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quinta-feira, 16 de abril de 2020

O Papa manda que as s freiras abandonem a ociosidade


não faz muito tempo...


"O Papa manda que as freiras abandonem a ociosidade"
Túlio Tupinambá (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Outubro 1958

            Quando dizemos que a Igreja Católica está quebrando, um a um, os seus tabus, na ânsia de sobreviver, é porque estamos no bom caminho. Não faz muito tempo, um membro do clero aceitou a possibilidade de existirem outros mundos habitados e, a propósito da ideia da viagem à Lua, outro ponderou que, e sendo isso possível, para lá irá também a Igreja... Quase não se fala mais em heresia a excomunhão. Tudo vem sendo aceito com estranha facilidade. Compreende o alto clero, finalmente, que ninguém mais leva a sério certas atitudes estremadas da Igreja e por isto esta agirá melhor concordando com o progresso, aceitando sem revolta as conquistas da Ciência e renunciando, a pouco e pouco, os seus seculares e atrasados preconceitos. Já há missas em português, os padres já aconselham os fiéis dizerem “Pai - Nosso” em vez de “Padre-Nosso” e agora pleiteiam a abolição da batina. Ninguém se espante se qualquer dia desses a Igreja resolver a apoiar também o divórcio, contra o qual tão ferozmente se bate, considerando segundo os seus pontos de vista, que Jesus era contra tal medida...

            Como prova de que o Catolicismo está querendo fugir ao triste destino que o espera, está a notícia de Castelgandolfo, recentemente distribuída pela “United Press International”, de que o papa Pio XII exortou “às freiras enclausuradas a não se encerrarem hermeticamente atrás das paredes dos conventos e a não se oporem às alterações sugeridas pela Igreja para a sua tradicional forma de vida. Em particular, o Papa recomendou às freiras que dediquem alguma parte de seu tempo ao trabalho produtivo, para ganhar a vida e ter fundos para ajudar os pobres”.

            Não podemos deixar de ver com simpatia essa atitude do Papa. Ele vem quebrando, lentamente, velhos e inveterados maus hábitos alimentados pelo clero que, de um modo geral, tem tido existência parasitária, vivendo à custa de governos e donativos. Se Pio XII vem a público exortar as freiras ao trabalho produtivo, é porque reconhece que elas nada faziam de útil. Se acrescenta a necessidade de trabalharem para ganhar a vida, é porque não está concordando com o tradicional parasitismo clerical. Se acrescenta que elas precisam trabalhar para ter também meios de ajudar aos pobres é porque está convencido de que os pobres têm sido lamentavelmente abandonados.

            A Igreja sentiu que tem de atualizar-se para não perecer. O Papa chama a atenção dos católicos para estas suas palavras: “Que os conventos e as ordens de freiras enclausuradas protejam e sejam fiéis a seu próprio caráter (particular). Esse é seu direito e seria injusto não levá-la em conta, mas devem defendê-lo sem estreiteza de critério ou rigidez, PARA NÃO SE DJZER, COM CERTA OBSTINAÇÃO, QUE SE RESISTE A TODA EVOLUÇÃO OPORTUNA E NÃO $E PRESTA À ADAPTAÇÃO ALGUMA, MESMO QUANDO ESTA É EXIGIDA
PELO BEM COMUM.”

            Claro, claríssimo. A Igreja vem já, há vários anos, procurando adaptar-se aos tempos novos, renunciando a certas práticas, adotando outras. Só não conseguiu, ainda, é libertar-se de mau hábito de politicar, de viver grudada aos poderosos, a fim de sangrar governos e ricaços; principalmente através de manobras políticas. O Papa se manifestou contra a preguiça que é mãe de todos os vícios. Aponta a necessidade de trabalhar principalmente, talvez, porque “Deus ajuda a quem trabalha”. Diz ainda o telegrama: Destacando a necessidade de trabalhar, S.S. assinalou a pobreza de alguns conventos e O ISOLAMENTO DE OUTROS QUE, EMBORA RICOS, NÃO CORREM EM SOCORRO DOS DEMAIS NECESSITAD0s.” E reiterou: Para atender a tal necessidade, o meio normal e mais imediato é o trabalho das próprias freiras, Em consequência, convidamo-las a dedicar-se a ele, para que possam ganhar sua própria vida e não pensar, primeiro, em recorrer à ajuda dos outros.

            Não sabemos se tal recomendação de trabalho e amor à caridade foi feita também aos padres em geral. Se não o foi, deve ser feita sem demora. Contam-se aos milhões talvez aqueles que preferem sombra e água fresca, considerando mais fácil pedir do que criar. Mas não interrompamos a recente lição dada pelo Papa, que assim concluiu sua exortação: “Este apelo é dirigido também às que não vivem necessitadas e, per conseguinte, não estão obrigadas a ganhar o sustento diário com o trabalho de suas mãos. DESSA MANEIRA, PODEREIS GANHAR OS RECURSOS DE QUE SE NECESSITA PARA CUMPRIR A REGRA CRISTÃ E CARIDADE PARA COM OS POBRES.”

            Muito bem. Isto, dito pelo Papa, tem sabor especial. Se o claro cumprisse seus deveres cristãos, não haveria necessidade alguma de vir S.S. 8.S. recomendar publicamente que cumpram “a regra cristã de caridade para com os pobres.” Aliás, os deveres cristãos têm sido esquecido e abandonados pelo alto clero porque o pequeno clero, o clero humilde e sofredor, este ainda cumpre às vezes tais deveres, porque não está com o pensamento preso a interesses políticos.

            Se um espírita dissesse o que declarou o Papa, seria heresia pura e simples, com direito a anátema, excomunhão, etc. Mas S.S. apenas veio repetir o que tem sido apontado desde longos OS anos, como demonstração do parasitismo nocivo do clero, principalmente nos países que, como o Brasil, ainda não alcançaram certo nível de instrução.

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