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terça-feira, 22 de setembro de 2015

Instruir divertindo



A preparação da criança para a assimilação da Doutrina Espírita é tarefa muito delicada, a ser conduzida com tato excepcional, considerando-se a idade dos pequeninos irmãos sob a atenção dos adultos. Parece-nos óbvio que semelhante trabalho deve estar sempre entregue a pessoas do sexo feminino, principalmente àquelas que possuem algum tirocínio pedagógico. Não é aconselhável, pois, deixar as criancinhas ao arbítrio de qualquer adulto de boa vontade, que é importante, mas não basta. Sem os requisitos imprescindíveis à compreensão da mentalidade infantil; sem a habilidade de compreender a sutileza de certas indagações, que não devem ser deixadas sem resposta esclarecedora; sem sentir bem o temperamento dos pequenos, suas tendências, preferências e idiossincrasias, não será possível vencer o labirinto em que tudo isso se constitui e alcançar o objetivo desejado.

            Uma organização espírita tem o dever de procurar dirigir inteligentemente a atenção das crianças para o nosso programa doutrinário, devidamente dosado, com textos curtos, explícitos, de rigorosa feição pedagógica, suscetíveis de despertar e sustentar o interesse dos pequenos frequentadores de aulas de evangelho e moral cristã-espírita, por meio de recursos áudio visuais. As aulas não devem ser demoradas. É bom andar devagar, nesses casos, para se andar depressa. Exigir-se a atenção prolongada da criança é antipedagógico. Compreende-se que a criança possui muita volubilidade, porque sua vontade se dispersa, porque ainda não tem um discernimento definido das coisas que vê, ouve e sente, conforme a sua variável capacidade perceptiva.

            A mestra deve descer à mentalidade do aluno e atender integralmente à sua curiosidade, sem esquecer nenhum pormenor, de maneira que a criança se mostre realmente satisfeita. Sua curiosidade deve ser tomada sempre como demonstração de interesse pelo assunto em estudo. Ensinamentos e explicações leves, simples e ilustrados, sempre que possível, com desenhos e imagens, em ambiente informal, alegre, para que a criança fique à vontade, desejosa de participar das aulinhas, avivará sua disposição de continuar. A criança vive num mundo muito diferente do mundo dos adultos, no qual a realidade se mistura com a fantasia. Eis uma situação a considerar. Se ela se mostrar, por qualquer motivo, enfastiada ou indisposta, será preferível deixar que se retire a forçá-la a permanecer na aula.

            A formação de ligeiros diálogos, ligeiros e simples, animados com "sketchs" engraçados, em que entrem bichinhos domésticos, à maneira dos de Walt Disney, com a dupla finalidade de divertir, instruindo, de educar, divertindo. Historietas chistosas, fábulas com fundo doutrinário, com as quais se desperte o interesse da criança para exemplos de moral, em relação, não apenas aos animais e às plantas, mas também relacionados com outras crianças, com os pais, os velhos, os adultos em geral, concorrerão para manter a aula num clima propício ao melhor aproveitamento. Pequenas canções alegres, em ritmo adequado, levarão os pequeninos ao fim que se tiver em mira, uma vez que se atenda com especial cuidado a certas exigências psicológicas. A criança deve ter, em determinados casos, a impressão de que age por si mesma, embora esteja sendo dirigida num dado sentido.

            As aulas devem ser constituídas de poucos alunos, divididas conforme a idade mental de cada grupo. O processo de ensino, evidentemente, deve variar de alguma forma, de grupo para grupo. Certas perguntas devem ser formuladas com extrema cautela; outras, devem ser evitadas até que a criança haja adquirido conhecimentos que a permitam compreender as perguntas, sempre relacionadas com os temas já estudados. Perguntar a uma criança quem é e o que é Deus, o que é Espírito, o que é Encarnação ou Desencarnação, etc., antes do tempo conveniente, seria dificultar-lhe a compreensão natural que a resposta deve demonstrar. Em outras ocasiões, a mestra deve recorrer a metáforas, através de linguagem figurada, de comparações simples, de exemplos baseados na vida doméstica, enxertando os ensinos com esclarecimentos doutrinários e evangélicos.

            Vê-se que o critério pedagógico é muito importante. A instrução espírita deve ser ministrada lenta e persistentemente. Não há criança que não goste de ouvir histórias de cachorrinhos, gatinhos, ursinhos, passarinhos, etc. Desde que recorramos ao processo de ideias afins, de adaptações explicativas, embora muito elementares, que possam ser encontradas na ambiência do lar, a criança será a primeira a querer frequentar a escolinha, onde irá preparar seu coração para a bondade e o amor necessários à sua vida futura, tendo Jesus como exemplo primordial.

            Se há uma seara difícil de ser conduzida, é essa, da infância. Entretanto, é a mais importante, razão pela qual justifica todos os sacrifícios, todos os recursos da inteligência, da paciência, da dedicação, da ternura e do amor dos adultos. Aliás, o nobilíssimo Espírito Emmanuel adverte, numa de suas extraordinárias mensagens do Além - "Pontos perigosos para os pais", que não devemos pedir à criança trabalho e cooperação fora de suas naturais possibilidades. E outro admirável Espírito - André Luiz, no mesmo livro, lembra que "cada aluno recebe lições conforme o entendimento que evidencia".
Instruir Divertindo
Percival Antunes / Indalício Mendes

Reformador (FEB) Fevereiro 1970

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