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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Os males das escolas de médiuns


              O texto que se vai ler é transcrição do "Reformador" de setembro de 1942, págs. 215, 216 e 217. Trata-se de proveitoso relato das exposições feitas por Américo Lopes Vieira, Henrique Magalhães, Guillon Ribeiro, Amadeu de Morais Machado e Manoel Barbosa Leite, em reunião do Conselho de Associações Federadas, órgão que antecedeu, na FEB, ao atual Conselho Federativo Nacional. Suas palavras continuam muito atuais e muito oportunas, conforme se verá.

            Américo Lopes da Silva diz que sempre lhe calara mal a denominação de Escola de
Médiuns, porquanto não concebe escola sem professor e não vê entre os homens professores para médiuns. Os únicos professores que reconhece, com capacidade para lhes tornar proveitoso o exercício da mediunidade, são os Espíritos superiores. O que o médium, porém, precisa é estudar a doutrina e, à sua luz, estudar e meditar os ensinos evangélicos, a fim de praticá-los. O médium, regra geral, não sabe o que é ser médium, nem por que e para que lhe foi concedido o dom da mediunidade. Consequência: instrumento facilmente explorável pelas forças do mal, pelos Espíritos inferiores ou atrasados.

            Não serão boas escolas de médiuns as sessões de estudo metódico da doutrina? Não se estuda nelas, com as outras obras fundamentais do Espiritismo, "O Livro dos Médiuns"? Por que, então, organizarem-se sessões especiais com o rótulo de escolas? 

            As faculdades mediúnicas não somos nós que as desenvolvemos, como já tem sido dito e demonstrado em várias sessões do Conselho de Associações Federadas. São os Espíritos bons e elevados que as desenvolvem, mas com o concurso do próprio médium, concurso este que lhe compete prestar estudando a doutrina e pautando pelos preceitos do Evangelho o seu proceder, a sua vida.

            Ao demais, cada médium reclama um modo ou método especial para o desenvolvimento de suas faculdades, mesmo quando estas se acham suficientemente caracterizadas. Provam-no diversos fatos singulares que se verificam com relação às faculdades mediúnicas e que os inexperientes ou novatos na doutrina precisam conhecer e, principalmente, os que dirigem sessões de trabalhos práticos, a fim de exercerem ação eficiente, cercados do respeito e confiança dos que os secundam nesses trabalhos.

            Há médiuns que durante anos frequentam sessões, sem que ninguém suspeite, nem eles próprios, que possuem faculdades mediúnicas, e que de súbito entram a produzir. Que foi o que contribuiu para isso? O que se deu é que a sinceridade e a firmeza de seus desejos e propósitos, apoiados numa sã conduta moral, atraiu Espíritos bons que, por meio de uma atuação propícia e sábia, o foram levando a condições de bem exercitarem as faculdades que possuíam em estado latente. Os nossos guias, tanto mais se nos afeiçoam e auxiliam, quanto mais dóceis nos mostramos à influência bondosa deles e quanto mais perseverantes nos revelamos no objetivo de ser úteis aos nossos semelhantes, de ser servidores da Caridade.

            Teve em seu grupo, diz, uma senhora analfabeta que, pela sua assiduidade ao estudo, pela sua aplicação e pelo desejo vivo que manifestava de ser útil à doutrina pela prática do bem, conseguiu chegar a ler o Evangelho e o "Reformador". Um belo dia, foi tomada por um Espírito durante a sessão e passou a produzir, desde aí, trabalhos relativamente bons. Outro médium, também senhora, assídua em frequentar o Grupo desde mocinha, se está revelando agora um médium à qual poucos igualam. De um dia para outro, o guia deu autorização para que ela trabalhasse e os resultados têm sido excelentes. Onde a escola que a formou médium? Onde os professores humanos que a prepararam?

            O de que o médium precisa, sobretudo, é de humildade, não só para assimilar bem os ensinos doutrinários, como para aceitar os conselhos que lhe dê o diretor das sessões que ele frequente e às quais nunca deve faltar, senão por motivos muito fortes e sérios. Mas, daí decorre que tais sessões somente devem ser dirigidas por quem, graças a um conhecimento mais ou menos amplo da doutrina e à conformação de seus atos com os ensinos que ela prodigaliza, tem experiência bastante para aconselhar devidamente os médiuns, lembrado sempre de que junto destes estão constantemente Espíritos atrasados, obscurecidos, ou levianos, prontos a soprar-lhes a vaidade, a rebeldia, ideias próprias a causar perturbações e discórdias. Cumpre ter presente que não se pode falar ao médium A como se fala ao médium B ou C; que uns reclamam energia, outros muita brandura e que a outros só se pode falar com muita vigilância e oração.

            Certo, necessário se faz que, nas sessões frequentadas por médiuns e onde se estude "O Livro dos Médiuns", o dirigente dos trabalhos desenvolva, para esclarecimento destes, observações tendentes a lhes dar a compreender como realmente se processa o desenvolvimento de suas faculdades.

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            Henrique Magalhães confessa que a questão do desenvolvimento de faculdades mediúnicas, parece-lhe, o próprio Espiritismo a põe em relevo, porquanto não se compreende Espiritismo sem trabalhos mediúnicos, por isso mesmo que a base do Espiritismo está na manifestação dos Espíritos.

            Pois que a denominação - Escola de Médiuns - repugna a muitos, chame-se ao que assim se denomina escola de desenvolvimento moral dos médiuns, por meio do estudo e das instruções dos nossos maiores.

            Está de acordo em que os professores são os Espíritos; mas, então, afigura-se lhe que a escola de que se trata deverá ser o lar. Aí é que se terão de fazer o estudo e a meditação dos livros doutrinários, uma vez que os guias estão sempre junto dos que estudam e meditam, para lhes dar intuições seguras sobre a maneira por que cumpre entendam o que meditem e estudem.     

            Cita o fato de um Espírito amigo lhe haver dito que continuasse seus estudos, com a certeza de lhe estar ao lado o seu guia, para lhe facilitar a verdadeira compreensão do que estudasse, ação essa cujo resultado não pode deixar de ser o desenvolvimento das faculdades mediúnicas do guiado.

            Ao passo que nas sessões só se estuda uma ou duas vezes por semana, em casa se pode estudar todos os dias, em todas as horas disponíveis. Conclui, pois, que a melhor escola consiste nesse estudo cotidiano, a sós.

            Outra circunstância de grande relevo, ao seu parecer, e que, portanto, precisa ser levada muito em conta, é a do ambiente que se forma antes das sessões. Em regra, nessa ocasião, assuntos diversos são tratados, muitos deles em antagonismo com o objetivo da reunião, quais as observações contra o próximo e sobre a orientação doutrinária de terceiro. Ora, os Espíritos que ali se encontram captam os pensamentos que se externam. Se são bons, entristecem-se e se condoem dos que dão corpo a tais pensamentos, pelo revelarem, no desamor que traduzem, que o espírito da doutrina ainda não penetrou naqueles corações; se são maus, ou, melhor, inferiores e atrasados, aproveitam-se dos aludidos pensamentos, para prejudicar individualmente os que os formulam e fazer abortar os intuitos e propósitos que motivam a reunião.

            Acha que no recinto destas se deviam colocar cartazes com a advertência aos assistentes para, por meio de pensamentos bons e consentâneos com os fins que os congregam, absterem-se todos de tratar de assuntos profanos, que cumpre fiquem fora dali, só tendo entrada ali o que condiga com a espiritualidade.

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            Guillon Ribeiro pondera que os Espíritos superiores tudo o que dizem é firmado nos Evangelhos e essa é, de fato, a verdade. Ocorre então perguntar quais os médiuns e não médiuns que, sequer, leem frequentemente o Evangelho. Está em dizer que bem poucos o fazem. Mas, então, não há negar que aí se encontra a causa de todas as aberrações que vão sendo introduzidas na prática da Doutrina Espírita, em geral, e, em particular, no que toca ao desenvolvimento de médiuns, ou de faculdades mediúnicas.

            Conclui declarando que também considera de primordial e imprescritível necessidade o estudo e a meditação continuada do Evangelho, para todos aqueles que, possuindo faculdades mediúnicas, em estado embrionário, ou mais ou menos caracterizadas, desejem dilatá-las, de modo a poderem exercitá-las em correspondência aos desígnios divinos com que lhes foram elas outorgadas - o bem da humanidade.

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            Amadeu de Morais Machado declara que uma escola de médiuns precisaria, para existir, da regência de um mestre, que não pode haver, porquanto o único Mestre é Jesus. Pensa igualmente que as sessões em que se estudem o Evangelho e "O Livro dos Médiuns", completando o respectivo diretor o estudo, por meio de explicações, esclarecimentos, conselhos e advertências, é tudo o que se pode pretender do concurso humano com o objetivo de que aquelas faculdades se desenvolvam em quem as possua de uma maneira ou doutra.

            Ao demais, importa considerar que a existência de faculdades mediúnicas se prende, em boa parte, à organização física do indivíduo, organização que ele tanto mais apropriará à ampliação e ao exercício de tais faculdades, quanto mais aproximar a prática da vida à dos ensinos evangélicos. Todos os esforços que empreguem neste sentido serão esforços feitos em prol do aprimoramento de suas mediunidades. Conclui-se, pois, que ao médium é que, em primeiro lugar, cabe desenvolver e valorizar as faculdades mediúnicas com que a Providência divina o haja dotado, a benefício seu e da humanidade, porque da verdade que a salvará.

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            Manoel Barbosa Leite diz, finalmente, que, entre nós, no Brasil, o grande trabalhador, que foi Leopoldo Cirne, esposou a ideia da criação de escolas de médiuns e fundou uma. Viu, entretanto, malograda a sua iniciativa, por motivos que não vem a pelo examinar no momento.

            Afigura-se lhe que o aprendizado, a que o médium não pode furtar-se, da doutrina e o desenvolvimento de suas faculdades são coisas distintas, que não se devem confundir, se bem seja evidente que o aprendizado muito contribui para a lapidação das faculdades mediúnicas e para as dilatar, se as tem apenas em estado latente.

            Alguns companheiros, entretanto, se expressam de maneira que parecem contrários, em princípio, às sessões práticas. Outros, dir-se-ia, consideram sem positiva eficiência as sessões meramente de estudo.

            Por sua parte, o que deseja e acha indispensável é que as sessões práticas e as essencialmente destinadas a desenvolver faculdades mediúnicas se inspirem diretamente nos ensinos da Terceira Revelação, cujo conhecimento, tão completo quanto possível, deve possuir aquele que dirige tais sessões, a fim de poder orientar, esclarecer e instruir os que lhe confiam a direção de seus espíritos, no aproveitamento dos dons com que os beneficiou a Providência divina.

            Também é de opinião que não se devem criar escolas para formar médiuns, porquanto os que fossem diplomados em semelhantes escolas, se a isso se chegasse, na maioria dos casos desvirtuariam a tarefa que lhes cabe, por efeito da vaidade que então os empolgaria, sem falar na situação subalterna e, portanto, vexatória em que ficariam os não diplomados, muitos dos quais, porventura, melhor aparelhados do que aqueles para o sacerdócio mediúnico. Surgiria assim uma espécie de privilégio, que a Doutrina Espírita, além de não comportar, condena.

            Conclui dizendo que, na sua opinião, a coletânea das sessões do Grupo Ismael, já publicada em dois volumes, (1) constitui excelentes compêndios de trabalhos práticos ou mediúnicos e seguro roteiro para os que, na direção desses trabalhos, têm de confabular com desencarnados sofredores, porque obscurecidos e obstinados, mesmo para os que tenham o encargo de dirigir sessões de desenvolvimento mediúnico e, ainda, para os próprios médiuns.

            (1) Foram publicados, ao todo, três volumes, sob o título "Trabalhos do Grupo Ismael", preparados por Guillon Ribeiro. (Nota da Redação do "Reformador" em 1974.)

          
 Os Males das escolas de médiuns

Reformador (FEB) Julho 1974

  Do Blog: Desses três volumes só encontramos um que já transladamos para este Blog. Apesar de nossas buscas contínuas, nunca localizamos os outros dois volumes. Talvez possam ser encontrados na biblioteca de obras raras da FEB, em Brasília.

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