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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Odium Theologicum



Odium Theologicum
Redação 
Reformador (FEB) 1 Junho 1918

            “Si attendis quid apud te sis intus, non curabis quid de te loquantur hamines.”                                                                                                                                           (Imitação de Cristo)
            
             Para a Igreja Católica e seus cismáticos rebentos, a Doutrina Espírita, em tese, é obra de puro satanismo.
            E não se apercebem os seus corifeus, homens presumidamente ilustrados que tal afirmativa não passa de grosseiro paralogismo, (raciocínio falso que se estabelece involuntariamente).  insubsistente e nulo ante o espírito filosófico da nossa época, tecido de madureza e livre exame.
            O Dr. Joseph Lapponi, médico de Leão XIII e Pio X, em sua obra “Hipnotismo e o Espiritismo” chegou à conclusão tendenciosamente e esdrúxula de ser o Espiritismo “sempre” (1) perigoso, funesto e imoral, (2) depois de fundamentar e aliás brilhantemente a autenticidade das manifestações espíritas, respigadas os próprios anais do Vaticano.

(1) O grifo é nosso.
(2) Ob. Cit. Pag. 278

            Diante de atitudes clássicas tão desenvoltas, de tipos representativos como esse, não admira que um Bispo ainda há pouco, do alto da sua cátedra viesse de público afirmar que o Espiritismo é imoral porque nega a Deus!
            De qualquer forma, porém, o que se infere é que, para os ultramontanos ortodoxos os fatos são inconcussos (indiscutíveis) e apenas subsiste a questão de sua origem suspeita e perniciosa.
            Estribados nesse conceito, de barato “bona fide” (de boa fé) os clericais intransigentes não regateiam ensejo de bolsar (lançar) contra o Espiritismo em geral e contra os seus adeptos em particular, protérvias (violências) e calunias indignas, seja dito, da tarefa que tão ciosa e exclusivamente se arrogam de ministros de Deus; únicos depositários da Verdade revelada e senhores de almas e povos.
            Essa campanha, entretanto, não é nova: nem é privativa, como poderia parecer a muitos de nossos leitores, da partida prelatura (área geográfica sob a orientação de um autoridade católica – os prelados ou seja, padres, bispos etc).
            Como tal, não nos surpreende nos seus métodos e analisando-a de conjunto, o que encontramos de curioso, no momento, é que ela parece intensificar-se por toda a parte, quiçá como fenômeno reflexo do grande abalo que o mundo experimenta, na justificada previsão de reformas político-sociais que lhe coartem (comprimem) ou extingam o já de si vacilante e duvidoso prestígio.
            De fato, pelo jornais e revistas que nos chegam da Itália como da França, da Espanha como da Inglaterra, da Norte América como de Cuba, do México como da Argentina, inferimos que o “mot d'ordre” (palavra de ordem) para a cleresia arregimentada é a hostilidade a todo o transe aos portadores da nova crença, que há de regenerar o mundo e sarar lhe as gotejantes feridas do presente.
            E por aqui como algures, acham os nossos gratuitos e natos adversários que todas as armas lhes servem, como quem diz - honrando o velho lema de Loyola – “os fins justificam os meios”.
            Que o façam, que continuem a fazê-lo no louco intento de atrofiar consciências e auferir proventos e regalias, é coisa que menos nos importa, tão certo estamos que os tempos estão chegados de emancipação coletiva no conspecto (olhar) do problema religioso, que não pode regredir para ankilosar (perder o conquistado) em teocracias formalísticas, porque é apanágio da evolução dessas mesmas consciências, a falarem incoercivelmente mais alto que todos os interesses e convenções mundanos.

            Vale o asserto pelo incremento assombroso da nossa causa, cujos adeptos se multiplicam não já entre gentes simples e humildes de boa fé, não já entre os que deixaram por muitos marcos assinalados na estrada da vida os entusiasmos e ilusões, mas no seio da mocidade, das classes estudiosas e pensantes, que representam o futuro, o mundo de amanhã.
            Tudo vem a seu tempo e se apenas em pouco mais de dez lustros (01 lustro = cinco anos) o espiritismo apresenta esta vitalidade, malgrado a cavilosa e sistematizada campanha de descrédito que lhe moveram e malgrado as aberrações do seu falso proselitismo, é licito concluir que ele seja o que anunciam os espíritos elevados, isto é - o Consolador prometido por Jesus há vinte séculos.
            Para nós outros já o é.
            Náufragos de todas as borrascas, penitentes e sofredores de todos os matizes, céticos desiludidos de todas as escolas filosóficas, inúmeros são os que nele entraram energia e fé, serenidade e esperança amor e caridade para prosseguirem na derrota necessária.
            E é diante de fatos desta ordem que nos increpam de blasfemos, de néscios ou de loucos!
            Mas, néscios não são os que pontificam de oitiva (por ouvir dizer)?
            E loucos não serão os que por espírito de seita pretendem opor-se a leis naturais em nome de Deus que é a Lei Suprema?
            Sim, mil vezes sim.
            A história aí está viva para comprova-lo: as hipóteses absurdas de ontem são as verdades incontrastáveis da hoje.
            O “satanismo” glosado de hoje será também a consagração da misericórdia divina de amanhã quando generalizada a noção lídima dos três grandes princípios que o Espiritismo consagra e dignifica - Deus por base, Progresso por meio e Liberdade por fim.
            O clero saberá intuitivamente que os seus dias de fastígio e predomínio estão contados.
            Arremete contra nós outros porque temos fé viva num Deus absoluto na perfeição de seus atributos, incapaz de votar seus filhos a condenação eterna, mas capaz de os salvar a todos pela lei do trabalho e esforço próprio!
            Anatematiza-nos porque não aceitamos os seus dogmas heteróclitos, porque não acompanhamos o seu ritual solenemente pagão, preferindo-lhes em consciência o
Evangelho de Jesus em espírito e verdade!
            Injuria-nos porque aceitamos a comunicação dos espíritos, que os apóstolos e santos varões primitivos da sua Igreja aceitaram e praticaram!
            Pretende, finalmente, pôr-nos fora da sociedade e da Lei, porque aos ensinos abstrusos do seu catolicismo ministrados em templos de pedra com mundanas exibições de luxo e vaidade, preferimos o templo augusto da consciência, apenas aclarado pelo amor do nosso Deus sobre todas as coisas e do nosso Deus sobre todos as coisas e do nosso próximo como a nós mesmos!
            Grande crime, na verdade, o nosso; e tão grande que não nos só beija, por ele, o direito de revide, condenando a sua Egreja.
            Ela está no seu papel e coerente com o seu passado.
            Nós ficaremos em nosso posto, coerente com o ensinamento do Divino Mestre.
            E até que o tempo decida o pleito, enquanto a igreja apela para as leis humanas, para as suas tradições e até para os governos temporais, nós apelamos simples e unicamente para Deus. E fazemo-lo como quem d’Ele procura dar testemunho nos próprios atos.

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