o queriam muito bem e nele confiavam, conhecedores da sua integridade de caráter e da sua firmeza de ação. A claridade de sua alma se refletia no brilho do seu olhar sereno.

Confraternização

            Por ocasião do Centenário do nascimento de Allan Kardec, em outubro de 1904, os espíritas não ocultavam a alegria de seus corações, pelo muito que todos deviam ao ilustre Codificador. Pedro Richard ofereceu em sua residência um jantar de confraternização, ao qual compareceram todos os representantes de entidades espíritas estaduais, além dos integrantes da Federação Espírita Brasileira. Foi um acontecimento de grande significação, de um lado porque exaltava a união dos espíritas, e, do outro, porque permitia que, em seu lar pleno de paz, pudessem os presentes expandir-se melhor em manifestações de regozijo porque, então, apesar das dificuldades, permutavam com o Alto as mais confortadoras vibrações de afeto e gratidão, não só a Deus e Jesus, como ao "primus inter pares" dos trabalhadores, que foi Allan Kardec.

A grande oficina

            Indiscutivelmente, a grande oficina de trabalho de Pedro Richard foi a Assistência aos Necessitados, sua "menina dos olhos", à qual dedicou por inteiro o seu amor. Foi ele o consolidador desse utilíssimo departamento da Casa de Ismael, quando se operou, a 25 de maio de 1902, num domingo, sua reorganização. Ali, defrontando obstáculos não pequenos, realizou ele uma das mais santificantes tarefas de sua existência.

            Embora o ano de 1904 fosse um dos mais fecundos que até então tivera a Federação, não lhe faltaram problemas criados à atividade no setor dos tratamentos mediúnicos. A repressão às práticas espíritas acossava a FEB, atendendo a dispositivos incompatíveis com o pensamento evangélico da caridade. Para se ter uma ideia ligeira do interesse popular pelos serviços gratuitos oferecidos pela FEB, basta rememorar que, em 1902, 20.549 pessoas procuraram a Assistência aos Necessitados e foram atendidas, enquanto que, em 1904, foram satisfeitas mais do dobro.

            Mesmo depois que passou a exercer outros cargos na FEB, como o de Tesoureiro, Pedro Richard não deixava de fortalecer a Assistência aos Necessitados com o seu apoio incondicional.