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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Uma História que se repete


Uma história que se repete

Antônio Túlio (Ismael Gomes Braga)

Reformador (FEB) Outubro 1958

            Há cento e cinquenta anos Frederico Antônio Mesmer (1733-1815) agitou a Humanidade com a descoberta do Magnetismo animal e seu poder terapêutico. Discutido, combatido, em luta contra o mundo médico, mesmo assim Mesmer demonstrou para sempre a técnica das curas supostas miraculosas, existentes em todas as religiões e mais particularmente no Cristianismo. Era a confirmação do que faziam Jesus Cristo e seus primeiros discípulos, e teria sido uma força invencível nas mãos das igrejas cristãs, se estas  possuíssem ainda a necessária humildade para aprender e aplicar a técnica, mas as igrejas preferiram seguir seu caminho político-econômico e nada ganharam com a descoberta.

            Meio século depois da descoberta de Mesmer surgiu o Espiritismo e tomou posse do Magnetismo curador, não o deixando morrer até hoje, mau grado a oposição dos médicos materialistas e das igrejas. A medicina desprezou aquele tesouro, tratou-o como sobrenatural e supersticioso, e prosseguiu seus processos grosseiramente materialistas, negando qualquer influência da alma em criar enfermidades ou em curá-las.

            Agora surge entre médicos e dentistas uma poderosa, invencível onda, de uma das modalidades do Magnetismo animal, o Hipnotismo, para produzir sono artificial, insensibilidade e dominar o cliente pela sugestão. Por toda a parte abrem-se cursos de Hipnotismo, nem sempre com a seriedade e o respeito que merece o domínio dessa poderosa força da Natureza.

            Alguns frades católicos, mais notadamente o franciscano Frei Boaventura e o marista Irmão Vitrício, ambos de origem alemã como Mesmer, supuseram que pelo Hipnotismo poderão evitar o triunfo da Terceira Revelação, reproduzindo alguns fenômenos estudados pelos espíritas, tais como o Sonambulismo, a Telepatia, e imitando outros, como a Psicografia, a Incorporação mediúnica, etc. Vejamos suas pretensões, como ficam expostas na revista "Manchete", de 6 de Setembro de 1958, págs. 32 a 36.

            Por impropriedade verbal chamam ao Hipnotismo "Letargia", quando "letargia" é um dos estados que se podem obter pelo Hipnotismo, e tem definição consagrada que lhe impossibilita o emprego em outro sentido. Vejamos a definição de LETARGIA, segundo Laudelino Freire:

            "LETARGIA, ou LETHARGIA, s. f. Lat. lethargia. Estado em que as funções orgânicas se acham atenuadas a ponto de parecerem abolidas. / 2. Sono profundo, em que parece suspensa a circulação e a respiração. / 3. Prostração moral; apatia. /4. Indolência extrema."

            Trata-se, pois, de Hipnotismo e não de Letargia.

            Vejamos agora as ousadas pretensões de Irmão Vitrício:

            "Minha intenção - afirma o Irmão Vitrício - é explicar o fenômeno mediúnico com a letargia e desmoralizar, cientificamente, as sessões espíritas, que pretendem consultar almas do outro mundo. Os médiuns espíritas não fazem nada de sobrenatural, mas apenas captam, pela letargia, os pensamentos de pessoas próximas, bem vivas. Geralmente captam o pensamento do filho vivo que deseja falar com a mãe falecida. O filho pensa muito na mãe e o médium capta mensagens, não da mãe para o filho, mas ao contrário."

            Vejamos se essa conversa suporta um leve sopro de realidade.

            Há trinta e cinco anos morreu meu pai que me era excelente amigo. Eu já era frequentador de sessões espíritas como sou até hoje. Penso sempre nele e desejo imensamente receber dele uma comunicação, porém nunca me disse ele uma palavra, nem me escreveu uma linha. No entanto, tenho recebido nessas sessões umas centenas de mensagens de desconhecidos, de conhecidos já inteiramente esquecidos, de amigos em quem eu não estava pensando e tudo sem estados letárgicos. Algumas dessas mensagens são de pessoas que se declaram amigos meus de outras encarnações, mortos há mais de um século. O mesmo caso ocorre com minha irmã, viúva há mais de trinta anos, e que nunca recebeu noticias do esposo falecido. O mesmo ocorre com dezenas de conhecidos e amigos meus, espíritas há decênios.

            Pura fantasia do Irmão Vitrício! Mas não lhe neguemos o mérito de estar fazendo, sem o pretender, uma bela propaganda do Espiritismo.  Diz à revista, mais adiante:

            "Dentro da própria Congregação dos Irmãos Maristas seu prestígio cresceu grandemente, em função do serviço que ele está prestando à Igreja Católica, no combate ao Espiritismo. Antes do religioso de Santa Maria, a Igreja limitava-se a combater os adeptos de Allan Kardec com os seus dogmas, mas não provava nada em contrário."

            O Irmão Vitrício está provando muito a favor do Espiritismo: prova a telepatia entre vivos. Basta mais um passo, para provar a telepatia entre um morto e um vivo, como nas mensagens medi únicas bem verificadas. Nega pelas palavras, dizendo: "Não existe nenhuma comunicação com o Além", mas virá a provar com fatos que existem e muitas comunicações, boas e más, com o Além.

            Diz dogmaticamente: "O Além estará muito além de nossas possibilidades enquanto estivermos no limitadíssimo aquém." .

            Quem lhe ensinou esta barbaridade? Não foi a sua Igreja, porque ela vive conversando com o Além nas orações, nos exorcismos, e sabe muito bem que o Além e o Aquém se interpenetram, com diferenças apenas vibratórias. Não foi o Espiritismo, que demonstra justamente o contrário. Não foram as Escrituras Sagradas dos judeus nem dos cristãos, que mostram a cada passo essa coexistência. Foi pura fantasia, sem pé nem cabeça, do Irmão Vitrício.

            Prossigamos nas transcrições:

            "Hoje, para prosseguir nos seus estudos o religioso tem um punhado de médiuns, na sua maioria estudantes secundários e superiores, entre os quais existe um, Joni Cavalheiro, que consegue psicografar os menores detalhes do pensamento alheio e corrigir as imperfeições da emissão (durante a experiência), colocando a vírgula no seu exato lugar, para não distorcer o sentido da frase."

            Essa preciosa capacidade de receptor telepático poderá chegar até onde não previa o Irmão Vitrício nem o Sr. Cavalheiro: a receber mensagens telepáticas igualmente dos supostos mortos. Aguardemos o desenvolvimento dessa faculdade.

            Um dos colegas do Irmão Vitrício, Luís DaI' Agnol (Irmão Clarêncio, na Congregação), ja deixou a batina e estabeleceu-se em Porto Alegre. E outros irão seguindo o exemplo, ao verificarem que os fenômenos espíritas, que serviram de base à sua Igreja, estão sendo "desmoralizados" pelos hipnotizadores; mas ficarão muitos que irão mais longe e aderirão ao Espiritismo.

            O Irmão Vitrício dá receitas mediúnicas e dizem que muito boas. Leiamos suas próprias palavras: "O paciente nesse estado faz clínica e terapêutica. Faz diagnósticos e receita. É a amplitude do subconsciente."

            Neste caso os Espíritos caridosos, acima de qualquer espírito de seita, compadecidos dos doentes, servem-se dele como de qualquer outro médium.

            O Irmão Vitrício crê na levitação e espera chegar a obtê-la, como a teve Daniel Dunglas Home. Esperemos também nós.

            A onda de Magnetismo animal que precedeu o grande surto do Espiritismo no século passado é uma história que se repete na febre hipnotista de nosso tempo.

            Ainda agora, uma revista muito simpática ao Catolicismo - "O Cruzeiro", em sua edição de 20 de Setembro relata três experiências com o emprego do hipnotismo, todas três comprovando a realidade da teoria da reencarnação, ou seja, contrárias aos dogmas da Igreja e favoráveis à nossa tese.

            A propaganda realizada hoje inconscientemente pela Igreja Católica, que põe o Espiritismo sempre no cartaz, é infinitamente maior do que nós poderíamos fazer com a nossa pequena máquina publicitária. Um índice disso é o aumento sempre crescente da procura de nossos livros doutrinários, cujas edições se esgotam rapidamente.

            Nesses livros o público vai encontrar um majestoso corpo de doutrinas filosóficas e religiosas, como a Humanidade nunca havia possuído antes. No convívio com os espíritas vai verificar que são caluniosas todas as acusações contra o Espiritismo. Repete-se a História do Cristianismo primitivo: caluniado torpemente- em Roma e na Palestina, perseguido pelos poderosos do mundo, mas encantadoramente belo, sedutor pela sua sublime moral, invencível pela sua humildade amorosa e santa.


            Os inimigos do Espiritismo são os nossos maiores benfeitores. Devemos amá-los de todo o coração.

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