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domingo, 14 de novembro de 2021

O campo, a ferramenta e a semente


 O campo, a ferramenta  e a semente

João Marcus (Hermínio Miranda)

Reformador (FEB) Julho 1977  

             Muito se tem escrito e debatido a cerca do problema do problema da responsabilidade inalienável do ser humano na manipulação do seu arbítrio. De certa forma, a controvérsia multisecular entre os partidários da livre escolha e os do determinismo, embora tornada inapelavelmente obsoleta pela Doutrina dos Espíritos, sobrevive na discussão acadêmica entre filósofos e teólogos dos mais variados matizes.  A terminologia pode ser mais sofisticada e a semântica bem mais elaborada, mas são muitos os que prosseguem discutindo baicamente os mesmos conceitos que atormentaram os pensadores do passado e incendiaram debates apaixonados.

            A doutrina reformista da predestinação, decorrente de uma interpretação inadequada da teologia de Paulo, não passa de uma aplicação dogmática do conceito do determinismo. Segundo essa escola de pensamento, a criatura humana nasce – supostamente para viver uma existência na carne – já predestinada por Deus a slvar-se ou a ser condenada às penas eternas, sem nenhum apelo, qualquer que seja o seu procedimento. As contradiçõe que esta exdrúxula doutrina criou n contexto do pensamento teológico são insuperáveis, por mais que se  apliquem os eruditos teólogos para explicá-las. O extraordinário, contudo, é que tantos desses brilhantes pensadore não tenham ainda percebido que o problema da responsabilidade pessoal não se resolve, de maneira simplist, com a elaboração de uns poucos dogmas ou frases engenhosas. Não se apercebem, esses autore, de que é precisamente o dogma que está obstruindo a visão mais ampla, que os levaria à essência do problema.

            Não queremos, com isso, dizer que o Espiritismo é o dono da verdade, como ninguém é dono do ar que respira, ou da luz solar, que ilumina e aquece a todos por igual. É certo, porém, que a aceitação das verdades contidas no Espiritismo um dia há de fecundar todo o pensamento humano, nos aspectos mais vastos que pudermos conceber: ciência, filosofia, teologia, ética. Como também é certo que os formuladores da Doutrina Espírita não inventaram conceitos novos nem fantasiaram o que ainda não era oportuno revelar. Ao contrário, sempre nos advertiram a cerca do caráter gradualístico da revelação, que se desdobra por etapas no curso dos séculos, apoiada sempre em alguns conceitos básicos intemporais que vão sendo dosados segundo a capacidade de apreensão dos homens, o que vale dizer, conforme sua posição evolutiva. Antes que ele esteja pronto, o ensina de verdade superior seria prematuro  e até pejudicial, o que se evidencia agora mais do que nunca, quando presenciamos o descalabro em que mergulharam as comunidades humanas em virtude da posse de conhecimento avançados totalmente inoportunos ante a generalizada imaturidade moral.

            No entanto, jamais faltou a advertência amiga e o severo chamado à responsabilidade pessoal. A despeito de tudo, o homem sempre achou que podia burlar ou ignorar a li inescrita de Deus ou negociar com o Pai uma cordo, mediante propiciações mais ou menos infantis, com as quais tenta-se “comprar” a boa-vontade do Senhor e o seu perdão. É claro que o perdão está implícito na natureza divina, pois é da própria essencia do amor, mas é preciso também entender que o perdão não nos exime da reparação  do erro cometido. Daí o lamentável equívoco que se incorporou ao “sacramento da penitência” dos nossos irmão católicos, que se julgam limpos de seus pecados depois de confessá-los ao sacerdote e proceder a um pequeno ritual apropriado. Não é assim, pois a responsabilidade pelo erro continuará ali, viva e atuante. Resultado de uma falha na utilização do livre-arbítrio relativo, que as leis divinas nos conferem, o erro cria para todos nós, indistintamente, quaisquer que sejam as nossas crenças ou descrenças, o determinismo intransferível do resgate, e quanto mais erramos mais se aperta o círculo de ferro em torno de nós, até que a própria lei interfere em favor do pobre transviado para que não se prejudique ainda e indefinidamente. Mecanismo sete, aliás, etremamente sutil, que trás em sai uma aparente contradição, mas que nada tem de contraditório: a lei suspende temporariamente o exercício do livre-arbítrio precisamente para preservar na criatura o seu direito a ele. De fato, se a persistência no erro não reduzisse progressivamente nossa faixa de livre escolha, é fácil imaginar, por projeção, que chegaríamos a um ponto em que toda a nossa liberdde estaria extinta, cassada por nós mesmos. É disso que nos protege a lei.

            Tudo isso, porém, são exrecícios teóricos da faculdade de cogitar que é própria do homem. “Cogito, ergo sum”, dizia Descartes e esta foi a sua primeira certeza. Muitos são, porém, aqueles que não possuem nem o gosto nem o preparo para esse tipo de especulação, mesmo porque o Cristo nos ensinou que a Verdade se revela com mais facilidade ao simples do que ao erudito, certamente porque este se perde no labirinto das suas especulações e como que se deixa fascinar pela música das suas próprias palavras.

            A erudição balofa e complexa inexiste no pensamento de Jesus. Sua mensagem é pura, simples, clar, concisa e se coloca ao alcance de todas as inteligências e culturas, em toos os tempos, sob todas as condições. Quantas vezes, aqui e no passado distante, temos ouvido essas verdades elementares? Quantas vezes nós mesmos as ensinamos, nem sempre convictos da sua autenticidade? Pois, agora, informados pela Doutrina Espírita, é mais que tempo de as entendermos em toda a sua profundidade e significado, dado que vamos encontrar, no mesmo Evangelho que estudamos e pregamos durante quase dois milênios, em tantas e tantas vidas, o foco irradiante da luz que ilumina as estruturas do Espiritismo. Em outras palavras: levantando os fios luminosos com os quais foi tecida a Doutrina dos Espíritos veremos que eles vão dar todos, lá naquele núcleo abençoado de pensamento criador no Mestre Nazareno.

            Tomemos um só exemplo: a parábola do rico e de Lázaro.

            Não faltavam ao rico: boas roupas, mesa farta, amigos, vida livre e, segundo os padrões humanos, extrema felicidade. Enquanto isso, Lázaro, um mendigo coberto de chagas e andrajos, ansiava pelas migalhas que sobravam da mesa rica. Com a morte, Lásaro libertou-se de suas aflições e partiu para o seio de Abraão, enquanto o rico ficou a penar no umbral. Foi daí que ele teve a visão de Lásaro junto de Abraão e gritou:

            - Pai Abraão, tem pena de mim e manda Lásaro, para que molhe em água a ponta de seu dedo, a fim de me refrescar a língua, pois estou atormentado nestas chamas.

            - Filho – respondeu Abraão, com firmeza – lembra-te de que recebeste teus bens em vida, enquanto Lázaro, somente males; por isso, ele agora é consolado e tu atormentado. Além de tudo, há entre nósum grande abismo, de modo que nem os daqui podem ir a ti, nem tu podes vir a nós.

            Rogo-te, contudo pai Abraão – insistiu o rico – que o envies à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para que os avise, a fim de que não venham eles também para este lugar de tormento.

            - Eles tem lá Moisés e os profetas. Que os ouçam! -retrucou Abraão, inflexível.

            Não, pai Abraão – ainda falou o rico -, se for a eles algum dos mortos, eles se arrependerão.

            - Se não ouviram a Moisés e aos profetas – disse afinal Abraão, para encerrar -, tampouco se convencerão, ainda que um morto ressuscite.

 *

             Analisemos com um pouco mais de profundidade essa pequenina peça filosófica-moral, à luz da Doutrina dos Espíritos: ali estãoa transitoriedade dos bens mundanos que nos são apenas emprestados, pela sabedoria divina, para os testes destinados a avaliar o progresso realizado; a anestesiante influência desse poder efêmero sobre o sentido da solidariedade humana; o esquecimento dos compromissos; o resgate pela dor; a responsabilidade pessoal de cada um pelos seus atos, tanto quanto o mérito pelas realizações positivas; o conceito da sobrevivência do Espírito, que enfrenta no mundo póstumo as consequencias do que realizou ou deixou de realizar; a possibilidade de entenderem-se Espíritos desencarnados e encarnados; a firmeza da lei que nos confirma o duro determinismo do resgate, par corrigir os erros praticados em decorrência dos desvios do livre-arbítrio; a presença constante de advertências amorosas, que insistimos em ignorar (eles tem Moisés e os profetas!); a descrença com a qual sempre foi acolhida a manifestação dos seres desencarnados; e, finalmente, a necessidade incontornável de um longo e penoso trabalho pessoal de recuperação, de reconstrução, de pacificação interior.

            Entre Lázaro redimido na dor e o rico que ainda estava no caminho de ida, nos seus desenganos, há um abismo de tempo a vencer. Encontram-se em níveis espirituais que os separam, não por força de um privilégio, mas em decorr~encia de um dispositivo automático que classifica as criaturas segundo seu peso específico que, por sua vez, está na dependência de suas conquistas espiriuais, de seu trabalho de purificação, de renúncia, de sabedoria, de fraternidade. O abismo de que fala Abraão nada te de físico; ele é moral, é uma questão de gradação numa vastíssima escala de valores. Um dia o rico também estará redimido, junto de Lázaro, sob as vistas de Abraão, mas é preiso que ele realize em si mesmo a tarefa indelegável do reajuste perante as leis desrespeitadas pelo seu livre-arbítrio.

            Há mais, porém, a observar com relação à parábola. É na sua aplicação a nós mesmos, à nossa condição tual. Ela nos convoca a um reexame contínuo de posições. Não estaremos mergulhados na inconsciencia do rico a malbaratar bens materiais, espirituais e culturais? Não estaremos esquecidos do dever de servir, onde estivermos, àqueles que a misericórdia divina colocou junto à nossa mesa farta? Não estaremos a insistir que nos enviem mais testemunhos quando já temos diante de nós o exemplo dos que trilharam antes os caminhos que ora percorremos? Não estaremos a pedir a constante presença dos “mortos”, com as suas exortações, quando contamos, de há muito, com os claros postulados da Doutrina?

            A misericórdia do Senhor cedeu-nos o campo, a ferramenta e a semente. Faz o sol aquecer a terra e envia a chuva a regá-la. A nós apenas competem as tarefas de arar e semear. O que estamos esperando? A agonia e o remorso, a impotência e o desespero da dor ante o abismo que nos separa daqueles que já se encontram no “seio de Abraão”?


sábado, 7 de novembro de 2020

Vale a pena suicidar-se?

 


Vale a pena suicidar-se?

 João Marcus (Hermínio Miranda)

Reformador (FEB) Março 1963

             É impressionante o número de suicídios que encontramos relatados nos jornais. Porque tanto se matam as criaturas, especialmente agora nesta época de dificuldades e incertezas? Deixemos de lado as causas imediatas, como problemas financeiros, amorosos ou de consciência. Isso é apenas a gota d’água que fez transbordar o cálice, toque final que acabou por romper o precário equilíbrio emocional do ser, desatando seu impulso destrutivo numa ânsia de libertação. São secundárias essas causas, embora tenham sido o fato precipitador da tragédia. Secundárias e relativas, porque um motivo, que poderia ser extremamente fútil para um, assume proporções alarmantes para outrem. Além disso, vemos o mesmo indivíduo suportar, às vezes, golpes muito mais graves e sucumbir, depois, diante de questões que um pouco mais de tolerância ou paciência teriam colocado em sua verdadeira perspectiva. Muito depende pois do seu estado emocional no momento em que lhe surge o problema pela frente.

            Quando penso nisso, lembro-me sempre de uma advertência que encontrei no guichê de uma loja em Nova lorque, dizia assim: “Que diferença fará isso daqui a 99 anos? ” Aquilo que agora nos parece uma calamidade insuportável, reduz-se às proporções de mero incidente daqui a poucas horas, alguns dias ou uns escassos meses. É fácil demonstrar a veracidade da afirmação: quais foram as mágoas que nos atingiram tão fundo no ano passado? Ou há 3 anos? Mesmo que nos lembremos de algumas delas - as que nos pareceram mais graves -, já não nos ferem como então. Com o decorrer de pouco mais de tempo, lembrar-nos-emos delas até mesmo com certo sorriso indulgente e pensaremos: “Veja só! Isso me deu tanto aborrecimento e, afinal, nem valeu a pena...” De outras vezes, aquilo que nos atormentou, nem sequer teve existência real; foi produto de uma imaginação exaltada, momentaneamente obscurecida pelo cansaço, pelas paixões ou pelo simples desconhecimento dos fatos. Logo a seguir, o que nos parecia tão alarmante, verificamos ser simples suspeita com aparência de realidade.

            Por isso, não é necessário pesquisar as causas imediatas, que desencadeiam a tragédia do suicídio, examinemos as origens profundas do fenômeno.

            Porque se mata a criatura humana? Mata-se o pobre, o aleijado, o doente, como também se mata o rico, o belo, o saudável. Porquê? Na verdade, o suicídio é, basicamente, uma fuga. O suicida quer fugir de situações embaraçosas, de desgostos, de pessoas que detesta, de mágoas que não se sente com forças para suportar, deseja, afinal de contas, fugir de si mesmo. É aí que está a gênese do seu fatal desengano: não podemos, de maneira alguma, fugir de nós próprios. Para que isto ocorresse, seria necessário que tudo se acabasse com a morte; seria preciso que, ao cortar o fio da existência, tudo o que somos se dissolvesse num instante, em nada. E não é assim que acontece; absolutamente não. Vemos, então, que o fundamento da ilusão suicida está na total ignorância do homem diante de sua própria natureza espiritual.

            Há de chegar o dia em que todos compreenderão que somos Espíritos encarnados e não simples conglomerado de células materiais; que o corpo físico é um mero instrumento de trabalho e aperfeiçoamento do Espírito; acessório e não principal, na estrutura da personalidade humana.

            Nesse dia não haverá mais suicidas. Suicidar para quê? Se apenas o organismo físico se destrói, ao passo que o princípio espiritual sobrevive? Abandonado pelo Espírito, o corpo não é mais que um amontoado de matéria. E, como tal, volta para a sua origem, isto é, a terra, O Espírito, a seu turno, também regressa para o lugar donde veio; aquilo a que o Dr. Hernani G. Andrade chama hiperespaço. Com o espírito é que pensamos e sentimos; nunca com o corpo físico, mera ferramenta. Para certificar-se disso, basta ver um cadáver. Que é que falta à criatura que acaba de Morrer? Tem ainda os músculos, a mesma cor dos olhos, o cérebro. Os órgãos internos. Porque não se mexe mais não anda, não fala, não vive? Porque sua carne entra logo em decomposição e seu corpo começa a ruir como uma casa abandonada? A resposta é simples: é porque algo muito importante deixou aquele corpo para sempre. Esse algo, princípio imaterial do ser, é o Espírito, órgão diretor e coordenador, sem o que tudo se desorganiza e se desintegra. A parte que fica é inerte sem vida própria, não sente dor, nem outra qualquer sensação - é só matéria. A consciência está no Espírito que parte. Por conseguinte, quando deixamos o corpo material, levamos nossas lembranças, sentimentos, paixões, alegrias, tristezas, esperanças, temores, angústias e sofrimentos, tal como os experimentávamos aqui na carne. O corpo não é mais que uma vestimenta perecível do Espírito imortal. E se sofríamos aqui, sofreremos muito mais do lado de lá da vida, se praticarmos a violência do suicídio. Não só porque nossas mágoas terrenas persistem, mas porque descobrimos, surpresos, envergonhados e terrivelmente arrependidos, que continuamos vivos, com as mesmas ideias que tínhamos, e ainda sofrendo dores muito mais agudas, porque só então nos assalta, num tremendo impacto, a amarga compreensão da loucura que praticamos.

            Para os espíritas, familiarizados com a literatura mediúnica, isso não é novidade. Temos inúmeros depoimentos de Espíritos que provocaram a destruição de seu corpo físico, na trágica ilusão de que dessa forma se libertariam para sempre de seus problemas.  E vêm confessar, amargurados, que o portão da morte não se abre para a escuridão vazia do nada; que a vida continua, com o corpo físico ou sem ele; e aquilo a que chamamos morte é uma simples transição - seus portões no levam a uma outra forma de vida e não ao aniquilamento. E então aquele que destruiu voluntariamente seu envoltório material chega à dolorosa conclusão de que apenas conseguiu agravar enormemente seus problemas íntimos, sem libertar-se de nenhuma de suas dificuldades. E descobre, ainda mais, que terá de voltar à carne em outras condições, talvez ainda mais penosas e precárias, tantas vezes quantas forem necessárias – para corrigir, refazer e pacificar.

            Assistimos, então, ao funcionamento inapelável da lei cármica de causa e efeito, ajudando o pobre ser derrotado e doente a tomar o amargo remédio da recuperação. E aquele que arrebentou seus próprios ouvidos, com um tiro assassino renasce com o mecanismo da audição destruído; não podendo ouvir, não aprende a falar. E daí atravessar uma existência inteira, isolado na solidão forçada, a fim de que seu Espírito compreenda, no silêncio, o verdadeiro sentido da vida e o valor inestimável dos dons que recebem ao nascer. O que tomou venenos corrosivos, volta à carne com as vísceras deficientes, sujeitas a misteriosas e incuráveis mazelas.

            Tudo isso porque não podemos ir adiante sem pagar o que devemos, e, sendo a justiça de Deus tão perfeita, não pagamos senão o que devemos, segundo diz a Lei. Logo, o suicídio é o maior, o mais trágico e lamentável equívoco que o ser humano pode cometer. Para não suportar uma dor que deveria durar alguns instantes, buscamos, precipitadamente, outra que pode durar tanto quanto uma nova existência de aflições.

            Certamente Deus nos dá os recursos necessários à recuperação, mas o esforço da subida tem que ser nosso, para que dele decorra o mérito da ação.

            Isso de dores, mágoas, sofrimentos e aflições é tudo condição transitória de seres em reajuste moral. No fundo de si mesmo, o Espírito esclarecido sabe, intuitivamente, a razão da sua dor e se rejubila com ela, porque somente pagando o que deve poderá prosseguir para o Alto. E sabe mais: certo da perfeição da Lei, na qual não há injustiças, compreende que, se sofre, é porque deve; a Justiça Divina não cobra multas a quem não cometeu infrações: ela é infinitamente mais perfeita que a dos homens.

            Dessa forma, interferindo violentamente no mecanismo das leis supremas, o suicídio agrava os problemas, em vez de resolvê-los.  

            A ordem é esperar com paciência, resignação e confiança, aguardando serenamente a libertação, Acima de toda mágoa, o Espírito pode pairar serenamente e até mesmo embalado por secreta alegria, pois tem a certeza de que está resgatando com a única moeda válida - a do sofrimento - compromissos que ainda o prendem a um passado faltoso.


quarta-feira, 28 de outubro de 2020

A lição da água poluída

 

A lição da água poluída

João Marcus (Hermínio Miranda)     Reformador (FEB) Janeiro 1967

 

            Antes de alcançar o quilômetro zero da Rodovia Presidente Dutra, a Avenida Brasil atravessa na altura de Manguinhos, um canal de águas poluídas que escorrem preguiçosamente para o mar. Aquela água fétida me ensinou uma lição que talvez valha a pena transmitir ao leitor.

            Aquela água, pensava eu, não foi sempre suja. Estou certo de que, se remontarmos às suas nascentes, a encontraremos pura e fresca como a inocência. Foi no seu curso, rio abaixo, que a contaminaram com detritos, lixo e podridão.

            Também nós, espíritos, somos criados puros, como diz a boa doutrina, e seguimos o nosso curso. Se não nos defendermos e não nos preservarmos, vamo-nos contaminando com os detritos espirituais, colhidos ao longo do nosso caminho. Insensivelmente, vamo-nos tornando imprestáveis para nós mesmos e para o nosso semelhante. Passamos a ser meros veículos de poluição. Não fomos sempre assim: as fontes das quais emanamos são puras e nobres, mas, se não escolhemos os caminhos por onde andamos, a cristalina beleza, que nos foi dada, no início, se tolda na impureza das nossas paixões, no ímpeto das nossas vaidades.

            Isso, aliás, acontece também com quase todas as grandes doutrinas que nos legaram eminentes espíritos. De tempos em tempos, vem das alturas um grande vulto espiritual trazer-nos a sua contribuição para o progresso da Humanidade. Aquilo que prega aos que têm a ventura de ouvi-lo, em primeira mão, é belo e simples corno a verdade, mas o que se transmite depois, por tradição oral ou escrita, começa logo a se mutilar e contaminar-se de ideias impuras; o que era amor se transforma, pouco a pouco, em ódio; o que era caridade turva-se pela intolerância; o que era fraternidade, mancha-se de rivalidade. E enquanto o rio, como o tempo, segue o seu curso implacável, os sedentos que buscam nas águas um refrigério encontram-na maculada, conspurcada, imprestável para aplacar a sede da alma que sonha com a paz divina.

            Tal como os rios, porém, as doutrinas poluídas podem ser alcançadas, ainda puras e frescas, nas suas origens. A água pode estar suja aqui, mas é límpida e cristalina, lá, onde nasceu e onde continua a jorrar generosamente, incessantemente. A impureza não lhe é própria - é estranha, espúria, provêm de detritos que lhe atiraram ao longo do curso. A água que escorre pejas matas, onde ainda não chegou a “civilização”, chega pura ao seu destino. Nela vivem multidões de peixes e de seres. Nela se dessedentam todos os animais da criação, Nela se mira a face tranquila da Lua e nela acende o Sol fulgores inesperados. Ela canta entre as pedras, aprofunda-se nas represas, espadana-se nas cachoeiras irisadas, É difícil, porém, senão impossível ao mais modesto riacho, atravessar uma cidade, ou mesmo um lugarejo, e continuar puro como entrou. Impiedosamente, retiramos a sua água limpa e lha devolvemos maculada.

            Nem por isso, no entanto, elas deixarão de seguir o seu destino e prestar o seu serviço.

            Há outras lições, porém, nas águas que escorrem inexoráveis. É que elas também renascem. Uma boa parte se evapora, numa imitação de espiritualização e sobe para o céu, de onde desaba transmutada em chuva generosa sobre a terra. Vai impulsionar a germinação e o crescimento das plantas, vai ajudar um novo ciclo de vida. Vai infiltrar-se pelo chão a dentro e renascer alhures, purificada nos imensos filtros da Natureza.

            Lição prodigiosa essa, que precisaria, para explaná-la, a erudição e a oratória de um Vieira renascido. Diria ele, na riqueza das suas imagens e na pureza do seu verbo, que a água renascida é água purificada; é água que veio servir de novo, na humildade do seu mister; é água que se recuperou às angústias da podridão e recomeçou a sua tarefa, incansável; é água que não teme atravessar cidades e não teme receber detritos, porque a mão invisível de Deus a conduz e a faz filtrar-se e renascer tão pura e fresca como dantes; é água que mata a sede; é água que banha; é água que limpa; é água que recebe fluidos espirituais e se transforma em veículo da recuperação; é água sobre a qual flutuam embarcações, fatores de comunicação, entendimento e comércio entre os homens; é água que serve sem queixas, sem mágoas, sem ressentimentos, sem angústias, ao bom e ao que ainda não descobriu a bondade: é água que, à semelhança do Sol, nasce para o justo e para o injusto, como diz o Livro.

            Depois dessa inesperada meditação, não mais tive desgosto ao contemplar as escuras águas do canal, em Manguinhos. Sei que, nas suas origens, continua virginal; sei que, mesmo impura, contínua a servir, arrastando para longe os detritos que atiraram à sua face, sei que o seu destino é purificar-se novamente para novamente servir.


terça-feira, 7 de julho de 2020

Libertação espiritual


Libertação Espiritual
João Marcus (Hermínio Miranda)
 Reformador (FEB) Janeiro 1967

            Às vezes me preocupava o mecanismo das leis cármicas. Pensava eu que a série de ações e reações se estendesse em espirais infinitas pelo tempo a fora. E isso me parecia contrário à ideia que sempre formulei da justiça divina.
            Se ontem, num momento infeliz de desvario, estrangulei um irmão, alguém teria que me estrangular no futuro, para que se cumprisse a lei. Mas, o novo crime haveria de gerar, fatalmente, uma nova reação, abrindo outro ciclo e assim por diante, “ad infinitum”. De mais a mais, não havia, também, a dureza do “o por olho, dente por dente”?
            Acontece, porém, que as leis divinas são muito mais sábias e perfeitas do que sonhamos. Ao descer até nós, vindo das mais elevadas esferas espirituais, o Divino Mestre nos trouxe a mensagem da verdade suprema da vida - o amor. E como ele próprio dizia, não vinha destruir a lei mas faze-la cumprir. Não se alterava a substância dos postulados cármicos: ficavam eles, porém, esvaziados do seu conteúdo de inexorabilidade, para adquirirem o suave colorido da reparação.
            Ensinava o Amigo Sublime que só uma atitude poderia quebrar o círculo vicioso: o amor" Na verdade, colocou tão alto o conceito e a prática do amor entre as criaturas. que fêz disso a nota dominante, o tema, o “leit motiv” (motivo condutor) de toda a sua insuperável pregação. A certa altura da vida, com o poder de síntese e de acuidade de que era dotado, no mais alto grau, como se quisesse deixar, numa só ideia, toda a sabedoria da Vida - disse simplesmente: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. Já meditou o amigo leitor, com seriedade, na beleza e na profundidade daquela simples frase? Ela contém, não somente o mandamento supremo da lei - que séculos antes havia sido transmitido a Moisés -, como, também, a afirmação de que ele, o Cristo, viera demonstrar e praticar a verdade do amor e não somente pregá-la. Aqueles que vivessem tal filosofia da vida estariam cumprindo a lei e seguindo os ensinos revelados pelos profetas através das idades.
            Estava o Mestre oferecendo, a cada um de nós, os recursos necessários para que nós mesmos nos libertássemos das imposições do “olho por olho”.
            Bastava amar. Quando nos pedissem para caminhar mil passos, caminhássemos mais dois mil por nossa conta. Se nos batessem em uma face, oferecêssemos a outra. Era lícito perdoar sete vezes? perguntaram lhe. Não sete, mas setenta vezes sete, foi a resposta.
            Aí está o ponto onde se quebra a corrente cármica, se o desejarmos: na prática do amor e do perdão. Bem sabemos que é mais fácil falar que praticar, enquanto estivermos contidos pela nossa imperfeição, mas se perdoamos aquele que em nós feriu a lei e o ajudamos a recuperar-se. estaremos, por nossas próprias mãos, partindo o círculo de ferro. Se ainda não atingimos a perfeição moral de oferecer a outra face, caminhemos pelo menos a outra milha, os outros dois mil passos, para oferecer a nossa prece em favor daquele que nos ofendeu. Esse gesto talvez represente, nas telas infinitas do tempo, o progresso e a libertação de irmãos aos quais provavelmente devemos tantas outras reparações.
            Graças a Deus, a despeito dos desacertos da época em que vivemos, há bastante beleza moral neste mundo. Muitos espíritos se deixaram impregnar de tal forma por esse perfume de amor e perdão, que imprimiram a marca de sua passagem na História.
            Francisco de Assis, num transbordamento de amor incontido, pregava tanto aos homens corno aos humildes seres da Criação, procurando atrair todos para a luz. Tereza d'Ávila, em transportes de amor sublimado pelo Mestre, vivia entre este mundo e o outro. Joana d'Arc, sob a pressão desencadeada do poder terreno, não cessou de amar e perdoar. Ghandi, na fragilidade física, era um gigante de força espiritual e moral no seu amor pacifista pelos irmãos deserdados. Albert Schweitzer, mergulhado no coração da selva afrícana, cura, ensina, educa, ampara sem outra paga que a satisfação de exercer o amor pelo ser humano.
            Conhecemos, pois, o caminho da recuperação, aquele que leva para o Alto. É preciso rogar forças para que saibamos segui-lo; pedir a Jesus que nos amplie a capacidade de amar e compreender. Não que essa atitude seja de passividade inútil. Não. Amar, no mais puro sentido, é um programa de ação, é um roteiro de lutas, porque implica, em primeiro lugar, o combate ao nosso comodismo e às tendências egoísticas, incrustadas em nosso espírito através dos milênios. Esse egoísmo cego talvez fosse necessário quando, na meia luz da consciência que despontava em nosso ser, nos distantes períodos encarnatórios, ainda não sabíamos que a vida continua depois da morte, Vivíamos, então, agarrados ferozmente ao corpo físico e às coisas da matéria, e por ela lutávamos, matávamos e roubávamos. Hoje não. Iluminados pela verdade superior, sabemos que o corpo é mero instrumento - e dos mais nobres - de trabalho e de evolução e, por estranho que pareça, quanto mais trabalhamos para os outros, mais realizamos para nós mesmos. Vemos, assim, que o egoísmo se sublimou numa forma superior de sentimento, pois que, por amor a nós mesmos e ao nosso progresso espiritual, somos levados a amar os outros. Então, isto tudo não é belo e maravilhosamente perfeito?
            E quando dizemos que o amor é um programa de trabalho e de luta é porque temos que exercê-lo ativamente, esclarecendo, pelejando contra o erro, ajudando aos que precisam de ajuda, tolerando, enfim, porque essa é a lei que nos oferece a chave da libertação.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Somos da verdade?



Somos da verdade?  
por João Marcus  (Hermínio Miranda) 
Reformador (FEB) Outubro 1975

            Da casa de Caifás, conta João (18:28), levaram Jesus ao pretório. Era já madrugada. Os judeus não entraram para não se contaminarem, pois ainda tencionavam comer o cordeiro pascal. Pilatos veio. A cena que se desdobra ê majestosa, e os diálogos têm uma riqueza intemporal.
            - Que acusações trazem contra este homem? pergunta Pilatos.
            - Se não fosse um malfeitor não o teríamos trazido a ti.
            - Levai-o e julgai-o vós mesmos, segundo a vossa Lei.
            - Não podemos matar ninguém.
            Pilatos retomou ao pretório e se dirigiu ao acusado:
            - És tu o rei dos judeus?
            - Dizes isso por ti mesmo ou o que os outros disseram de mim?
            - Por acaso sou judeu? Teu povo e os sacerdotes entregaram-te a mim. Que fizeste?
            - Meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo, minha gente teria lutado para que eu não fosse entregue aos judeus, mas meu reino não é daqui.
            - Quer dizer que tu és rei?
            - Sim. Tu o dizes, sou rei. Para isto nasci e para isto vim ao mundo, para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.
            E Pilatos, sem esperar resposta, e como se falasse consigo mesmo, perguntou:
            - Que é a verdade?
            E voltando aos judeus, declarou que não via crime naquele homem.

*

            O momento é grave e solene. É chegada a hora, e o testemunho supremo se aproxima. Nada mais há a ocultar. Antes, não. Era preciso primeiro pregar a palavra, divulgar a mensagem das alturas, desvendar os mistérios do amor, acender as candeias da esperança, levantar os paralíticos, trazer de volta os próprios mortos, aquecer o coração dos solitários. Agora, tudo estava dito e feito. Mesmo a sua condição de Messias era já conhecida entre os que o seguiam, e a hora chegara de reconhecer, ele próprio e publicamente, a sua condição.
            - Sou rei.
            Viera exatamente para isso: dar testemunho da verdade. E, mais uma vez, o mundo não estava preparado para recebê-la e compreendê-la, porque, como de outras vezes, a verdade contrariava interesses poderosos, punha em risco confortáveis posições de mando, dizia coisas que as consciências anestesiadas não queriam ouvir. A verdade é isso.
            É também nesse episódio que o Cristo não apenas confirma o seu messianato, mas também assegura aos que ainda o duvidassem que não buscava o poder político, como esperavam muitos e temiam outros. Se assim fosse, sua gente teria lutado por ele. Nesse mesmo ponto, transmite ele outra informação preciosa, que precisa ser relembrada insistentemente:
            - Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.
            Os exemplos dessa hora dramática continuam a chamar nossa atenção para os mistérios e segredos da natureza humana. É a fraqueza dos que se julgam fortes e condenam o semelhante à destruição, pensando destruir lhe também as ideias. É a fraqueza dos poderosos que, podendo estender a mão àquele que a turba deseja esmagar, compactuam com a massa inconsciente e concedem a vida preciosa que não lhes pertence. É a fraqueza dos donos da verdade, que açulam multidões e lavam as mãos dos crimes que se cometem por sua inspiração mal a visada.
            Por outro lado, vemos a grandeza daquele que parece esmagado, mas, mesmo assim, confirma sua realeza para informar que não busca esse poder que condena, que destrói, que sufoca, que não recua nem diante do crime. Seu reino é outro, de compreensão, de amor, de renúncias inconcebíveis e anônimas. É a grandeza daquele que marcha para o testemunho, melancólico, por certo, mas sem recuos, sem temores, sem recriminações, porque a hora é chegada. É a grandeza daquele que, dispondo também de forças, não as levantou nem mesmo para defender sua vida, muito menos para o assalto ao poder temporal. É a grandeza sutil daquele que sabe em seu coração que não adianta colher o fruto antes que esteja maduro, pois somente ouvem a sua voz os que também, como ele, longe de serem donos da verdade, colocam-se como seus servidores, embora em planos diferentes e afastados.
            Essas posições humanas reproduzem-se a cada momento, ao longo dos milênios. E, mais uma vez, a Doutrina dos Espíritos repete a lição, informando que seu reino não é deste mundo, que não busca o poder temporal nem a arregimentação descabida, pois somente ouvem a voz da verdade aqueles que estejam ligados a ela.
            Os Espíritos renascem e esquecem. É preciso que alguém lhes venha recordar as belezas da verdade eterna. Não é sem razão que Platão dizia que aprender é recordar. Até mesmo ele, o grego ilustre, precisou recordar-se para que toda a força do seu gênio pudesse desdobrar-se na sublime filosofia do espírito imortal e reencarnante. A esses que vêm marcados pela verdade, não ê preciso gritar em praça pública, nem agarrar pelo braço, nem prometer fatias de poder dentro do movimento, ou posições de brilho e destaque no seio da comunidade: eles estão prontos. Uma só palavra basta, um chamado, um gesto, um artigo, uma singela mensagem, um livro esquecido em cima da mesa, um fenômeno como tantos, a visão esmaecida de um ser que partiu, ou uma doce advertência murmurada com amor através da barreira da “morte”. Só lhes falta aquele pequeno impulso, nada mais, e ei-los a caminho, integrados na equipe do Mestre, como antigos e fiéis trabalhadores. Não importa que no passado tenham errado muito; o que importa é que busquem com sincera emoção e humildade os caminhos, às vezes tão difíceis, da verdade.
            E, assim, nós que tentamos ser da verdade, sigamos atentos e vigilantes e, no entanto, em paz. Prontos para o testemunho, e, ao mesmo tempo, desarmados de rancores, de frustrações e de ambições.
            - Que buscais? perguntava Ele.
            É a paz? Então sigamos pelas trilhas que nos levam à paz. Elas não passam pelo território da mentira, nem da glória pessoal, efêmera e enganadora, nem do êxito fácil; passam, não obstante, pela região da renúncia, do trabalho silencioso, do serviço desinteressado ao companheiro que sofre. Se vamos ser notados ou não, que importa? Ficará o nosso nome na História? Esperamos que não, porque, das outras vezes, aqui e ali, no tempo e no espaço, quando os cronistas da saga humana anotaram o nosso pobre nome, amargamos no Além a dor de muitas angústias, de tenebrosos arrependimentos, de aflições inconcebíveis. Foi por causa de tais enganos que nos voltamos para os nossos maiores e lhes pedimos, com lágrimas de esperança, que nos ajudassem a planejar novas existências de dor que nos levantassem do opróbrio íntimo, pois mesmo aqueles que uma vez contemplaram a face tranquila da verdade volveram aos desenganos cruéis, lá na frente. A conquista maior que nos espera não é a do poder sobre os semelhantes, para que sirvam de pirâmides à nossa glória, ou de pedestal à nossa vaidade, mas sobre nós mesmos, sobre nosso próprio território interior, onde sopram ainda os vendavais de muitas paixões.
            Se somos da verdade, ouçamos a voz daquele que a conhece melhor do que nós. Ele é Rei, sim, mas não deste mundo; se o fosse, Ele o conquistaria pela força bruta e não pela doçura do amor. Se somos da verdade, Ele nos reconhecerá.
            - Sim. Tu o dizes, sou Rei, Para isto nasci e para isto vim ao mundo, para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz.
            E nós? Estamos ouvindo a sua voz? Então somos da verdade.  


terça-feira, 12 de julho de 2011

AH - 'O Exercício da Mediunidade na Igreja Primitiva'


A seguir, apresentamos mais um artigo sobre a Mediunidade na História de nossa civilização. 
Sugerimos 'cruzar' este artigo com a série de postagens sobre Coríntios I assinadas pelo Hermínio Miranda. 
Em tempo: Não identificamos o 'João Marcus' entre os que escreviam para o Reformador à época. Continuamos buscando... 

O Exercício
da Mediunidade
na Igreja Primitiva

João Marcus
Reformador (FEB) pág. 63 - Março 1965

            Vários escritores espíritas têm abordado a questão das práticas mediúnicas no seio da Igreja primitiva, ao tempo do Cristianismo nascente. Desconheço, porém, estudo de maior profundidade e extensão acerca de tão fascinante aspecto da história religiosa. A Enciclopédia Britânica cita a obra “The Christian Prophets” de Selwyn, um livro datado de 1900 (Daqui a pouco vamos conversar acerca dessa palavra  profeta.) Seria, creio eu, de grande interesse uma obra séria de pesquisa nas tradições e nos textos antigos e modernos, examinados, umas e outros, à luz dos postulados espíritas.
            Talvez o ponto de partida para uma obra dessa envergadura fosse a famosa Primeira Epístola aos Coríntios, do apóstolo Paulo. Na verdade, os capítulos 12, 13 e 14 desse interessantíssimo documento poderiam ser praticamente chamados de precursores de “O Livro dos Médiuns”, que Kardec escreveria dezoito séculos adiante. Nele, o apóstolo estuda as diferentes mediunidades e dá algumas instruções acerca da maneira de exercê-las. “E sobre os dons espirituais - diz ele - não quero, irmãos, que viveis em ignorância.”
            Para tranqüilizar aqueles que ainda se prendem à velha proibição da lei de Moisés, adverte que “ninguém que fala pelo espírito de Deus diz anátema a Jesus”. Mais ainda: assegura que “...ninguém pode dizer, Senhor Jesus, senão pelo Espírito Santo”, isto é, pela força do espírito que tem em si mesmo.
            Em seguida, discorre sobre as diversas formas de manifestação espiritual, dizendo que há uma “repartição de graças, mas um mesmo é o Espírito”, isto é, muitas espécies de mediunidade, mas de uma só origem espiritual. Uns proferem palavras de sabedoria, outros de fé; a estes é concedido o recurso de curar doenças, àqueles a faculdade de “operar milagres”, como a outros a profecia, ou o “discernimento dos espíritos”, ou a variedade de línguas, ou a interpretação das palavras.
            Aí temos a mediunidade, que se nutre na fonte da sabedoria e da cultura, dos chamados médiuns inspirados - oradores, escritores, artistas, que recebem, às vezes, apenas o germe de uma idéia para que a desenvolvam por seus próprios recursos e, de outras, têm a visão instantânea de toda a obra ou de toda a peça literária que deles esperam os poderes superiores.
            Aí está a mediunidade curadora, naqueles que transmitem novas energias através de seus passes ou prescrevem remédios como receitistas.
            Aí estão os que servem de instrumento a leis e forças ainda não bem conhecidas e que, curando o incurável e doutrinando Espíritos endurecidos, conseguem operar essas maravilhas de caridade e de amor ao próximo, que antigamente se chamavam milagres.
            Aí estão os que, na velha linguagem apostólica, profetizada, isto é, recebem Espíritos que, por sua boca, vêm transmitir mensagens de esperança e paz, revelar desilusões, mágoas, aflições ou trazer o consolo sereno das experiências que viveram. São os médiuns chamados psicofônicos.
            Aí estão, naqueles que “discernem os Espíritos”, os médiuns videntes, cujos recursos lhes permitem ver com os olhos espirituais os irmãos desencarnados.
            Aí estão os que, falando uma “variedade de línguas”, exercem a mediunidade chamada xenoglóssica, tão bem estudada por Ernesto Bozzano.
            Aí estão, finalmente, os dirigentes de trabalhos mediúnicos, na pessoa daqueles a quem o apóstolo chama “intérpretes das palavras”.
            Adverte ainda o autor da epístola que não existe uma mediunidade mais importante do que as demais, porque “também o corpo não é um só membro, mas muitos”. Cada um tem a sua função, a sua importância, a sua finalidade: “Se o corpo todo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se fosse todo ouvido, onde estaria o olfato?”
            Quanto aos que intitula profetas, colocou-os Paulo logo em seguida aos apóstolos e antes dos doutores; depois, os que têm a faculdade de perfazer milagres, os que curam doenças, os que assistem os seus irmãos, os que têm o dom de governar ou o dom de falar diversas línguas ou o de as interpretar.
            É tudo ordenado no pensamento do autor, que vai colocando cada coisa no seu lugar. Começa com o apóstolo, porque é este quem traz a palavra evangélica, e termina com o que interpreta línguas, porque de nada valeriam as comunicações se não tivesse alguém que as traduzisse na linguagem empregada pela comunidade. Mas logo adverte que nem todos podem ser apóstolos, nem todos profetas e nem todos doutores. Cada qual pode aspirara às faculdades que julgar melhores, mas o que importa é o que lhes vai recomendar, a seguir, dizendo: “vou mostrar-vos outro caminho mais excelente”. E, então, vem o seu famoso capítulo 13, no qual produz aquele magnífico ensaio sobre a caridade: “Se eu falar a língua dos homens e dos anjos, e não tiver caridade, sou como o metal que soa, ou como o sino que tine. E se eu tiver o dom da profecia e conhecer todos os mistérios e quanto se pode saber e se tiver toda a fé, até ao ponto de transportar montes, e não tiver caridade, não sou nada...”
            No capítulo seguinte (14) incentiva aqueles que exercem a mediunidade produtiva e serena, dizendo que “o que profetiza fala aos homens, para sua edificação e exortação e consolação. O que fala uma língua desconhecida, edifica-se a si mesmo; porém, o que profetiza edifica a igreja de Deus. Quero, pois, que todos vós tenhais o dom de línguas; porém, muito mais que profetizeis, porque maior é o que profetiza do que o que fala línguas, a não ser que também ele interprete de maneira que a inveja receba edificação”.
            Este trecho é muito revelador. Não me venham dizer que o dom de línguas é o simples conhecimento de línguas estrangeiras, como aquele que, sendo brasileiro, sabe falar francês, inglês ou alemão; é antes a faculdade mediúnica da xenoglossia, segundo a qual o médium fala na língua que, embora desconhecida dele -pelo menos na presente existência-, é conhecida do Espírito manifestante. A literatura espírita relata muitos casos desta natureza. É importante notar, porém, que para estes exige o apóstolo o esclarecimento do intérprete e acrescenta: “a não ser que ele também interprete.”     
            Ora, aquele que pode interpretar, ou seja, expressar-se na língua dos seus ouvintes, não precisa primeiro falar em outra e depois verter o pensamento na daqueles que o cercam. Logo, falou sob o impulso de uma vontade estranha à sua, numa língua desconhecida dos circunstantes. Ainda no versículo 13 do mesmo capítulo 14, aconselha Paulo: aquele que “fala uma língua desconhecida, peça o dom de a interpretar”.
            Esclarece também adiante que “as línguas são para sinal, não aos fiéis, mas aos infiéis; porém, as profecias, não aos infiéis, mas aos fiéis”, ou seja, o fenômeno em si, de um médium falar língua que ele e os seus ouvintes desconheçam, pode impressionar os cépticos, mas o conteúdo das mensagens mediúnicas interessa àqueles que já se acham mais senhores das verdades espíritas.
            Outras normas fornece o apóstolo na sua extraordinária epístola, recomendando que as faculdades mediúnicas sejam usadas com serenidade e equilíbrio, em perfeita ordem e harmonia: “... se alguns têm o dom de línguas, não falem senão dois, ou quando muito três, e um depois do outro e haja algum que interprete o que eles disseram.” Quanto aos médiuns psicofônicos, a que ele chama profetas, que “falem também só dois ou três, e os mais julguem o que ouviram.”
            Note o leitor que ele recomenda não aceitar sem exame; antes advertindo que devem julgar o que for dito. Para que haja ordem e disciplina nos trabalhos, “vós podeis profetizar todos, um depois do outro, para assim aprenderem todos e serem todos exortados ao bem.”
            E depois: “Assim que, irmãos, tende emulação ao dom de profetizar e não profetizar e não proibais o uso do dom de línguas; mas faça-se tudo com decência e com ordem.”
            No capítulo 15, trata da natureza e essência do perispírito, a que chama corpo espiritual dizendo: “Se corpo animal, também o há espiritual...” O corpo material é formado da terra e portanto é terreno, e quanto ao que chama “segundo homem”, se é da essência divina,  celestial...
            Eis assim o resumo do mais antigo “Livro dos Médiuns”  de inspiração puramente cristã. Para se conhecer outro antes dele seria preciso mergulhar nas antiquíssimas tradições assírias, egípcias, caldaicas, pois que, também naqueles recuados tempos, se estudou e se exerceu a mediunidade.
            O termo que exprimia essa faculdade, ao tempo de Paulo, era “profecia”. Hoje a palavra tem sentido diverso, e o profeta, embora em nosso entender espírita seja sempre aquele que possui dons mediúnicos, é tido apenas como aquele que prevê acontecimentos futuros.
            A Enciclopédia Britânica esclarece que a palavra profeta tem sua origem no substantivo hebraico NABI, cuja origem, segundo o autor do artigo, é obscura. Acha isso o autor porque as derivações da palavra NABI significam “excitação intensa”, “borbulhamento” e, em assírio, “transportar-se”, ou seja, cair em transe. A forma verbal em Hebraico também significa frenesi, cujo sinônimo em inglês, aliás segundo o dicionário Webster, é inspiração.  De modo que, se permitem a ousadia, discordo do conceito do enciclopedista ao afirmar obscura a origem da palavra. Acho-a até muito clara, pois que profecia e mediunidade dão mais ou menos palavras sinônimos, e ‘transporte’, ‘frenesi’ e ‘inspiração’ são maneiras diferentes de apreciar o mesmo fenômeno espiritual.
            No ano 1000 antes de Cristo, uma comunidade hebraica, existente em várias localidades, contava com um grupo de médiuns (profetas), que cultuavam uma divindade chamada Javé (Jeová). Esses médiuns, estimulados por música rítmica, cantorias e danças, caíam em transe, e, segundo a Britânica, exerciam poderes hipnóticos sobre os circunstantes. Os espíritas podemos admitir que não se trata de poder hipnótico e sim de manifestação mediúnica, verdadeira sessão pública de espiritismo prático.
            A velha nação israelita chegou a ter organizações especializadas no preparo dos seus profetas, ao que hoje chamaríamos Escola de Médiuns. Já ao tempo de Samuel, a palavra profeta designava aqueles que primitivamente eram chamados ‘videntes’, do hebraico Roeh (visionário). Depois, veio a chamada idade de ouro dos profetas propriamente ditos, com Isaías, Jeremias, Amós , Oséas e outros.
            Quantos aos chamados ‘profetas’ da igreja cristã primitiva, exerciam seu mister como agregados às diversas comunidades ou iam de uma à outra, como médiuns itinerantes, incumbidos de receber os Espíritos orientadores dos diferentes agrupamentos cristãos. Segundo se apurou, esses médiuns gozavam de grande reputação e respeito por todo um século, mas ‘sua posição foi sempre precária’. Do entusiasmo mais sereno e sadio podiam os médiuns passar aos transes improdutivos. Por outro lado, ao que parece, começaram a aparecer mistificadores, como também aqueles cuja conduta na vida diária não se coadunava com os belos pronunciamentos que admitiam em estado de transe mediúnico. É claro que nem sempre o médium é perfeitamente moralizado e equilibrado, e o que assim permanece, sem esforçar-se na busca da serenidade, acaba por cair sob o poder de obsessores e aviltar as suas faculdades ao ponto de as inutilizar por completo. Assim, o prestígio dos sacerdotes começou a obscurecer o dos médiuns itinerantes, cuja única virtude, em muitos casos, era apenas dizer coisas edificantes em estado de transe. Às vezes, acontecia serem os próprios sacerdotes portadores de faculdades mediúnicas, o que era tanto melhor.
            Aí por volta do segundo século de Cristianismo, os abusos tinham assumido proporções consideráveis e a igreja entendeu de proibir a prática mediúnica nas suas reuniões. As autoridades eclesiásticas decidiram que ‘o êxtase era demoníaco e não divino’ e que os profetas não deveriam mais aceitar as suas faculdades, ou seja, precisavam sufocar qualquer manifestação de mediunidade nascente. Foi isso um bem e um mal. Bem, porque o exercício da mediunidade era ainda pouco disciplinado e estudado e se prestava realmente às mais perigosa e ridículas explorações, tanto de encarnados quanto de desencarnados. Foi um mal, porque a prática não deveria ter sido liquidada e sim transferida à responsabilidade de seu estudo à pessoas que, mesmo dentro da mais pura ortodoxia cristã, estivessem em condições morais e intelectuais de examiná-la criteriosamente e desenvolvê-la metodicamente, com disciplina e ordem, como recomendava Paulo aos Coríntios. Se tivesse adotado esta alternativa, a igreja cristã seria hoje o maior repositório de conhecimentos espirituais e a evolução do espírito humano estaria alguns milênios à frente do ponto em que hoje se encontra. Pode-se imaginar o que não teria feito a prática honesta e serena de quase dois mil anos de espiritismo cristão? Certamente que prevaleceu naquela encruzilhada do Cristianismo a vontade e a inspiração daqueles que ainda não possuíam em si luz suficiente para alcançar as tremendas consequências da decisão que estavam tomando. Quanta dor nos tem custado essa decisão...
          Deixo aqui estas notas apressadas para que alguém, melhor que eu, possa aprofundar o assunto e emergir com um trabalho largo e sério sobre ele.