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terça-feira, 21 de dezembro de 2021

A influência do mundo espiritual

 

A Influência do Mundo Espiritual

por Luiz Gomes da Silva

Reformador (FEB) Abril 1944

             “Ai de vós escribas e fariseus hipócritas! Pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas e não omitir aquelas. - Condutores de cegos! Coais o mosquito e engolis o camelo". - Mateus (cap. 23 e vs. 23 e 24).

            Aos que, nos Centros Espíritas, dirigem sessões práticas, não lhes escapa da mente os fenômenos de que foram testemunhas. Já nos foi dado observar que os espíritos desencarnados, envoltos na sua maldade, quando encontram ambiente propício, são capazes de desarmonizar famílias, dissolver lares e sociedades, levando os homens à prática do crime, do roubo e do suicídio, assim como a fazer ou dizer coisas que, momentos depois, se envergonham de haver dito ou praticado.

            Allan Kardec, no "Livro dos Médiuns", página 292, narra nos o seguinte fato bastante interessante: “um homem, nem moço, nem bonito, sob o império de uma obsessão era constrangido por força irresistível a pôr-se de joelhos diante de uma moça por quem ele não tinha nenhuma inclinação, e pedi-la em casamento. Outras vezes, sentia nos ombros e nas pernas uma pressão enérgica que o obrigava, apesar de todos as forças, a pôr-se de joelhos e a beijar o chão nos lugares públicos e à vista da multidão. Tinha plena consciência do ridículo que praticava contra vontade e sofria horrivelmente com isso.”

            Foi sob essa má influência que Pedro negou Jesus. O mesmo se passou com Judas, que não pode resistir à tentação dos espíritos das trevas, traindo o Mestre, depois do que caiu em si e, ao refletir sobre o ato abominável que havia praticado, dominado pelo remorso, enforcou-se.

           Quantos médiuns lamentam não ter atendido aos nossos conselhos e aos rogos dos espíritos superiores que, a exemplo de Jesus, não cessam de recomendar o “orai e vigiai para não cairdes em tentação.”

            Quem não está sujeito à tentação dos maus espíritos?

            Quem pode vangloriar-se de lhes resistir se eles veem em nós as partes mais fracas sobre as quais podem agir seguros de alcançar êxito?

            Num mundo como o nosso, em que campeia desenfreadamente o orgulho, o egoísmo, o sexualismo e a vaidade; em que predomina a hipocrisia e onde a lisonja se personifica em elogios, invadindo os nossos meios espíritas, com poderá dizer que não cairá na armadilha que os espíritas das trevas nos armam? Trabalhamos durante muitos anos com uma senhora médium, por intermédio da qual se manifestavam espíritos que haviam sido padres. Estes deram-nos provas de que no espaço estavam formados em grupos para atacar os adeptos da Terceira Revelação, movendo-lhes uma guerra sem tréguas.

            O chefe de um grupo procurou por todos os meios lançar a discórdia em nosso meio; não fosse o auxílio dos espíritos superiores e do médium vidente, que desmascaravam as artimanhas do espírito ao mistificar-nos, nós o tomaríamos por um santo, tal era a sua astúcia. Depois de nove meses de luta, esse espírito, com muitos do seu grupo, rendeu-se perante a grandeza de Deus e tornou-se um dos nossos amigos.

            A luta foi árdua. Ainda estávamos no meio da tormenta, quando perguntamos ao espírito porque os irmãos do espaço nos moviam aquela guerra. Porque não iam combater o chamado baixo Espiritismo, ou sejam as sessões de macumba, que tanto mal causam a humanidade? Respondeu-nos o espírito, numa gargalhada sarcástica: “és bem trouxa, pois, não sabes que eles nos ajudam em nosso trabalho, fazendo que seja lançado o descrédito sobre o Espiritismo? Eles trabalham a nosso favor. A nossa missão é outra, é a de lançar a discórdia entre os espíritas. Conhecemos os seus pontos fracos e isto nos basta.” – A médium era analfabeta e não podia improvisar tal resposta. A rapidez com que o espírito se expressava não dava tempo de o médium ajuizar uma resposta repentina e com tanta lógica. Quais serão os nossos pontos fracos a que o espírito se referia, senão esses que dão margem a discórdias entre nós? Todos nós somos médiuns. Uns de incorporação e outros inspirados.

            Às manifestações recebidas pelos primeiros são atribuídas aos espíritos, porém com os inspirados já não sucede o mesmo, pois assumem a responsabilidade de tudo quanto dizem em suas conferências e palestras. Se erram, ninguém lhes perdoa. Em outubro do ano passado, no Centro Espírita Santa Isabel, comemorava-se a data natalícia de Allan Kardec, quando o orador oficial, que então tantos aplausos havia recebido, foi infeliz ao referir-se ao codificador de nossa doutrina. – Note-se que ele não conhecia as obras de Roustaing.

            Em vista do ocorrido, o presidente do Centro chamou-o em particular e fez-lhe ver que havia errado. A influência dos espíritos patenteia-se perante os que estudam o Espiritismo, se que, entretanto, tudo o que nos sucede lhes deve ser atribuído, Um dos nossos confrades, criatura bastante inteligente, é inimigo número um de Roustaing, sem que tenha lido suas obras, porém, em uma festa realizada no Centro Espírita de que é presidente, fez uma palestra e no decorrer desta percebia-se que mudava de opinião, sustentando ser fluídico o corpo de Jesus. Até hoje persiste ele na ideia de que o corpo do Mestre era de carne e osso. Felizmente, todos os espíritas presentes eram tolerantes e sabiam que os ataques contra as obras de Kardec ou de Roustaing, quer partam dos espíritos desencarnados ou encarnados, nada valem contra o valor das mesmas, por serem elas fruto dos superiores do além e não dos homens. Os que estudam o Espiritismo sabem que os bons ou maus pensamentos dos assistentes exercem grande influência sobre os oradores, de tal forma que, se estes perderem o fio da conferência, podem dar margem à interferência dos espíritos das trevas e daí dizermos que o conferencista não foi feliz nos pontos que abordou. Oremos pelos que erram e em segredo façamos lhes ver a verdade.

            Sejamos tolerantes e não imitemos os que se regozijam com os que não se cansam de ridicularizar Roustaing e exasperam-se quando alguém, inconscientemente, desmerece a grandiosa missão de Allan Kardec. Já é tempo de darmos provas da nossa compreensão.

            Deixemos os grandes vultos do Espiritismo, no além, em paz, para deles só nos lembrarmos, do que tenham feito de bom e, assim, nos ocuparmos com coisas mais nobres do que menosprezar Kardec e Roustaing, só porque não podemos compreender nem assimilar os ensinos belíssimos contidos em suas obras. Saibamos resistir à tentação dos espíritos das trevas, que insuflam nosso orgulho com o objetivo de nos arrastar para polêmicas desagregadoras da família espírita e, desse modo, verem a sua obra destruidora coroada de êxito. É nosso dever trabalhar pela união de todos os espíritas. Jamais consintamos que, sob falso pretexto de pontos de vista secundários, nos separem do Amor Fraterno.


terça-feira, 20 de março de 2018

A Árvore do Evangelho



A Árvore do Evangelho
por Luiz Gomes da Silva
Reformador (FEB) Junho 1946

Jesus, em seus ensinos, deixou-nos lições imorredouras, que hão de atravessar séculos e mais séculos sem que percam o brilho significativo do seu esplendor. Uma das parábolas que muito nos tem dado que meditar, por nos dizer respeito, é a da figueira condenada pelo Mestre por não dar frutos e que possuía uma ramagem frondosa à cuja sombra procuravam abrigar-se do sol escaldante os pássaros do céu, Estes, porém, vasculhando as folhas em procura de figos para se alimentarem, e não os encontrando, eram forçados a abandoná-la, indo em busca de outra que além de folhas tivesse figos. É o que está acontecendo em nossos dias com as velhas Igrejas, ao serem abandonadas por seus adeptos, por não produzirem elas frutos que satisfaçam os que pensam e raciocinam.
Essas religiões dominam e imperam em algumas nações, às quais chamamos civilizadas. Prova de sua influência, tivemo-la há pouco, quando os representantes das nações unidas proclamaram, alto e bom som, que eram cristãos, e por essa razão não se reuniriam no dia de Sexta-feira Santa. Se assim procedessem, tão religiosamente, na prática dos evangelhos de Jesus, jamais provocariam guerras: suas consciências viveriam constantemente vibrando emocionadas pelo amor fraterno que deve unir todos os filhos de Deus. Mostram essas criaturas serem rígidas na observância dos dias santificados pelas igrejas ricas em bens terrestres e tão pobres em atos fraternais, benzendo canhões e espadas que hão de ferir e matar os seus semelhantes. Esquecidos do "Não matarás", os povos que se dizem cristãos, dominados pelo egoísmo, desencadeiam guerras devastadoras, que causam mais dano do que todos os terremotos e vulcões provocados pelas leis da Natureza. Ao contemplarmos os quadros de miséria que a guerra produziu, chegamos à conclusão de que os povos não terão mais fé nas igrejas, que, após séculos de domínio moral e religioso sobre a Humanidade, não foram capazes de impedir as guerras que têm ensanguentado os campos da Europa. Voltam-se então eles para o Espiritismo, em busca do conforto moral e espiritual que nas suas religiões não encontram. Não se conformam de modo algum com a maneira dolorosa, bárbara e selvagem, pela qual perderam os seus entes queridos.
O Espiritismo científico, filosófico e religioso, lhes diz que seus pais, seus irmãos e amigos não morreram; vivem eternamente, podendo com eles comunicarem-se, mantendo, no mesmo grau de elevação espiritual, o amor que os ligou na Terra. Aos espíritas do Brasil, como vanguardeiros da Boa-Nova que há de trazer a paz ao mundo, é-lhes confiada uma das mais grandiosas missões qual seja a de cuidar com afeto e carinho das milhares de figueiras, que são os centros espíritas espalhados por todo o País.
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E assim a ideia vai caminhando c vencendo os obstáculos da rotina.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Humildade e fraternidade


Humildade e fraternidade
Luiz Gomes da Silva
Reformador (FEB) Abril 1943

Ao relermos os Evangelhos de Jesus, afigura-se nos que as lições ali contidas são mais belas do que quando as estudamos pela primeira vez. São sublimes todos os ensinos evangélicos; mas, o que Jesus nos deu, de humildade e fraternidade, ao se dispor a lavar os pés dos seus discípulos, não encontra paralelo na história da humanidade. É tão grandioso que desejáramos o tivessem de contínuo todos os espíritas em suas mentes, para que o Espiritismo não fosse desviado do curso por Deus traçado.

Não há quem ignore que diariamente as fileiras espiritas se engrossam de novos crentes que, recrutados pela dor no seio do materialismo, onde predominam o orgulho, a vaidade, o egoísmo, trazem para os meios espiritas toda essa bagagem, da qual dificilmente consegue desembaraçar-se o homem. Dessas criaturas não seria cabível esperar-se que seus atos se caracterizassem, desde o primeiro momento, pelo cunho da humildade e da fraternidade. Fora querer o impossível. O que é inacreditável é que os espíritas militantes, que já perlustraram centenas de vezes o Evangelho e propagam a sua doutrina ainda manifestem, através de seus escritos, falta de fraternidade para com aqueles que tudo sacrificam, na intenção de servirem a Jesus. Isto somente porque entendem ser sábio, justo e infalível o critério de que usam, devendo, pois, todos orientar-se por ele.

A história da santa inquisição está cheia de atentados à liberdade de pensamento. Precisamos não esquecer que o Mestre, Allan Kardec, foi vítima dessa santa inquisição; que foi ferido no íntimo da sua alma de missionário, ao receber a notícia de que seus livros, enviados para Barcelona, seriam aí queimados em praça pública, por ordem do bispo daquela cidade, como obras heréticas, Ninguém duvida de que o bispo de Barcelona fosse um homem culto e se considerasse fervoroso servo de Jesus; mas, como todas as criaturas humanas, não era senhor de toda a verdade, razão por que, não podendo compreender as que se continham nas obras espíritas, sobre estas lançava anátema.

Não estarão no caso do bispo de Barcelona os nossos irmãos que com tanta aspereza combatem a obra de Roustaing? Não conterá ela verdades que ainda escapam aos seus Espíritos, por não as poderem assimilar? Deixemos que os espíritas não só leiam o Roustaing, como também tudo quanto possa contribuir para a evolução de seus espíritos, a fim de que, se Allan Kardec novamente reencarnar em nosso planeta, não sejamos nós os primeiros a apedrejá-lo, pelo dizer coisas que na sua encarnação anterior não disse, por não nos acharmos em condições de as compreender.

Jesus, ao lavar os pés dos apóstolos, bem sabia que eles ainda não estavam à altura de compreender a lição que lhes dava, que só mais tarde a entenderiam, como também as gerações futuras, ás quais se dirigiam sempre seus ensinos. Mediante o lava-pés, firmou Ele, com grande relevo, o dever de serem humildes e fraternos todos os homens. Apesar de ter consciência de que era um Espírito superior, nivelou-se aos seus apóstolos, dizendo: "Não é o servo mais do que o Senhor, nem o Senhor mais do que o servo". Quando disse a Pedro que, se lhe não lavasse os pés, esse apóstolo não teria parte com Ele, foi como se houvera dito, antecipadamente, que sem o amor fraterno nós, os espíritas, também com Ele não teríamos parte.

Até há pouco, foi-nos dito que "fora da caridade não há salvação", a fim de abrirmos mão de algumas migalhas guardadas pelo nosso egoísmo e as darmos aos chamados pobres. Hoje, dar de comer a quem tem fome, vestir os nus e velar pela velhice desamparada constitui obrigação de que nem os ateus se esquivam; o amor ao próximo, porém, como a nós mesmos, a lealdade e a sinceridade em nossas expressões para com os nossos irmãos, o apertar-lhes a mão e abraçar, como se abraça um filho que esteve ausente, com a alma a vibrar de amor, como fez Jesus, isto ainda é difícil. Faz-se apenas na aparência, pois temos observado haver
criaturas que, quando se encontram, não dispensam o aperto de mão e o abraço, como expressão de estima fraternal, mas que, dias depois, se voltam umas contra as outras, como se foram sempre inimigas.

É de lastimar-se que tal aconteça; infelizmente, porém, ainda tem que ser assim, por mal nosso, devido à nossa grande inferioridade moral. Anima-nos, entretanto, o podermos reconhecer que nem tudo está perdido. Como disse Jesus, já se veem ao longe os campos a branquear. Graças a Deus e ao mesmo Jesus, já vemos nalguns lugares os espíritas darem prova de amor fraterno. Em vários pontos do nosso país, esboça-se entre os espíritas um movimento no sentido de se organizarem, conjugando esforços em prol dos ideais cristãos, movimento esse que implica uma aproximação fraterna, que necessariamente há de produzir bons frutos, a atestarem a edificação de suas almas nos ensinos evangélicos.

Permita o Senhor possam esses irmãos prosseguir na tarefa empreendida, pois que seus esforços certamente serão abençoados e servirão de estímulo a muitos outros, que ainda se comprazem no isolacionismo e no separatismo, que nada têm de espíritas, nem de cristãos, em face dos Evangelhos em espírito e verdade, onde
rebrilha a palavra de Jesus, pregando a união, a fraternidade, a humildade, a tolerância, sem as quais não pode haver o amor recíproco, que Ele declarou ser a característica única dos seus verdadeiros discípulos.


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A Influência do Mundo Espiritual


A Influência do Mundo Espiritual
Luiz Gomes da Silva
Reformador (FEB) Abril 1944


"Ai de vós escribas e fariseus hipócritas! Pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis porém fazer estas coisas e não omitir aquelas. - Condutores de cegos! Coais o mosquito e engolis o camelo". - Mateus – Cap. 23 e vs. 23 e 24.

Aos que, nos Centros Espíritas, dirigem sessões práticas, não lhes escapa da mente os fenômenos de que foram testemunhas. Já nos foi dado observar que os espíritos desencarnados, envoltos na sua maldade, quando encontram ambiente propício, são capazes de desarmonizar famílias, dissolver lares e sociedades, levando os homens à prática do crime, do roubo e do suicídio, assim como a fazer ou dizer coisas que, momentos depois, se envergonham de haver dito ou praticado.

Allan Kardec, no "Livro dos Médiuns", página 292, narra-nos o seguinte fato bastante interessante: "um homem, nem moço, nem bonito, sob o império de uma obsessão era constrangido por força irresistível a pôr-se de joelhos diante de u'a moça por quem ele não tinha nenhuma inclinação, e pedi-la em casamento. Outras vezes, sentia-nos, ombros e nas pernas uma pressão enérgica que o obrigava, apesar de todos os esforços, a pôr-se de joelhos e a beijar o chão nos lugares públicos e à vista da multidão. Tinha plena consciência do ridículo que praticava contra vontade e sofria horrivelmente com isso".

Foi sob essa má influência que Pedro negou Jesus. O mesmo se passou com Judas, que não pode resistir à tentação dos espíritos das trevas, traindo o Mestre, depois do que caiu em si e, ao refletir sobre o ato abominável que havia praticado, dominado pelo remorso, enforcou-se.

Quantos médiuns lamentam não ter atendido aos nossos conselhos e aos rogos dos espíritos superiores que, a exemplo de Jesus, não cessam de recomendar o "orai e vigiai para não cairdes em tentação"...

Quem não está sujeito à tentação dos maus espíritos?

Quem pode vangloriar-se de lhes resistir, se eles vêm em nós as partes mais fracas sobre as quais podem agir seguros de alcançar êxito?

Num mundo como o nosso, em que campeia desenfreadamente o orgulho, o egoísmo, o sexuaIismo e a vaidade; em que predomina a hipocrisia e onde a lisonja se personifica em elogios, invadindo os nossos meios espíritas, quem poderá dizer que não caíra na armadilha que os espíritos das trevas nos armam? Trabalhamos durante muitos anos com uma senhora médium por intermédio da qual se manifestavam espíritos que haviam sido padres. Estes deram-nos provas de que no espaço estavam formados em grupos para atacar os adeptos da Terceira Revelação, movendo-lhes uma guerra sem tréguas.

O chefe de um grupo procurou por todos os meios lançar a discórdia em nosso  meio não fosse o auxílio dos espíritos superiores e do médium vidente, que desmascaravam as artimanhas do espírito ao mistificar-nos nós o tomaríamos por um santo, tal era a sua astúcia. Depois de nove meses de luta, esse espírito com muitos do seu grupo, rendeu-se perante a grandeza de Deus e tornou-se um dos nossos amigos.

A luta foi árdua. Ainda estávamos no meio da tormenta, quando perguntamos ao espírito porque os irmãos do espaço nos moviam aquela guerra. Porque não iam combater o chamado baixo Espiritismo, ou sejam as sessões de macumba, que tanto mal causam a humanidade? Respondeu-nos o espírito, numa gargalhada sarcástica: "és bem trouxa, pois, não sabes que eles nos ajudam em nosso trabalho, fazendo que seja lançado o descrédito sobre o Espiritismo? Eles trabalham a nosso favor. A nossa missão é outra, é a de lançar a discórdia entre os espíritas. Conhecemos os seus pontos fracos e isto nos basta". - A médium era analfabeta e não podia improvisar tal resposta. A
rapidez com que o espírito se expressava não dava tempo de o médium ajuizar uma resposta repentina e com tanta lógica. Quais serão os nossos pontos fracos a que o espírito se referia, senão esses que dão margem a discórdias entre nós? Todos nós somos médiuns. Uns de incorporação e outros inspirados,

As manifestações recebidas pelos primeiros são atribuídas aos espíritos, porém com os inspirados já não sucede o mesmo, pois assumem a responsabilidade de tudo quanto dizem em suas conferências e palestras. Se erram, ninguém lhes perdoa. Em outubro do ano passado, no Centro Espírita Santa Isabel, comemorava-se a data natalícia de AlIan Kardec, quando o orador oficial, que até então tantos aplausos havia recebido, foi infeliz no referir-se ao codificador de nossa doutrina. - Note-se que ele não conhecia as obras de Roustaing.

Em vista do ocorrido, o presidente do Centro chamou-o em particular e fez-lhe ver que havia errado. A influência dos espíritos patenteia-se perante os que estudam o Espiritismo, sem que, entretanto, tudo o que nos sucede lhes deva ser atribuído. Um dos nossos confrades, criatura bastante inteligente, é inimigo número um de Roustaing, sem que tenha lido suas obras, porém, em uma festa realizada no Centro Espírita de que é presidente, fez uma palestra e no decorrer desta percebia-se que mudava de opinião, sustentando ser fluídico o corpo de Jesus. Até hoje persiste ele na ideia de que o corpo do Mestre era de carne e osso. Felizmente todos os espíritas presentes eram tolerantes e sabiam que os ataques contra as obras de Kardec ou de Roustaing, quer partam dos espíritos desencarnados ou encarnados, nada valem contra o valor das mesmas, por serem elas fruto dos superiores do além e não dos homens. Os que estudam o Espiritismo sabem que os bons ou maus pensamentos dos assistentes exercem grande influência sobre os oradores, de tal forma que, se estes perderem o fio da conferência, podem dar margem à interferência dos espíritos das trevas e dai dizermos que o conferencista não foi feliz nos pontos que abordou. Oremos pelos que erram e em segredo façamos-lhes ver a verdade.

Sejamos tolerantes e não imitemos os que se regozijam com os que não se cansam de ridicularizar Roustaing e exasperam-se quando alguém, inconscientemente, desmerece a grandiosa missão de Allan Kardec. Já é tempo de darmos provas da nossa compreensão.


Deixemos os grandes vultos do Espiritismo, no além, em paz, para deles só nos lembrarmos, do que tenham feito de bom e, assim, nos ocuparmos com coisas mais nobres do que menosprezar Kardec e Roustaing, só porque não podemos compreender nem assimilar os ensinos belíssimos contidos em suas obras. Saibamos resistir à tentação dos espíritos das trevas, que insuflam nosso orgulho com objetivo de nos arrastar para polêmicas desagregadoras da família espírita e, desse modo, verem a sua obra destruidora coroada de êxito. É nosso dever trabalhar pela união de todos os espíritas. Jamais consintamos que sob falso pretexto de pontos de vista secundários, nos separem do Amor Fraterno.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O Desmoronamento da Igreja


O Desmoronamento
da Igreja


            Ao folhearmos os Evangelhos, vemos o Mestre proferir sentenças condenatórias, objetivando o nosso esclarecimento, para que não caiamos no erro de nos iludir com as aparências.

            Aproveitava Ele as ocasiões que se lhe apresentavam, como seja aquela em que seus discípulos chamaram-lhe a atenção para a grandiosidade da estrutura do templo do qual acabavam de sair; Sem mais rodeios, assim falou: "Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada." Jesus não queria com isso recriminar a estética dos templos de oração, mas sim o orgulho da casta sacerdotal que se julgava superior às demais. A mesma sentença condenatória ressoa hoje aos nossos ouvidos, se contemplarmos as grandes catedrais construídas pela Igreja e o orgulho de seus ministros em querer impor a sua crença, teimando assim em oficializá-la, para melhor manietar a consciência dos que lhe não são submissos.

            A Igreja deixou de ser cristã para ser política e perdeu por essa razão toda a sua moral. Já não somos nós os espíritas que o dizemos, são os seus adeptos que não cessam de o afirmar em suas reuniões íntimas.

            Há dias ouvimos ler uma carta na "Rádio Cruzeiro do Sul", pelo locutor Jota Domingues, de uma senhora católica que declarava de público o seu desligamento da irmandade à qual pertencia, alegando que, quando ia à missa, o padre, em lugar de se dedicar ao ato religioso, só se ocupava de política. E dizia mais: ter assistido a uma missa campal, onde havia tanques, canhões e metralhadoras, em contraste com os ensinos do meigo Rabi da Galileia, cujos soldados só devem estar armados de fé e amor.

            A Igreja receia perder o seu prestígio e, para que tal não se dê, os seus ministros se servem do púlpito para atacar os partidos políticos ou os credos religiosos que porventura possam por a verdade acima da mentira convencional.

            A debandada nos meios católicos começou a tomar grande incremento no dia em que se realizou a sabatina entre o padre Saboia e o Sr. Crispim. De que o sacerdote não se saiu bem, não há nenhuma dúvida; nem se saiu melhor nas conferências que realizou com o fim de esclarecer o seu fracasso. Não porque lhe faltasse inteligência, mas porque está preso a dogmas, dos quais não pode desembaraçar-se sem romper com os seus superiores clericais.

            Soube o padre Saboia definir a democracia teoricamente, pois, dentro da Igreja Católica ela não existe; os seus fiéis tem que obedecer cegamente as ordens emanadas dos santos pontífices, que são os ditadores perante os quais se devem curvar todos os católicos. Os que ousaram discordar de suas santidades, não tiveram apelação; entre as centenas de milhares de vítimas que experimentaram a suavidade da democracia jesuíta, basta citar Joana d'Arc que, por receber mensagens do Céu, foi condenada à fogueira; João Huss e Giordano Bruno sofreram a mesma pena, apesar de serem frades, por terem divisado novos horizontes através do nosso sistema planetário; Galileu esteve entre a vida e a morte, por ter dito que a Terra girava em torno do Sol, contrariando assim os ensinos da Igreja. Ainda é bem recente a excomunhão do bispo de Maura, por ter prefaciado O Poder Soviético e por ter dito, além disso, umas verdades que em nada honravam a democracia católica.

            Quanto mais a Igreja se mete em política, mais se aproxima do seu fim. A desunião que se verifica entre os nossos irmãos católicos, por causa da política, serve muito bem de lição para os espíritas que querem a todo transe servir a Deus e aos políticos, fazendo do Espiritismo escada para galgar postos superiores na Terra.

            Nestas eleições, os espíritas tiveram oportunidade de observar que, para bem da causa espírita, não devem arregimentar os seus irmãos em crença, para com eles formar um partido político. Os que teimam em fazê-lo, bem demonstram ter mais inclinação para políticos do que para espíritas, errando dessa forma a sua vocação ao ingressarem no Espiritismo. É de lamentar que, entre essas criaturas, se encontrem confrades ocupantes de cargos de responsabilidade em entidades espíritas.

            Os católicos acusam a Igreja, com ou sem razão, de ter favorecido -um candidato em prejuízo de outro. Não nos sucederia o mesmo se em iguais condições tivéssemos que nos definir por um ou outro candidato? Cremos que sim, contribuindo isso para aumentar a desunião já existente entre nós.

            Pensem bem os nossos irmãos e vejam que seria um dos maiores absurdos, justificável apenas na vaidade dos que acreditam desprezarem os espíritas o seu livre arbítrio e bom senso, para votar de olhos fechados, só porque o presidente de uma sociedade espírita lhes indicou um candidato.

            Se até agora não fomos capazes de confraternizarmo-nos em nome do Cristo, quanto mais difícil não será, em se tratando de política?

            Basta sabermos haver espíritas desde os mais conservadores até os mais liberais, o que nos levaria a termos diversos partidos. E a prova temos ao observar que muitos deixaram de votar nos candidatos espíritas, para votar em outros candidatos que, embora não pertencendo ao seu credo, satisfaziam mais de perto às suas aspirações. A nosso ver é assim que se deve proceder; a doutrina espírita não é doutrina de fanáticos.

            Quem tiver a missão de ser político deve filiar-se ao partido que melhor satisfaça aos anseios de sua alma de idealista. É nesse meio que, com sua influência, poderá atuar como o fermento do Evangelho, moralizar e combater as injustiças dos homens.   

            Formar partidos com elementos espíritas para entrar em atritos com outros partidos, é desconhecer a missão do espírita idealista, que consiste em irmanar e confraternizar os homens e manter o Espiritismo na sua mais alta pureza, sem jamais o mesclar nas competições políticas.

            Só agora é que podemos perceber porque uma parte dos militantes espíritas não se confraternizava com os demais. Longe estávamos de, em nossa ingenuidade, conceber a ideia de que tudo decorria de serem eles espíritas políticos!!!

            O Cristianismo conservou-se puro nos seus primeiros séculos, até que a Igreja o deturpou. O Espiritismo, que é o Cristianismo redivivo, codificado por Allan Kardec, começa a ser ameaçado pelo "morbus" da política, que levou a Igreja Católica à falência de sua missão cristã. Urge, portanto, realizar a mais perfeita união de todos os seus adeptos, para enfrentar a tempestade que se aproxima. Que não nos aconteça o mesmo que acaba de suceder aos nossos irmãos católicos ao serem chamados para colaborar na transformação moral e espiritual da Humanidade; o Senhor os encontra desunidos e contaminados pela política. Não nos esqueçamos de que o Espiritismo é uma doutrina que nos é ministrada, gradativamente, por Espíritos superiores. A sua defesa só pode ser exercida pela força moral e espiritual de seus adeptos e não pelo número de votos nas urnas.


Luiz Gomes da Silva
in 'Reformador' (FEB) 
Janeiro 1946